Beta: a robô feminista que está ressignificando a luta pelos direitos das mulheres

Mulheres protestam contra PEC 181 que pode criminalizar o aborto, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

beta feminista

Nota: A Beta é uma ferramenta de ação política e entende que, como tal, deve possuir posicionamento político claro e delimitado. Qualquer opinião expressa nesse conteúdo sobre o movimento feminista e a PEC 181/2015 é de inteira responsabilidade do Nossas, os criadores da Beta.

Já imaginou uma robô capaz de enviar milhares de emails diretamente aos parlamentares, para influenciar suas decisões nas pautas mais importantes do Congresso? Bem, ela já existe: a Beta. Buscando melhorar a participação das mulheres nas decisões políticas que podem ampliar ou retirar seus direitos, ela está mudando a forma de nos relacionarmos com a política. Vem conhecê-la!

Mas como assim uma robô?

A Beta é um bot do Messenger. Na prática, é uma tecnologia capaz de interagir automaticamente com usuários e usuárias através do chat. Ao entrar na página de Facebook da Beta, é só clicar em “começar” para iniciar a troca de mensagens. Quando existe alguma mobilização no ar, a conversa conduz as pessoas até uma ação específica: pressionar diretamente autoridades a favor ou contra determinada legislação ou política pública, sempre em defesa dos direitos das mulheres.

A pressão acontece via email, mas você não precisa sair da conversa para conseguir enviar sua mensagem: a Beta pergunta seu email, te mostra a mensagem que será enviada e, se você concordar, ela faz chegar na caixa de entrada de cada autoridade. Ela é a mensageira, mas o remetente é você!

Além das interações já programadas através dos botões, que conduzem com mais objetividade até o momento da pressão política, a Beta é capaz de responder interações aleatórias através da inteligência artificial. Quer saber sobre aborto no Brasil ou sobre a PEC 181? É só perguntar que a Beta responde.

Uma vez iniciada uma conversa, o usuário ou usuária receberá uma mensagem inbox sempre que alguma nova ameaça ou oportunidade de avanço nos direitos das mulheres estiver no ar, precisando da mobilização das pessoas.

E quem é responsável pela Beta?

A Beta é uma robô criada pelo Nossas, um laboratório de ativismo dedicado a criar novas formas das pessoas influenciarem e ressignificarem a política. Desde 2011, com a criação do Meu Rio, eles trabalham para engajar cidadãos em torno das mais diversas causas, sobretudo através da tecnologia cívica – ou seja: acreditam que a tecnologia têm potencial de romper barreiras para que as pessoas participem da política.

Além do Meu Rio e outras tantas iniciativas, o Nossas está prestes a colocar no mundo o BONDE, uma plataforma acessível para que ativistas, grupos ou organizações construam páginas de campanhas sem que seja necessário saber programar.

Em 2015, a organização criou também o Mapa do Acolhimento, uma plataforma dentro do BONDE que conecta mulheres vítimas de violência sexual a terapeutas e advogadas voluntárias, além de informar e avaliar serviços públicos que prestam assistência a essas mulheres. Em agosto de 2017 lançaram a Beta: uma robô feminista que funciona no chat do Facebook.

Como a Beta atua?

Além de entregar conteúdos e informações importantes às mulheres, ela tem como principal função mobilizá-las em defesa de seus direitos – seja influenciando nos processos de decisão política ou participando de campanhas feministas.

A equipe da Beta se encarrega de fazer o monitoramento legislativo e de políticas públicas voltadas para mulheres, além de acompanhar as iniciativas propostas pelos movimentos feministas. Através do monitoramento, conseguem identificar oportunidades para que as pessoas influenciem politicamente no que estiver acontecendo, enviando emails de pressão para cada autoridade responsável.

Se um Projeto de Lei relacionado a algum direito das mulheres entra em pauta, por exemplo, a Beta notifica todos e todas que já conversaram com ela e os/as convida a agir. É o caso da sua primeira campanha via mensagem privada no Facebook, contra a PEC 181, de autoria do senador Aécio Neves (PSDB/MG). A Proposta de Emenda Constitucional surgiu com o objetivo de estender o período de licença-maternidade pela quantidade de dias em que o bebê recém nascido precisar ficar internado no hospital. Ao longo das discussões, a alteração em um trecho da proposta, que inicialmente parece mero detalhe, pode fazer grande diferença no que diz respeito à legislação do aborto no Brasil.

A mudança na proposta foi feita pelo deputado Jorge Mudalen (DEM-SP), relator da PEC e membro da chamada bancada religiosa. Mudalen incluiu no texto uma possível alteração no inciso 3 do artigo 1º da Constituição, com adição da frase: “a dignidade da pessoa humana desde a sua concepção”. Outro ponto adicionado foi uma possível mudança no artigo 5º, “a inviolabilidade do direito à vida desde a concepção“.

Na prática, o que essas duas mudanças trazem como consequência é que métodos contraceptivos de emergência (como a pílula do dia seguinte), métodos contraceptivos convencionais (como o DIU) e o aborto atualmente permitido por lei (em casos de estupro, anencefalia fetal e risco de vida para a gestante) seriam criminalizados. Isto porque a legislação do aborto consta no Código Penal, que têm menos força que a Constituição Federal.

Sempre que uma votação da PEC 181 era agendada, a Beta chamava usuários e usuárias por mensagem no Facebook, convidando a enviarem emails de pressão aos deputados e deputadas contra a PEC – tudo isso sem que elas precisassem sair da conversa com a Beta. Ao todo, cada um dos deputados e deputadas recebeu cerca de 34 mil emails de pressão de cidadãos e cidadãs contrários à aprovação da proposta.

Como surgiu a Beta?

A ideia de criação da Beta surgiu de uma confluência de desejos e oportunidades. Quando o Facebook lançou a funcionalidade bot no Messenger, a equipe de tecnologia do Nossas começou a estudar a possibilidade de usar a ferramenta como instrumento de ação política, sobretudo para enviar mensagens diretas aos alvos de campanhas lançadas pela organização – algo que já havia sido desenvolvido há alguns anos pelo Nossas dentro do BONDE.

Apesar de ser majoritariamente usado para e-commerce e por portais de notícias, o Nossas acreditava que o uso do Messenger e de bots para comunicação voltada à mobilização aumentaria significativamente o engajamento das campanhas. Levando em consideração que mais de 100 milhões de brasileiros usam o Facebook mensalmente e que o Messenger é a segunda plataforma de comunicação direta usada pela população, apostou-se no chatbot para engajar pessoas.

Em paralelo, a equipe de projetos do Nossas já monitorava o avanço de determinadas pautas no Congresso Nacional, muitas voltadas para retirar direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, como aconteceu com a PEC 181. Segundo a equipe do Nossas, há uma retirada de direitos porque o aborto em casos de risco de vida para a mulher e em casos de estupro é autorizado por lei desde a década de 1940 e, em casos de anencefalia, desde 2012. Dessa forma, projetos que querem retirar esses permissivos legais atentam contra os direitos já conquistados pelas mulheres.

A partir de relações e conversas com movimentos feministas, entenderam que havia uma lacuna de mobilização nas redes sociais para influenciar tais matérias. Mais do que isso, perceberam que muitas vezes faltava um canal de mobilização prático para as mulheres influenciarem diretamente nos seus direitos. Sem envolvimento com organizações, coletivos ou grupos, muitas mulheres que se reconhecem como feministas (ou não) têm pouco acesso a pautas e oportunidades de ação. Era uma questão de ligar os pontos. Depois de 5 meses de desenvolvimento tecnológico, articulação com grupos feministas e criação de personalidade, tom de voz e identidade visual, nasceu a Beta.

Sua primeira campanha já foi ao ar: mobilizaram mulheres e homens a agirem contra a PEC 181, que pode criminalizar o aborto em qualquer caso. Foram mais de 34.000 emails enviados a cada um dos deputados e milhares de pessoas informadas sobre os encaminhamentos da Proposta. Com toda essa pressão – combinada aos protestos de rua, petições e repercussão na opinião pública – conseguiram impedir que a proposta final da PEC fosse aprovada em 2017. Além da PEC 181, monitoram, por exemplo, a PEC 29 e o Estatuto do Nascituro, projetos que, se aprovados, acabam com qualquer possibilidade de aborto, mesmo os casos já autorizados por lei.

A nova campanha da Beta

Para além da pressão política, o Nossas lançou em dezembro a campanha Um Emprego para Rebeca, em parceria com a Anis – Instituto de Bioética e a ONG Think Olga. Rebeca Mendes foi a primeira mulher a pedir ao STF o direito a um aborto seguro. Seu apelo não foi ouvido, mas ela teve o direito garantido na Colômbia, onde o aborto é permitido em caso de risco à saúde física e mental da mulher.

Desde fevereiro de 2018, ela está desempregada com dois filhos para criar e uma faculdade de Direito para concluir. A repercussão da história, amplamente conhecida, vem dificultando a busca de Rebeca por um novo emprego. Para que ela tenha oportunidades livre do estigma e da discriminação, possíveis empregadores podem cadastrar vagas para Rebeca no site da campanha. Ela deu seu rosto por uma luta que beneficia todas as brasileiras (que poderiam ter o seu direito de decidir sobre a maternidade garantido), agora é a vez das mulheres mostrarem que ela não está sozinha e que essa é uma luta coletiva.

O Nossas acredita na Beta como uma ferramenta de inclusão das mulheres na política, especialmente daquelas ainda não organizadas. Veem seu potencial de trazer mais mulheres para o debate feminista: a Beta ‘traduz o politiquês’ e leva, de maneira simples e rápida, a possibilidade de ação política. Sempre com leveza e descontração, claro, para não sobrecarregar e dar bug. E quem quiser conhecer melhor essa robô e se mobilizar pelos direitos das mulheres, é só chamar a Beta no chat: bit.ly/ChamaBetaNoInbox

Publicado em 08 de março de 2018.

Ana Clara Toledo

Jornalista e facilitadora de processos colaborativos, com formação complementar em Branding e Design Thinking. Trabalhou com pesquisa de comportamento de consumo, conceituação de marcas e comunicação, conteúdo e social media. Atualmente, é responsável pela comunicação da Beta, chatbot feminista. A Beta faz parte do Nossas, um laboratório de ativismo dedicado a criar novas formas das pessoas influenciarem e ressignificarem a política.

Laura Molinari

Formada em Relações Internacionais, sempre trabalhou com Direitos Humanos em organizações da sociedade civil, especialmente em advocacy, planejamento estratégico de campanhas e educação em Direitos Humanos. Seu foco de atuação são iniciativas feministas, sobretudo relacionadas aos Direitos Sexuais e Reprodutivos. Hoje é Coordenadora de Projetos do Nossas e responsável pela gestão da Beta, um chatbot feminista que mobiliza mulheres pelos seus direitos.