A GUERRA NUCLEAR AINDA É UMA AMEAÇA?

Teste com armas nucleares realizado pelos Estados Unidos como parte da Operação Upshot-Knothole (Foto: WikiMedia).

guerra nuclear

Apesar de a Guerra Fria ter terminado no início dos anos 1990, o medo da possibilidade de uma guerra nuclear ainda paira sobre a humanidade. No entanto, diferente de como era no passado – quando o risco de uma guerra nuclear viria quase exclusivamente de um embate entre Estados Unidos e União Soviética –, hoje ele pode vir de diversos outros países.

À medida em que os pontos de risco aumentam, também cresce a complexidade do assunto. Sabendo disso, o Politize! organizou este texto para você ficar por dentro das principais disputas internacionais com maior chances de evoluir para uma guerra nuclear.

ONDE EXISTE AMEAÇA NUCLEAR ATUALMENTE?

Adiante, vamos conhecer alguns dos casos que devem ser observados com mais atenção.

Tensões na Península Coreana

A península coreana é palco de tensões internacionais constantes desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando foi dividida entre dois regimes opostos: a Coreia do Nortecomunista, apoiada pela União Soviética e China – e a Coreia do Sul – capitalista, apoiada pelos Estados Unidos. Isso acirrou a rivalidade entre os dois países, que sempre foram rivais e até travaram uma guerra entre 1950 e 1953.

Com o passar das décadas, eventos como a queda da União Soviética e o crescimento das tensões com os Estados Unidos aumentaram a sensação de vulnerabilidade da Coreia do Norte. Como forma de lidar com a crescente diferença militar e econômica em relação à Coreia do Sul e também conseguir algum poder de barganha em futuras negociações, os norte-coreanos aceleraram o seu programa de desenvolvimento de armas nucleares nos anos 1990.

A partir de então, as tensões entre a Coreia do Norte e outras potências mundiais – como o Japão e os Estados Unidos – aumentaram rapidamente. Isso foi refletido no embargo de petróleo que os norte-americanos impuseram contra os norte-coreanos em 2002. Tal boicote foi justificado com a alegação de que a Coreia do Norte possuía um programa de processamento de urânio que não era condizente com as normas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Como resposta, a Coreia do Norte, que era membro do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) desde 1985, retirou-se do acordo em janeiro de 2003. Na época, a justificativa dada pelos norte-coreanos foi a de que a AIEA agia como uma subordinada aos interesses da política externa dos Estados Unidos e o TNP seria um instrumento de realização desses interesses. Apesar de ter declarado que sua saída do TNP não significava que o país pretendia desenvolver armamentos nucleares, apenas três anos depois, em outubro de 2006, a Coreia do Norte realizou o seu primeiro teste com uma bomba atômica.

Desde então, outros cinco testes nucleares foram feitos: em maio de 2009, fevereiro de 2013, janeiro e setembro de 2016 e setembro de 2017. Além desses, aconteceram diversos outros ensaios com mísseis balísticos que poderiam carregar uma ogiva nuclear. Como resposta, desde 2006 o Conselho de Segurança da ONU vêm aplicando uma série de sanções sobre a Coreia do Norte, as quais impõe grandes restrições políticas e econômicas ao país. Também é importante lembrar que essas sanções contam inclusive com o apoio da China. Ainda que sejam os maiores aliados internacionais da Coreia do Norte, os chineses não vêem com bons olhos a instabilidade causada pela ameaça nuclear que o país trouxe para perto de sua fronteira.

Apesar do rápido aumento das tensões nucleares na península coreana nos últimos tempos, o ano de 2018 trouxe novos e importantes desdobramentos. O primeiro deles foi a inédita visita do líder norte-coreano, Kim Jong-un, à Coreia do Sul, em abril, para se encontrar com o presidente Moon Jae-in. Durante o encontro, os líderes das Coreias se comprometeram a encerrar os conflitos entre os dois países e a desnuclearizar a península coreana.

Outro evento de grande importância em 2018, foi o encontro entre Kim Jong-un e o presidente norte-americano, Donald Trump, em Singapura, no dia 12 de junho. A reunião entre os dois líderes resultou em um comunicado conjunto no qual os Estados Unidos fornecem garantias de segurança para a Coreia do Norte em troca do comprometimento do regime norte-coreano com a desnuclearização da região. Além disso, em uma declaração à imprensa realizada após o encontro, o presidente Trump surpreendeu ao prometer encerrar exercícios militares com a Coreia do Sul.

Apesar de ambiciosas, as promessas feitas pelos dois lados foram consideradas bastante amplas e vagas. Também é importante lembrar que acordos passados entre os dois países não progrediram devido à falta de compromisso por parte de ambos. Além disso, parece improvável que Kim Jong-un esteja disposto a abrir mão de sua maior vantagem internacional e desfazer seu arsenal nuclear. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos têm que se preocupar com a segurança de aliados – como o Japão e a Coreia do Sul – e de potenciais adversários – como a China. Por conta disso, os estadunidenses dificilmente vão aceitar diminuir seu efetivo militar na região.

Em resumo, apesar de ser um avanço nas relações entre Estados Unidos e Coreia do Norte, as tensões na península coreana ainda têm um longo caminho de negociações.

Você sabe o que é a AIEA e o TNP? Nós explicamos tudo isso e mais no texto “Questão nuclear: o que o mundo tem a dizer sobre isso?”.

A rivalidade Índia x Paquistão

Outros países que representam uma ameaça quando se pensa em uma guerra nuclear são a Índia e o Paquistão. Desde que se tornaram independentes do Reino Unido, o Paquistão – de maioria muçulmana – e a Índia – de maioria hindu – disputam o controle da região fronteiriça da Caxemira. Tal conflito territorial é agravado pelas diferenças religiosas entre os países. Os dois Estados já travaram quatro guerras entre si (1947, 1965, 1971 e 1999), fazendo da fronteira entre eles uma das áreas mais tensas do globo. Tensão essa que é agravada pelo fato de ambos possuírem armamentos nucleares e não serem signatários do TNP.

O primeiro deles a realizar um teste nuclear com sucesso foi a Índia, em 1974. Anos depois, foi a vez do Paquistão, que deu início a um programa nuclear na década de 1990, auxiliado pela China – com quem a Índia também possui rivalidades territoriais. Porém, foi só em 1998, após uma série de testes nucleares realizados pelos indianos, que os paquistaneses detonaram sua primeira bomba atômica.

Após essas explosões, Japão, Estados Unidos e as Nações Unidas foram rápidos em condenar os testes e estabelecer sanções para os dois Estados. Entretanto, essa situação não viria a durar muito tempo. Após os atentados de 11 de setembro de 2001, o governo do presidente George W. Bush Jr. viu a necessidade do apoio do Paquistão para suas ações militares contra o Talibã, no Afeganistão. Sendo assim, suas sanções contra o país foram suspensas.

No caso da Índia, Bush foi ainda além. Ao perceber que o país representava um rival para a predominância do poder chinês no sul da Ásia, em 2005, o presidente estadunidense e o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, assinaram o Pacto Nuclear Estados Unidos-Índia. O acordo estabeleceu que os Estados Unidos venderiam tecnologia nuclear para fins civis à Índia. Em troca, o país asiático permitiria que suas instalações nucleares fossem visitadas por inspetores da AIEA. Contudo, para muitos críticos, o que o acordo fez foi demonstrar que é possível a um país desenvolver um programa nuclear mesmo com o TNP e sem ser punido por isso.

Até o primeiro semestre de 2018, as tensões entre Índia e Paquistão continuam altas. Apesar de um esforço conjunto entre os dois países para fazer valer um cessar-fogo assinado em 2003, a ocorrência de incidentes militares na fronteira entre os dois países é algo comum. Certamente, a rivalidade entre essas duas potências atômicas representa um dos maiores riscos de uma guerra nuclear.

Além das armas nucleares, as armas químicas também dão o que falar internacionalmente. Que tal entender mais sobre essa questão?

O Programa Nuclear Iraniano

Apesar de ser um membro do TNP e não possuir artefatos nucleares, o programa nuclear iraniano também é um foco de tensões e polêmicas. Isso se dá principalmente pelo fato de Irã e Estados Unidos possuírem uma relação tensa desde a Revolução Iraniana de 1979. Por essa razão, quando a AIEA acusou o Irã de não cumprir com os acordos de um programa nuclear civil, Washington foi rápido em acusar os iranianos de pretenderem desenvolver armas atômicas.

Como resultado, desde 2006 os Estados Unidos, União Europeia e as Nações Unidas vêm impondo uma série de sanções políticas e econômicas contra o Irã. Tais medidas incluem a restrição de empresas de vender ou comprar produtos iranianos (principalmente armamentos); o congelamento de contas de indivíduos ou empresas ligadas ao governo; assim como o banimento de qualquer transação financeira envolvendo bancos ou outras instituições financeiras do país. Entretanto, apesar de contribuírem para isolar o Irã da política e comércio globais, as sanções não pareceram ser capazes de fazer o país desistir de seu programa nuclear.

Finalmente, em 2015, o então presidente dos Estados Unidos – Barack Obama – junto com Reino Unido, França, China, Rússia e Alemanha formularam uma proposta de negociação que foi aceita pelo governo iraniano. De forma resumida, o acordo – que recebeu o nome de Plano de Ação Conjunto Global – impunha ao Irã um limite para o nível de enriquecimento de urânio que o país poderia realizar. O acordo também previa uma fiscalização mais ampla por parte da AIEA em suas instalações nucleares em troca do fim das sanções impostas sobre ele.

Contudo, no dia 08 de maio de 2018, o presidente Donald Trump anunciou que os Estados Unidos estavam se retirando do acordo. Trump alegou que o tratado não era eficaz em impedir um suposto desejo dos iranianos de construir uma bomba atômica.

As reações dos diversos atores internacionais interessados têm sido diversas. Enquanto os países europeus, especialmente a França e Alemanha, pretendem manter o acordo e lamentam a decisão de Trump; Israel e Arábia Saudita – os rivais geopolíticos do Irã na região – comemoraram a atitude do presidente estadunidense de adotar uma posição mais rígida em relação ao Irã.

Você entende qual o papel de armas nucleares em conflitos políticos? A gente explica!

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MAS AFINAL, QUAL É O REAL RISCO DE UMA GUERRA NUCLEAR?

Durante a história humana, a atividade da guerra significou arriscar exércitos, conquistar ou perder territórios e iniciar ou destruir dinastias ou ideologias. No entanto, independente dos milhares ou milhões de pessoas que morriam como consequência de cada novo conflito, a existência humana no planeta nunca esteve ameaçada. Isso tudo mudou a partir da invenção da bomba atômica.

A possibilidade de um conflito nuclear trouxe novas reflexões a respeito da natureza da guerra. Pela primeira vez, os líderes das potências atômicas tinham que se preocupar mais com as consequências de dar início a uma guerra nuclear do que com os objetivos que poderiam motivá-la. Afinal, não existe uma garantia de que o inimigo não apelará para o uso das armas nucleares. E, se ele o fizer, não é apenas um território que é perdido, mas sim milhares de vidas. Além disso, o fato de um dos lados usar uma bomba atômica muito provavelmente levaria a uma retaliação por parte do país atacado. Assim seria iniciada uma guerra nuclear, o que muitos estudiosos consideram como algo que levaria ao fim da raça humana.

Durante os anos da Guerra Fria, a guerra nuclear ocupou a posição de principal temor da humanidade. Depois, com o fim da União Soviética e os atentados de 11 de setembro, a maior preocupação dos analistas de segurança externa foi com temas como o narcotráfico ou o terrorismo internacional. No entanto, basta assistirmos aos noticiários para percebermos que o medo de uma guerra nuclear continua.

Uma publicação oficial do governo dos Estados Unidos, lançada em janeiro de 2018, menciona a capacidade atômica de potências nucleares rivais – como a Rússia, China e Coreia do Norte – e afirma que a “competição estratégica interestatal, não o terrorismo, é agora a principal preocupação da segurança nacional norte-americana”. Essa preocupação foi reforçada pelo comitê do Nobel da Paz, que em 2017 premiou a Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares por seus esforços para a eliminação gradual das armas atômicas.

No entanto, talvez o exemplo mais simbólico sobre a importância da questão nuclear seja o do Relógio do Juízo Final. O relógio foi criado em 1947 pelos especialistas do Boletim dos Cientistas Atômicos para representar o risco de uma guerra nuclear, que seria atingido caso os ponteiros chegassem à meia-noite. Em janeiro de 2018 os ponteiros do relógio foram ajustados para dois minutos antes da meia-noite. Essa foi a posição mais próxima que o relógio já chegou de marcar a temida meia noite, desde 1953. Aparentemente, o temor nuclear não acabou junto com a Guerra Fria.

Conseguiu entender o motivo de ainda existir uma preocupação com uma guerra nuclear? Deixe suas dúvidas e sugestões nos comentários!

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Publicado em 09 de julho de 2018.

Conrado Ottoboni Baggio

Mestre em Relações Internacionais com interesse especial pelo continente africano. Tem como missão mostrar o impacto de eventos internacionais no cotidiano de cada um de nós.