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Como ocorreu a revolução cubana?

Ernesto Che Guevara (esq.) e Fidel Castro (dir.). Fonte: Revista Fórum.

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No dia 25 de novembro, morreu Fidel Castro, primeiro-ministro e presidente de Cuba por quase 50 anos, entre 1959 e 2008. Fidel tinha 90 anos e convivia com problemas de saúde. Sua morte carrega grande peso simbólico, visto que se trata do líder de uma das mais emblemáticas –  e controversas – revoluções do século XX, a Revolução Cubana. Por décadas, o regime cubano liderou o antiamericanismo e ainda hoje inspira muitos governantes latino-americanos. Por outro lado, o governo instaurado por Fidel desde o início da revolução também foi manchado por mortes a opositores, censura e outras violações aos direitos humanos.

Neste texto, fazemos um apanhado histórico do que foi a revolução cubana de 1959 e os primeiros desdobramentos dessa experiência socialista, que, vale lembrar, se desenrolou ali, bem próxima ao país que é centro do capitalismo mundial.

Como era Cuba antes do socialismo?

Foto: Central Press/Getty Images

Em sua história, Cuba sempre esteve sob influência dos Estados Unidos. Na Guerra da Independência de Cuba, travada contra a Espanha em 1898, os Estados Unidos tiveram participação ativa e decisiva. A potência do norte conseguiu render as forças espanholas e negociar um acordo de paz favorável com Madrid.

Como resultado desse conflito, a pequena ilha caribenha não conquistou sua independência, como era de se esperar. Em vez disso, tornou-se uma espécie de protetorado dos Estados Unidos. Esse status surgiu da Emenda Platt, dispositivo incluído na carta constitucional cubana em 1901. Essa emenda autorizava os Estados Unidos, entre outras coisas, a intervir para preservar a independência cubana. A aceitação da Emenda Platt era condição para que as tropas americanas deixassem a ilha, ocupada desde a guerra de independência.

Por causa dessa legislação, Cuba permaneceu em relação desigual com os Estados Unidos até 1933. Foi quando ocorreu a chamada Revolta dos Sargentos, comandada por Fulgêncio Batista. Batista passou os anos seguintes mantendo sua influência política como chefe das forças armadas, enquanto vários presidentes se sucederam no poder. Até que, em 1940, ele foi eleito presidente. Ficou no cargo até 1944.

Mas foi a segunda passagem de Batista na presidência que ficou mais conhecida. Em 1952, o coronel concorria novamente à presidência. As pesquisas, porém, o colocavam apenas em terceiro lugar. Insatisfeito com esse quadro, a dois meses das eleições, ele liderou um golpe de Estado que o alçou novamente ao poder.

O golpe e o regime de Batista foram apoiados pelos Estados Unidos. O grande vizinho manteve sua influência por todo esse período. Multinacionais norte-americanas dominavam a indústria açucareira, bem como o setor de turismo.

Contra o regime de Batista, surgiu uma considerável oposição, com destaque para o jovem advogado Fidel Alejandro Castro Ruz. Em 1953, houve a primeira tentativa contundente de golpe ao regime de Batista, quando mais de cem oposicionistas assaltaram o quartel general de Moncada, na cidade de Santiago de Cuba, ao leste da ilha. A insurreição, porém, fracassou, culminando na morte de muitos insurgentes e prisões – dentre as quais a de Fidel. Condenados a 20 anos de prisão, os rebeldes foram anistiados por Batista em 1955, por pressão popular. Castro exilou-se no México, onde pode reorganizar suas forças e prepará-las para uma nova investida.

Em dezembro de 1956, Castro retornou a Cuba com um grupo de 83 homens, entre os quais estavam seu irmão Raul Castro e Che Guevara, a bordo do iate Granma, fortemente munido de armas e preparado para o confronto contra as forças de Batista. Assim que a embarcação chegou à ilha, pelo sul, o grupo de rebeldes começou a trilhar o caminho para Sierra Maestra. Alguns dias após o início de sua jornada, os rebeldes tiveram o primeiro confronto contra as forças de Fulgencio, que teve um saldo extremamente negativo para o grupo de Che e Fidel. Apenas cerca de 20 homens sobreviveram ao conflito e espalharam-se ao longo da serra.

A ditadura de Fulgencio era atacada e simultaneamente perdia apoio, tanto internamente quanto no âmbito internacional. Após um ataque, de outra facção oposicionista, ao palácio presidencial, Fulgencio perde apoio dos Estados Unidos, enquanto gradualmente os grupos que o apoiavam na política interna se distanciavam do ditador.

Enquanto Batista tentava manter o controle das cidades do país, Sierra Maestra tornava-se controlada pelos rebeldes, através de pequenos ataques a guarnições militares. Assim, o grupo rebelde cresceu, apesar de que ainda era muito menor que as forças governamentais. Não obstante essa grande disparidade, os homens de Fidel eram sempre um grande problema para Batista. Através de táticas baseadas sobretudo em fatores psicológicos, faziam o exército recuar em suas batalhas. Além disso, em 1958, o exército cubano passou a lidar com um embargo de armas por parte dos EUA. A força aérea do país, por consequência, deteriorou-se rapidamente.

A partir da metade de 1958, após Batista ter promovido uma fracassada ofensiva a Sierra Maestra, a resistência armada iniciou seu próprio movimento de ataque. Essa operação foi muito bem coordenada e teve como alvo quatro regiões estratégicas do país. Em 31 de dezembro de 1958, houve a batalha de Santa Clara, cidade que acabou conquistada pelos rebeldes. As províncias centrais do país também foram alcançadas. O ditador Fulgencio, diante dessas notícias, fugiu para a República Dominicana nas primeiras horas de 1959. No dia seguinte, as forças revolucionárias chegaram a Havana e tomaram o poder. A revolução cubana havia se iniciado.

Os primeiros passos da revolução

Fidel Castro em visita aos Estados Unidos em 1959. Foto: Wikimedia Commons.

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O sucesso inicial da revolução cubana deveu-se ao apoio de diversos setores da sociedade. Quando Castro e seus companheiros chegaram ao poder, a revolução ainda era sustentada pela coalizão de alguns grupos moderados, que incluía parte da classe média urbana, e outros mais radicais. Portanto, a revolução cubana consolidou-se como socialista apenas mais tarde, de acordo com os acontecimentos posteriores.

Uma das primeiras ações de Fidel Castro após ascender ao poder foi criar um Executivo colegiado, formado por um presidente da república (Manuel Urrutia), um primeiro-ministro (José Miró Cardona) e um chefe das forças armadas (o próprio Fidel). As execuções em massa promovidas logo após o estabelecimento do novo regime começaram a denegrir sua imagem, interna e externamente. Em abril de 1959, Castro chegou a viajar aos Estados Unidos, para garantir ao presidente Eisenhower a intenção de manter boas relações diplomáticas. Entretanto, as tensões com o novo regime cubano já haviam se iniciado, por conta do anúncio de medidas como a nacionalização de empresas norte-americanas na ilha. Iniciou-se, então, um longo período de inimizade entre ambos os países. Os Estados Unidos também receberam muitos dos exilados da revolução comandada por Castro.

Ainda em 1959 – ano em que, além dos fuzilamentos, foram promovidas uma reforma agrária e uma reforma urbana – surgiram as primeiras dissidências da revolução cubana. Em outubro daquele ano, Huber Matos, comandante militar e proeminente figura da revolução, renunciou ao posto que ocupava em uma província cubana e demonstrou suas preocupações com a crescente influência dos comunistas no governo. Alguns meses mais tarde, ele foi condenado a 20 anos de prisão por traição e conspiração.

Após um ano de governo, vários ministros de Fidel haviam deixado o governo, entre eles o primeiro-ministro Cardona. O cargo passou a ser ocupado por Fidel Castro. Essa conjuntura representou o fim da coalizão entre alas as moderadas e radicais da revolução. Enquanto o grupo moderado afastava-se, ocorria uma forte adesão dos comunistas.

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Origens do embargo econômico

Em maio de 1959, Fidel agravou as tensões com os EUA ao proclamar a reforma agrária, que, dentre diversas medidas revolucionárias, proibia a posse de terras cubanas por parte de estrangeiros, o que colidia com os interesses das companhias exploradoras de cana de açúcar norte-americanas. Muito se criticou essa medida, tanto nos EUA, quanto em solo cubano.

O governo Eisenhower passou a planejar uma política anti-Castro. Em março de 1960, tornaram-se públicas as pretensões dos EUA de estabelecer embargos para o açúcar – o principal produto da economia cubana -, exportações de petróleo e de armas. Os Estados Unidos, à época, importavam o equivalente a um terço de seu consumo de açúcar da ilha caribenha, o que evidencia a dependência cubana das relações comerciais com os vizinhos norte-americanos.

A partir de então, Cuba estreitou substancialmente suas relações com a União Soviética. Segundo o historiador Olivier Dabène, Castro conseguiu dos bolcheviques uma ajuda de 100 milhões de dólares e um acordo de compras anuais de 4 milhões de toneladas de açúcar cubano. Ademais, Cuba passou a importar o petróleo soviético a um preço muito mais acessível que o proveniente dos Estados Unidos ou da Venezuela. Porém, as refinarias norte-americanas em território cubano, por ordem do governo Eisenhower, recusaram-se a refinar esse petróleo. Castro confiscou-as, ação que atingiu refinarias das grandes petroleiras Texaco, Esso e Shell. A retaliação dos EUA foi reduzir as quotas de açúcar cubano em 95%. A resposta de Fidel foi estatizar todas as empresas estadunidenses estabelecidas em Cuba.

Junto a isso houve a estatização maciça de companhias cubanas, incluindo todos os bancos do país. Os Estados Unidos eliminaram o que ainda restava da quota de açúcar cubano, cerca de 700 mil toneladas, cuja compra foi rapidamente assumida pelos soviéticos. No dia 19 de outubro de 1960, Eisenhower declarou um embargo unilateral a todas as exportações a Cuba e, em janeiro seguinte, romperam-se as relações diplomáticas dos Estados Unidos com o país caribenho. Para os norte-americanos, estava claro que o governo Castro era comunista, o que era reforçado pela aliança cada vez mais firme com a URSS.

O embargo total das relações comerciais entre EUA e Cuba iniciou-se em 1962, quando Kennedy ampliou as medidas tomadas por Eisenhower. Em 1963, após a crise dos mísseis, também se iniciaram as restrições de viagens de cidadãos americanos à ilha.

Conspirações contra o regime cubano

Ex-presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy. Foto: Wikimedia Commons

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Ainda durante a administração Eisenhower, a CIA já havia começado a planejar golpes ao regime revolucionário de Cuba. O governo seguinte, do presidente John F. Kennedy, herdou essa questão. Em abril de 1961, houve uma tentativa de invasão de Cuba, através da Baía dos Porcos, por parte de um grupo anti-Castro – o presidente Kennedy proibiu que seu exército se envolvesse. Mas a insurgência caiu por terra, pois os invasores foram recebidos pelas tropas castristas e não contaram com cobertura aérea dos EUA. O episódio da Baía dos Porcos deixou claras as intenções norte-americanas, no sentido de utilizar todos os meios para derrubar o regime socialista cubano.

A Crise dos Mísseis

Navios e aeronave das forças armadas dos Estados Unidos durante crise dos mísseis. Foto: Wikimedia Commons

O apoio da URSS a Cuba não tardou em avançar para o plano militar. Ainda no início dos anos 1960, tentou-se executar um projeto de instalação de mísseis de médio alcance na ilha. Isso foi recebido como uma ameaça intolerável para os Estados Unidos. Armas nucleares soviéticas foram, de fato, instaladas em solo cubano, o que chegou rapidamente ao conhecimento do governo estadunidense. O mundo esteve muito próximo de um confronto nuclear em outubro de 1962, quando um avião norte-americano foi interceptado no espaço aéreo cubano, onde buscava fotografar as instalações bélicas da URSS.

Negociações secretas evitaram que um evento potencialmente tão catastrófico acontecesse. A URSS aceitou retirar seus mísseis da ilha caribenha com a garantia de que os EUA não atacariam Cuba, além da retirada de mísseis estadunidenses instalados na Turquia. O episódio ficou conhecido como a crise dos mísseis.

Reflexos da revolução na América Latina e nos Estados Unidos

A revolução cubana traria profundas agitações às sociedades latino-americanas. Ela criou pânico entre as classes dirigentes da região, pois demonstrou que era possível promover mudanças sociais no subcontinente mesmo sem o aval dos Estados Unidos. No final dos anos 1960 e início dos 1970, surgiram vários governos que se opunham à hegemonia norte-americana na região, como no Peru, na Bolívia, no Chile, na Argentina e no Uruguai.

Aparentemente, a revolução cubana havia convencido muitos políticos norte-americanos a adotar, para a América Latina, uma política externa pautada pela diplomacia, em substituição do uso da força. O presidente Kennedy propôs a autoridades da região a Aliança para o Progresso, que consistia na execução de uma série de reformas estruturais e na instauração e consolidação da democracia no continente.

A preocupação norte-americana em difundir o modelo democrático, contudo, entrava em conflito com as necessidades de estabilidade política e defesa de seus interesses na região. Frente aos governos que se levantavam contra o controle estadunidense na América Latina, o apoio a golpes militares – como o ocorrido no Brasil em 1964 – foi uma prática comum. Frente à ameaça de expansão castrista no continente, esses grupos pareciam uma sólida prevenção. A assistência militar norte-americana a países latino-americanos aumentou consideravelmente na administração Kennedy. Assim, os anseios de grupos conservadores foram atendidos.

Em 1962, com aval dos Estados Unidos, Cuba perdeu sua condição de membro da Organização dos Estados Americanos (OEA). O rompimento das relações diplomáticas de países americanos com Cuba foi reforçado pela OEA nos anos seguintes.

Desenvolvimento da Revolução Cubana

Che Guevara em Las Villas, Cuba, em 1958. Foto: Wikimedia Commons

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Enquanto Cuba aprofundava suas relações com a União Soviética – vários acordos generosos foram feitos entre ambas as partes ao longo da década de 1960 – ocorreu um rearranjo da ordem política interna, que institucionalizou as novas facetas incorporadas à revolução cubana, que havia se tornado evidentemente socialista. Em 1965, foi fundado o Partido Comunista Cubano, sob o comando de Fidel Castro. No ano seguinte, o governo cubano deu mostras de sua posição de liderança frente aos grupos de esquerda na América – e também no resto do mundo – ao receber em seu território o Congresso Tricontinental, que reuniu os maiores movimentos revolucionários da Ásia, da África e da América Latina. Em 1967, fundou-se em Havana a Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), cujo maior objetivo, mesmo que não declarado, era a formação e o apoio a pequenos grupos guerrilheiros de inspiração revolucionária.

A retração do apoio a ações guerrilheiras começou a declinar a partir de 1968, principalmente pelo pouco sucesso conquistado por essas ações. Um dos líderes mais icônicos da revolução, Ernesto Che Guevara, morreu em outubro de 1967, em batalha contra tropas bolivianas. A partir de então, Cuba passou a adotar uma política moderada em relação aos regimes mais conservadores do continente americano, mas isso apenas isolou ainda mais a ilha caribenha. Cuba esforçou-se então para continuar a construir uma economia socialista em seu território, apoiando-se principalmente na ajuda soviética.

Ao longo dos anos 1970, os EUA até buscaram, em efêmeros momentos, o diálogo com Cuba. Na década seguinte, porém, o governo republicano de Ronald Reagan não foi nem um pouco amigável com o regime castrista, o que resultou na manutenção e recrudescimento do embargo econômico nas décadas seguintes.

No próximo texto, vamos mostrar como está Cuba hoje, mais de 50 anos após a revolução cubana liderada por Fidel Castro. 

Referências

SIERRA, J. A. Economic Embargo Timeline. Disponível em: http://www.historyofcuba.com/history/funfacts/embargo.htm Acesso em: set. 2011.

Timeline: post-revolution Cuba. Disponível em: http://www.pbs.org/wgbh/amex/castro/timeline/index.html Acesso em: set.2011.

DABÈNE, Olivier. Os impactos da revolução cubana. In: América Latina no século XX. Tradução de: MALMANN, Maria Izabel. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003, p. 137-184. Disponível em: http://books.google.com.br/books?id=jQPYaF3oaDUC&printsec=frontcover&dq=america+latina+sec+xx&hl=pt-BR&ei=5seJTvi6I6ju0gGO_tDwDw&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=2&ved=0CDEQ6AEwAQ#v=onepage&q&f=false

BOERSNER, Demetrio. De los años sessenta a los ochenta (1968-1980). In: Relaciones Internacionales de América Latina. Breve Historia. Caracas: Nueva Sociedad, 1998. Cap. 10, p. 227-254.

BBC: linha do tempo da revolução cubana

Publicado em 02 de dezembro de 2016.

Bruno André Blume

Bacharel em Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e editor de conteúdo do portal Politize!.