5 músicas sobre políticas no Brasil

E temas para estudar ou debater com amigos.

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musicas políticas brasileiras

Quantas coisas novas podemos aprender ao ouvir uma música? Você já parou para pensar nisso? Quantos lugares, coisas, pessoas, costumes, histórias ou palavras você teve oportunidade de conhecer – ainda que sem se dar conta – cantarolando alguma canção?

Ao partirmos do pressuposto de que a música pode ser uma boa estratégia para aprender coisas novas, seja de forma direta ou por meio de analogias e metáforas, apresentamos 5 músicas (e outras a elas relacionadas) que podem servir de base para discutir temas políticos. Você irá notar que as músicas podem até trazer um ponto de vista, uma opinião inerente aos autores, mas nossa ideia aqui não é interpretá-las ou analisá-las, apenas dar um start para possíveis debates. Para ajudar, optamos para cada música:

  • Trazer sua letra com um link para que você possa ouvi-la;
  • Elaborar uma breve contextualização dos temas que sugerimos discutir a partir da música;
  • Sugestões de temas que possam ser discutidos a partir da mesma;
  • E por fim, quando for o caso, listar outras músicas que possam complementar ou enriquecer a discussão inicial.

Reflita, discuta e divirta-se!

Música 1: Sobradinho de Sá e Guarabyra (1987)

Interpretada pela banda Biquíni Cavadão

A música retrata a instalação da Barragem de Sobradinho, localizada nos municípios de Sobradinho e Casa Nova, na Bahia, entre os anos de 1971 e 1980. De acordo com a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), subsidiária da Eletrobrás que a administra, a usina ali construída – além da função de geração de energia elétrica – representa a principal fonte de regularização dos recursos hídricos da região.

Há que se fazer referência, no entanto, que se de um lado a instalação da barragem significaria desenvolvimento para região, de outro impactou na vida da população. Foi na década de 1970 que o sertão da Bahia virou mar. Casa Nova, Remanso, Pilão Arcado e Sento Sé foram engolidas pelo rio São Francisco e deram lugar a 34 bilhões de metros cúbicos de água, o que levou à transferência de cerca de 12 mil famílias para novas sedes construídas pela Chesf.

A população, pega de surpresa, foi obrigada a deixar essas cidades que foram tomadas pelas águas, com argumentos dados pela Chesf de que a água serviria para o desenvolvimento da região e de que as pessoas teriam moradias melhores. Muitos moradores de fato se convenceram de que, em nome do progresso, valia mesmo a pena, outros até hoje questionam na justiça os valores pagos em indenizações à época. Há que se destacar ainda os prejuízos imateriais da realocação das famílias, pois muitos nasceram, cresceram e viveram numa terra que de uma hora para outra ficou apenas na memória.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da música:

Ouça outras sugestões de músicas que abordam essas temáticas:

Música 2: As Caravanas de Chico Buarque (2017)

Interpretada por Chico Buarque.

A música pode ser utilizada como pano de fundo para discutir temas como violência, segurança pública, preconceito e discriminação. Em 24 de agosto de 2015, o Jornal Extra trouxe a seguinte notícia: “PM aborda ônibus e recolhe adolescentes a caminho das praias da Zona Sul do Rio”. A reportagem relatava que 15 jovens que se dirigiam a uma praia da Zona Sul do Rio de Janeiro foram retirados de um ônibus oriundo da Zona Norte da cidade. Embora não portassem armas ou drogas, foram encaminhados ao Centro Integrado de Atendimento à Criança e ao Adolescente (Ciaca).

De acordo com nota da PM, “as ações ocorreram visando a proteger menores em situação de risco ou em flagrante de ato infracional”. Tal versão foi criticada e contestada pela Defensoria Pública do estado, bem como por funcionários da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social. “Segregação” e “racismo” foram termos utilizados por eles para criticar a ação da PM, alegação feita também pelos adolescentes. No início de 2017, uma reportagem da Folha de São Paulo trouxe a seguinte manchete: “Secretário de Crivella planeja revistar ônibus que parem na orla da zona sul”. A reportagem discute a intenção do secretário em revistar passageiros de ônibus que saltam nas praias da Zona Sul do Rio. Pessoas com armas ou drogas seriam encaminhadas à delegacia e pessoas sem dinheiro ou documentos tornar-se-iam suspeitas. De acordo com o Secretário, a ideia é definir a partir de reuniões com o Judiciário, formas legais de atuação para não haver discriminação.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da música:

Ouça outras sugestões de músicas que abordam essas temáticas:

Música 3: Maria da Vila Matilde de Douglas Germano (2015)

Interpretada por Elza Soares.

A música pode servir como base para debater a violência contra a mulher e temas correlatos. A jornalista Nana Soares publicou em 2017 o seguinte artigo no site E+ do Estadão: “EM NÚMEROS: a violência contra a mulher”. Como o próprio título sugere, o texto está recheado de números que chamam a atenção sobre violência sexual, doméstica e feminicídio. Seguem alguns números trazidos pela jornalista: de acordo com o Relógio da Violência do Instituto Maria da Penha, a cada 7,2 segundos uma mulher é vítima de violência física.

Somente em 2015, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, realizou 749.024 atendimentos, ou 1 atendimento a cada 42 segundos. Desde 2005, foram quase 5 milhões de atendimentos, segundo dados divulgados pelo Ligue 180. Segundo a pesquisa “Violência contra a mulher no ambiente universitário”, do Instituto Avon, de 2015: 2 em cada 3 universitárias brasileiras disseram já ter sofrido algum tipo de violência (sexual, psicológica, moral ou física) no ambiente universitário. É possível que esses números sejam maiores, visto que ainda ocorre uma subnotificação dos casos de violência contra a mulher por diversos motivos. Assim como a letra desta música, o movimento feminista tem reforçado a necessidade de denunciar esses abusos.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da música:

Ouça outras sugestões de músicas que abordam essas temáticas:

Música 4: Carimbador Maluco de Raul Seixas (1983)

Interpretada por Raul Seixas.

A música pode servir de pano de fundo para discutir um dos gargalos da Administração Pública no Brasil: o excesso de burocracia. De acordo com reportagem do Jornal da Globo de 2017 intitulada “Burocracia dificulta desenvolvimento de setores da economia”, o tempo que uma empresa média no Brasil demora para cumprir as suas obrigações tributárias é de cerca de duas mil horas, segundo alguns estudos. Em termos comparativos, em um país dito desenvolvido, esse tempo reduz-se para algo em torno de 200 a 300 horas. A reportagem chama atenção do grande desperdício de recursos do país com a quantidade de advogados e contadores necessários para fazer uma operação dessa dentro de uma empresa de médio porte.

Os problemas relacionados à burocracia no Brasil atingem desde o mundo empresarial até o cidadão que acessa o serviço público. Reportagem do Correio Braziliense, de 2017, com a manchete “Cidadãos reclamam de burocracia, demora e erros nos balcões de repartições”, traz uma série de situações que demonstram o quanto o cidadão comum é atingido pelo problema. De um lado, servidores queixam-se de dificuldades para o trabalho, de outro, especialistas apontam falta de produtividade. No centro da questão: o cidadão que não tem o serviço prestado de forma efetiva.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da música:

Música 5: Inclassificáveis de Arnaldo Antunes (1996)

Interpretada por Arnaldo Antunes e Chico Science.

A música pode servir de base para discutir temas relacionados à diversidade étnica, cultural, política e religiosa. Discutir sobre diversidade talvez tenha se tornado cada vez mais comum em função da voz que pessoas – diversas! – ao redor do mundo têm conseguido obter por meio das redes sociais. No Brasil, um país diverso por natureza, isso não é diferente.

O Dossiê BrandLab publicado em outubro de 2017 intitulado “A busca por diversidade no Brasil”, traz um panorama do que o brasileiro anda buscando sobre o tema. Nesse dossiê alguns dados chamam atenção: buscas pelo tema “diversidade” nas plataformas digitais no Brasil cresceram 30% no último ano. Dentro desse tema, os tópicos mais pesquisados incluem: “homofobia”, “feminismo”, “racismo” e “LGBTQI+”, tendo obtido em média um crescimento de 260% apenas considerando-se os últimos seis meses anteriores à publicação do dossiê.

Considerando-se os diferentes estados brasileiros, o dossiê mostra que os tópicos mais buscados relacionados à diversidade variam desde o “feminismo”, como no caso do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, até a “diversidade cultural” no Amazonas. Enfim, hoje temos oportunidade de discutir e conhecer mais sobre o tema, o que abre mais chances para buscar um maior entendimento e uma melhor convivência com a diversidade que nos cerca e da qual fazemos parte.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da música:

Ouça outras sugestões de músicas que abordam essas temáticas:

E então, o que achou das músicas? Foi possível relacioná-las aos temas sugeridos para discussão? Como você pode contribuir para os debates em torno desses temas? Quais outras músicas você conhece que poderiam complementar aquelas aqui sugeridas, ou propor outros pontos de vista? Compartilhe! Comente! E divirta-se!

Publicado em 30 de janeiro de 2018.

Raphael Schlickmann

Professor do Departamento de Ciências da Administração e do Programa de Pós-Graduação em Administração Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Tem interesse por: administração pública, administração universitária, estudos organizacionais e epistemologia e sociologia da ciência da administração. Gosta de estar com a família e os amigos sempre ao som de uma boa música.