Política: por onde começar a aprender?

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Sempre que se fala de política, a primeira coisa que vem à nossa mente é voto e eleições, uma vez que, na democracia, o ponto alto da participação do cidadão comum na vida política é a eleição. Mas, na realidade, política é um assunto amplo e que está para além do voto, pois trata de questões como a diplomacia, guerra, finanças do governo… Além disso, é também uma parte significativa da vida de todos os cidadãos impactados por decisões tomadas nessa seara, por isso é uma boa ideia compreendê-la. Vamos lá?!

Política + Sociedade = apatia! Por quê?

Vivemos em uma sociedade na qual as pessoas – em sua maioria – possuem claramente um sentimento de apatia política, como evidencia o estudo realizado pelo Cientista Político José Álvaro Moisés, no qual se descreve e analisa o impacto de fatores – como a apatia e a desconfiança – sobre a adesão à democracia e também sobre o tipo de democracia preferido pelos entrevistados brasileiros.

Toda democracia opera com um certo grau de apatia, como nos apontou o economista estadunidense Anthony Downs – que possui especialização em políticas públicas e administração pública – na sua renomada obra Uma Teoria Econômica da Democracia. No livro, o autor aponta a falta de vontade em se envolver com a política como uma forma de se posicionar sobre o assunto. Nesse sentido, Downs realizou uma valorização positiva da apatia política baseado na teoria da escolha racional (racional choice).

A apatia política do brasileiro tem algumas causas, como os escândalos de corrupção, a influência negativa da mídia na formação de opinião sobre política e o pensamento de que “eu não posso ou não sou capaz de resolver nada!”… Dessas, a mais relevante, segundo o sociólogo Sérgio Abranches, seria a indignação da população brasileira com os sucessivos escândalos de corrupção e a crise política que atingiu o país desde 2013. Recentemente, episódios atingiram o presidente Michel Temer e essa indignação, em vez de se canalizar em um “grito de basta” suficientemente forte para promover mudanças, vem se traduzindo em “desolação, apatia, conformismo”.

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É importante pontuar que, existe uma diferença entre não participar da política por opção e não participar por não saber como. Segundo o sociólogo Ricardo de Oliveira (professor da Universidade Federal do Paraná – UFPR), essa falta de preparo do cidadão é grande no Brasil e dificulta a participação fora do período eleitoral. Mas estamos falando de outra questão: a política enquanto ciência que permeia todas as áreas de nossa vida desde o café da manhã na padaria até o programa de televisão que assistimos deitados nos sofá da nossa casa! Como nos educar e, eventualmente, passar a gostar de política?

Então, se liga abaixo em algumas dicas que vou te dar!

1. Leia os clássicos da Política!

É importante conhecer e ler os pensadores clássicos, tais qual:

  • Maquiavel, que chama a atenção por defender que o poder, a honra e a glória são bens que devem ser perseguidos e valorizados e cujo pensamento político se apoia no conceito de que a estabilidade da sociedade e do governo precisam ser conseguidos a todo o custo;
  • Hobbes quis fundar a sua filosofia política sobre uma construção racional da sociedade e sua originalidade e novidade, está em admitir a existência do pacto social. O contrato social em Hobbes corresponde ao momento em que as pessoas transferem os seus direitos naturais ao Estado, portanto, o indivíduo passa a não ter mais direito, visto que, o Estado é absolutista.  Hobbes é o criador do conceito soberania do Estado;
  • Montesquieu, que veementemente criticava a teoria do jusnaturalismo, ou “direito divino” e, também, da “soberania absoluta” dos governantes, defendendo em suas ideia de que o Estado e o poder monárquico são resultado de um contrato entre governantes e governados e não da vontade pessoal como se pensava e admitia. Acabou por criar uma teoria política que se reflete na divisão dos poderes estatais e constitui-se em objeto de vida para acadêmicos e políticos até os dias de hoje;  

Livro: Os Clássicos da Política / Traça Livraria

  • Os Federalistas que é fruto da reunião de uma série de ensaios publicados na imprensa de Nova York em 1788, com o objetivo de contribuir para a ratificação da Constituição Federal dos EUA, é uma obra conjunta de três autores, Alexander Hamilton (1755-1804), James Madison (1751-1836) e John Jay (1745-1829) e que constitui as bases do “moderno federalismo”;
  • Tocqueville, que fez um estudo descritivo das várias instituições democráticas americanas e demonstrou a influência da democracia sobre os sentimentos, as ideias e costumes;
  • Stuart Mill  que na sua obra o liberalismo despe-se de seu posicionamento conservador, defensor do voto censitário e da cidadania restrita, para incorporar em sua agenda reformas que vão desde o voto universal até a emancipação da mulher, e ainda há um esforço para enquadrar e responder às demandas do movimento operário inglês. Nesse sentido, a sua obra pode ser tomada como um compromisso entre o pensamento liberal e os ideais democráticos do século XIX, pelo fato  de reconhecer que a participação política não pode ser encarada como um privilégio de poucos mas que o trato da coisa pública diz respeito a todos;
  • Weber e Marx. Pois, não dá para falar de política sem voltar aos conceitos básicos que esses pensadores elaboraram!

Além de tantos outro, como Locke, Rosseau, Burke, Kant, Hegel… Uma boa recomendação é  ler a Coleção Os Clássicos da Política, organizada por Francisco C. Weffort, pois as grandes obras clássicas sobre política estão explicadas nessa coletânea de artigos, de maneira fácil de entender. Tal coleção do Weffort é só o começo: por isso, claro, que os originais de cada um desses autores devem ser lidos e relidos!

2. Leia um Manual de Ciência Política!

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É importante aprender conceitos relevantes na Ciência Política, a fim de deixar de ser “analfabeto político”. Então uma sugestão de leitura é o livro Ciência Política, do autor Paulo Bonavides, que é um clássico da nossa literatura jurídica e constitui uma explanação da matéria, destinada aos estudantes e aos estudiosos do assunto.

No livro, o autor escreve sobre os conceitos de sociedade e Estado; de população e povo; de Nação e território; de poder e de legalidade/legitimidade do poder; além disso, explica acerca da teoria da separação de poderes, das formas de governo, dos sistemas eleitorais e dos partidos políticos, da democracia e da opinião pública.

3. Aprenda especificamente como o seu país, seu Estado e seu município são governados

Para entender entender nossas eleições, nossos partidos e todas as instituições políticas do país, é importante compreender como funciona o Sistema Político Brasileiro.

Por isso é interessante a leitura do livro Sistema Político Brasileiro: uma introdução, organizado por Lúcia Avelar e Antônio Octávio Cintra, que é uma coletânea de artigos sobre como funciona o nosso sistema político. Nela se reúnem textos introdutórios, dirigidos à população comum  que deseja se informar sobre política e busca responder algumas questões tais como:

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4. Assista, ouça e leia notícias políticas para ficar por dentro do cenário político

A mídia, na maioria das vezes, transmite e veicula, notícias e informações que desestimulam as pessoas a se envolver com a política. Como, por exemplo, os escândalos de corrupção e os casos de descaso do poder público para com a população. Em muitas dessas matérias não há  uma análise construtiva de como está a atmosfera política no Brasil ou citar casos de empreendedorismo político e de boas práticas de gestão do poder público, a fim de motivar ou gerar na população um interesse pelo que realmente é a Política!

Contudo, existem, alguns programas que tratam dos temas relacionados à política realizando uma análise e um debate construtivo de como está a atmosfera política do país.

O programa televisivo e radiofônico GloboNews Painel, que tem a apresentação da jornalista Renata Lo Prete e se dedica a discutir em profundidade temas relevantes sobre Política, Economia e Relações Internacionais, com a participação de especialistas. Também recomendo o programa televisivo Jornal da Cultura  que tem a apresentação do jornalista Willian Corrêa sempre conta com os comentários de especialistas, na apresentação dos principais fatos do dia no Brasil e no Mundo, de maneira crítica e construtiva. E ainda recomendo a quem se interessar a Revista Piauí que veicula matérias sobre economia, política e sociedade.

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5. Pesquise as palavras que você não entende…

Expandir o seu vocabulário, quando o assunto é política, é de extrema importância e relevância, pois é uma ótima maneira de você compreender o que os políticos dizem, os jornais veiculam e os programas de rádio e TV estão a te informar.

E uma boa maneira de explorar esse vocabulário desconhecido é por meio de um dicionário e explicações em locais seguros e confiáveis!

Por isso, recomendo o Dicionário da Política do próprio Politize, onde atualmente existem 236 conceitos disponíveis e a eles são adicionados 10 toda semana! Além disso, o filósofo, escritor, historiador e senador italiano Norberto Bobbio também escreveu um Dicionário da Política, muito mais denso, que explica as origens de termos, instituições, sistemas políticos e é uma verdadeira aula de ciência política, filosofia e história. Vale a pena ler ou consultar sempre que tiver dúvidas!

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6. Pesquise o histórico dos políticos e seus antecedentes antes de votar!

O voto, como foi dito antes, é o ponto alto da participação do cidadão comum na vida política. Tal instrumento deve ser utilizado com muita responsabilidade e atenção, pois por meio dele é que vais eleger seu representante para o próximo período legislativo ou aquele que irá decidir os rumos do seu município, estado ou país! É importante acompanhar o trabalho do seu possível candidato e até mesmo conhecer sobre sua trajetória política, por isso recomendo acessar o site Ranking dos Políticos ou outras ferramentas onde poderás encontrar informações que poderão ajudá-lo a votar melhor nessas eleições de 2018!

Mas essa não é a única maneira de participar da política, você pode participar da Vida Política, ou seja, exercer sua cidadania sobretudo no âmbito municipal que é a instância mais próxima para exercitarmos a chamada democracia participativa, procurando:

  • Conhecer mais sobre os Conselhos temáticos da cidade e participar de algum deles, como o Conselho da Saúde, da Educação, do Meio Ambiente, entre outros;
  • Participar das reuniões do Orçamento Participativo (OP) para propor que as necessidades coletivas da minha região possam, de fato, entrar no orçamento público municipal. Caso não exista um OP em sua cidade, uma opção é ir à Câmara de Vereadores para propor a sua criação;
  • Solicitar o compromisso do Prefeito e dos Vereadores com o Programa Cidades Sustentáveis, para que realizem a elaboração de metas municipais associadas a um conjunto de indicadores que, juntos, contribuem para uma gestão pública municipal mais sistêmica e efetiva;
  • Ficar de olho nos Portais da Transparência (da Prefeitura, da Câmara de Vereadores e de Autarquias municipais), tanto para acompanhar as licitações, os gastos e as receitas, quanto para ver se as informações contidas estão de acordo com a Lei de Acesso a Informação (para municípios com até 10 mil habitantes).

Antes de terminarmos… Mais algumas dicas importantes para que saber navegar e entender o mundo da política.

➤ Procure conhecer os nomes das Secretarias, Ministérios e Departamentos e sua funcionalidade.

➤ Pesquise sobre os nomes citados nos noticiários políticos para ver quem é e o que a pessoa citada representa.

➤ Fiscalize e acompanhe de perto o trabalho executado pelos políticos nos quais você votou na última eleição (para isso você precisa saber o nome do seu candidato)!

➤ Converse ou pergunte a pessoas de sua confiança sobre assuntos relacionados ao meio político dos quais você não entende, para que por meio do diálogo possas compreender e construir uma opinião/visão crítica a respeito do assunto.

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Publicado em 16 de abril de 2018.
Ildeu Iussef Garcia Felipe
Bacharel em Ciências Sociais com hab. em Políticas Públicas (UFG)
Estudante de Jornalismo – FIC/UFG
Pós Graduando lato sensu em Políticas Públicas – FCS/UFG