Marxismo cultural: o que é isso?

marxismo cultural - estátua de karl marx

(Estátua de Karl Marx inaugurada em sua cidade natal na Alemanha, em 2018)

Na atual situação de polarização política presente no Brasil e no mundo, diversos temas têm dividido a população. No Brasil, uma temática em especial tem chamado a atenção: de um lado, algumas pessoas apontam a existência de um movimento ideológico chamado marxismo cultural, cujo objetivo seria converter, a partir de valores culturais, a sociedade em um modelo comunista; do outro, há aqueles que afirmam que o termo é uma invenção do setor ultraconservador da direita e que este plano não existe nas teorias escritas por Karl Marx ou outros filósofos marxistas. Mas afinal, existe ou não um marxismo cultural? É o que vamos debater neste post!

O que seria o marxismo cultural e quem aponta sua existência?

A expressão marxismo cultural, da forma que é compreendida hoje, teve origem nos Estados Unidos, na década de 1990, quando Michael Minnicino escreveu o artigo New Dark Age: Frankfurt School and ‘Political Correctness’, publicado na revista Fidelio do Schiller Institute. A partir de então, outras pessoas do setor mais conservador da direita da época passaram a discutir o termo e disseminar a teoria.

O nome deriva do termo bolchevismo cultural, teoria que se popularizou durante a ascensão do nazismo para denunciar movimentos modernistas nas artes da Alemanha, especialmente a arte abstrata e a arquitetura de Bauhaus. A associação de arte moderna com o bolchevismo (doutrina do marxismo revolucionário russo pregado por Lênin) circulou na direita e nos discursos nacionalistas da época, especialmente entre Hitler e os nazistas, que consideravam o modernismo uma arte degenerada.

Ao chegarem ao poder do governo alemão, os nazistas suprimiram as obras modernistas, dando lugar à arte nacional com temáticas propagandistas (que promovessem o governo de Hitler) e sobre a supremacia racial ariana. Estudiosos afirmam que o bolchevismo cultural era uma nomenclatura usada pelos nazistas para sufocar toda produção intelectual que não se colocasse a serviço de suas tendências políticas.

De acordo com aqueles que defendem que existe um marxismo cultural, o termo designa, basicamente, uma estratégia para que uma sociedade saia do capitalismo e chegue ao comunismo, ou seja, um plano para a dominação da ideologia marxista. Isso não aconteceria pelo uso da força e da revolução armada, já que os seguidores do marxismo teriam percebido que tal método fracassara. A revolução cultural, como essas pessoas chamam, se daria através de mudanças gradativas na cultura da nação e pela implementação dos dogmas da esquerda nos indivíduos. Dessa forma, o comportamento e a mentalidade – incluindo a visão política – da população seria alterada, abrindo portas para que o comunismo fosse instaurado.

No entanto, o chamado marxismo cultural, apesar do nome, não é baseado nas ideias de Karl Marx, já que o filósofo não descreveu em suas obras esse tipo de estratégia, nem partilhava de tal ideologia. Segundo Marx, a revolução para ascensão ao comunismo seria feita pela tomada dos meios de produção pelo proletariado, e não por meio da cultura de uma nação.

marxismo cultural - antonio gramsci

(O filósofo marxista Antonio Gramsci)

A ideia de marxismo cultural faz alusão, na verdade, à visão de outro filósofo, Antonio Gramsci, que fez uma releitura das ideias de Marx e formulou um marxismo diferente do “original”, reduzindo o peso do materialismo dialético. Este conceito faz referência a uma abordagem usada por Marx, fundamental para a sustentação de sua teoria.

O materialismo dialético de Marx diz que as relações econômicas (capitalistas x proletariado) determinavam a moral, a política, o direito, a religião, a família e a estética (enfim, a cultura) da sociedade. Gramsci, por outro lado, acreditava no contrário: é a cultura burguesa que determina que as relações econômicas sejam capitalistas. Nesse sentido, Gramsci formulou a teoria da hegemonia cultural, que descreve como o Estado usa, nas sociedades ocidentais, as instituições culturais para conservar o poder.

Além de Gramsci, a Escola de Frankfurt também é tida como responsável pela formulação desse plano. Formada por filósofos neomarxistas – ou seja, que se inspiravam em alguns ideais marxistas, mas, assim como Gramsci, questionavam a doutrina original e formulavam suas próprias teorias, os filósofos dessa escola (como Max Horkheimer, Theodor W. Adorno e Herbert Marcuse) teciam críticas à aplicação do marxismo tradicional, como era feito na União Soviética, por exemplo. Além disso, eles eram opositores ferrenhos dos regimes fascistas e nazistas.

A Escola de Frankfurt criticava também a indústria cultural, por acreditar que ela manipula o público e transmite a cultura e ideologia da classe dominante – no caso, da burguesia.

Na indústria cultural, segundo os frankfurtianos, o consumo dos meios de comunicação em massa é feito de forma passiva e, em vez de formar leitores críticos, produz a alienação da população. Os filósofos analisam ainda como os bens culturais se transformam em mercadoria no sistema capitalista, fazendo uma massificação da cultura e uma homogeneização dos comportamentos da sociedade. Ou seja, a cultura de massa, de acordo com a visão deles, levaria ao prolongamento da alienação e dos modos de dominação ideológica da classe dominante sobre a classe trabalhadora.

Essa escola filosófica elaborou também a teoria crítica, um pensamento que visa criticar e mudar a sociedade como um todo, criando indivíduos racionais e livres, que se emancipem através do conhecimento e promovam mudanças positivas nas condições que afetam a vida em sociedade. Além disso, a teoria crítica examina as condições sociais do meio para revelar estruturas ocultas que oprimem diversos grupos sociais e entende que a sociedade contemporânea capitalista domina e manipula não só a economia, mas também a cultura.

Partindo do princípio de todos esses filósofos (Gramsci e os frankfurtianos) de que a cultura modela a mentalidade e a visão política das pessoas, a interpretação que alguns setores conservadores norte-americanos fizeram é de que esses teóricos desejavam infiltrar as ideias marxistas nos canais institucionais, como a educação e a mídia. Dessa forma, de acordo com os que acreditam na existência da teoria do marxismo cultural, os marxistas fariam com que os indivíduos fossem obedientes e extinguiram qualquer pensamento independente, para que não corresse o risco de discordar das ideias impostas.

Os frankfurtianos também concluíram que a religião – em especial a Igreja Católica – servia para abafar o fervor revolucionário e espalhar uma “falsa consciência” de que não havia opressão e dominação. Por isso, a análise feita pela direita foi de que os marxistas queriam a destruição dos valores tradicionais ocidentais e cristãos, o que seria um passo fundamental para desestabilizar o capitalismo.

E quais seriam os valores que o marxismo cultural estaria tentando implementar?

De acordo com quem afirma que existe um marxismo cultural, esse movimento estaria tentando implementar causas progressistas, geralmente defendidas pela esquerda, como por exemplo as questões de gênero (chamada também de ideologia de gênero), a cultura do politicamente correto, a defesa dos direitos das minorias (LGBTQIs, mulheres, negros, índios, deficientes, etc), a liberdade sexual e o multiculturalismo.

Alguns exemplos de atitudes que fariam parte desse plano com o objetivo de “destruição do capitalismo” seriam a naturalização da homossexualidade, do feminismo, da transsexualidade, além da promoção da educação sexual em escolas e da disseminação de pautas sociais, especialmente entre os jovens.

Ainda segundo os que acreditam que existe uma teoria do marxismo cultural, os marxistas enxergariam a família como um inimigo, pois ela é a primeira identidade moral que os indivíduos são inseridos. Por isso, acreditam que um dos objetivos do marxismo cultural seria a destruição da família e das bases culturais tradicionais do Ocidente, com a subversão aos princípios cristãos e a valorização da homossexualidade e outros valores considerados “degenerados”.

Quem aponta que o marxismo cultural não existe?

Por outro lado, um outro grupo de pessoas discorda da existência do marxismo cultural e aponta que essa é uma teoria da conspiração criada pela direita conservadora norte-americana (que se espalhou entre os setores conservadores de outros países) por meio da distorção dos fatos históricos e dos pensamentos dos filósofos, usados erroneamente como argumento para justificar um plano inexistente.

Não seria a primeira vez, contudo, que esse tipo de teoria da conspiração circularia em grande escala pelo Brasil. A “ameaça comunista” foi utilizada como justificativa para instauração de regimes ditatoriais em dois momentos de nossa história:  A ditadura varguista empregou o chamado Plano Cohen – forjou um plano de tomada de poder pelos comunistas no Brasil para justificar a instauração do Estado Novo. De forma semelhante, em 1964, uma suposta ameaça comunista também foi utilizada para justificar o Golpe Militar.

A popularidade da Revolução Cubana entre parte da esquerda brasileira fez com que muitos brasileiros acreditassem que estava sendo articulado uma mobilização das massas para uma luta armada.  Anos mais tarde, porém, descobriu-se que não havia, de fato, um risco real da implementação do comunismo no país.

O argumento, portanto, é de que a própria invenção dessa teoria sobre a existência de um marxismo cultural seria uma tentativa de gerar caos entre a população e implementar outra ideologia – no caso, a da direita ultraconservadora – nos meios culturais, desempenhando justamente o papel que acusavam a esquerda de desempenhar.

O objetivo, segundo os progressistas, seria deslegitimar as pautas alavancadas pelo setor progressista, como as já citadas – feminismo, respeito aos direitos das minorias, movimentos sociais, ações afirmativas, etc… Como fazer isso? Elencando todas as pautas não conservadoras como “marxistas”, como um inimigo a ser combatido em nome da extinção de um plano comunista irreal.

O setor progressista defende ainda que essas causas não são – ou não deveriam ser – inerentes à esquerda, pois o respeito a todas as pessoas, independente de gênero, orientação sexual, raça, religião, origem ou condição é baseado nos direitos humanos de todos os cidadãos e não em estratégias políticas, muito menos no comunismo.

Assim, afirmam que apoiar causas progressistas não é necessariamente sinônimo de ser alinhado com a ideologia política ou os partidos da esquerda e que a ala da direita também pode – e, segundo eles, deve – defender essas pautas.

Por isso, políticas públicas e ações afirmativas que buscam compensar as vulnerabilidades sociais de determinados grupos não são, de acordo com essas pessoas, parte de um plano para a implementação do comunismo, mas sim uma maneira de garantir direitos que nem todos os cidadãos possuem.

Para saber mais!

Se quiser saber mais sobre assuntos relacionados ao marxismo cultural, recomendamos a leitura de outros posts:

E você, o que pensa sobre a teoria do marxismo cultural? Acredita nesse plano? Conte para nós nos comentários! Mas não se esqueça da importância de respeitar todas as pessoas, inclusive aquelas com opiniões das quais discordamos. 🙂


Isabela Petrini Moya
Assessora de conteúdo no Politize! e graduanda de Jornalismo pela Universidade  Federal de Santa Catarina (UFSC). Acredita no poder da comunicação e da educação como   ferramentas para a construção de uma sociedade mais informada e de uma realidade mais democrática.

 

REFERÊNCIAS
Educabras: Escola de Frankfurt e teoria crítica
Wikipedia: Marxismo cultural
Tese Onze: Gramsci, Marcuse e o marxismo cultural (Youtube)
Marxismo cultural: entenda! Por Kim Kataguiri (Youtube)
Dois dedos em teologia: Entenda o que é marxismo cultural (Youtube) 
Lobo Conservador: o que é o marxismo cultural? (Youtube)
Mises Brasil: A Escola de Frankfurt e o marxismo cultural
Vice: Explicando o tal marxismo cultural
Época: O que motiva os ataques dos bolsonaristas ao chamo marxismo cultural
Saída pela direita:  o que é o marxismo cultural que o ministro da educação quer combater
Vice: Marxismo cultural que a direita ama
Wikipedia: bolchevismo cultural
Brasil Escola: a arte nazista e o combate ao modernismo
Curso Enem Gratuito: Indústria cultural e a Escola de Frankfurt (Youtube)
Filósofo Paulo Ghiraldelli: A Escola de Frankfurt nada tem a ver com “marxismo cultural” (Youtube)
Blog doutrina liberal: o que é marxismo cultural?
Padre Paulo Ricardo: a infiltração do marxismo cultural no Brasil
Super Abril: mito os militares impediram um golpe comunista em 1964

Teocracia: um governo fundamentado na religião

teocracia

Talvez você não conheça o termo teocracia, mas a premissa é clássica e você já deve ter visto por aí: a história de uma sociedade governada por líderes religiosos ou pessoas nomeadas por eles, que se dizem representantes de um deus, numa união total entre política e fé. Se você já leu o livro ou assistiu à série, com certeza lembrou de “O Conto da Aia” (The Handmaid´s Tale), de Margareth Atwood.

A trama criada por Atwood conta a história de mulheres vivendo sob o domínio de homens que exercem autoridade política, jurídica, ética, moral e até mesmo policial com base em preceitos bíblicos selecionados, em um regime totalitário denominado Gilead. Segundo ela própria, a obra tem base nas características de países teocráticos, e por isso é um bom ponto de partida para entendermos o que é teocracia e por que ela é um fenômeno social mais complexo do que parece.

O que é teocracia (e o que não é)

Em um Estado teocrático pleno, o governo opera sob o argumento de que são ordens divinas. A vontade do povo, em geral, fica em segundo plano se não coincidir com os interesses do sistema vigente.

Em tese, nos países teocráticos a divindade é reconhecida como o verdadeiro chefe de Estado. Na prática, quem ocupa este cargo é um governante de carne e osso que se diz seu representante, descendente ou sua própria encarnação.

Líderes teocráticos operam em uma lógica que Max Weber chamou de “ética da convicção”, na qual a convicção pessoal sobre o que é considerado verdade é o que guia suas decisões (ao contrário da “ética da responsabilidade”, onde as consequências dos atos devem ser consideradas).

Os países teocráticos se diferenciam de acordo com o contexto de sua época ou situação geopolítica, mas o que todos têm em comum é tomarem escrituras sagradas, no todo ou em parte, como mensagens da divindade, regras a serem seguidas à risca por todos.

Em muitas sociedades democráticas o sistema legislativo também é baseado na tradição judaico-cristã, e a aplicação das leis pelo poder judiciário se pauta pelos mesmos valores. Chefes do poder Executivo também tendem a deixar clara sua fé religiosa, sob risco de não serem eleitos.

Mas se até os três poderes do sistema presidencialista típico de grande parte dos países democráticos tem suas normas culturais baseadas em um conjunto de crenças religiosas, o que caracteriza um Estado genuinamente teocrático?

Teocracia

(A fé exerce papel importante também em sociedades democráticas, podendo ser expressa oficialmente. “In God We Trust” no dólar e “Deus seja louvado”, nas cédulas do Real, são demonstrações disso. Mas isso, por si só, não caracteriza um estado teocrático). 

Estado confessional, laico ou teocrático?

Em maior ou menor grau, a religião tem seu papel nos três tipos de Estados descritos a seguir.

Estado Confessional

Quando um Estado reserva um espaço importante das decisões para uma determinada religião, mas esta não tem controle total sobre as decisões políticas, ele é considerado um Estado confessional.

Há Estados confessionais com liberdade religiosa e outros onde quem não segue a religião oficial é considerado apóstata (traidor da fé vigente).

Estado Laico

Já em um Estado laicocomo o Brasil, o governo é oficialmente imparcial em relação a questões religiosas. Note que ser imparcial não significa que ele seja ateu, agnóstico ou que discrimine a fé de seus cidadãos – ele não apoia mas também não se opõe a nenhuma religião.

Estado Teocrático

Por sua vez, como já vimos, os Estados teocráticos são os mais radicais nas correlações entre religião e política. A sua parcialidade em relação a uma determinada visão de mundo religiosa foi criticada por François-Marie Arouet, mais conhecido como…

Voltaire – um iluminista contra a tirania teocrática

Hoje existem exceções, mas a teocracia nasceu como uma forma de governo que privilegiava aqueles que comungavam do credo oficial e, muitas vezes, proibia e punia a manifestação de qualquer outra forma de crença.

O filósofo iluminista Voltaire (1694-1778) se debruçou nos estudos sobre as consequências deste sistema. De acordo com ele, na antiguidade quase todas as sociedades foram governadas por protótipos de teocracia. Elas eram regidas por sacerdotes alçados ao status de reis.

O domínio espiritual se dava tão logo um deus passasse a ser reconhecido como tutor do povo. O suposto deus precisava falar à nação, e os sacerdotes eram o meio pelo qual isto se dava. Segundo os sacerdotes, os deuses davam ordens expressas que deveriam ser cumpridas sem questionamento.

Muitos sacrifícios mancharam a terra de sangue em nome da pretensa autoridade divina. Para Voltaire, as teocracias que reinaram por um longo período da história da humanidade foram responsáveis pelas mais terríveis formas de tirania. 

Evolução histórica da teocracia

A Grécia antiga ganhou a fama de “berço da democracia” por ter implementado este sistema de governo em 510 a.C, depois que Cístenes liderou uma revolta em Atenas para pôr fim a sucessivos governos tirânicos.

Considerada o início da civilização ocidental,  a democracia ateniense (do grego demo: povo + kratia: poder, governo) iniciou uma série de reformas políticas com o objetivo de estabilizar a tensão entre as classes de cidadãos.

Mas apesar da palavra teocracia também ter origem grega (théos: deus + kratia: governo) este sistema político nunca foi muito popular na terra dos deuses e heróis mitológicos. O terreno mais fértil para que ela crescesse estava no antigo Egito.

O exemplo mais famoso de divindade governante é a figura do faraó, adorado como filho do deus Amon-Rá. Não bastasse o alegado parentesco, ele também era tido como encarnação do deus Hórus, a quem eram devidas oferendas e sacrifícios que garantiriam a manutenção das boas relações com outros deuses, as colheitas e, claro, a felicidade do faraó.

Outro povo afeito ao governo divino foram os hebreus. Mas sua concepção de teocracia tinha outros contornos. Por se tratar de uma civilização monoteísta, não se aceitava a natureza divina de nenhum líder humano, cabendo a estes somente interceder junto a Javé.

Enquanto os judeus admitiam as leis que Moisés dizia ter ouvido do próprio Deus, civilizações da América pré-colombiana promoviam sacrifícios em rituais festivos para aplacar a ira dos deuses, manifestando também características de governos teocráticos.

Séculos depois, na Idade Média, muitos líderes absolutistas também se colocavam como escolhidos de Deus. Nesta época, as relações entre Estado e Igreja eram tão estreitas que não era possível saber onde começava um e terminava outra. De lá pra cá, a linha que separa teocracias plenas de outras formas de governo ficou um pouco mais borrada.

Experiências teocráticas nos dias de hoje

Os Estados teocráticos do mundo contemporâneo cultivam princípios muito diferentes dos valores que norteiam a política dos Estados laicos. A fronteira mais visível que separa estas formas de pensamento é geográfica.

Com exceções, a democracia é um fenômeno político tipicamente ocidental, ao passo que a teocracia é a forma de governo predominante no mundo islâmico (muçulmano). É destas que tratamos abaixo. Mas você pode ler também sobre uma experiência teocrática católica nos dias de hoje clicando aqui.

Estados Islâmicos

Todos os Estados islâmicos, que é como se autodeclaram os países muçulmanos (não confundir com o grupo terrorista denominado Estado Islâmico), monárquicos ou não, têm a teocracia como sistema de governo. São eles:

  • Afeganistão
  • Arábia Saudita
  • Mauritânia
  • Paquistão
  • Irã

Não por coincidência, estes países formam o epicentro de animosidades das mais diversas, desde conflitos com Israel por questões ideológicas até intervenções internacionais que têm como pano de fundo razões econômicas, mas sempre com um componente religioso envolvido.

O Irã é o caso mais peculiar, não apenas pela sua cultura persa (e não árabe), mas por ter sido palco da revolução que deflagrou a teocracia moderna na região. O governo autocrático (cujo poder é concentrado em um único governante) instaurado nos anos 50 levou os opositores do Xá Reza Pahlevi à prisão, com o apoio dos Estados Unidos. Em 1979 as lideranças da hierarquia religiosa muçulmana conhecidos como Aiatolás encabeçaram a Revolução Islâmica.

A princípio ela devolveu as esperanças ao povo iraniano mas, em pouco tempo, isolou o país majoritariamente xiita de seus vizinhos sunitas, tornando-se alvo dos EUA.

A revolução iniciada pelo Aiataolá Khomeini pôs fim a um governo autocrático, mas ao longo de quatro décadas o regime instaurado se transformou de muitas formas. Ao mesmo tempo que o Irã passou a manter milícias em países fronteiriços, também não se pode negar os interesses de nações democráticas nas reservas de petróleo localizadas no país.

Até hoje o país mantém resquícios tanto de suas origens (a língua persa é mantida como forma de resistência simbólica diante dos séculos em que foram dominados por outros povos) quanto da revolução dos aiatolás (O Irã é, até hoje, uma teocracia que baseia suas decisões sempre por meio da argumentação religiosa. A pena de morte é um dos maiores exemplos).

Ali Khamenei foi presidente do país de 1981 a 1989 e é o atual Líder Supremo do Irã. Alega ser descendente do profeta Maomé. Mas o país também elege de quatro em quatro anos o seu presidente, a segunda figura mais poderosa do governo.

teocracia

(A Sharia é o conjunto de leis escritas no Alcorão. Nos Estados Islâmicos teocráticos, ao contrário dos países ocidentais, não há separação entre leis religiosas e leis civis).

Quais são as alternativas?

No mundo todo, vozes se levantam clamando pela separação entre Estado e Igreja. São cidadãos de olho nas mazelas causadas nas teocracias por líderes religiosos que abusam do poder. Muitas destas ideias vêm do Tratado político do filósofo Baruch Spinoza.

Ferrenho defensor do Estado laico, sua tese,rejeitada por inúmeras seitas e religiões, propõe que a melhor forma de fazer prevalecer a vontade soberana do povo é garantir que ele só possa ser exercido por representantes laicos.

No entanto, ele alerta que também o poder laico pode incorrer no erro de calar a voz dos cidadãos. Por isso propõe que, independentemente do sistema político vigente, o valor máximo a ser buscado é a liberdade de expressão.

Quer formar sua própria opinião a respeito? Leia alguns dos artigos linkados neste texto, contraponha com as informações aqui apresentadas e exerça sua liberdade de expressão registrando sua opinião nos comentários!


Elias Lascoski

Bacharel em Comunicação Social. Jornalista e redator publicitário desde o milênio passado. Atualmente trabalha em Blumenau (SC) com produção de conteúdo para web.

 

 

REFERÊNCIAS

Ética da convicção: Administradores – Revolução Islâmica: Infoescola – Estamos nos tornando uma teocracia: El País – Teocracia: Toda Matéria – O poder do Irã (vídeo): Secretaria de Educação do Paraná – Grécia Antiga: Infoescola – Teocracia: Jornal da Unicamp – Voltaire: UOL – Voltaire e Teocracia: Infoescola – The Handmaid´s Tale: G1 – Baruch Spinoza – Tratado político – Voltaire – Tratado sobre a tolerância – Steven Levitsky, Daniel Ziblatt – Como as democracias morrem – Marjorie Sartrapi – Persépolis

*Foto: Reprodução/Internet*

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