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Destaque obesidade infantil no Brasil

Por que a obesidade infantil no Brasil é também uma questão política?


Crianças brincando. Conteúdo sobre obesidade infantil no Brasil.Com o decorrer do processo de industrialização, observaram-se mudanças na estrutura política e econômica, como também nos hábitos alimentares da população. Dessa forma, a sociedade no geral, mas principalmente os menores, passaram a ser influenciados por tendências midiáticas a consumirem cada vez mais alimentos não naturais.

Diante disso, constata-se o crescente quadro de obesidade infantil ao redor do mundo, questão essa que reduz a qualidade de vida e prejudica o infante em inúmeros processos de desenvolvimento.

Obesidade infantil, o que é?

Se enquadra como obesidade infantil toda criança de até 12 anos que apresenta um acúmulo de gordura corporal excessivo para o indivíduo em relação a sua idade e altura, conforme explicado pela OMS. Esse diagnóstico é geralmente feito pelo cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC), em razão da sua praticidade, porém, outros fatores podem ser analisados para diagnosticar a criança, como histórico familiar, questões genéticas, entre outros.

Existe uma alarmante preocupação em torno da obesidade entre as crianças em virtude dessa não ser um problema isolado, mas por poder provocar também inúmeros danos no sistema cardiovascular e respiratório. Ao fim, isso reduz as condições de saúde do infante e, consequentemente, a sua qualidade de vida.

Problemas e qualidade de vida

Por afetar sistemas de vital importância para o bom funcionamento do organismo, as crianças acometidas pela obesidade começam a apresentar dificuldades na realização de simples tarefas do cotidiano. Isso porque tais atividades, por mais simples que sejam,  demandam determinado esforço, equilíbrio e movimentação, o que ocorre em virtude da debilitação da área respiratória e cardiovascular.

Dessa forma, atividades como correr ou caminhar, e até mesmo dormir, tornam-se dificultosas, em virtude da obesidade gerar problemas como asma, apneia do sono, dermatite, enxaqueca e outros.

Além de problemas que podem ser solucionados com eficácia e rapidez, como as crises asmáticas que são solucionadas com o uso de nebulímetros ou popularmente conhecidas como “bombinha para asma”, a obesidade também provoca o desenvolvimento de doenças permanentes, entre elas a Diabetes mellitus e Hipertensão arterial.

Obesidade e depressão

Ademais, a obesidade infantil não se restringe à geração de problemas apenas na parte física, como também na psicológica. Diante disso, a obesidade pode estar relacionada à autoestima baixa, à depressão e à crises de ansiedade, o que pode ocorrer devido à insatisfação com a imagem corporal ou até mesmo pela dificuldade na realização de exercícios rotineiros.

De acordo com uma pesquisa realizada em 2010 no hospital-escola de Ribeirão Preto (SP), a qual buscava a ligação entre obesidade e efeitos psicológicos dessa, concluiu-se que as crianças encaixadas no grupo de obesidade apontaram 43,3% das respostas para uma nota acima do corte para depressão, enquanto as crianças fora do grupo, apontaram apenas 3,3%.Isso indica o caráter alarmante da situação e a necessidade de combate e tratamento não apenas físico, como psicológico.

Um problema no Brasil e no mundo

O dia 3 de junho é marcado pelo dia da Conscientização contra Obesidade Infantil, em virtude do avanço desse problema em diversos países, sobretudo, nos que apresentam alto grau de industrialização e consumo, onde os hábitos alimentares tornam-se cada vez mais deficitários de alimentos saudáveis. Segundo a OMS, existem atualmente 41 milhões de crianças com menos de 5 anos em quadros de obesidade.

O Brasil é classificado, juntamente com outros 3 das Américas, como um dos 10 países com os maiores índices de obesidade infantil do mundo, conforme o Panorama de Segurança Alimentar e Nutricional. Segundo o IBGE, 36,6% das crianças brasileiras estão acima do peso, o que preocupa estudantes da área, médicos, orientadores e pais acerca das causas e como solucionar essa questão que dificulta a produtividade e o pleno desenvolvimento da parcela infantil da população.

Ademais, segundo um estudo realizado pela Global Burden of Disease Study 2013, existem atualmente 671 milhões de pessoas obesas no mundo, e esse número esta distribuído apenas entre 10 países.

Entre os países com o maior número de pessoas em caso de obesidade, estão: Estados Unidos, China e Índia, além da Rússia, Brasil e México. Além disso, o estudo feito também constatou que os homens lideram a obesidade nos países ricos, enquanto as mulheres lideram nos países pobres.

De acordo com Paulo Lotufo, diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP, fatores como instrução e renda influenciam a obesidade em casos femininos, pois informa que em virtude da instrução e poder aquisitivos reduzidos, essa parcela não tem condições de prover uma alimentação variada, além disso, acrescenta a sua fala o valor reduzido dos alimentos altamente calóricos (industrializados), em detrimento dos naturais, tornando-se uma alimentação mais fácil de se manter.

Propagandas, praticidades e industrializações

Com a chegada de propagandas, anúncios e alimentos em rede fast-food, a alimentação diária das famílias começou a ser cada vez mais alterada, ficando ou mais natural ou mais “artificial”.

Dessa forma, em virtude da praticidade dos alimentos industrializados – como biscoitos, enlatados, sucos artificias e refeições preparadas – os produtos de origem natural – como verduras, legumes, carnes e outros – passaram a se fazer menos presentes na mesa das famílias ao redor do mundo. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde e analisada pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional-SISVAN, seis a cada dez jovens se alimentam mal, no qual 60% desses jovens comem alimentos industrializados regularmente.

Além da praticidade, a mídia como disseminadora de propagandas ideológicas promove o incentivo ao consumo de alimentos de origem não natural, ao exibir comerciais divulgando determinadas marcas e produtos, promovendo assim, o engajamento e inserção do público infante nessa alimentação não balanceada, o que auxilia no desenvolvimento da obesidade infantil.

Entre as estratégias utilizadas pelas empresas, encontra-se a adoção de mascotes para representar as marcas, fazendo com que essas se popularizem entre o público infantil pelo uso de figuras caricaturadas e divertidas, que são responsáveis não apenas pela transformação lúdica da marca, como também pelo engajamento das crianças.

Escolas, famílias e projetos na educação alimentar

Já pode se observar uma movimentação pelo país a respeito de uma intervenção no quadro de obesidade infantil, na qual se vê como necessária uma educação em relação a alimentação não só por pais e médicos, como também no ambiente escolar, já que é onde as crianças passam grande parte do seu tempo.

Entre os projetos que já podem ser observados, analisa-se o efetivado na escola Municipal de Educação Infantil de São Paulo, em que por meio da internet, a equipe que compõe a escola, além de dar dicas e informações a fim de fundamentar uma alimentação saudável, ainda conta também com palestras e reuniões para a conscientização de pais e mestres em relação à educação alimentar.

Ademais, observa-se um comportamento de conscientização semelhante na escola Favinho & Mel, localizada no Rio de janeiro, em que a equipe integrante aconselha os pais em relação ao que mandar para os filhos na lancheira. Segundo a fala da nutricionista da escola, Patrícia Grantham

“Também costumo orientar os pais para que deem uma olhada no cardápio e mandem lanches semelhantes ao que serviremos. Com isso, evitamos a entrada de alimentos extremamente processados, com excesso de açúcar, sal e gordura, bem como os conservantes e corantes.

Desse modo, as crianças que não se alimentam do que é oferecido na escola, também não serão submetidas a alimentos industrializados em demasiada.

Além desses projetos, observa-se também a existência de uma legislação que vigora desde 2001 em Florianópolis, e que depois se espalhou para o resto do país, a qual proíbe a comercialização de alimentos industrializados dentro dos ambientes escolares públicos e privados de educação básica. Isso, além de influenciar em uma alimentação mais balanceada e saudável, também ajuda no processo de educação alimentar. De acordo com o professor da UFSC Francisco de Assis Guedes de Vasconcelos:

“A legislação é uma maneira de proteger a saúde”

Causas e combates

A diversidade de causas para a obesidade mostra-se como uma questão problemática, sobre a qual é necessária a supervisão não apenas dos pais, como de um acompanhamento médico em casos extremos.

Ao observar o desenvolvimento das sociedades, consegue-se perceber a cada dia uma maior industrialização do que é colocado a dispor das crianças, sobretudo, na parte alimentar, sendo essa prejudicada com a chegada de refrigerantes, salgadinhos e outros produtos artificiais que passaram a substituir gradativamente os bens naturais e orgânicos.

Aliado à má alimentação, o sedentarismo destaca-se como um potencial propiciador do quadro de obesidade entre as crianças, pois com a revolução tecnológica – responsável pela introdução de videogames e formas lúdicas sem esforço – a prática de atividades físicas e que exigem movimentação demasiada passou a ser considerada ultrapassada por muitos infantes, que agora preferem ficar na sala de casa comendo enquanto jogam alguma coisa.

Entretanto, as causas desse problema não se restringem a questões alimentares e físicas. Fatores géneticos e o histórico familiar podem ser um dos contribuintes do quadro de obesidade infantil. De acordo com uma pesquisa publicada no periódico “Frontiers in Endocrinology“, foi comprovado que além de questões metabólicas, o histórico familiar mostrou-se como um importante fator, conclusão realizada após estudos com uma amostra de 250 pessoas jovens com obesidade , na qual entre as crianças analisadas, as que eram filhas de pais e avós com registros de obesidade mostravam-se mais propensas a desenvolverem os mesmos problemas.

Combates e movimentos de mobilização

Como exemplo de mobilização em prol da educação alimentar e do combate à obesidade, encontra-se o “obesidade infantil NÃO”, elaborado em 2014 pela Amil – empresa brasileira de assistência médica – que tem como objetivo aumentar a conscientização da sociedade a respeito do problema. Por meio de atividades em suas plataformas, a empresa busca convencer os responsáveis acerca da extrema importância de serem estabelecidos hábitos saudáveis tanto na alimentação como em outras áreas desde a infância.

Além disso, a Amil disponibiliza para os pais uma série de entrevistas e debates com médicos e especialistas da área, com o intuito de salientar a necessidade de engajamento na luta contra o problema.

Alimentação

Como responsabilidade dos pais, a alimentação dos menores deve ser balanceada, isso não significa que produtos industrializados devam ser completamente eliminados do cardápio, mas a moderação é necessária.

De acordo com a coordenadora de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde, Gisele Bortolini, a orientação destinada aos pais é descascar mais e desembalar menos, consumir mais alimentos in natura e evitar os alimentos ultraprocessados. Dessa forma, compreende-se que a tendência ao consumo de produtos industrializados ocorre, principalmente, em virtude da facilidade e praticidade que vem acompanhada dos alimentos processados, facilidade essa responsável por camuflar os problemas da obesidade infantil.

Exercícios

Além da alimentação balanceada, a limitação em relação ao tempo gasto em frente aos televisores e consoles de jogo faz-se essencial, de modo que a inserção dos jovens em atividades físicas como natação, corrida, futebol, entre outras, contribuem no combate ao sedentarismo e , consequentemente , à obesidade infantil.

“As crianças estão comendo menos feijão e arroz, e comendo mais alimentos ultraprocessados. Estão brincando menos, ficando muito tempo na frente das telas”- disse Gisele Bortolini.

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Publicado em 22 de outubro de 2020.

Maximus William

Redator voluntário do Politize!

destaque conass

Tudo sobre o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS)


Imagem de coração com símbolo de cruz. Conteúdo sobre CONASS.A gestão do Sistema Único de Saúde brasileiro (SUS) é tripartite, ou seja, de responsabilidade da União, dos estados e dos municípios. Em um outro texto do Politize!, explicamos mais sobre os princípios organizativos do SUS. Vem cá dar uma olhada!

Bom, e para que o sistema funcione, é necessário o diálogo entre as três esferas. Na parte estadual, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde desempenha um papel muito importante. Vamos entender mais sobre o CONASS?

O que é o CONASS?

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) é uma entidade sem fins lucrativos composta pelos Secretários de Saúde dos Estados e do Distrito Federal. É o órgão de encontro, deliberação e trocas de experiências entre os Secretários.

Ele foi criado em 1982, pelos Secretários estaduais de Saúde da época, liderados pelo então Secretário de Saúde de São Paulo, o médico Abid Jatene.

De acordo com seu estatuto, o CONASS tem como principais objetivos:

  • Dar assessoria técnica aos Secretários em assuntos sobre gestão da saúde;
  • Promover capacitação e pesquisa para aprimorar o SUS;
  • Produzir e difundir informações;
  • Incentivar a troca de experiências e as boas práticas.

O Conselho é formado por uma Assembleia Geral, uma Diretoria, uma Comissão Fiscal e uma Secretaria Executiva.

A Assembleia Geral é a instância máxima de deliberação do CONASS. É formada pelos próprios Secretários, ou seus representantes formais, e é responsável por deliberar sobre a atuação do Conselho. Para participar do CONASS, as Secretarias devem estar quites com sua contribuição institucional à entidade.

Leia também sobre a saúde pública no Brasil!

Já a Diretoria é responsável por administrar o Conselho. É formada por seis membros, sendo um presidente e um vice-presidente, um de cada região do Brasil. As eleições ocorrem em reunião da Assembleia Geral, anualmente.

Além disso, o CONASS conta com 13 Câmaras Técnicas para atender às necessidades dos Secretários, dando suporte técnico para as decisões dos gestores:

  • Atenção à Saúde;
  • Atenção Primária à Saúde;
  • Assistência Farmacêutica;
  • Comunicação em Saúde;
  • Direito Sanitário;
  • Epidemiologia;
  • Vigilância em Saúde Ambiental;
  • Gestão e Financiamento;
  • Saúde do Trabalhador;
  • Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde;
  • Informação e Informática;
  • Vigilância Sanitária;
  • Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente.

Para que serve?

O Conselho é a entidade representativa dos Secretários Estaduais de Saúde. Além de ser um espaço de apoio técnico e político aos Secretários, o CONASS representa a esfera estadual em comissões de saúde. Dessas, a mais importante é Comissão Intergestores Tripartite (CIT).

Integrada pelas três esferas do Governo (União, estados e municípios), a CIT é a instância de articulação e pactuação que atua na direção nacional do Sistema Único de Saúde. É composta por 15 membros: 5 do Ministério da Saúde, 5 do CONASS, e 5 do CONASEMS, o Conselho Nacional das Secretarias Municipais de Saúde. A representação dos estados e municípios na CIT é regional, ou seja, cada 1 dos 5 representantes é de uma região diferente do Brasil.

O CONASS é importante por funcionar como ponte de diálogo entre o Ministério da Saúde e os estados. Ele é a voz dos Secretarios Estaduais nas deliberações nacionais sobre a gestão do sistema de saúde. É um órgão necessário para a formulação, pactuação e implementação das políticas públicas em saúde no País.

CONASS na pandemia

Durante a pandemia, o CONASS vem atuando como representante dos Secretários estaduais em reuniões periódicas com o Ministro da Saúde para discussão das estratégias de combate ao novo coronavírus.

O Conselho também dá suporte técnico aos Secretários, realizando reuniões com os gestores dos estados e eventos online. Em maio, o CONASS lançou o Guia Orientador para o enfrentamento da pandemia COVID-19 na Rede de Atenção à Saúde, em parceria com o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS).

Nos últimos meses, o CONASS se posicionou contrário ao Ministério da Saúde em algumas ocasiões sobre a gestão da pandemia. No final de maio, quando o Ministério publicou documento sobre o tratamento medicamentoso precoce de pacientes com COVID-19, o Conselho publicou nota oficial afirmando que não há evidências científicas que sustentem a indicação de quaisquer medicamentos contra o novo coronavírus. O Conselho também vinha cobrando do Ministério uma posição clara sobre a necessidade do distanciamento social, cobrando também a realização de uma campanha de mídia, nacional, somada às ações dos estados e municípios.

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Publicado em 20 de outubro de 2020.

redatores

Gabriela Beltrão

 

Cientista Política pela Universidade de Brasília, Gabriela é redatora voluntária no Politize! porque acredita que é essencial democratizar o acesso ao conhecimento.

 

 

REFERÊNCIAS

CONASS

Estatuto CONASS

Nota oficial CONASS

Fiocruz: comissões intergestores tripartite

BVMS

Ministério da Saúde: o que é e sua importância

Fachada o Ministério da Saúde.

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.

Você deve ter notado que, atualmente, as notas divulgada aos brasileiros com a assinatura do Ministério da Saúde têm se tornado cada vez mais comentadas. Isso porque, com a COVID – 19, todas as orientações destinadas à população sobre prevenção, sobre como se portar e sobre medidas de isolamento, orientadas pela (Organização Mundial da Saúde), foram adaptadas para a realidade brasileira com a ajuda desse mesmo Ministério.

Da mesma forma, nos últimos meses, falas do ex-Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, foram  mencionadas em diversas páginas de notícias  jornalísticas, e após a substituição de Mandetta por Nelson Teich, outras notícias e debates sobre esse Ministério ganharam  destaque. Da mesma forma, com a precoce saída de Teich e comando interino passando ao general Eduardo Pazuello, o Ministério continuou no centro dos debates.

Mas, afinal, o que é o Ministério da Saúde e por que ele é tão importante?  Neste texto, trataremos disso e tudo mais.

O que é um Ministério?

Antes de conhecer mais de perto o Ministério da Saúde, precisamos entender sobre o que são ministérios. As chamadas “Pastas Ministeriais” são órgãos divididos por campos específicos, tais como: educação, segurança e saúde. Elas tem como função adotar e discutir sobre medidas direcionadas ao seu campo de atuação, sob o comando Ministros responsáveis e suas equipes.

Os Ministros atuam juntamente com o presidente, como um suporte. Eles têm autonomia para discutir e prover soluções acerca dos assuntos que são responsáveis, mas precisam do aval do presidente em exercício para trazê-los a população. É importante lembrar que o presidente pode trocar os Ministros, assim como criar e extinguir Ministérios.

Agora que isso já está mais claro, vejamos um pouco mais sobre o Ministério da Saúde.

Ministério da Saúde: história e criação

A saúde pública no Brasil passou por alguns períodos específicos antes de se firmar. No período colonial, por exemplo, não existiam políticas públicas voltadas diretamente para a população como um todo.

Os colonizadores, que tinham maior poder aquisitivo, eram tratados por médicos portugueses. Já os escravizados negros e índios, os quais muitas vezes eram contaminados pelas  “doenças do homem branco” (nome dado para as doenças trazidas de Portugal), dependiam de caridade e dos próprios meios para se tratar. Uma das poucas opções de atendimento a negros e índios eram as Santas Casas de Misericórdia, ligadas a Igreja Católica, que recebiam doações para se manter.

Foi somente após 1808, com a chegada da família real no Brasil, que surgiram os primeiros cursos de medicina no país, na Faculdade de Medicina da Bahia. Durante o Império, também foi criado o Instituto Vacínico (1846), assim como leis importantes, como a lei da Junta Central de Higiene Pública (1850), para controlar a tuberculose, a malária e a febre amarela.

Terminou o Brasil Império, veio a República em 1889. No início do século XX, as cidades não estavam preparadas e não tinha noções de saneamento básico, sendo centro de propagação de doenças. Nessa época, o médico Oswaldo Cruz foi o responsável por campanhas para vacinar obrigatoriamente as pessoas.

No mesmo período, criou-se na população uma ideia de que a vacinação era um risco (forma de matar a população), uma vez que não ficou esclarecido para boa parte das pessoas o real motivo das vacinas, que se deram de forma obrigatória, com autoritarismo. O movimento gerado a partir disso ficou conhecido como “Revolta da Vacina“. Posteriormente, as vacinas deixaram de ser obrigatórias para se tornar facultativas.

A importância de Oswaldo Cruz

Vale um parênteses nessa história, pois ,quando falamos de saúde pública no Brasil, não podemos deixar de falar em Oswaldo Cruz. Nascido na cidade de São Paulo e com sua ascensão na área da saúde alcançada no Rio de Janeiro, Oswaldo Cruz foi  médico, pesquisador e responsável pela saúde pública no país.

Formado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, especializou-se em Bacteriologia no Instituto Pasteur de Paris. Após estudar na Europa, Oswaldo voltou ao Brasil e dedicou-se a combater a peste bubônica, momento no qual começaram seus trabalhos mais marcantes na sociedade. Em 1903, Oswaldo foi nomeado diretor geral de Saúde Pública, cargo que corresponde hoje ao de Ministro da Saúde.

E quando surgiu o Ministério da Saúde?

Voltando a nossa história, em 1920, para coordenar melhor as ações sanitárias, foi criado o Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP). O curioso é que esse departamento estava subordinado ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Ou seja, não havia ainda um Ministério da Saúde.

Para aprofundar o conhecimento nesta parte histórica da saúde pública, o Politize! disponibilizou uma trilha relembrando a história da Saúde Pública no Brasil e a evolução do direito a saúde. Que tal dar uma olhada?

A partir da Era Vargas (1930 a 1945), mudanças significativas aconteceram na maneira de governar no Brasil. Entre outros pontos, essas mudanças se desdobraram na criação do Ministério da Saúde – em 1953, pela lei 1.920 – que passaria a executar as atividades até então de responsabilidade do Departamento Nacional de saúde Pública.

O Ministério foi criado para cuidar das funções de saúde e educação, contudo, o Ministério não possuía estrutura e formato apropriados para gerenciar os principais problemas que existiam na área da saúde, pois questões relacionadas  continuavam ligadas a outros ministérios e autarquias. Também não podemos deixar de lembrar que três anos depois (1956), pela lei 2.743 surgiu o Departamento Nacional de Endemias Rurais, cuja função era a o combate  de doenças específicas, tais como a febre amarela e a malária.

A década de 1960

Segundo o site oficial do Ministério da Saúde, nos anos 60 a desigualdade social ganhou importante dimensão no discurso dos sanitaristas brasileiros.  A grande questão era como lidar com a relação entre saúde e desenvolvimento, em um contexto de alta concentração de renda e baixa renda per capta. em torno das relações entre saúde e desenvolvimento. O que fazer então?

Em resposta a isso, em 1961, foi formulada a Política Nacional de Saúde na gestão do Ministro Estácio Souto-Maior, para redefinir a identidade do Ministério da Saúde e colocá-lo em sintonia com os avanços verificados na esfera econômico-social”.

Alguns outros acontecimentos da década 1960:

  • 1963: Realização da III Conferência Nacional da Saúde.
  • 1964: os militares assumem o governo e Raymundo de Brito firma-se como ministro da saúde e reitera o propósito de incorporar ao MS a assistência médica da Previdência Social.
  • 1967: Em 1967, ficou estabelecido que o Ministério da Saúde seria o responsável pela formulação e coordenação da Política Nacional de Saúde. Ficaram as seguintes áreas para a sua competência: Política nacional de saúde; atividades médicas e paramédicas; ação preventiva em geral, vigilância sanitária de fronteiras e de portos marítimos, fluviais e aéreos; controle de drogas, medicamentos e alimentos e pesquisa médico-sanitária.

As décadas de 70 e 80

O grande destaque da década foi reforma de 1974, na qual as Secretarias de Saúde e de Assistência Médica foram englobadas, passando a constituir a Secretaria Nacional de Saúde. Também foram criadas Coordenadorias de Saúde nas cinco regiões do país.

Já na década de 80 a Constituição Federal de 1988 determinou como dever do Estado garantir saúde a toda a população. Isso foi a base para a criação do SUS.

SUS 

O Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado em 1988, através da Constituição criada neste mesmo ano. Ela declara que é dever do estado garantir saúde a toda população brasileira. O Brasil é o único país a garantir atendimento gratuito e integral para mais de 100 milhões de habitantes. O SUS é um dos maiores sistemas de saúde do mundo. No entanto, carece de investimento financeiro, e os muitos hospitais pertencentes ao SUS encontram-se lotados.

Leia também nossa trilha de conteúdos sobre saúde pública no Brasil!

O SUS brasileiro baseia-se no formato do NHS, sigla em inglês que significa Sistema Nacional de Saúde Britânico. Criado em 1948, após a Segunda Guerra Mundial, o NHS surgiu por consequência da necessidade decorrente após a guerra, e atualmente é considerado o melhor sistema de saúde do mundo. Em 2017, o Commonwealth Fund, dos EUA, analisou  todos os países do mundo, entre eles os Estados Unidos, Canadá, Austrália, França e Alemanha; e apontou o Reino Unido (países da Grã-Bretanha mais a Irlanda do Norte) como o país com o melhor tratamento de saúde mundial.  Veja o ranking completo

Agora que já acompanhamos um pouco mais da história do Ministério da Saúde e um de seus sistemas mais importantes atualmente, podemos passar pelos acontecimentos mais recentes desse Ministério.

O que aconteceu com o Ministério da Saúde em 2020?

Na imagem, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta durante coletiva de imprensa. Conteúdo sobre Ministério da Saúde.

Ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.

A substituição do cargo de Ministro da Saúde destacou ainda mais o Ministério atualmente. Luiz Henrique Madentta foi nomeado Ministro em 2019, sendo um importante apoiadores do governo Bolsonaro. No entanto, desde o início da pandemia do novo coronavírus, falas divergentes sobre a doença e sobre a orientações de como agir marcaram a relação entre presidente e Ministro.

Enquanto Mandetta defendia o isolamento horizontal (no qual é orientado que a maioria das pessoas fiquem em isolamento), nas falas do Presidente Jair Bolsonaro, o isolamento vertical (no qual apenas um determinado grupo de pessoas permanece isolado) era sempre lembrado.

Ministério Agitado

Em um primeiro momento, houveram rumores de uma possível demissão de Mandetta, que no entanto, não ocorreu a princípio, muito por conta de receber alguns apoios, como o  de Walter Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Governo). Ambos cogitaram não ser o melhor momento para a demissão.

Em meio a isso, o secretário de Mandetta no Ministério, Wanderson Oliveira, pediu demissão (15 de abril), e não teve o pedido aceito. Mandetta, por sua vez, deu esperanças em relação a sua permanência e, entre outras falas destacou, se referindo aos participantes do ministério junto com ele: “Entramos no ministério juntos, estamos no ministério juntos e sairemos do ministério juntos” .

Porém, no dia 16 de abril, o ex-Ministro anunciou sua demissão por uma rede social. Seu substituto foi o também médico Nelson Teich.

O período Teich

Na imagem, Nelson Teich em coletiva de imprensa. Conteúdo sobre Ministério da Saúde.

Nelson Teich em pronunciamento de despedida do cargo de ministro da saúde. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.

Quem é Nelson Teich: nascido Rio de Janeiro (RJ), com graduação em medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ – 1980) e  especializações: em Medicina Interna (1985-1987) e em Oncologia Clínica (1987-1990). Fez dois cursos na área de gestão e liderança da saúde na Escola de Harvard (2005 e 2026) e outros cinco cursos estratégicos nas áreas de prestação de cuidados, mensuração de valores e gestão de projetos de saúde pela instituição no estado de Boston, nos Estados Unidos, e em Xangai, na China. Foi um dos nomes mencionados para ocupar o cargo de Ministro da Saúde em 2019.

Nelson Teich deixou o cargo no dia 15 de maio de 2020. O motivo de sua saída foi, segundo Teich em entrevista coletiva, por divergências com o presidente Jair Bolsonaro em assuntos como uso do remédio cloroquina, no qual Teich é contra, e medidas de isolamento social, no qual Teich é a favor.

A pasta seguiu sem um representante oficial, mas com um responsável interino (provisório): Eduardo Pazuello. Nascido no Rio de Janeiro e com formação militar pela Academia Militar das Agulhas Negras, Eduardo reúne um histórico vasto no militarismo. Sua experiência mais recente  foi como comandante da Base Logística Multinternacional Integrada na tríplice fronteira e como coordenador operacional da Força-Tarefa Logística Humanitária (Operação Acolhida).

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Publicado em 13 de agosto de 2020.

Redator voluntário do Politize

Milena Sant’Anna

Cristã Católica, trabalha com Educação Infantil e estuda jornalismo na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Seu  lema é: Levar a informação verdadeira para o máximo de  pessoas possíveis, pois acredita que o conhecimento sobre a verdade liberta.

 

 

REFERÊNCIAS

Governo Federal: História do Ministério da Saúde

Governo Federal: História do SUS

Veja: Bolsonaro ameaça, mas desiste de demitir Mandetta

R7: Ministro Nelson Teich anuncia ampliação da capacidade de testes

Governo Federal: Galeria de Ministros

A história da saúde pública no Brasil e a evolução do direito à saúde

Você conhece o SUS, certo? Mas já imaginou como era a saúde pública no Brasil antes de ele existir? Neste conteúdo falamos sobre a história da saúde pública brasileira, desde o período colonial, passando pelos sanitaristas, até chegar à Constituição de 1988. Leia mais a seguir!