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Excludente de ilicitude: o que isso significa?

(Fonte: Fernando Frazão/Agência Brasil)

(Fonte: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Durante a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro o termo excludente de ilicitude ganhou atenção, pois tornou-se uma bandeira levantada pelo então candidato e por muitos de seus apoiadores. Em 2019, o governo do presidente enviou duas propostas ao Legislativo para a alteração dos casos em que o Código Penal prevê exclusão de ilicitude. A primeira proposta foi encaminhada pelo Ministro da Justiça e Segurança Pública – no Pacote de Lei Anticrime – e a segunda foi encaminhada recentemente como projeto de Lei. Mas, afinal, o que é um excludente de ilicitude e porquê isso tem gerado controvérsia?

Primeiramente, o que significa ilicitude?

Para compreender o que são os excludentes, é fundamental compreender o que significa ilicitude. Esse termo refere-se a algo que é considerado ilícito, ou seja, aquilo que é condenado pela lei, que é proibido/ilegal. De acordo com o especialista em direito penal, Guilherme Nucci, ilicitude é um termo utilizado em referência a contradição entre uma conduta e o que está previsto na lei. Ou seja, há ilicitude quando o comportamento/ação de uma pessoa desrespeita alguma lei. 

Então o que são excludentes de ilicitude?

Excludente de ilicitude é um mecanismo previsto no Código Penal que estabelece a possibilidade de uma pessoa praticar uma ilicitude sem que considere-se isso uma atividade criminosa. Ou seja, o excludente é um mecanismo que permite que uma pessoa pratique uma ação que normalmente seria considerada um crime.

Parece confuso? Vejamos alguns exemplos: 

Seu vizinho vai viajar e você arromba a porta da casa dele e entra. Essa é uma atitude criminosa, mas será que em todos os casos? Não, há cenários em que isso seria permitido. Se você faz isso porque percebe um incêndio e escuta o cachorro de seu vizinho latindo, por exemplo, sua atitude é justificável. Logo, algo que normalmente seria considerado crime (como invadir a casa de seu vizinho e causar um dano à propriedade dele) nesse caso não será.

Outro exemplo é o caso dos policiais. Se em cenário de necessidade um policial matar uma pessoa, ele não será punido por isso.

Como esses exemplos demonstram, a exclusão de ilicitude se aplica a casos que são excepcionais, em que a ação – em tese, ilícita – se justifica. Há diversos cenários em que isso pode ocorrer e, por essa razão, o Código Penal descreve diferentes tipos de excludente de ilicitude:

Art. 23 – Não há crime quando o agente pratica o fato:

I – Em estado de necessidade; 

II – Em legítima defesa; 

III – Em estrito cumprimento legal de dever ou no exercício regular de direito. 

Vejamos mais detalhadamente cada um desses casos.

Estado de necessidade

Art. 24 – Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se.

Traduzindo, considera-se estado de necessidade quando um indivíduo comum (ou seja, alguém que não é um profissional da segurança) sacrifica um bem protegido por lei em nome de outra coisa cuja proteção é mais importante. Voltando ao nosso exemplo anterior: o indivíduo julga que respeitar a propriedade de seu vizinho é menos importante do que salvar o cachorro que está preso no incêndio, logo ele sacrifica o primeiro para salvar o segundo.

Para que uma situação seja considerada estado de necessidade e, dessa forma, o indivíduo não seja punido, é necessário que:

a) o perigo não tenha sido provocado intencionalmente pelo indivíduo (digamos que o fogo na casa de seu vizinho foi voluntariamente iniciado por você, por exemplo);

b) o indivíduo não seja um agente da segurança, ou seja, o agente não tem a responsabilidade de proteger;

c) o perigo seja atual/esteja ocorrendo naquele momento.

Legítima defesa

Art. 25 – Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. 

Esse é o tipo mais conhecido dentre os excludentes de ilicitude. Configura-se um caso de legítima defesa quando um indivíduo comete uma agressão contra outra pessoa para proteger a si próprio ou a um terceiro. O perigo precisa ser atual, mas não é necessário que o dano esteja ocorrendo, ele pode ser apenas iminente. Isso significa que a legítima defesa pode ser preventiva,  mas apenas se o perigo for atual. Além disso, não é preciso que a ação seja em defesa própria, pode ser em defesa de outra pessoa.

Por exemplo, se um indivíduo invade sua casa armado e você o agride para proteção própria e/ou de sua família, configura-se um caso de legítima defesa. Não é necessário que o indivíduo esteja prestes a atirar em alguém para que a ação seja justificada.

Mas é importante ressaltar que para que a ação de legítima defesa seja considerada um excludente de ilicitude e o indivíduo não seja punido, é necessário ela seja proporcional à gravidade da ameaça. Ou seja, se uma pessoa que não está armada tenta te assaltar e você mata essa pessoa, sua resposta não configura legítima defesa, pois você atentou contra a vida de alguém que não ameaçava sua vida. Nesses casos, a pessoa pode ser responsabilizada (punida) por uma resposta excessiva. O que é considerada uma reação proporcional ou desproporcional será definido pela justiça em cada caso específico.

Sugestão: Confira nosso post sobre Legítima defesa

Estrito cumprimento legal de dever e exercício regular de direito

Este excludente de ilicitude é aplicável àqueles indivíduos que, geralmente em razão de sua profissão, possuem o dever de proteger. É esse tipo de excludente que garante aos policiais e outros agentes de segurança pública que não serão punidos caso seja necessário infligir agressões contra outra pessoa ou causar danos a algum bem. Evidentemente, isso não significa que qualquer agressão realizada por um agente de segurança pública não poderá ser punido. O Art. 23 do Código Penal enfatiza que excessos deverão ser penalizados.

Mudanças no excludente de ilicitude

O termo excludente de ilicitude ganhou bastante atenção durante a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro e, posteriormente, em seu mandato. Em seu plano de governo, Bolsonaro defende que “policiais precisam ter certeza de que, no exercício de sua atividade profissional, serão protegidos por uma retaguarda jurídica, garantida pelo Estado, através do excludente de ilicitude”. Essa garantia, como mencionamos ao longo de todo o texto, já existe no Código Penal brasileiro.

No entanto, o Código Penal estabelece que excessos devem ser investigados e punidos. No caso dos agentes de segurança pública, quando um agente comete um ato em tese considerado ilícito (como homicídio, por exemplo), é aberto um processo investigativo para verificar a necessidade da ação e se essa foi uma resposta proporcional.

A proposta do Presidente para ampliar as garantias dos agentes de segurança pública foi apresentada em dois momentos. Em setembro, foi incluída como um dos pontos no pacote de Lei Anticrime elaborado pelo Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro – porém a medida foi excluída por parlamentares que discutiram o projeto. Em novembro, outra proposta foi enviada ao Congresso como um projeto de lei visando contemplar Forças Armadas, Força Nacional de Segurança, polícias e bombeiros. 

O que estava proposto na Lei Anticrime?

A proposta apresentada por Sérgio Moro alterava o Código Penal no que diz respeito aos excludentes de ilicitude em dois pontos.

Primeiramente, o pacote de Lei propôs uma alteração no Art. 23 do Código Penal. Esse Artigo estabelece que, para qualquer tipo de excludente de ilicitude, o agente deverá responder por excesso doloso ou culposo. Isso significa que, caso a ação do agente seja desproporcional ao perigo/situação que provocou a ação, ele poderá ser punido por esse excesso.

A Lei Anticrime de Sérgio Moro propôs que seja adicionado ao Art. 23 um segundo inciso, que estabelece que “o juiz poderá reduzir a pena até a metade ou deixar de aplicá-la se o excesso decorrer de escusável medo, surpresa ou violenta emoção.” 

A proposta também previa uma alteração no Art. 25 do Código Penal, que trata da legítima defesa. A ideia era passar a incluir agentes da segurança pública nesse artigo. Atualmente os policiais devem aguardar o início de uma ameaça para poder reagir. Ao incluir os agentes de segurança pública no caso da legítima defesa, eles passariam a ter permissão para agir de forma preventiva, ou seja, realizar uma agressão antes de uma ameaça concreta.

Sugestão: confira nosso post sobre a Lei Anticrime

Um ponto de controvérsia

De modo geral, as mudanças propostas pela Lei Anticrime ampliavam o excludente de ilicitude para os agentes da segurança pública, proporcionando aos policiais uma maior garantia de que não serão punidos por suas ações.

O Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, e o Presidente da República, Jair Bolsonaro, argumentaram que a medida era necessária para dar maior segurança aos policiais no exercício de sua atividade e, por consequência, tornar mais eficiente o combate ao crime.

Por outro lado, a proposta foi recebida com bastante preocupação por parte de especialistas e Organizações de Direitos Humanos, que entendiam que a proposta aumentava a impunidade da polícia.

Por ser um ponto de grande impasse político, a medida foi excluída do Pacote Anticrime. 

Nova proposta do governo

Em novembro, o governo federal enviou um novo projeto ao Congresso para ampliar os casos em que o indivíduo ficaria isento de punição ao infringir a lei. A proposta detalha especificamente os casos em que militares das Forças Armadas estão atuando em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).

Operações de Garantia da Lei e da Ordem são executadas por ordem do Presidente da República quando é considerado que todas as forças tradicionais de segurança pública foram esgotadas. Nesse sentido, as Forças Armadas possuem temporariamente o poder de polícia, enquanto as outras forças da segurança pública atuam em apoio ao trabalho dos militares. 

O projeto do governo prevê situações em que os agentes de segurança e militares serão isentos de punição por ser considerado que os indivíduos agiram em legítima defesa. Entre essas situações estão: 

  1. Prática ou iminência de prática de ato de terrorismo;
  2. Prática ou iminência de prática de conduta capaz de gerar morte ou lesão corporal;
  3. Restringir a liberdade da vítima, mediante violência ou grave ameaça;
  4. Portar ou utilizar ostensivamente arma de fogo.

Militares, policiais e bombeiros em operações de GLO podem se beneficiar do projeto caso ele seja aprovado pelo Congresso Nacional.

Conseguiu entender o que são excludentes de ilicitude? Deixe suas dúvidas e sugestões nos comentários!

Publicado em 07 de agosto de 2019. Atualizado em 28 de novembro de 2019.

 

Isabela Moraes

Assessora de conteúdo no Politize! e graduanda de Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Quer ajudar a descomplicar a política e aproximá-la das pessoas, incentivando a participação democrática.

 

 

REFERÊNCIAS

Correio Braziliense: excludente de ilicitude

Congresso em Foco: Lei Anticrime

Blog SajAdv: excludente de ilicitude e legítima defesa

Jus: Excludentes de ilicitude

JusBrasil: Excludente de ilicitude – jurisprudência e casos

R7: Lei Anticrime

Lava Jato da Educação: ensino sob investigação

Lava Jato da Educação: Moro e Vélez.

Em fevereiro de 2019, os Ministérios da Educação e da Justiça assinaram um acordo para investigar indícios de corrupção no setor educacional brasileiro – uma espécie de Lava Jato da Educação, como tem sido chamado. O projeto estabelece medidas de combate à corrupção especificamente para o setor da educação.

Neste post, o Politize te ajuda a entender os objetivos desse projeto e a repercussão que ele provocou.

LAVA JATO DA EDUCAÇÃO: O QUE É E O QUE PRETENDE?

Em 15 de fevereiro de 2019, os novos Ministros da Educação (Ricardo Vélez Rodríguez) e da Justiça (Sérgio Moro) assinaram um acordo de combate à corrupção no setor da educação. Por se tratar de um projeto de investigação da administração pública, também assinaram o acordo representantes da Controladoria Geral da União (CGU) e do Departamento da Polícia Federal (DPF), dois importantes órgãos de combate à corrupção no brasil. Conforme anunciado pelo Ministério da Educação, o projeto consiste em:

“Protocolo para investigar indícios de corrupção, desvios e outros de atos lesivos à administração pública no âmbito do MEC e autarquias nas gestões anteriores.”

O acordo teria sido motivado por casos de infrações da administração pública na área da educação, como supostos desvios e favorecimentos indevidos por meio de programas como o ProUni (Programa Universidade para Todos) e Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego). Também há suspeitas de concessão ilegal de bolsas em programas de ensino à distância (EaD) nas Universidades Federais.

O Ministro Vélez Rodríguez ainda afirmou que todo o processo deverá ser transparente para a sociedade.

O novo Presidente da República, Jair Bolsonaro, se manifestou sobre o assunto por meio do Twitter:

“Muito além de investir, devemos garantir que investimentos sejam bem aplicados e gerem resultados. Partindo dessa determinação, o Ministro Professor @ricardovelez apurou vários indícios de corrupção no âmbito do MEC em gestões passadas. Daremos início à Lava Jato da Educação!” Jair M. Bolsonaro (@jairbolsonaro) 15 de fevereiro de 2019.

Na prática, a Lava Jato da Educação é um projeto de iniciativa do Ministério da Educação (MEC) e que recai sobre programas vinculados ao próprio ministério. Por isso, não há como entender esse projeto sem conhecer o básico sobre o MEC e suas autarquias.

Leia mais: conheça as 17 metas globais

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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO: QUAL O PAPEL DO MEC?

O Ministério da Educação, como conhecemos hoje, tem sua origem no Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública, criado por Getúlio Vargas em 1930. Mais tarde, em 1953, a Saúde ganhou um ministério próprio e criou-se um Ministério da Educação e Cultura (surgindo a sigla MEC). Somente em 1995 o ministério tornou-se exclusivamente destinado à educação, como é até hoje, mas a sigla MEC foi mantida.

Como todo ministério, trata-se de um órgão de administração pública direta – ou seja, diretamente ligado ao Governo Federal e administrado por um cargo político (Ministro), responsável pela política nacional de algum setor temático específico. No caso do Ministério da Educação, a grande responsabilidade desse órgão é a elaboração e execução da Política Nacional de Educação (PNE). Também são de competência do MEC as instâncias educacionais: educação infantil, ensino fundamental, ensino médio, educação superior, educação profissional e tecnológica.

Você provavelmente conhece algum desses programas e políticas do Ministério da Educação:

  • FIES (Programa de financiamento estudantil);
  • ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio);
  • Sisu (Sistema de Seleção Unificada);
  • Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego);
  • Base Nacional Comum Curricular;
  • ProUni (Programa Universidade para todos).

Ou seja, Ministério da Educação é o grande responsável pelo sistema educacional brasileiro. A partir dele, surgem diversas ramificações: órgãos públicos de administração direta, como as secretarias educacionais, e instituições de administração indireta – é sobre elas que vamos falar agora.

Autarquias da educação

A educação pública também está vinculada a Instituições de administração indireta, como é o caso das autarquias. Estas são entidades vinculadas de forma indireta a algum órgão do governo (no caso da educação, vinculadas ao MEC) mas administradas por pessoas jurídicas, não por cargo político. A existência de autarquias está relacionada à necessidade de descentralização e autonomia, e é regulamentada pela Lei nº 200/1967, que define autarquia como:

“Serviço autônomo, criado por lei, com personalidade jurídica, patrimônio e receita próprios para executar atividades típicas de Administração Pública, que requeiram, para seu melhor funcionamento, gestão administrativa e financeira descentralizada.”

Para entender melhor o que são, vejamos exemplos de algumas autarquias da educação:

  • Universidades Federais;
  • Institutos Federais;
  • Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep);
  • Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico (CNPq).

Estas são Instituições vinculadas ao Governo Federal, que executam uma função pública (educação) mas atuam de forma autônoma, ou seja, têm liberdade para tomar decisões administrativas, possuem patrimônio e receita própria. Mas, sendo vinculadas ao governo Federal, são fiscalizadas pelo poder público.

Agora que sabemos o que são autarquias, fica mais fácil entender a Lava Jato da Educação. Trata-se de uma iniciativa do Ministério da Educação, em parceria com o Ministério da Justiça e com outros órgãos de combate à corrupção, para investigar possíveis infrações na administração pública de autarquias da educação (por exemplo, fraude na concessão de bolsas de estudo por meio das Universidades Federais ou do CNPq).

TRABALHO PARA DOIS MINISTÉRIOS

Conforme mencionamos, a Lava Jato da Educação foi estabelecida a partir de um acordo entre dois ministérios: da Educação e da Justiça.

O projeto é o segundo da nova gestão que conta com a participação do novo Ministro da Justiça, Sérgio Moro – que recém apresentou seu pacote da Lei Anticrime. Afinal, qual a participação da Justiça na Lava Jato da Educação?

O Ministério da Justiça recentemente incorporou a Controladoria Geral da União (CGU), responsável pelo controle financeiro e transparência da administração pública. Dessa forma, a investigação de possíveis infrações na administração de autarquias da educação, como desvios de recursos das Universidades Federais, faz parte da área de atuação desse Ministério. Além disso, a Polícia Federal, responsável por executar as operações, também faz parte deste superministério da Justiça e Segurança Pública.

Você pode conferir mais sobre as mudanças do ministério no nosso post sobre os ministérios do governo Bolsonaro.

EDUCAÇÃO SOB INVESTIGAÇÃO: OS CASOS DA UFSC, UFMG E UFPR

A investigação das autarquias da educação não é completamente novidade. Embora tenha se tornado um acordo oficial e uma prioridade do Ministério da Educação apenas este ano (com a mudança dos ministérios do governo) a Polícia Federal já vem conduzindo investigações desse tipo há alguns anos.

Em 2017, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foi alvo da Operação Ouvidos Moucos, dirigida pela Polícia Federal. A Operação investigava supostos desvios de verbas em cursos de Educação a Distância (EaD), por meio do fornecimento irregular de bolsas da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Sete funcionários foram presos, dentre eles o Reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo. Os presos foram liberados no dia seguinte mas os funcionários foram afastados da Universidade. A Operação suscitou críticas em função da exposição dos envolvidos e da falta de sigilo com que a investigação foi conduzida. Afastado do cargo, o reitor Cancellier de Olivo suicidou-se. Apesar de 23 funcionários serem mencionados no inquérito da Polícia Federal, nenhum foi formalmente acusado pelas supostas infrações. A investigação agora é de responsabilidade do Ministério Público Federal e alguns professores ainda são impedidos de entrar na Universidade enquanto as investigações estiverem em andamento.

Outras Universidades, como a Federal de Minas Gerais (UFMG), também foram investigadas. No caso da UFMG, a investigação apurou supostos desvios de recursos públicos na construção do “Memorial da Anistia Política do Brasil”. O reitor e a vice reitora da Instituição tiveram de prestar depoimentos. Também a Universidade Federal do Paraná (UFPR) esteve sob investigação. Em fevereiro de 2019, 13 funcionários da Instituição foram condenados por desvios de recursos públicos.

A REPERCUSSÃO DO ACORDO

Recém assinado, o acordo da Lava Jato da Educação já teve algumas repercussões:

O impacto econômico

Recém anunciado, o impacto econômico do acordo foi imediato. No mesmo dia, poucas horas depois, as ações de empresas do setor educacional tiveram forte queda na Bolsa de Valores. As ações da Kroton, maior empresa privada do mundo no ramo da educação, tiveram queda de até 7% no dia da assinatura do acordo. A Estácio, instituição privada de ensino superior, experimentou uma queda de quase 6% em suas ações. As ações das empresas já haviam enfrentado queda no segundo governo de Dilma Rousseff, em função de mudanças realizadas no FIES, e apenas recentemente começaram a se recuperar. O anúncio da Lava Jato da Educação, no entanto, gera um cenário de incerteza para o setor da educação, o que volta a enfraquecer as ações.

A opinião do ex Ministro da Educação e atual opositor político

Questionado sobre a Lava jato da Educação, Fernando Haddad, que atuou como Ministro da Educação de 2005 a 2012, não se opôs ao projeto. Em entrevista ele disse que:

“Vi que a própria CGU (Controladoria-Geral da União) vai estar envolvida, a CGU faz um trabalho sério, muito técnico. Os projetos do MEC são muito grandes, pode ter uma outra instituição que pode ter descumprido alguma regra, do Fies, do Prouni, nós chegamos a levar ao Ministério Público casos que não se comportavam bem, mas era mais fraude, ou tentativa de fraude, do que envolvimento de funcionário público”.

A principal crítica

Críticos do acordo afirmam que ele pode vir a instaurar um estado de perseguição às Instituições de ensino. Para o jornalista Luís Nassif, do jornal GGN, trata-se da implantação de um estado policial. Ele também enfatiza a gravidade da Operação realizada na Federal de Santa Catarina “Em cima de pequenas irregularidades montaram um circo, com condução coercitiva de reitores e professores, humilhação pública, levando ao suicídio o reitor da UFSC” e alerta que a Lava Jato da Educação pode ser utilizada para justificar perseguições ideológicas.

Para acompanhar o desenrolar da Lava Jato da Educação e o trabalho do MEC, continue atento no Politize! Não esqueça de deixar sua opinião sobre essa nova medida do governo Bolsonaro.

Conseguiu entender o que é a Lava Jato da Educação? Deixe suas dúvidas e sugestões nos comentários!

Aviso: mande um e-mail para contato@politize.com.br se os anúncios do portal estão te atrapalhando na experiência de educação política. 🙂

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Publicado em 21 de fevereiro de 2019.

 

Isabela Moraes

Assessora de conteúdo no Politize! e graduanda de Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Quer ajudar a descomplicar a política e aproximá-la das pessoas, incentivando a participação democrática.