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Movimento Caras pintadas

Entenda o que foi o Movimento Caras-Pintadas

Na imagem, foto de manifestantes em frente ao Congresso Nacional. Conteúdo sobre o movimento caras-pintadas

Manifestantes em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, setembro de 1992. Foto de Sergio Lima, da Agência Brasil. Fonte: Wikimedia Commons.

Fernando Collor de Mello foi o primeiro presidente eleito democraticamente após os 29 anos de ditadura militar no Brasil. O governo Collor (1990-1992) ficou marcado na história por uma das maiores mobilizações brasileiras: o Movimento Caras-Pintadas (1992).

Nesse conteúdo, o Politize! te explica o que foi esse movimento em conjunto com as características do governo Collor que resultaram nele. Vamos lá?

Antecedentes

Na imagem, Fernando Collor de pé durante pronunciamento. Conteúdo sobre o movimento caras-pintadas

Fernando Collor discursando em um pronunciamento, 1991. Fonte: Arquivo Nacional do Brasil.

Collor  foi eleito em 1989, tornando-se o primeiro presidente da redemocratização. Ele venceu Luís Inácio Lula da Silva, no segundo turno, com o mote de “caçador de marajás” e uma campanha pautada no combate à corrupção.

Uma das primeiras ações de Collor como presidente, em 1990, foi a instauração do nomeado Plano Collor. Esta foi uma reforma econômica extremamente polêmica. De acordo com o professor e cientista político da Universidade de Brasília (UnB), João Paulo Peixoto, o plano acompanhava o contexto pós Queda do Muro de Berlim (1989) e de liberalização da economia, mas pode-se considerar que ele não foi bem executado. Por isso, também não foi visto positivamente por diversas alas e grupos da população.

O exemplo mais polêmico foi a iniciativa de bloquear todo o dinheiro acima de 50 mil cruzados novos (aproximadamente 30 mil reais, a partir do índice IPCA), que fosse depositado em contas de pessoas e empresas e, depois de 18 meses, devolver o valor corrigido pela inflação e com 6% ao ano acrescidos. Porém, a devolução não foi sequer feita integralmente para muitas das contas.

Além disso, a própria reforma administrativa proposta pelo governo Collor, com eliminação de incentivos às indústrias, privatizações e grande abertura ao capital externo foram pontos que agradavam defensores de uma reforma neoliberal, mas que se mostraram negativos para parcela da população. Isso porque não apenas provocaram a demissão de diversos setores de trabalhadores, sobretudo os funcionários públicos, como também provocou a falência de diversas empresas. O conglomerado Pão de Açúcar, por exemplo, sofreu muito com a crise provocada pelo Plano Collor.

Nesse contexto, o país entrou em uma crise econômica e política.

O esquema de corrupção

A gota d’água, entretanto, foi a revelação do esquema Collor-PC, em uma entrevista concedida pelo próprio irmão do presidente, Pedro Collor, para o Jornal do Brasil, no dia 18 de maio de 1992. Desde o ano anterior, 1991, Pedro Collor organizava um dossiê com informações e documentos incriminando o irmão. Você pode ler a entrevista neste link.

Mas o que foi o esquema Collor-PC? O esquema tratou-se de uma rede de corrupção comandada por Paulo César Farias (PC), ex-tesoureiro da campanha presidencial de Collor. Entre as denúncias estavam o tráfico de influências, as irregularidades financeiras (como remessa ilegal de divisas para o exterior, sonegação de impostos e cobrança de comissão a empresas na construção de obras públicas) e a existência de contas bancárias fantasma.

Com a revelação do esquema, o Congresso cogitou a formação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que seria responsável pelo encaminhamento do processo de impeachment e pela checagem da veracidade das denúncias. Em uma tentativa de congressistas aliados ao governo de proteger Collor, a CPI foi inicialmente adiada. Entretanto, por meio de um abaixo assinado, o Partido dos Trabalhadores (PT) conseguiu pressionar a reabertura da Comissão.

Com novas denúncias feitas por Pedro Collor, em 24 de maio, a abertura da CPI foi inevitável. Assim, em 27 de maio, ela foi formalizada com composição de 11 senadores e 11 deputados.

O que foi o Movimento Caras Pintadas?

Com todo esse escândalo, o governo Collor se tornou insustentável. Diversas mobilizações e protestos contrários a Collor, já em andamento, tiveram seu ápice nos meses de agosto e setembro de 1992. No dia 16 de agosto, preocupado, o presidente discursou pedindo para que a população saísse e apoiasse a manutenção do governo dele, utilizando as cores da bandeira do Brasil.

Contudo, em vez disso, as pessoas protestaram contra a permanência de Collor na presidência.  No mesmo dia do discurso de Collor, 16 de agosto,  registrou-se protestos em diversas cidades do país. Nelas, os milhares que protestaram, saíram às ruas com os rostos pintados de preto, verde e amarelo e deram a simbologia e o nome da mobilização: Movimento Caras-Pintadas.

De acordo com dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo e no Rio de Janeiro, a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União Brasileira dos Estudantes (UBES) foram as principais entidades responsáveis por articularam os mais de 10 mil jovens que participaram destes protestos.

E a mobilização foi ainda maior nos protestos seguintes. Novamente de acordo com os números da FGV, as manifestações de 25 de agosto, por exemplo, foram extensas e espalhadas por dezenas de cidades e capitais brasileiras. Apenas em São Paulo, foram cerca de 400 mil estudantes.

Essas manifestações tiveram continuidade por todo o mês de setembro até que, em 2 de outubro, Collor finalmente foi colocado frente à abertura de um processo de impeachment no Senado.

Em 29 de dezembro de 1992, depois de tentar diversas alternativas de defesa, Collor foi afastado de qualquer cargo público pelos oito anos seguintes e renunciou ao cargo de presidente. Itamar Franco, seu vice, assumiu a presidência até 1995.

Desde 2007, Fernando Collor exerce o cargo de Senador, em Alagoas.

Importância do Movimento Caras-Pintadas

Em primeiro lugar, a importância do Caras-Pintadas é resultado da enorme quantidade de jovens estudantes secundaristas e universitários que possibilitaram a caracterização da mobilização como um movimento estudantil. Mais do que isso, o movimento pôde unir diferentes entidades de representatividade da sociedade civil, como a UNE, UBES, Central Única dos Trabalhadores (CUT), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Além disso, a manifestação uniu diferentes partidos políticos em espectros distintos que deixaram a polarização de lado para se mobilizarem a favor do impeachment. Isso pode ser visto no Fórum pelo Impeachment, de 29 de maio de 1992, com a presença, por exemplo, de partidos mais alinhados à centro-esquerda como o PT, mas também, centro-direita, como o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e o Partido Movimento Democrático Brasileiro (PMDB – atual Movimento Democrático Brasileiro, MDB).

O Movimento Caras-Pintadas, até hoje , simboliza a retomada da possibilidade de uma mobilização democrática no país após duas décadas de ditadura militar.

Não à toa que o movimento é comparado com a Passeata dos Cem Mil, contrária ao regime militar e inspirada pelos movimentos de Maio de 1968. Mais do que a característica estudantil, o motivo da comparação advém também da entoação de canções como Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, e Pra dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré, músicas compostas em resistência aos governos militares.

A partir disso, então, o Politize! convida à reflexão e ao debate nos comentários: para vocês, nós nos tornamos mais divididos por uma polarização política? Os jovens perderam o poder de mobilização? Por quê?

Publicado em 10 de setembro de 2020.

Redator voluntário

Caroline Yumi Matsushima Hirano

Graduanda em Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC – SP). Contribui como redatora voluntária do Politize! por acreditar na importância da democratização ao acesso de conhecimento para a construção de cidadãos mais críticos e empáticos.

 

 

REFERÊNCIAS

SEADE: taxa de desemprego 

FGV: acervo caras-pintadas

Luiz Antonio Dias: politica e participação juvenil 

Terra: plano collor

Veja: entrevista que Pedro concedeu a Veja sobre Collor

 

Destaque-gremio-estudantil

O que é e o que faz um grêmio estudantil?


Jovens sentados conversando

Uma democracia saudável só é possível com a participação do povo. Para isso, a cidadania deve ser cultivada desde a juventude. Uma forma do jovem exercer essa participação é através do Grêmio Estudantil. Muitas escolas não têm esse grupo de estudantes, mas todas são obrigadas a permitir a criação de um.

Você sabe por que o Grêmio Estudantil é tão importante e quais são suas funções? Quer saber como fundar um Grêmio Estudantil na sua escola? Se você tem um Grêmio, sabe a importância de participar e garantir seu funcionamento? Neste artigo, a gente explica tudo!

O que é um Grêmio Estudantil?

Grêmio Estudantil  é a representação dos estudantes diante da direção da escola. É uma forma dos jovens se posicionarem a respeito do que eles acham importante.

O Grêmio é formado por um grupo de alunos eleitos pelos seus colegas. Esse grupo é uma chapa e é composto pelo Presidente, Vice-Presidente, Tesoureiro e os Diretores. Falaremos disso daqui a pouco.

Por que o Grêmio é importante?

O Grêmio é importante, pois sua principal função é democratizar a escola. Ou seja, torná-la acessível e agradável para todos. Por meio dele, os estudantes ganham voz e conseguem levar reclamações e sugestões aos responsáveis.

A diretoria e os professores não percebem problemas comuns da vida do estudante. Como a rotina cheia de provas, por exemplo. Essa carga extrema sobrecarrega e diminui a eficiência de todos. Além de não fazer bem para o psicológico.

Nesse sentido, o Grêmio, após ouvir as reclamações dos alunos, pode ir à direção e pedir uma regra que limite a três provas por semana. Ou que proíba os professores de darem duas avaliações no mesmo dia, por exemplo.

Sem esse grupo de representantes, várias pessoas iriam reclamar ao mesmo tempo ou ninguém falaria nada. Ambas as situações são negativas.

Questões mais sérias também são resolvidas com o Grêmio: digamos que um professor diga algo racista. Em vez de toda a sala reclamar, cada um contando sua versão, os alunos procuram o Grêmio e contam o ocorrido. Então um ou dois representantes vão à diretoria exigir uma resposta.

No entanto, tornar o ambiente democrático não é apenas pedir por uma carga mais leve e retratações. Também é trazer lazer e descontração para a rotina.

O Grêmio Estudantil pode organizar campeonatos de futebol na quadra da escola. Caso não tenha quadra, pode-se fazer um campeonato de Magic, um jogo de cartas que tem ficado bem popular entre os jovens. Contudo, não só de esportes vivem os alunos: festas também são ótimas formas de animar a semana. Aproveite datas como festa junina, carnaval e Halloween! Sair um pouco da rotina faz bem.

Dessa forma, saem ganhando a escola e os estudantes como um todo. Em especial aqueles que fazem parte do Grêmio.

Fazer parte do Grêmio da sua escola é uma forma de participar ativamente da sociedade. Esta é uma verdadeira experiência de cidadania, pois se aprende coisas na prática. Como organização financeira, falar em público, tomar decisões, lidar com diversas opiniões, expor suas ideias, protestar e organizar eventos.

Em outras palavras: envolver-se no Grêmio é uma experiência muito rica.

Leia também: 5 vezes que a juventude brasileira marcou história.

Como funciona um Grêmio Estudantil?

Antes de aprender a criar, é importante saber como funciona um Grêmio Estudantil. Afinal, o que faz o Presidente? E o Tesoureiro? Para que existem Diretores? Há alguma hierarquia? Com certeza essas e outras perguntas estão na sua cabeça. Mas não se desespere! Vamos explicar tudo.

Presidente e Vice-Presidente

Como em qualquer organização, o Presidente é a cara do grupo. É ele quem representa o Grêmio dentro e fora da escola em manifestações e palestras, por exemplo. Sua função é também presidir as reuniões do Grêmio e assinar os documentos oficiais.

Já o Vice-Presidente é o substituto e braço direito do Presidente, auxiliando-o sempre que necessário.

Secretário-Geral

O Secretário-Geral é quem faz convites às reuniões, faz as atas registrando tudo que foi debatido, e mantém os documentos em ordem. Além disso, ele escreve e assina, junto com o Presidente, a correspondência do Grêmio.

Tesoureiro-Geral

Esta é a pessoa que cuida do patrimônio do Grêmio. Afinal, para organizar eventos e campeonatos, é necessário ter dinheiro. O Tesoureiro-Geral tem que manter um controle de todos os ganhos e gastos do grupo, pois ao final do mandato, esse documento deve ser apresentado.

Os Diretores

Fazendo uma grande analogia, os Diretores são como os Ministros do Governo Federal. Ou seja, eles cuidam de assuntos específicos, desenvolvendo ações e projetos.

Por exemplo, o Diretor Cultural deve promover eventos musicais, teatrais, literários, entre outros. O Diretor de Esportes fica responsável pelos campeonatos.

O Diretor de Imprensa é o representante dos estudantes dentro do Grêmio. Ele é fundamental para a boa relação entre as duas partes. Isso porque leva as reclamações dos alunos até os gremistas.

Há outros Diretores e, dependendo da necessidade, mais podem ser criados. Cada escola enfrenta uma realidade.

Como criar um Grêmio Estudantil?

Se você chegou até aqui, com certeza quer saber como criar um Grêmio Estudantil na sua escola. Este processo é bem simples, mas leva um tempinho. Afinal, trata-se de um marco bem importante.

Se a sua escola nunca teve um Grêmio, a direção deve ser comunicada. Ela não pode impedir a criação desse grupo de representantes. A lei 7.398, de 1985, a Lei do Grêmio Livre, diz que é crime proibir a criação do Grêmio ou intervir nas eleições.

Após comunicar a direção, deve-se formar a Comissão Pró-Grêmio (CPG). Ela é composta pelos Representantes de Sala. Se não houver Representantes de Sala, escolham um ou dois alunos de cada turma para participar da Comissão.

A CPG deve elaborar um estatuto. Ele é como uma Constituição. Deve conter todas as leis que regem o Grêmio. A União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) tem um modelo do Estatuto.

Saiba mais: movimento estudantil

Depois da elaboração do documento ele será votado em uma Assembleia Geral com todos os alunos. Nela, também será escolhido o nome do Grêmio e formada a Comissão Eleitoral.

Os alunos interessados em participar do Grêmio devem formar chapas. Os cargos principais são:

  • Presidente;

  • Vice-Presidente;

  • Secretário-Geral;

  • 1º Secretário;

  • Tesoureiro-Geral;

  • 1º Tesoureiro;

  • Diretor Social;

  • Diretor de Imprensa;

  • Diretor Cultural;

  • Diretor de Esportes;

  • Diretor de Saúde e Meio Ambiente.

Essa lista é da UBES e você a encontra no modelo de Estatuto que foi citado acima.

Após a formação e inscrição das chapas, começa o período eleitoral. Esse momento é marcado por debates, campanhas, discursos, entre outros eventos.

Depois, a Comissão Eleitoral convoca as eleições. O voto é secreto. O ideal é que, nesse momento, os estudantes conheçam os integrantes e as propostas de cada grupo.

Após as eleições, os votos são apurados pela Comissão e por um fiscal de cada chapa. Com as contagens feitas, é redigida uma Ata revelando o resultado.

É organizado um evento de posse para a chapa eleita.

Ao final do mandato de um ano, você deve seguir os passos a partir da criação das chapas.

Como montar a sua chapa?

Agora, você sabe o que é um Grêmio, conhece sua importância e entende como criar um do zero. Por isso, vamos dar algumas dicas de como montar a sua própria chapa.

O nome da chapa

Escolher um bom nome faz toda a diferença. Pense no que você e seus colegas de chapa acreditam. Quais valores vocês defendem? Como é o discurso de vocês?

Uma ideia para nome de chapas é escolher referências culturais brasileiras. Pense em autores como Machado de Assis e Carolina de Jesus, ou algum filósofo de sua preferência. Vale também usar frases ou palavras de músicas, filmes ou poemas.

Os membros da chapa

As pessoas que integram a chapa devem ser responsáveis e criativas. Também devem estar sempre abertas às opiniões do público, afinal o Grêmio mantém contato constante com os alunos.

Escolha as pessoas pelo perfil delas. Veja com o que elas se relacionam melhor. Por exemplo: se você tem um amigo que gosta e entende de música, ele pode ser um bom Diretor Cultural; alguém que gosta de festas daria um bom Diretor Social. Aquela sua amiga que gosta de matemática pode ser a Tesoureira-Geral.

Não esqueça de se certificar de que todos os membros têm valores em comum. Assim, você evita conflitos internos que atrapalham as atividades.

Faça uma boa campanha eleitoral

Não adianta nada montar uma chapa excelente e fazer uma campanha eleitoral fraca. Faça uma campanha de verdade!

Produza vídeos divulgando as ideias da chapa e mande nos grupos de Whatsapp dos alunos. Faça panfletos e cartazes, mas não se esqueça de respeitar as regras da escola.

Aproveite os debates: eles são o momento de expor suas propostas e confrontar os outros candidatos. Prepare algumas respostas e treine-as. Não vá debater despreparado.

Uma escola com um Grêmio Estudantil tem um espaço mais democrático e agradável. Cria um ambiente amistoso e receptivo. Todos que participam dessa experiência ganham.

Sua escola tem um Grêmio Estudantil? Você já participou de um? Conte para nós aqui nos comentários como foi a experiência!

Publicado em 08 de julho de 2020.

assinatura redatoresPedro Teressan Alves

Redator e Copywriter freelancer. Sou amante da Política e defensor voraz da Democracia. Acredito que uma Democracia justa e correta só é possível em países com educação política de qualidade! Por isso, escrevo para o Politize!

REFERÊNCIAS