Engajamento escolar: o que o Brasil pode aprender com os Estados Unidos?

Ambiente escolar. Fonte: Domínio Público / Pexels.com

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Dos 10 milhões de jovens na faixa dos 15 aos 17 anos, 1,5 milhão nem se matriculam na escola no início do ano letivo. Essa é a realidade que iniciativas como a reforma do Ensino Médio enfrentam.

Fazendo uma comparação entre o Brasil e outros países do mundo, a situação se torna ainda mais preocupante. Na virada do milênio, menos de 43% dos países do mundo tinham uma porcentagem de jovens fora da escola menor que o Brasil. Atualmente, mais de 55% estão na frente do nosso país, o que mostra a necessidade de aprender com exemplos do que está sendo feito de melhor no mundo para que os nossos jovens permaneçam na escola.

E em quais práticas o Brasil pode se inspirar? O GESTA – Engajamento Escolar investigou mais de 100 programas voltados à promoção do engajamento do jovem em atividades escolares nos Estados Unidos. O país é conhecido pelo combate ao abandono escolar e por utilizar dados e avaliações de programas desde 1960 para orientar políticas educacionais cada vez mais eficazes.

As práticas americanas contemplam aspectos fundamentais para enfrentar o problema de evasão escolar e podem servir como fonte de inspiração para as políticas públicas brasileiras. Você confere alguns desses aspectos a seguir!

1) Toda a comunidade precisa estar envolvida

Essa estratégia se baseia na mobilização e coordenação de esforços de diversos atores (centros comunitários, clubes, igrejas, empresas locais, assistência social, etc) com uma visão compartilhada da importância da educação dos jovens. A escola passa a ser o centro da comunidade, uma espécie de hub (um espaço compartilhado de trabalho e inovação), onde todos os parceiros contribuem com recursos e oportunidades de desenvolvimento para os jovens e suas famílias, incentivando assim a sua permanência na escola.

No programa Coalition for Community Schools, os parceiros desenvolvem atividades inovadoras e educacionais para que os alunos tenham um currículo escolar que vai além do que vemos tradicionalmente. Os jovens têm acesso a diversas atividades, que vão desde jardinagem até oportunidades de obter mentoria e de realizar um trabalho com os parceiros locais, permitindo o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, cognitivas e interpessoais.

2) Caminhos alternativos para atender a todos

Jovens que, por algum motivo, não se sentem à vontade em turmas tradicionais precisam de alternativas. É necessário construir escolas distintas para atender esses jovens, que podem precisar de uma estrutura ou atenção diferenciada por conta de necessidades especiais, inserção no mercado de trabalho, problemas comportamentais ou defasagem idade-série.

O projeto PHASE 4 Learning Center, por exemplo, conta com metodologias diferenciadas, além de horários e locais flexíveis que se adequem às necessidades dessa população com alto risco de desengajamento. Não é um único modelo escolar que vai atender 100% da população jovem.

3) O jovem precisa ser protagonista

O jovem precisa enxergar a escola como um ambiente seguro e acolhedor, que o encoraje a participar das atividades escolares e promova um sentimento de pertencimento à escola. Fazem parte dessa estratégia programas voltados à prevenção de conflitos e à redução da violência na escola e seus entornos.

Um exemplo de programa nesse sentido é o SafeMeasures, um processo de pesquisa colaborativa em que alunos e professores criam medidas para reduzir o bullying e melhorar a segurança escolar através da análise de dados produzidos sobre violência na escola pelos próprios jovens. É preciso não só combater a evasão, mas também criar iniciativas para impedir que ela aconteça, já que as consequências são muito graves para a vida de cada um destes jovens.

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4) Não há solução sem prevenção

As ações preventivas se baseiam, principalmente, na atenção à primeira infância de forma individualizada e na alfabetização na idade correta. Há forte evidência de que ações desse tipo influenciam no engajamento futuro dos jovens e experiências como o High School Graduation Coach ilustram isso.

O programa emprega mentores nas escolas com a responsabilidade de identificar estudantes com problemas acadêmicos e ajudá-los a melhorar seu desempenho antes que eles queiram sair da escola. Em um colégio no estado de Connecticut, o índice de alunos ingressantes no Ensino Médio que se graduavam no tempo certo passou de 14,9% em 2009, início da implementação do programa, para 43,8% em apenas dois anos, demonstrando grande sucesso.

Essa não é a única ação com foco na percepção da importância da escola pelo aluno e nos desafios emocionais que ele enfrenta. Os EUA têm mais de 35 programas mapeados com esse objetivo, enquanto o Brasil possui apenas 11 programas nesse sentido.

5) A família tem uma influência enorme

Vários estudos indicam que um maior envolvimento familiar impacta positivamente no engajamento dos jovens nas atividades escolares. Ações desse tipo visam a motivar e orientar os jovens através da família, bem como incentivar maior cooperação entre pais e educadores.

No programa Families and Schools Together (FAST), os jovens e suas famílias têm a oportunidade de desenvolverem diversas competências como comunicação, liderança e resolução de conflitos, além de fortalecerem suas relações familiares.

Essa experiência tem se mostrado positiva por diminuir conflitos no ambiente familiar, melhorar o desempenho do aluno na escola e envolver os pais dos alunos nas atividades escolares, contribuindo para aumentar o engajamento de crianças e jovens e diminuir a evasão.

Há também outras estratégias de promoção do engajamento dos jovens nas atividades escolares que podem ser encontradas no portal GESTA — Engajamento Escolar. A partir da experiência dos Estados Unidos, observa-se que não existe uma única fórmula de combater ou prevenir o abandono escolar. Uma estratégia realmente eficaz conta com um leque de ações diversas visando às necessidades específicas dos jovens, que variam conforme o contexto, seja entre comunidades, escolas, turmas ou até mesmo entre jovens de uma mesma turma.

Os Estados Unidos, ao contrário do Brasil, não só implementam centenas de programas para combater a evasão, mas também avaliam o impacto e o resultado de todas essas ações, buscando agir de maneira cada vez mais eficaz para resolver esse problema. O Brasil deve se inspirar nessas e em outras ações para construir iniciativas que buscam prevenir a evasão, promover o engajamento dos alunos e reengajar os que saíram da escola, se atentando a todas as fases do problema.

O Brasil pode – e deve – olhar com mais cuidado para todos os aspectos que giram em torno do abandono da escola pelo aluno, e os Estados Unidos podem ser um bom exemplo de um país com essa postura, que busca sempre utilizar as melhores estratégias com base em evidências e avaliação dos programas existentes.

Podemos constatar que não existe uma solução fácil para um problema complexo. Ou seja, assim como as razões para o desengajamento são múltiplas, a solução para tal também requer ações que possam abranger as diversas facetas desse grande problema que é a evasão e o abandono escolar.

GESTA no Politize!
Publicado em 08 de janeiro de 2018.

Somos uma vitrine de conteúdos de interesse público: um espaço virtual que apresenta de forma clara e dinâmica os principais desafios do Brasil, suas causas e consequências, e os possíveis caminhos para melhorar e transformar nossa sociedade.

Nathalia Doné

Graduanda em Relações Internacionais pela USP e determinada a ajudar na construção de uma gestão pública eficaz para o Brasil.