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Casos de advocacy inovadores no Brasil e no mundo

Caso 1: campanha de controle do comércio das armas.

casos de advocacy pelo mundo

Como podemos influenciar a maneira como as decisões sobre as políticas públicas são formuladas e aprovadas? Você pode se tornar um político no futuro para mudar essa situação, mas se existe pressa em defender uma causa social, o caminho mais rápido é pressionar os políticos que já estão no poder. O nome genérico dado a essa forma de reivindicação é advocacy. É a pressão que ONGs e pessoas exercem juntas para reivindicar dos poderes políticos aquilo que está faltado na sociedade.  

É verdade que possuímos tecnologias de informação cada vez mais rápidas, e com isso mais pessoas opinam sobre um tema. Ao mesmo tempo, com tanta gente opinando, a comunicação pode se perder. Às vezes temos a sensação de que gritamos o mais alto que podemos e, mesmo assim, os políticos não sentem a pressão necessária. Por quê? Segundo um estudo da consultoria CAUSE – O Fluxo das Causas (2016) – fazer advocacy em um cenário com tantas tecnologias e pessoas traz um desafio: conseguir ser ouvido no meio de um grande barulho coletivo. Assim, a solução é pensar formas mais inteligentes de utilizar a comunicação em favor da reivindicação social.

Pensando nisso, separamos dois casos de advocacy que você, de alguma maneira, também poderia ter feito!

CASO 1) O PODER DAS BANANAS: SIMPLES E ABSURDO

Foto: Coralie Tripier / IPS.

campanha anistia internacional

A maneira de fazer advocacy sofreu modificações ao longo do tempo. Hoje é preciso encontrar formas mais criativas e rápidas de influenciar as decisões políticas. Mas já podemos adiantar que não existe uma separação radical entre “antigo e novo”. O segredo do advocacy é combinar os ingredientes certos que a sua causa social precisa.

Em 1998, Brian, pesquisador da Anistia Internacional, teve uma ideia: fazer com que os países membros da ONU assinassem o compromisso formal de regular a compra e a venda de armas convencionais no mundo. O desafio foi ambicioso, já que a ONU não tem poder para “obrigar” os países a assinarem tratados. Eles devem ser convencidos disso! E o tema das armas sempre foi considerado difícil na política.

Por isso, segundo Brian, o tratado deveria ter uma “regra de ouro”, alguma coisa especial que transformasse a sua meta em uma necessidade óbvia para todos os países. A regra de ouro nos ajuda a construir um pensamento estratégico a partir dessa pergunta: “eu gostaria que acontecesse comigo o que está prestes a acontecer com os outros?” Seria possível pressionar os países a assinarem o tratado sem acusá-los diretamente de serem violadores de direitos humanos. Para isso, Brian sugeriu que a campanha da Anistia Internacional se parecesse com uma “dica grátis” de como fazer o bem, e que os governantes poderiam utilizar para se orgulharem disso.   

O slogan da campanha fez isso de maneira divertida, ainda que o problema fosse bastante sério: “o comércio de bananas é mais regulado do que o de armas”, dizia a petição. Isso mesmo! A Anistia descobriu que comprar e vender bananas no comércio internacional era mais difícil do que comprar e vender armas. E para onde vão as armas? Para as guerras atuais onde morrem uma quantidade assustadora de pessoas. Foi assim que o advocacy uniu forças com a mobilização, encontrando uma mensagem simples e impossível de ser desconsiderada. A campanha das “bananas” ganhou apoio de muito mais pessoas e foi um sucesso histórico!    

O Tratado de Comércio de Armas entrou em vigor em dezembro de 2014. O Brasil foi um dos primeiros a assinar, mas ainda não ratificou, ou seja, não transformou o tratado em leis dentro do país, que é o que importa na prática. Segundo o relatório (em inglês) da organização Small Arms Survey, o Brasil é o 4° maior produtor mundial de armas leves. Para ratificarmos o tratado aqui precisaremos de uma nova campanha de advocacy, dessa vez feita pelas pessoas e ONGs do Brasil. O maior entrave à ratificação é o lobby político das empresas de armamentos brasileiras. Teremos muito trabalho pela frente.

CASO 2) A PANELA DE PRESSÃO CERTA NA HORA CERTA

No Brasil, a Rede Minha Sampa – carinhosamente chamada de “panela de pressão” – é um exemplo de inovação e rapidez na maneira de fazer advocacy. Assim como é difícil influenciar uma decisão política na ONU, na cidade onde moramos o desafio pode ser quase o mesmo, já que o comportamento humano possui certos padrões. Um deles é sentir medo diante de mudanças extremas.

Assim, o desejo da Minha Sampa era ambicioso: criar um novo espaço de lazer e convivência no coração da cidade de São Paulo. Sim, na Avenida Paulista! O esforço começou em agosto de 2014, quando o movimento Sampa Pé criou uma campanha no site de mobilização da Rede Minha Sampa. O trabalho da Minha Sampa é acompanhar em tempo real as manobras políticas de interesse da cidade, e chamar todas as pessoas a se juntarem. Em outras palavras, a Minha Sampa é o “Big Brother” dos políticos locais, está sempre de olho no que estão fazendo.

Junto à campanha online, passaram a promover ocupações em alguns domingos na Avenida Paulista, com atividades culturais em parceria com outros movimentos sociais, buscando mais apoio da população. Essa estratégia de mobilização de rua chamou a atenção da mídia. Em algum momento, A Minha Sampa conseguiu agendar reuniões com o governo municipal para que o pedido de abertura da Paulista aos domingos fosse formalmente discutido. Com o tempo, o prefeito da cidade autorizou a realização de eventos de teste. Finalmente, a prefeitura foi convencida pela pressão do advocacy e a política pública foi aprovada e ampliada. O prefeito assinou a lei de criação do Programa Ruas Abertas, que formaliza também outros espaços da cidade que devem ficar abertos à população, indicando seus horários de funcionamento. Que moral hein?!

E AÍ, SE ANIMOU? TOME NOTA.

Vimos que fazer advocacy pode ser a defesa de uma causa social de forma inteligente e criativa. Ainda mais nos anos 2000, com tanta tecnologia e tantas vozes querendo ser ouvidas. Mas a mensagem certa para o tema certo parece que funciona. Ainda mais se for criativa e divertida, sem perder a seriedade.

PRIMEIRO PASSO: conheça os temas mais urgentes da politica. Se você está neste site, essa parte já está sendo feita.   

SEGUNDO PASSO: ganhe o coração e as mentes das pessoas de maneira simples. Ninguém faz nada obrigado.

DICA FINAL: os casos que apresentamos aqui mostram que, criatividade e inteligência na política talvez não signifiquem “fazer aquilo que ninguém fez”. Mas inventar uma forma diferente de fazer o óbvio. Lembre-se, o óbvio é aquilo que todos nós precisamos e queremos. Então faça.  

Gostou de conhecer formas e casos de advocacy no Brasil e no mundo? Compartilhe!

Fontes: Global Issues; EBC 

Publicado em 12 de fevereiro de 2018.
Rafael Medeiros redator politize!

Rafael Medeiros (Rafa)

Formado em Relações Internacionais, com mestrado em Filosofia. Possui interesse em metodologias de voluntariado, conteúdo de causas sociais e culturais, e temas da mente.