A Internet certamente modificou as nossas vidas em diversos aspectos e permitiu que diferentes produtos, formatos e serviços fossem oferecidos. O humor foi um deles, sendo que brincadeiras no ambiente digital se tornaram cada vez mais populares. Contudo, algumas brincadeiras deixaram de ser apenas diversão, tornando-se tóxicas e ofensivas. É o caso da trollagem.
Talvez você já tenha se deparado com algum perfil “troll” nas redes sociais. Sabe aquele perfil que, em meio a uma discussão séria, solta um comentário só para provocar confusão, ou que insiste com uma ‘teoria’ mirabolante mesmo quando todos apresentam fatos?
Mas e se eu te disser que esse comportamento, muitas vezes visto como apenas irritante, é uma das engrenagens mais eficazes na máquina de espalhar desinformação que vemos hoje?
O fenômeno da trollagem, inicialmente associado a brincadeiras e perturbações online, passou a estar ligado a discursos de ódio e pode ser visto como uma ferramenta na disseminação de informações falsas, com impactos sociais e políticos. E é sobre isso que vamos entender neste quarto texto da trilha “Nome da trilha” da Politize!. Então vem com a gente!
O que é Trollagem na Internet
O termo “trollagem” surgiu de uma variação do termo em inglês “trolling”, que originalmente se referia a uma técnica de pesca com isca. Essa técnica envolve rebocar uma ou mais iscas (artificiais ou naturais) e soltá-las atrás de um barco em movimento lento, para imitar peixes-isca e atrair predadores.
A trollagem virtual faz uma analogia a essa pesca, visto que o objetivo é soltar provocações (que seriam as iscas) e “pescar” reações emocionais, de forma a enganar e perturbar outras pessoas. Nesse sentido, o chamado “troll” ou “trollador” é alguém que deliberadamente provoca, perturba e gera discórdia em comunidades online (fóruns, redes sociais, jogos) com comentários inflamatórios, ofensivos ou polêmicos.
Segundo a pesquisadora Whitney Phillips, em sua obra “This Is Why We Can’t Have Nice Things: Mapping the Relationship Between Online Trolling and Mainstream Culture”, a trollagem emergiu nas subculturas da internet inicial como uma forma de humor transgressivo e teste de limites sociais.
Contudo, as formas de trollagem foram mudando ao longo do tempo. Atualmente, o objetivo geralmente é desviar o foco de uma discussão racional por meio de uma roupagem de humor. Com isso, a trollagem foi cooptada como uma estratégia na produção e disseminação de desinformação.
Trollagem x Desinformação: quais as diferenças?
Apesar das suas relações, trollagem e desinformação são fenômenos diferentes. A desinformação refere-se especificamente à disseminação deliberada de informações falsas ou enganosas com a intenção de causar dano ou alcançar algum ganho.
Nesse sentido, a desinformação é uma prática que visa obter vantagens políticas, econômicas ou sociais, com base na propagação de mentiras e informações falsas. A trollagem, por sua vez, tem como objetivo primário a provocação e gerar reações emocionais ao iludir ou enganar alguém com algum tipo de conteúdo.
Com isso, os trolls podem se usar de mecanismos como sarcasmo, ironia, sadismo e discurso de ódio para gerar mais reações. Assim, de maneira geral, pode-se dizer que a trollagem busca chamar a atenção através da perturbação; já a desinformação busca influência por meio do engano, criando narrativas falsas que substituem verdades factuais.
Contudo, muitas campanhas de desinformação incorporam elementos de trollagem para aumentar seu alcance e engajamento.
Quando a trollagem alimenta a desinformação
Operando com uma roupagem humorística, de sátira ou ofensiva, a trollagem pode ter a capacidade de ampliar uma informação enganosa. Ao se disfarçar de humor, provocação ou simples brincadeira, a trollagem acaba reduzindo a vigilância crítica de quem consome o conteúdo.
Dessa forma, ao explorar ironia, exagero e ambiguidade, trolls conseguem espalhar informações falsas ou distorcidas de forma viral, muitas vezes sem serem imediatamente contestados, já que o discurso pode ser defendido como “piada” ou “opinião”.
De acordo com a cientista política Jennifer Kavanagh e o presidente emérito da RAND Corporation, Michael D. Rich, uma das estratégias utilizadas que misturam trollagem com desinformação é conhecida como “firehosing” (bombeamento). Essa estratégia combina propaganda, desinformação e trollagem em um fluxo contínuo e grande de conteúdo, onde a veracidade é menos importante do que o volume e a saturação do ambiente informacional.
Esse tipo de prática se aproveita das dinâmicas das redes sociais, que privilegiam engajamento e reações emocionais, amplificando narrativas enganosas e contribuindo para confusão, polarização e desconfiança no debate público.
Conforme reportagem do El País, a combinação de trolls com desinformação passou a ser utilizada globalmente por governos e entidades para manipular a opinião pública a seu favor. Essa tática passou a ser chamada de “fazenda de trolls”, consistindo em um “exército” de perfis falsos que agem como formadores de opinião ao difundir ideias e promover agendas políticas por meio de conteúdos satíricos, ofensivos e irônicos.
Este processo transformou espaços de trollagem em incubadoras e amplificadores de desinformação, visto que os conteúdos disseminados não possuem a verdade como princípio.
Bots, automação e engajamento falso
A convergência entre trollagem e desinformação consegue ser potencializada quando tecnologias são utilizadas a seu favor. Atualmente, bots de contas automatizadas que simulam comportamento humano são instrumentos cruciais nesta dinâmica.
Esses bots podem ser programados para amplificar conteúdos enganosos, atacar adversários políticos e criar falsa impressão de consenso ou controvérsia. A automação permite que mesmo um pequeno número de atores mal-intencionados consiga produzir um grande volume de conteúdo para manipular a opinião pública.
Normalmente, estes sistemas automatizados operam seguindo a lógica da trollagem: postam conteúdo inflamatório, respondem a usuários reais com provocações e criam debates caóticos que dificultam um diálogo empático e pacífico.
Além disso, quando bots e trolls coordenados interagem com conteúdo desinformativo — curtindo, compartilhando, comentando — os algoritmos de plataformas sociais interpretam essa atividade como sinal de relevância, aumentando a visibilidade do conteúdo para usuários legítimos.
De acordo com relatório elaborado pelo MIT Technology Review, por exemplo, as fazendas de trolls potencializadas por bots chegaram a alcançar 140 milhões de usuários por mês no Facebook nos Estados Unidos antes das eleições estadunidenses de 2020.
Essa capacidade de alcance demonstra um perigo para a sociedade, visto que, com isso, a desinformação consegue se espalhar de maneira efetiva, influenciando o debate público e distorcendo realidades.
Estratégias para combater trollagem e desinformação
O combate eficaz contra a trollagem e desinformação exige uma abordagem multifacetada que envolve diferentes atores: plataformas digitais, governos, educadores e a sociedade civil. No nível das plataformas, a transparência algorítmica e a detecção de comportamento estranho de perfis falsos e bots são essenciais para que a propagação de conteúdos enganosos seja evitada.
Ao mesmo tempo, regulamentações, por meio de legislações que estabeleçam parâmetros de responsabilização por conteúdos de ódio e desinformação, em conjunto com uma educação digital para a sociedade, podem contribuir para a restrição de desinformação e trolls que inflamam o debate público.
Nesse sentido, a aprendizagem experiencial para ensinar usuários a reconhecerem táticas de desinformação também é uma ferramenta útil. Essa aprendizagem pode ocorrer de diversas formas, inclusive de maneira lúdica, como jogos educativos. Foi pensando nisso que a Politize! em parceria com a CIVICUS World Alliance, por meio do programa Digital Action Lab, criou o jogo online “IAgora?”.
O jogo “IAgora?” como ferramenta de combate à desinformação
Em um cenário onde a desinformação se tornou uma ferramenta política complexa, compreender seus mecanismos é o primeiro passo para combatê-la. É exatamente essa compreensão que o jogo “IAgora?” busca promover de forma acessível e envolvente.
O “IAgora?” é um jogo online e acessível e foi desenvolvido com o objetivo de abordar, de forma didática, a desinformação gerada por Inteligência Artificial e suas consequências políticas e sociais durante o período eleitoral.
A ideia é que os jogadores aprendam a identificar conteúdos falsos e descubram como combatê-los de maneira consciente na vida real ao aprender as técnicas de desinformação do jogo.
Através de um sistema de caminhos e consequências, a experiência lúdica revela os desafios éticos e os danos reais causados pela desinformação gerada pela Inteligência Artificial. Mais do que um simples jogo, “IAgora?” é um simulador de consequências que busca equipar os cidadãos com o discernimento necessário para combater a desinformação no mundo real. Acesse, jogue e compartilhe: https://iagora.org/
Referências
- El País – Robôs e ‘trolls’, as armas que Governos usam para envenenar a política nas redes
- GIACHANOU, Anastasia et al. Online information disorder: fake news, bots and trolls. International Journal of Data Science and Analytics, vol 13, p. 265-269, 2022.
- IAgora?: o jogo das eleições 2026
- MIT Techonolgy Review – Relatório mostra que fazendas de trolls alcançavam 140 milhões de americanos por mês no Facebook antes da eleição de 2020
- NASCIMENTO, Myllena A. O acontecimento da trollagem na ordem do discurso político brasileiro: limites entre o humor e o discurso de ódio. Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2022
- PHILLIPS, Whitney. This Is Why We Can’t Have Nice Things: Mapping the Relationship between Online Trolling and Mainstream Culture. The MIT Press. 2015.
- Politize! – O que é desinformação: um fenômeno muito além da fake news
- Rand Corporation – Truth Decay: An Initial Exploration of the Diminishing Role of Facts and Analysis in American Public Life