Geopolítica do The Crown: a monarquia parlamentar e o Commonwealth

Você sabia que ainda existem 28 monarquias no mundo hoje? Tente se lembrar do nome dos monarcas que ocupam esses tronos. Provavelmente, o primeiro nome que pipocou na sua mente foi o de Elizabeth II, rainha do Reino Unido desde 6 de fevereiro de 1952. A famosa família real britânica já foi tema de diversos filmes e documentários. A série The Crown, no entanto, está sob os holofotes desde a sua estreia em 2016.

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Foto: Flickr

A trama de The Crown

The Crown, o drama mais caro já produzido pela Netflix, acompanha o reinado da Rainha Elizabeth desde a morte prematura de seu pai, o Rei George VI. Aos 25 anos, Elizabeth assumiu o trono do Reino Unido e a liderança dos Estados membros do Commonwealth, a Comunidade das Nações. A série trata tanto da vida íntima da família real, quanto dos acontecimentos políticos que são mais do que um pano de fundo para a história.

A primeira temporada da série começa em 1947, com o casamento de Elizabeth com o príncipe Philip da Grécia e Dinamarca, hoje Duque de Edimburgo. Cinco anos depois, é obrigada a assumir o trono e a encarar um parlamento composto por líderes políticos que a respeitam, mas a consideram despreparada para tarefa. Ela própria não se sente pronta para discutir os assuntos que dizem respeito à Coroa, mas amadurece à medida que encara crises históricas. A grande névoa de poluição que cobriu Londres em dezembro de 1952 é um bom exemplo de crise enfrentada durante seus primeiros anos como rainha.

Há 66 anos no trono, Elizabeth II é a monarca mais longeva da história. Analisar seu reinado é uma forma de entender mecanismos políticos importantes, como o papel da rainha em uma monarquia parlamentar e no Commonwealth, hoje composto por 53 Estados.

O que é uma monarquia parlamentar?

A monarquia parlamentar é um sistema político no qual os poderes do monarca são limitados pelo parlamento, um governo organizado constitucionalmente e eleito pelo povo. Ela se difere da monarquia absolutista pois, nesta última, o poder está concentrado apenas nas mãos do soberano.

Na Inglaterra, a primeira tentativa de limitar os poderes do rei ocorreu em 1215 com a promulgação da Magna Carta – até então, o país era uma monarquia absolutista. O documento foi assinado pelo rei João, que entrou em acordo com o Papa e os barões ingleses. Aos poucos, a ideia de um Parlamento começou a tomar forma no país, que foi o berço do parlamentarismo. Neste texto, explicamos com detalhes como funciona esse sistema político.

É importante notar que existem dois tipos diferentes de parlamentarismo:

  • República parlamentar: há um chefe de governo, geralmente chamado de primeiro-ministro, que é indicado pelo parlamento e realmente chefia o poder executivo. O chefe de Estado, por sua vez, é o presidente. Ele tem poderes limitados e, muitas vezes, simbólicos. Seu papel é representar a legitimidade e continuidade do governo.
  • Monarquia parlamentarista: o chefe de governo é o primeiro-ministro, assim como na república. O chefe de Estado é o monarca, detentor de poderes limitados e simbólicos. Esta é a posição de todos os reis e rainhas da Inglaterra desde 1688, quando James II perdeu a Revolução Gloriosa para o parlamento. A partir de então, tudo o que o soberano (nesse caso, a rainha) faz é orientado por “recomendações” do gabinete que comanda o Parlamento Britânico.

Para entender melhor esses dois modelos: chefe de Estado e chefe de governo: qual a diferença?

A monarquia inglesa hoje

Hoje, a monarquia parlamentarista inglesa funciona assim: os cidadãos participam de eleições livres para eleger os membros da Casa dos Comuns, a câmara mais importante do Parlamento Britânico. Os parlamentares eleitos recomendam à rainha o nome de alguns integrantes para formar o gabinete responsável por comandar o reino em seu nome. Essa recomendação é sempre aceita pela rainha, assim como todas as decisões tomadas pelos membros ao longo do mandato, como sancionar leis ou demitir o primeiro-ministro.

A rainha e os primeiros-ministros

Quando Elizabeth II assumiu o trono, o primeiro-ministro era Winston Churchill, um político que fez história durante sua atuação durante a Segunda Guerra Mundial. Em The Crown, a rainha governa ao lado de um Churchill já idoso e com um Estado em crise. Na época, existiam diversas conspirações internas para depor Churchill, já que muitos duvidavam de sua capacidade de governar.

Churchill acaba por renunciar ao mandato em 1955, mas não sem antes afirmar que a rainha finalmente estava pronta para seguir no trono sem a necessidade de seu apoio. A relação entre os dois foi um ponto de destaque na primeira temporada. No início, ele parecia duvidar de sua capacidade. Mas no final, a admirava, de acordo com a International Churchill Society. Na série, Churchill chega a dizer para Elizabeth II que a Inglaterra viveu períodos de prosperidade e conquistas sob o cedro de suas rainhas, como a rainha Victória e a rainha Elizabeth I. Bom incentivo para uma mulher jovem que precisa lidar com dezenas de políticos em plena década de 1950, não é mesmo?

Até hoje, 12 primeiros-ministros já trabalharam ao lado da rainha. Atualmente, quem ocupa o cargo é Theresa May, integrante do Partido Conservador.

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Foto: Churchill e Rainha Elizabeth II/ Domínio Público do Reino Unido

O que é o Commonwealth?

As raízes do Commonwealth surgiram ainda na época do Império Britânico, quando os países membros eram governados pelo Reino Unido. Aos poucos, certas nações foram obtendo sua independência, mas desejavam conservar a monarquia britânica como Chefe de Estado. Para manter a unidade e a fidelidade à Coroa, o Estatuto de Westminster criou, em 11 de dezembro de 1931, o British Commonwealth of Nations (Comunidade Britânica de Nações).

Seu objetivo inicial era suavizar o processo de independência da colônias. Pelo Commonwealth, os países colonizados e o Reino Unido manteriam uma unidade global por meio da linguagem, história e cultura compartilhadas.

O Commonwealth como conhecemos hoje ganhou forma em 1949, dois anos após a independência da Índia do Reino Unido. Suas diretrizes foram estabelecidas na “Declaração de Londres”, durante uma reunião de chefes dos Estados integrantes. A partir de então, os países membros seriam livres e igualmente associados, trabalhando em grupo para o interesse comum dos seus cidadãos.

Muitos dos países integrantes do Commonwealth se tornaram repúblicas, enquanto outros ainda reconhecem a Rainha Elizabeth II como sua soberana. Conhecidos como “Reinos do Commonwealth”, esses Estados também são monarquias parlamentares. São eles: Reino Unido, Antígua e Barbuda, Austrália, Bahamas, Barbados, Belize, Canadá, Granada, Jamaica, Nova Zelândia, Papua Nova Guiné, São Cristóvão e Nevis, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Ilhas Salomão e Tuvalu.

O Commonwealth hoje

Hoje, o Commonwealth abriga 2,4 bilhões de pessoas. Sua meta principal é promover o bem-estar de todos os integrantes e seus interesses compartilhados globalmente. Seus principais objetivos são ajudar em negociações comerciais, incentivar o setor de pequenas empresas, apoiar a participação de jovens e mulheres na política e assim por diante.

A família real, incluindo a rainha, faz visitas regulares aos países integrantes do Commonwealth. Em The Crown, logo no início da série, acompanhamos Elizabeth em uma turnê com destino à Austrália e Nova Zelândia via Quênia. É neste país africano, inclusive, onde ela fica sabendo sobre a morte do seu pai e seu novo status de rainha. Já na segunda temporada, o príncipe Phillip viaja por diversos países, como Papua Nova Guiné. Durante essas viagens, o casal visitava os integrantes da Comunidade das Nações.

Algumas das nações que o integram hoje, como Ruanda, nunca foram colônia do Reino Unido. Por outro lado, há antigas colônias britânicas que não o integram, como os Estados Unidos.

As crises geopolíticas em The Crown

Quando o Rei George VI pede que a filha faça a turnê pelos países do Commonwealth em seu lugar, sua intenção era prepará-la para assumir o trono. Essa atitude mostra como a Comunidade das Nações é importante para a monarquia britânica. No papel de rainha, Elizabeth II enfrentou diversas crises e obstáculos para manter a unidade dos Estados e algumas delas são abordadas em The Crown.

Durante seus primeiros anos de mandato, Elizabeth II precisou lidar com a renúncia de primeiros-ministros e diversas crises internas e externas. Tais crises são retratadas nas duas temporadas. Dois exemplos de crise aconteceram no Egito e em Gibraltar:

  • Proclamação da República no Egito

No ano em que a rainha assumiu o trono, o país era uma monarquia independente do Reino Unido – ou seja, tinha seu próprio monarca. No entanto, a influência da coroa britânica ainda existia. Naquela época, o país estava em crise e os protestos antimonarquia se espalhavam por todo o território, o que poderia influenciar outras nações africanas. O país finalmente tornou-se uma república quando o coronel Gamal Abdel Nasser e outros militares depuseram o rei Farouk. Tal personagem histórico aparece no fim da primeira temporada, prestando uma visita ao então primeiro-ministro Anthony Eden.

  • Gibraltar: território britânico

A questão de Gibraltar foi outro acontecimento histórico retratado na série. A região fica localizada no sudoeste da Espanha, no estreito de mesmo nome. Em 1954, a rainha viajou até lá para marcar os 250 anos de domínio do território, que fora conquistado pelos ingleses em 1704. Entretanto, sua visita acabou gerando tensão entre o Reino Unido e o ditador espanhol Franco. A Espanha nunca deixou de reivindicar Gibraltar, que continua sendo um território britânico até hoje.

Durante as duas temporadas, os personagens citam diversas vezes as antigas colônias, como a Rodésia (atual Zimbábue). O processo de independência das colônias britânicas pode ser chamado de “descolonização britânica”. Ainda que o foco principal sejam os dramas internos da coroa e da família real, é impossível dissociar os acontecimentos políticos das crises pessoais da rainha. O papel de monarca, como citado pela protagonista, é um emprego para a vida toda.

O papel da família real na política

Foto: Prince Harry e Meghan Markle/ Flickr

A família real britânica é a mais famosa do mundo e tem status de celebridade. No dia 22 de maio, o casamento do príncipe Harry com a atriz estadunidense Meghan Markle foi transmitido online por diversas emissoras de televisão.

Muitos questionam o papel da monarquia hoje, afirmando que a manutenção do seu estilo de vida traz altos custos financeiros para os cidadãos britânicos. Outros valorizam seu papel simbólico, assim como a renda gerada pelo turismo. Afinal, muita gente visita o Reino Unido para ver de perto onde vive uma rainha de verdade.

No entanto, é fato que a família real britânica assistiu à queda de diversas monarquias enquanto se mantém no poder. Para isso, foi preciso se reinventar e abraçar tradições modernas. O próprio casamento do príncipe Harry com uma atriz divorciada, feminista e filha de uma mulher negra é prova de que a monarquia precisa se adaptar para sobreviver.

Nas duas primeiras temporadas de The Crown, assistimos a alguns dos dilemas e escolhas enfrentados por Elizabeth II com o objetivo de modernizar a monarquia. A transmissão de sua coroação em 1953, por exemplo, foi um marco. Nas próximas temporadas, devemos presenciar novas crises e passos em direção a um futuro que continua alternando entre o conservador e o moderno.

Que tal assistir a The Crown e acompanhar as discussões históricas e políticas retratadas?

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Referências do texto: confira aqui onde encontramos dados e informações!

Publicado em 12 de julho de 2018.

Camila Luz

Formada em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero com um pé nas ciências sociais. Trabalha como repórter, redatora e produtora de TV, além de atuar como voluntária na ONG Fly Educação e Cultura e redatora voluntária no Politize! É apaixonada por geopolítica, música e viagens e aspirante à poliglota.

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