Falsos especialistas: como a desinformação ganha autoridade

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Em um mundo inundado por informações, muitas vezes enganosas, possuir evidências e um conhecimento profundo sobre determinado assunto tornou-se algo de valor na sociedade. 

No entanto, a mesma era digital que democratizou o acesso ao conhecimento e às informações também criou um terreno fértil para a ascensão de falsos especialistas. Esses indivíduos se apropriam de determinada área ou assunto mesmo não possuindo as credenciais adequadas, influenciando a opinião pública.

Assim, este texto que faz parte da trilha “Nome da trilha” irá te ajudar a entender o que são os falsos especialistas e como eles contribuem para a propagação de desinformação na sociedade. 

O que é um falso especialista?

De repente você se depara com um vídeo nas redes sociais de um homem vestindo um jaleco branco sentado em uma cadeira dentro de um consultório. Ele se diz médico especialista e começa a falar sobre métodos novos e diferentes para a cura de uma doença. Mas será que ele é realmente um especialista e o que ele está dizendo possui evidências científicas?

Hoje em dia, precisamos tomar muito cuidado com os conteúdos que consumimos na internet. Não podemos confiar em tudo cegamente. Há diversos conteúdos enganosos e pessoas se dizendo autoridades sem realmente serem. Chamamos isso de falso especialista.

Um falso especialista é um indivíduo ou organização que projeta uma imagem pública de competência, conhecimento e credibilidade em um determinado campo, sem possuir a formação, as qualificações, a experiência ou o reconhecimento necessário. Dessa forma, apesar da aparência, esse indivíduo não possui a legitimidade para tratar sobre o assunto no qual ele diz possuir experiência e conhecimento.

Assim, é uma representação enganosa e desonesta, muitas vezes consciente e planejada, feita para influenciar as pessoas e manipular a opinião pública para obter ganhos financeiros ou seguidores. 

Por que a aparência de autoridade convence

De maneira geral, os falsos especialistas não se restringem a um único espectro ideológico ou assunto, podendo ser encontrados na saúde (promovendo curas milagrosas não comprovadas), na economia (prevendo crises ou fazendo projeções sem base empírica), na ciência climática (negando consensos científicos) e até mesmo na política (se passando por analista geopolítico com fontes “secretas”).

Em muitos casos, eles conseguem ser bem sucedidos em seus objetivos, por conta da persuasão e do poder de convencimento que possuem em suas narrativas. Normalmente, os falsos especialistas apelam para interesses, desejos e exploram necessidade psicológicas, físicas e/ou emocionais. Assim como se utilizam da sua falsa autoridade para dar legitimidade ao seu conteúdo e convencer o público.

Além disso, vivemos em um momento em que nas redes sociais as pessoas preferem consumir conteúdos que possuam um viés de confirmação das suas crenças pré-existentes, ideias, valores, etc. 

Com isso, um falso especialista que valida os medos, crenças ou visões de mundo de um grupo específico será recebido positivamente como alguém que “diz a verdade”, mesmo que suas credenciais sejam frágeis. 

Os algoritmos das redes sociais amplificam esse efeito, criando câmaras de eco (também chamadas de bolhas) onde a falsa autoridade é constantemente reforçada e celebrada por sua comunidade, isolando-a de críticas externas legítimas.

Como os falsos especialistas produzem desinformação

Ao falar sobre assuntos, ou sugerir determinadas ações ou produtos, de maneira intencional, os falsos especialistas produzem desinformação que podem ter consequências negativas sérias. A produção de desinformação por falsos especialistas é um processo estratégico que combina uma narrativa persuasiva, uma figura de autoridade que não é legítima juntamente com a exploração das vulnerabilidades das pessoas.

Um exemplo recente no Brasil, revelado em 2024 em reportagem pelo G1, foi o caso dos atores que se passavam por médicos para receitar produtos de emagrecimento. Esses atores, falsos especialistas, interpretavam médicos e farmacêuticos para vender produtos sem regulamentação pela Anvisa.

Nesse caso, eram gravados vídeos simulando entrevistas e conversas com os supostos médicos autoridades no assunto. Os vídeos mostravam falsos infográficos e falsas pesquisas para reforçar a narrativa do suposto médico sobre uma “bactéria que acumula gordura enquanto você dorme” e, ao fim, tentar vender um produto milagroso que prometia ajudar no emagrecimento. 

Não se sabe exatamente a quantidade de pessoas que assistiram ao vídeo e nem o quanto foi vendido do produto. Contudo, é inegável que essa desinformação alcançou diversas pessoas que compraram os produtos com a expectativa de conseguir emagrecer.

Esse é apenas um caso da área da saúde, mas existem outros diversos que contribuem para espalhar desinformação sobre diferentes assuntos e áreas na sociedade.

Impactos sociais da falsa autoridade

A ação de falsos especialistas e a autoridade que lhes é conferida têm consequências profundas e prejudiciais para a sociedade, indo muito além da disseminação de desinformação.

Conteúdos enganosos sobre saúde, por exemplo, em que falsos médicos receitam produtos ou remédios podem ter consequências sérias para a saúde das pessoas que acreditam e consomem o produto indicado. 

Durante a pandemia de Covid-19, diversas fake news sobre vacinas circularam nas mídias sociais. Na época, campanhas contra a vacina, que tiveram envolvimento de falsas autoridades no assunto, aumentaram a desconfiança do público sobre o uso da vacina. Desinformação desse tipo pode causar doenças e até mesmo a morte.

Se olharmos para a área da economia, muitas pessoas ao acreditarem em um falso especialista em investimentos podem ter um prejuízo financeiro enorme, comprometendo as suas finanças para a vida toda. 

Quando vozes sem qualificação recebem a mesma validação que especialistas legítimos, cria-se uma falsa equivalência. A população passa a acreditar que “toda opinião é válida” e que a ciência é apenas mais uma narrativa entre outras.

Como identificar e evitar falsos especialistas

Combater a influência dos falsos especialistas exige um esforço combinado de alfabetização midiática, postura crítica por parte dos usuários e regulamentação severa por parte das plataformas digitais em identificar e coibir esse tipo de conteúdo.

Vamos supor que você se deparou com um conteúdo e tem dúvidas sobre a legitimidade da pessoa que está falando. Nesse caso, para identificar um falso especialista, separamos algumas dicas que podem te ajudar:

  • Verifique as credenciais (a fonte): Procure saber se a formação acadêmica que a pessoa diz ter é verdadeira, pesquise se o indivíduo publica em revistas científicas, se é citado por outros especialistas e se realmente está ligado a uma universidade, hospital ou centro de pesquisa respeitável.
  • Avalie o método (a mensagem): A pessoa utiliza uma linguagem impositiva e apocalíptica, prometendo milagres? Se sim, desconfie. A pessoa reconhece o consenso científico predominante ou o descarta como uma “conspiração”? Um único “especialista” que vai contra milhares é um enorme sinal de alerta.
  • Pratique a higiene informacional: Não compartilhe conteúdo imediatamente. Pare para refletir. Busque a opinião de outras fontes confiáveis e estabelecidas sobre o mesmo tema. Use sites de checagem de fatos (fact-checking) como ferramenta.

Além disso, buscando ajudar as pessoas a se conscientizarem e conseguirem identificar os padrões dos falsos especialistas e as desinformações propagadas, a Politize! em parceria com a CIVICUS World Alliance, por meio do programa Digital Action Lab, criou o jogo IAgora?

O jogo “IAgora?” como ferramenta de combate a desinformação

Em um cenário onde a desinformação se tornou uma ferramenta política complexa, compreender seus mecanismos é o primeiro passo para combatê-la. É exatamente essa compreensão que o jogo “IAgora?” busca promover de forma acessível e envolvente.

O “IAgora?” é um jogo online e acessível e foi desenvolvido com o objetivo de abordar, de forma didática, a desinformação gerada por Inteligência Artificial e suas consequências políticas e sociais durante o período eleitoral. 

A ideia é que os jogadores aprendam a identificar conteúdos falsos e descubram como combatê-las de maneira consciente na vida real ao aprender as técnicas de desinformação do jogo.

Através de um sistema de caminhos e consequências, a experiência lúdica revela os desafios éticos e os danos reais causados pela desinformação gerada pela Inteligência Artificial. Mais do que um simples jogo, “IAgora?” é um simulador de consequências que busca equipar os cidadãos com o discernimento necessário para combater a desinformação no mundo real. Acesse, jogue e compartilhe: https://iagora.org/

Referências:

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Conteúdo escrito por:

Eduardo de Rê

Eduardo de Rê, de 28 anos, é licenciado e mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com pesquisas nas áreas de política internacional e segurança internacional, sendo membro do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Política Internacional Contemporânea (GEPPIC) desde 2018. Sua monografia foi premiada ao final de sua graduação, conquistando o segundo lugar no Prêmio Santos Dumont de 2021, concedido pelo Ministério da Defesa e pelo Ministério da Educação do Brasil. Durante dois anos, atuou como redator e coordenador de conteúdos na Civicus, uma empresa parceira da Politize!, onde foi responsável pela criação e desenvolvimento de projetos com temáticas sociais, cidadania e direitos humanos. Atualmente, é assessor internacional na Politize!
, Eduardo. Falsos especialistas: como a desinformação ganha autoridade. Politize!, 16 de março, 2026
Disponível em: https://www.politize.com.br/falsos-especialistas-e-desinformacao/.
Acesso em: 16 de mar, 2026.

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