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Economia Colaborativa

Compartilhando bens, serviços e meios de consumo

Foto: Pixabay / Creative Commons

economia colaborativa

O assunto é economia colaborativa. Você deve ter participado dessa tendência mundial mesmo sem saber. Já emprestou alguma roupa para amiga? Já cuidou do gato da vizinha enquanto ela viajava? Já pegou um uber? Desde atitudes simples até empresas globais, todos estão entrando na onda da economia colaborativa, de dividir e emprestar ao invés de acumular.

O que é economia colaborativa?

A economia colaborativa, da forma como estamos experimentando agora, surge a partir da conscientização do consumo, da ideia de que não se deve buscar o lucro a todo custo sem preocupar-se com o impacto social que esse comportamento causa.

Com a emergência das questões ambientais e sociais, empresas e consumidores passaram a se atentar para a produção e o consumo sustentável. Desde a diminuição dos resíduos ambientais, dos combustíveis poluentes, o destino das embalagens, redução do consumo de água… E a sociedade vem, aos poucos, reformulando e refletindo sua maneira de consumir.

Dessa maneira, a denominada economia colaborativa surge como um modelo alternativo alternativo de consumo onde a partilha de recursos humanos e físicos (crowdsourcing), incluindo a criação, produção, distribuição de bens e serviços, deve substituir o acúmulo, permitindo que as pessoas mantenham o estilo de vida, sem precisar adquirir mais de forma desenfreada.

Os benefícios financeiros que a economia colaborativa proporciona são importantes elementos para sua disseminação, uma vez que há inúmeros exemplos de economia financeira com aplicativos de carona, de carros compartilhados, roupas compartilhadas, e também o sistema de  “Banco de Tempo”. Basicamente, a moeda de troca é o tempo dos usuários, que são trocados por serviços.

Muitos desses exemplos e de outros que serão mencionados aqui necessitam apenas de um dispositivo móvel conectado à internet para interagir e participar da economia colaborativa, o que comprova, então, seu crescimento próspero e exponencial, dado os números impressionantes dos usuários conectados à internet: no Brasil, 120 milhões de pessoas conectadas, ficando atrás apenas dos Estados Unidos (242 milhões), Índia (333 milhões) e China (705 milhões).

Apesar desse número grande de pessoas com acesso à internet, há ainda uma imensa parcela da população que não a acessa: 70,5 milhões de pessoas no Brasil, segundo The Economist. No mundo, são 3,9 bilhões de pessoas sem acesso à internet (ONU), o equivalente a 53% da população mundial que não acessa essas formas modernas de economia colaborativa.

Foto: Pixabay

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Como funciona a economia colaborativa?

Vejamos exemplos práticos!

A pergunta, feita por Tomás de Lara, co-fundador da Engage (negócio de estratégia e tecnologia para projetos de inovação social) e do Catarse (maior plataforma de financiamento coletivo do Brasil), resume bem o funcionamento da economia compartilhada: porquê comprar uma furadeira nova para apenas um serviço que você Catarse precisa, apenas um furo na parede?

Serviços como o financiamento coletivo de ideias e projetos – uma espécie de “vaquinha online” – conectam diretamente os desenvolvedores de causas sociais a quem quer ajudar – os patrocinadores – sem que precisem sair de casa. Aplicativos como o Tem Açúcar, já citado neste texto, resgatam aquele velho hábito de bater na porta do vizinho para pedir alguma coisa emprestada, há outros também que oferecem  hospedagem e cuidado de cachorros e gatos.

Existe colaboração até quando se trata do guarda-roupa:  BLIMO, uma espécie de Netflix de roupa,  tem um programa em que o usuário paga uma parcela fixa por mês e pode usar roupas de guarda-roupas compartilhados. São várias iniciativas que surgem a todo momento como exemplos de como bens, serviços e tempo podem ser compartilhados.

Foto: Rawpixel / Unsplash

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Até áreas bastante consagradas, como a construção civil no Brasil, estão se modificando. Como exemplo, temos o projeto lançado pela construtora VITACON. O apartamento de 10m² prevê espaço para banheiro, sofá-cama, TV, guarda-roupa, uma bancada com pia e cooktop. A cozinha é compartilhada. Além disso, há diversas áreas de convivência no prédio, equipado com academias, lavanderias, escritórios e áreas para receber visitas. “Teremos também um espaço com ferramentas e um ambiente com geladeira para guardar as entregas. Todo mundo hoje faz compra online e podemos deixar os produtos refrigerados até a pessoa chegar em casa”, explica Alexandre Frankel, CEO da VITACON.

Existem apostas no compartilhamento de carros; um outro empreendimento de prédios deve ser lançado este ano em parceria com um site de compartilhamento de carros. O projeto prevê que o condômino tenha acesso a um carro no seu próprio prédio com flexibilidade de uso, sem burocracia e a um preço acessível. A parceria também inclui a possibilidade do condômino compartilharem seu carro para ganharem uma renda extra, dentro da própria plataforma.

O grande clima de confiança também foi um fator importante para a disrupção da economia colaborativa. O que antes era impensável (alugar sua casa para um estranho passar alguns dias), hoje é talvez o maior exemplo de economia compartilhada: o AirBnB, o que foi possível através do rápido atendimento aos usuários e do sistema de atribuir notas aos prestadores de serviços e aos consumidores, aquecendo o setor da economia colaborativa a níveis globais.

Economia colaborativa de um outro bem: o Banco de Tempo

Outro exemplo muito interessante já citado neste texto, é o Banco de Tempo que consiste, resumidamente, a um sistema de organização de trocas solidárias, promovendo o encontro entre a oferta e a procura de serviços disponibilizados pelos seus membros. A “unidade de pagamento”, em vez de ser dinheiro, é o tempo. No Banco de Tempo não há serviços mais “caros” que os outros, os serviços prestados são aqueles que os membros têm prazer em fazê-los e não há obrigatoriedade de certificados de habilidades.

O Banco de Tempo funciona da seguinte maneira: quando um membro precisa de um serviço, se conecta a sua agência local, que vai procurar o membro que pode oferecer o serviço necessitado. Depois de prestado o serviço, quem o solicitou emite um “cheque de tempo”, que é “debitado” na conta de quem prestou o serviço, e este poderá solicitar outro serviço disponibilizado por outros membros.

Foto: Age Barros / Unsplash

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Nos Estados Unidos, já nos anos 80, houve os primeiros registros de Bancos de Tempo, intitulados “Time Banks” em 1992. Nos anos 90, também se observaram Bancos de Tempo na Itália. Em Portugal, em 2002, foram fundadas as primeiras agências de Banco de Tempo, hoje já somam cerca de 30 agências, apoiadas pelas Câmaras Municipais, Associações, Fundações e diversas entidades de natureza diversa. No Brasil, podem ser encontrados Bancos de Tempo em Garopaba (SC), Curitiba (PR), Rio Grande (RS) e em Florianópolis (SC).

O poder público pode ser protagonista da economia colaborativa?

Segundo um estudo realizado pelo IE Business School e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), publicado em abril/2016, o Brasil é líder latino-americano em iniciativas nesse segmento.

Mesmo com um terreno tão fértil observado no país, não se encontram grandes iniciativas por parte do Estado de modo a fomentar a economia colaborativa. De acordo, ainda, pelo estudo da IE Business School e do BID, existem alguns obstáculos para a popularização da economia colaborativa e dos projetos, que se resumem ao desconhecimento e desconfiança dos consumidores em relação ao tipo de negócio e a polêmica social, com entraves burocráticos, legislativos, como o exemplo da regulamentação do Uber no Brasil, já tratada em vários textos aqui do site. Veja mais: PL 28: a PL do Uber e a regulamentação dos aplicativos de transporte; Investigando o projeto que regulamenta a Uber; Regulação Whatsapp, Uber, Netflix.

Países em que a economia colaborativa se alastrou

Veja o exemplo de economia colaborativa sendo implementada em diversos países – e também pelos seus governos!

Amsterdã, na Holanda: Amsterdam Sharing City

Amsterdã foi a primeira experiência de cidade colaborativa na Europa, que começou em fevereiro de 2015 quando foi lançado o projeto denominado “Amsterdam Sharing City”, baseado na ideia de que a infraestrutura e as soluções sociais e tecnológicas da cidade devem facilitar e acelerar o crescimento econômico sustentável, com apoio imprescindível do governo.

O projeto intitulado “Amsterdam Sharing City” é um trabalho que abrange pessoas, plataformas, corporações, ONGs, instituições de ensino e pesquisa e o Estado, com o objetivo de fomentar projetos pilotos que trazem a ideia da economia colaborativa e até a iniciativa de nomear a cidade como “Cidade Compartilhada” visa enaltecer as ações de interação social e sustentáveis. A plataforma SharingNL é a encarregada de unir os projetos e fazer acontecer, com ajuda do Município e ainda de divulgar a ideia da economia colaborativa e seus benefícios para a comunidade.

Foto: Amsterdam Sharing City / Share NL

O estudo realizado ainda em 2013 pelo co-fundador da plataforma, Pieter Van de Glind, revelou que 84% da população de Amsterdã estaria disposta a participar de algum tipo de economia colaborativa, o que justificaram pelo anseio de ajudar a comunidade local, o meio ambiente e claro, conter gastos. Desde então, surgiram empresas tão diversas como Peerby, um aplicativo no qual vizinhos emprestam objetos uns aos outros; Konnektid, que põe em contato cidadãos que querem ensinar com os que querem aprender; Rewear, uma plataforma de aluguel de peças (de roupa) e acessórios, e Floow2, um mercado de troca de equipamentos comerciais, entre muitos outros.

O plano de ação de Amsterdã está disponível online, acesse-o aqui!

Seul, na Coreia do Sul: a economia colaborativa incentivada pelo governo

Seul, a capital da Coreia do Sul, criou, em setembro de 2012, o projeto “A Cidade que Compartilha”, que tem por objetivo promulgar políticas para incentivar o surgimento de empreendedores de economia colaborativa.

Entre os vários projetos, a prefeitura deixou à disposição da população 500 carros elétricos distribuídos em 292 estações pela cidade – a inscrição, reserva e devolução dos carros é feita totalmente online, onde é possível alugar por hora ou o dia inteiro. A prefeitura também mantém postos de aluguel de ferramentas, brinquedos que podem ser compartilhados pelos aplicativos.

A CCKorea (Creative Commons Coreia), empresa coreana que obteve a concessão do governo para implementar o projeto, exige uma série de requisitos para que os empreendimentos recebam ajuda e também o impacto social, como, alguns exemplos de projetos que foram aprovados, a Church Plus, que agrupa as igrejas com poucas atividades e as oferece para cerimônias com preço mais acessível, e a Kiple, comércio de roupas infantis que ficaram pequenas.

Foto: Seoul Sharing City / Reprodução

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A CCKorea também promove eventos para que esse novo sistema de consumo seja divulgado para a sociedade, além de trabalhar em comunidades desfavorecidas, com projetos de horas comunitárias e uma plataforma que reúne jovens estudantes que precisam de moradia com idosos que vivem sozinhos e necessitam de companhia.

Importante citar outro exemplo de startup apoiado pelo projeto, a The Open Closet, que aluga trajes formais doados para entrevistas de emprego a baixo custo. Cada aluguel da roupa inclui, ainda, o compartilhamento de experiências de quem era o dono do traje que, segundo o fundador, Man Han-II, serve para dar coragem para aquele que está procurando emprego.

Um outro exemplo foi a criação da Norizzang, uma startup de reciclagem de móveis, que recebeu um empréstimo com juros mais baixos concedidos pelo programa de economia colaborativa do governo. A startup coleta móveis usados e criam outros, para evitar que sejam descartados móveis que estão ainda com plena funcionalidade.

A economia colaborativa: o que importa são as experiências

Na proposta da economia colaborativa aqui mencionada, o acesso é mais importante que a posse. O que se propõe é a experiência, e não a compra incessante de produtos – que segundo estudo uma pesquisa realizada pelo Dr. Thomas Gilovich, psicólogo e professor da Cornell University, nos EUA, bens materiais até trazem felicidade, mas por um período limitado de tempo.

De acordo com o pesquisador, a célebre frase: “A felicidade só é real quando compartilhada” é a mais pura realidade. O psicólogo e professor atenta para o fato que os seres humanos ficam extremamente felizes quando compartilham uma experiência com alguém e a probabilidade de se conectar com alguém que se identifica com sua experiência é bem maior do que com alguém que possui um mesmo produto que você.  “Nós, seres humanos somos a soma total das nossas experiências”, diz o psicólogo e professor.  E, apostamos que a economia colaborativa pode gerar proveitosas experiências.

A economia colaborativa veio então para ajudar pequenos empreendedores, ajudar os consumidores a economizarem e até a ganharem dinheiro, para restaurar os laços na comunidade e tudo isso, compartilhando bens e serviços! Se você ainda não teve nenhuma experiência com a economia colaborativa, não deixe de participar desse movimento.

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Publicado em 07 de fevereiro de 2018.

Letícia Spada

Graduanda em Direito pela Universidade Estadual de Londrina e cidadã inquieta que aposta nas inovações do Direito e do empreendedorismo.