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5 MARCHINHAS DE CARNAVAL PARA DISCUTIR POLÍTICAS

Foto: Pixabay

Mamãe, eu quero, mamãe, eu quero/Mamãe, eu quero mamar/Dá a chupeta, dá a chupeta/Dá a chupeta pro bebê não chorar…”

Quem não conhece uma marchinha de carnaval como essa? Pois é! Nem mesmo em tempos de festa, alegria e descontração o Politize! perde a oportunidade de nos fazer refletir sobre política. Daquele pressuposto de que se pode aprender sobre política de forma descomplicada e descontraída, vamos sugerir 5 marchinhas de carnaval que podem servir de pano de fundo para debater temas que estão por aí: saracoteando pelos salões, arrastando blocos e desfilando nas passarelas da nossa vida em sociedade.

E segue o bloco… “Quanto riso, oh, quanta alegria/Mais de mil palhaços no salão/Arlequim está chorando/Pelo amor da Colombina/No meio da multidão…”.

MARCHINHA 1: Ó Abre Alas de Chiquinha Gonzaga (1899)

Interpretada por Mc Leozinho.

A letra da marchinha em si não traz algum tema político que possa ser debatido. A ideia de utilizá-la como ponto de partida está na sua importância histórica para debater temas relacionados à inserção e o papel das mulheres no mercado de trabalho e na sociedade. A marchinha – considerada a primeira marcha carnavalesca – foi composta pela musicista Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga, uma mulher que em pleno século XIX ousou lutar pelos seus sonhos e ideais. Separou-se duas vezes, trabalhou para criar um filho sozinha, levou adiante uma relação com um rapaz 36 anos mais jovem, engajou-se politicamente na luta pela abolição da escravatura e pelo fim da monarquia… Ações relativamente corriqueiras nos dias de hoje, mas abomináveis naqueles tempos. O dia 17/10 – data de seu nascimento – foi instituído como o Dia Nacional da Música Popular Brasileira por meio da Lei 12.624/2012. Chiquinha Gonzaga faleceu no Rio de Janeiro, no início do carnaval de 1935 aos 87 anos.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da marchinha:

Ouça também uma versão mais tradicional da marchinha: https://www.youtube.com/watch?v=gu7BDf7oiC8

MARCHINHA 2: Daqui não saio de Paquito e Romeu Gentil (1949)

Interpretada por Vocalistas Tropicais.

A marchinha do final da década de 1940 retrata de forma bem humorada um problema que continua atual: o acesso à moradia. Embora a última PNAD contínua (com dados de 2016, divulgada em 2017), pesquisa de abrangência nacional do IBGE, aponte que quase 70% dos domicílios brasileiros são casas próprias já quitadas, não se pode afirmar que não haja um déficit habitacional no país, pois a pesquisa questiona ao entrevistado a condição de sua residência, que pode ser de algum dos integrantes do domicílio e não da pessoa que participou da pesquisa. Há que se considerar, ainda, as condições desses domicílios. Nesse sentido, podem-se discutir a partir da marchinha, as políticas para redução desse déficit, bem como sua efetividade. O Programa Minha Casa Minha Vida lançado em 2009 pelo governo federal, por exemplo, se deu um lado possibilitou acesso à moradia, de outro recebeu críticas por não dar condições de infraestrutura e acesso das famílias aos serviços públicos. Isto porque comumente os conjuntos habitacionais foram construídos em terrenos doados pelas prefeituras em locais longínquos, com dificuldade de acesso ao transporte público, por exemplo.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da marchinha:

Ouça também uma versão mais recente da marchinha: https://www.youtube.com/watch?v=-r_gK-wa00M

MARCHINHA 3: Maria Sapatão de João Roberto Kelly (1981)

Interpretada por Valesca.

Essa marchinha foi encomendada pelo apresentador Chacrinha, que teria dito ao compositor “Vamos fazer algo engraçado porque tem um bocado de sapatão!”. Embora para muitos hoje soe como politicamente incorreto, pois o termo “sapatão” é considerado por muitos, pejorativo, a letra em si não segue esse tom. O próprio compositor usando um trecho da música “O sapatão está na moda/ O mundo aplaudiu/É um barato, é um sucesso/Dentro e fora do Brasil” afirma que a marchinha não busca ofender ninguém. Comentando sobre essa e outras marchinhas que também são de sua autoria, ele se diz contra a censura. Nesse sentido, pode-se utilizá-la como norte para se discutir gênero, preconceito, homofobia e temas correlatos.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da marchinha:

Ouça também uma versão mais tradicional da marchinha, interpretada por Chacrinha: https://www.youtube.com/watch?v=Et5G8esQ6Jg

MARCHINHA 4: Bota camisinha de João Roberto Kelly e Leleco (1987?)

Interpretada por Chacrinha.

Embora não tenhamos encontrado uma fonte confiável sobre a data exata de lançamento da marchinha, tudo indica que tenha sido lançada no final dos anos 1980, quando a epidemia de AIDS começava a se alastrar ao redor do mundo, incluindo o Brasil, e uma campanha para o uso do preservativo – apelidado de “camisinha” – começou a ser incentivado.

O apresentador Chacrinha, a quem fizemos menção na marchinha anterior, novamente entra em cena. Tendo sido considerado um dos maiores comunicadores do país, em função do sucesso de seus programas de auditório em rádio e de TV, o “velho guerreiro” – como também era conhecido – cantava a marchinha no programa “Cassino do Chacrinha” que mantinha nas tardes de sábado na Rede Globo. Em função da grande popularidade do programa, Chacrinha ajudou a disseminar a importância do uso do preservativo para “não se machucar no carnaval”.

A prevenção contra a AIDS e o HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis, embora remonte à década de 1980, continua pertinente ainda hoje. O Boletim Epidemiológico de HIV/AIDS apresentado pelo Ministério da Saúde em dezembro de 2017 indicou uma redução de 5% na taxa de detecção de AIDS no país na comparação de 2016 em relação a 2015. Porém, o mesmo Boletim indica o perfil do infectado entre 2006 e 2016: enquanto a taxa de contágio entre as mulheres caiu, a dos homens aumentou. A doença cresce entre homens que fazem sexo com homens, mudando o perfil nesta década, já que a proporção era maior entre heterossexuais. O Boletim destaca ainda o crescimento de infecções de HIV e AIDS entre jovens de 15 a 19 anos, sendo que a taxa masculina desse grupo quase triplicou no período. Entre as meninas, também houve crescimento, mas em menor proporção e idosas acima de 60 anos também tiveram alta na contaminação. Segundo o Boletim, mais de 800 mil pessoas vivem com HIV no Brasil atualmente.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da marchinha:

  • Doenças sexualmente transmissíveis;
  • Políticas públicas para doenças sexualmente transmissíveis;
  • Educação sexual.

MARCHINHA 5: Não existe pecado ao Sul do Equador de Chico Buarque e Ruy Guerra (1973)

Interpretada por Chico Buarque.

Essa marchinha foi escrita para integrar a trilha da peça Calabar: o elogio da traição, de autoria dos mesmos compositores da canção. De acordo com Natália Pesciotta do blog Atrás da música, “o espetáculo teatral era sobre Domingos Fernandes Calabar, um senhor de engenho pernambucano que traiu os colonizadores portugueses e passou para o lado dos invasores holandeses”. Tal evento aconteceu no século XVII, “quando a ideia que se fazia do Brasil era essa, para o bem ou para o mal: um lugar livre da ‘moral’ e ‘bons costumes’”. Na postagem que faz no blog, a autora chama a atenção para o fato de que a principal frase da música, que também dá título a ela “Não existe pecado ao Sul do Equador” foi escrita no século XVII e que Chico a encontrou no livro Raízes do Brasil escrita por seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda.

A frase remetia à ideia de que a linha que divide o mundo em dois hemisférios parecia também dividir a virtude (hemisfério Norte – Velho Mundo) do vício (hemisfério Sul – Novo Mundo). Assim, o “lado de baixo do Equador” representaria uma terra de ninguém, onde tudo se podia, nada era proibido. Nesse sentido, a partir da marchinha, sugere-se debater, por exemplo, as origens desse nosso descrédito em relação às leis e às instituições no país. Pesquisa da FGV para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela que a ampla maioria dos entrevistados, mais de 80% (dos 7.176 entrevistados), declarou concordar que “‘é fácil desobedecer à lei no Brasil’ e que o cidadão brasileiro, sempre que possível, opta pelo ‘jeitinho’ em vez de obedecer à lei. Ou seja, a grande maioria dos brasileiros entende que a lei pode ser facilmente ignorada e que esse comportamento é generalizado”. Será que o Brasil está fadado a ser a terra do “tudo pode”? Do “não vai dar nada”? Do “dá um jeitinho”?

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da marchinha:

Ouça também na interpretação da banda pernambucana Seu Chico: https://www.youtube.com/watch?v=XsyGyhpyDUk

… “Cidade maravilhosa/Cheia de encantos mil/Cidade maravilhosa/Coração do meu Brasil”… Nosso bloco está chegando ao fim! Desejamos que todos curtam bem o carnaval, e lembrem-se que discutir e refletir sobre política pode ser algo divertido… “Ai, ai, ai ai, ai ai ai/Está chegando a hora/O dia já vem raiando, meu bem/Eu tenho que ir embora”… Conhece outras marchinhas de carnaval para debater política? Comente!

Fontes: Wikipedia – Chiquinha Gonzaga; EBC – Mortes de AIDs; Folha – Polêmicas em letras de marchinhas; Memória Globo – Chacrinha;

Publicado em 08 de fevereiro de 2018.

Raphael Schlickmann

Professor do Departamento de Ciências da Administração e do Programa de Pós-Graduação em Administração Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Tem interesse por: administração pública, administração universitária, estudos organizacionais e epistemologia e sociologia da ciência da administração. Gosta de estar com a família e os amigos sempre ao som de uma boa música.