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Notícias falsas e pós-verdade: o mundo das fake news e da (des)informação

notícias falsas

Com certeza você tem ouvido falar muito sobre notícias falsas, as famosas fake news, correto? Afinal, vivemos numa avalanche de informações a cada segundo. O mundo inteiro está a um clique de distância. No celular, o whatsapp está o tempo todo alerta, com mensagens de amigos e de grupos sobre diversos temas; no Facebook, o painel de novidades – o newsfeed – está repleto de vídeos, notícias urgentes, postagens de páginas que você curte e comentários fazendo juízos de valor sobre qualquer assunto. Em meio a todo esse cenário, às vezes é difícil saber o que é verdadeiro ou não.

Nos últimos tempos, houve um aumento de notícias falsas, as famosas fake news, em inglês. Quantas vezes você sai falando sobre uma matéria de jornal e, na verdade, só leu a manchete? Quantas vezes você checa a informação que um colunista do qual você gosta publicou? Quantas vezes você assiste a um vídeo polêmico e o compartilha com seus amigos? Vamos conversar sobre o nosso mundo da (des)informação? 

Fake News: afinal, o que são notícias falsas?

Notícias falsas sempre existiram, não é mesmo? Principalmente no ramo da política, onde não é novidade um candidato plantar uma informação sobre seu adversário para que ele perca votos ou que boatos sobre a vida privada dessas figuras sejam espalhados. Historicamente, diversas fake news foram disseminadas com determinados objetivos. Mas fiquem tranquilos, não estamos deduzindo isso: tiramos essa informação de uma entrevista do historiador Robert Darnton para a Folha de São Paulo.

O historiador Robert Darnton, que é professor emérito da Universidade Harvard , conta que as notícias falsas são relatadas pelo menos desde a Idade Antiga, do século 6: “Procópio foi um historiador bizantino do século 6 famoso por escrever a história do império de Justiniano. Mas ele também escreveu um texto secreto, chamado “Anekdota”, e ali ele espalhou “fake news”, arruinando completamente a reputação do imperador Justiniano e de outros. Era bem similar ao que aconteceu na campanha eleitoral americana”, diz Robert Darnton ao jornal Folha de São Paulo.

Leia a entrevista completa aqui!

Notícias que aparentam ser verdadeiras, que em algum grau poderiam ser verdade ou que remontam situações para tentar se mostrar confiáveis: isso são as fake news que vemos atualmente. Por isso há de ser ter cuidado: as notícias falsas não são apenas aquelas extremamente irônicas, que têm o intuito de serem engraçadas e provocar o leitor. As notícias falsas atualmente buscam disseminar boatos e inverdades com informações que não estão 100% corretas sobre pessoas, partidos políticos, países, políticas públicas… Elas não vão aparentar ser mentira, ainda mais se nós acreditamos que elas podem ser verdadeiras – mas não são.

Isso se deve também a um fenômeno contemporâneo presente no mundo: a pós-verdade. Vamos entendê-la?

Pós verdade: o que tem a ver com as notícias falsas?

Pós-verdade foi eleita a palavra do ano em 2016 pelo Dicionário Oxford. De acordo com o Dicionário Oxford, pós-verdade é: um substantivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e crenças pessoais”.  

A explicação da palavra pós-verdade de acordo com o Oxford é de que o composto do prefixo “pós” não se refere apenas ao tempo seguinte a alguma situação ou evento – como pós-guerra, por exemplo –, mas sim a “pertencer a um momento em que o conceito específico se tornou irrelevante ou não é mais importante”. Neste caso, a verdade. Portanto, pós-verdade se refere ao momento em que a verdade já não é mais importante como já foi.

Para o  jornalista Matthew D’ancona, autor do livro “Pós verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news”, o ano de 2016 marcou o início da “era da pós verdade”, ou seja, o início de um período em que os fatos são cada vez mais desvalorizados, enquanto que paixões e crenças ganham força.

O termo pós-verdade já existe desde a última década, mas as avaliações do Dicionário Oxford perceberam um pico de uso da palavra exatamente no ano de 2016, no contexto do referendo de saída do Reino Unido da União Europeia – o Brexit – e das eleições estadunidenses. Além disso, é bastante usado com o termo política depois, então, pós-verdade política. Durante esses dois grandes eventos políticos, a pós verdade ganhou força através da massiva propagação de fake news na internet (afinal, as campanhas do Brexit e de Trump foram altamente digitalizadas, favorecendo a propagação de notícias falsas). 

Qual o real impacto das notícias falsas na política?

notícias falsas

Conforme mencionado, dois acontecimentos que tiveram relevância internacional em 2016 foram o Brexit – saída do Reino Unido da União Europeia – e as eleições presidenciais estadunidenses. Além de serem os principais motivos do crescente uso da palavra pós-verdade, também foram onde o próprio fenômeno das notícias falsas foi muito intenso. Mas porque?

Bom, isso ocorreu especialmente em função da alta digitalização dessas campanhas políticas. A campanha pelo Brexit, bem como a campanha de Trump, foram desenvolvidas com foco em internet e redes sociais.  A estrutura desse ambiente digital é essencialmente favorável à propagação de notícias falsas. A principal razão para isso é que na internet é possível realizar campanhas personalizadas: Ou seja, enviar anúncios diferentes para cada pessoa, de acordo com o perfil de personalidade dos usuários. A campanha de Trump, por exemplo, chegou a utilizar dark posts, ou seja, anúncios enviados individualmente que depois desapareciam da rede. Se nem todo mundo receberá os mesmos anúncios, fica mais difícil fiscalizá-los, facilitando a propagação de fake news.  O impacto disso é o que veremos a seguir. 

O caso da eleição dos Estados Unidos

Em 2016, 33 das 50 notícias falsas mais disseminadas no Facebook eram sobre a política nos Estados Unidos, muitas delas envolvendo as eleições e os candidatos à presidência. Durante a campanha presidencial, notícias falsas foram espalhadas sobre os dois candidatos: o republicano Donald Trump – depois eleito – e a democrata Hillary Clinton. No monitoramento de 115 notícias falsas pró-Trump e 41 pró-Hillary, os economistas Hunt Allcott e Matthew Gentzkow concluíram que as postagens pró-Trump foram compartilhadas 30 milhões de vezes, enquanto as pró-­Hillary 8 milhões. 

Sobre Trump, a “notícia” de que o Papa Francisco havia apoiado sua candidatura e lançado um memorando a respeito foi a segunda maior notícia falsa sobre política mais republicada, comentada e a qual as pessoas reagiram no Facebook em 2016. Outra notícia falsa,  diretamente relacionada com Trump, afirmava que ele oferecia uma passagem de ida à África e ao México para quem queria sair dos Estados Unidos – a postagem obteve 802 mil interações no Facebook. Quanto à Hillary Clinton, uma notícia falsa com alta interação no Facebook – 567 mil – foi de que um agente do FBI (órgão de investigação federal) que trabalhava no caso do vazamento de e-mails da candidata foi supostamente achado morto por causa de um possível suicídio. 

O site PolitiFact, de checagem de informações e ganhador do Prêmio Pulitzer, 69% das declarações de Trump são ‘predominantemente falsas’, ‘falsas’ ou ‘mentirosas’. Quando pensamos que trata-se do Presidente da maior potência mundial, é possível imaginar que isso tenha consequências em todo o mundo.

Notícias falsas no Brexit

Nigel Farage, líder da campanha Leave EU, na inauguração de um outdoor de campanha. O outdoor apresenta a imagem de uma suposta fila de imigrantes turcos aguardando para entrar no país, junto a frase “A União Europeia falhou”. A notícia falsa de que 76 milhões de turcos entrariam na UE foi central na campanha pelo Brexit.

Quanto ao Brexit, houve diversas informações truncadas disseminadas pela campanha Vote Leave – em tradução livre, “vote para sair” – para a saída do Reino Unido da União Europeia. As questões envolviam principalmente as políticas de imigração da UE e questões econômicas. O jornal The Independent reporta que um dos líderes da campanha pelo Brexit afirmou que mais 5 milhões de imigrantes iriam ao Reino Unido até 2030 por conta de uma licença dada a 88 milhões de pessoas para viver e trabalhar lá – uma informação que não tem fundo de verdade. Um dos pôsteres da campanha clamava: “Turquia (população de 76 milhões) está entrando na UE” – quando, na verdade, o pedido de entrada na UE pela Turquia é antigo e não mostra sinal de evolução

O fenômeno das fake news no Brasil

Em 2018, foi a vez do Brasil de experimentar a proliferação de notícias falsas, que ganharam força durante a eleição presidencial. É provável que tenha sido durante as eleições que você tenha ouvido falar no termo fake news pela primeira vez. Ao contrário dos casos do Reino Unido e dos Estados Unidos, no Brasil a rede social que protagonizou a disseminação de notícias falsas foi o Whatsapp. Em especial, a campanha de Jair Bolsonaro destacou-se pela utilização de notícias falsas nessa rede social, como a notícia sobre um ‘kit gay’ supostamente distribuído pelo MEC sob à presidência de Haddad. Aqui você pode conferir 5 fake news que favoreceram a campanha de Bolsonaro.

Qual o papel da imprensa com as notícias falsas no mundo da pós-verdade? 

Podemos dizer que o jornalismo sempre foi o canal que disseminava as notícias e conteúdos às pessoas, seja a respeito da sua própria comunidade ou sobre o mundo. Hoje há, porém, um ruído na relação entre os jornalistas, os meios de comunicação tradicionais e o público. Em alguns casos, o público não quer mais ser informado por apenas o que uma emissora de TV, de rádio ou jornal impresso têm vontade de veicular. Em outros, acredita-se que a cobertura de situações é parcial e partidária para algum lado. 

Desde a massificação da internet, mas principalmente das redes sociais, não há mais filtro entre a informação e o público. O público pôde se emancipar da necessidade em se conectar com veículos tradicionais de informação e, portanto, há quem se informe somente pelas redes sociais e nunca abra um jornal. Aí reside o problema: muitas vezes são disseminadas informações inexatas, exageradas ou erradas de alguma maneira. Isso traz à tona a importância da imprensa, que tem a formação jornalística necessária para o combate a notícias falsas, pois envolve apuração dos fatos, a checagem de informações e as entrevistas com diversas partes envolvidas numa situação (pluralidade de fontes).

Em um estudo da USP sobre as “Eleições 2018 – Perspectivas da comunicação organizacional”, conclui-se que metade das empresas brasileiras não acredita que a imprensa está preparada para a cobertura das eleições de 2018. Por outro lado, a metade que acredita na capacidade da imprensa de cobrir as eleições do ano que vem o faz porque enxerga competência e tradição da mídia brasileira nesse tipo de cobertura.

O jornalismo tradicional, portanto, pode e deve encontrar novos formatos de conteúdo, inovar em suas abordagens para manter a sua credibilidade perante o público que já tem e adquirir o público que ainda não tem – exatamente a população que nasceu em meio à internet e às redes sociais. É papel de imprensa utilizar suas ferramentas para combater a disseminação das notícias falsas e da pós-verdade. Um dos meios para isso é a checagem de fatos feita em agências, redações e coletivos de jornalismo, sobre a qual você pode ler aqui!

Antes de prosseguir a leitura, que tal conferir um vídeo rápido? São dicas fáceis que te ajudam a reconhecer uma notícia falsa:

 

Porque notícias falsas são feitas?

Há diversos fatores para a criação de notícias falsas. Alguns deles são a descrença na imprensa e a utilização das fake news como um negócio, para atingir objetivos de interesse próprio. Em estudos sobre os motivos pelos quais são feitas as fake news, chegou-se ao seguinte resultado: os motivos podem ser um jornalismo mal-feito; paródias, provocações ou intenção de “pregar peças”; paixão; partidarismo; lucro; influência política e propaganda.

Quanto ao lucro, por exemplo, os estudos se referem às notícias falsas terem se tornado um negócio. Há realmente quem lucre com esse advento, com ferramentas de propaganda gratuitas e com as manchetes chamadas de “iscas de clique”. Foi o caso de um brasileiro que chegou a fazer 100 mil reais mensais de lucro com sites de notícias falsas, segundo um mapeamento da  Folha de São Paulo.

A respeito da veiculação desses conteúdos, podemos dizer que são disseminados principalmente pela internet, por meio de redes sociais, portais falsos de notícias e grupos de aplicativos de mensagem, amplificados até por jornalistas que passam informações truncadas às pessoas. Outras notícias falsas são disseminadas por grupos diversos – de política, de religião, de crenças variadas – que fazem comunidades, páginas de Facebook e sites para compartilhar suas crenças e (des)informar as pessoas de acordo com sua fé. Existem também outras maneiras mais sofisticadas, em que há uso de robôs e mecanismos da internet próprios para disseminar conteúdos falsos.

Vamos combater notícias falsas?

Para evitar um mundo que vive na pós-verdade, precisamos combater e prevenir a disseminação de notícias falsas. A pesquisadora Claire Wardle, em um artigo no First Draft News, acredita que para combater de fato as fake news precisamos entender três pilares:

  • Os diferentes tipos de conteúdos que estão sendo criados e compartilhados.
  • As motivações de quem cria esse conteúdo;
  • As maneiras com que esse conteúdo é disseminado.

No gráfico abaixo, você encontra essas informações:

 

Sugestões de aprofundamento 

Ficou interessado no assunto? Nos últimos anos, devido aos acontecimentos políticos mencionados no texto, surgiu uma crescente literatura sobre o tema. Abaixo, trouxemos duas sugestões de leitura:

notícias falsas

E aí, conseguiu entender o que são notícias falsas e o que é a “era da pós verdade”? Deixe suas dúvidas e sugestões nos comentários! 

Carla Mereles
Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), curadora do TEDxBlumenau e assessora de conteúdo do Politize!.

 

 

Isabela Moraes
Assessora de conteúdo no Politize! e graduanda de Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Quer ajudar a descomplicar a política e aproximá-la das pessoas, incentivando a participação democrática.

 

 

Publicado em novembro de 2017.  Atualizado em 16 de outubro de 2019.

 

REFERÊNCIAS

Historiador Robert Darnton – entrevista Folha de S. Paulo; “Fake news viraram um grande negócio” – Revista Época; Imprensa brasileira na cobertura das eleições de 2018 – Revista Época; O que são as fake news – Professor Doutor Diogo Rais (Mackenzie); Fake news: o novo espetáculo – João Pedro Piragibe, Mestre em Educação, Arte e História da Cultura (Mackenzie); Blog Watch – Fake News Types; First draft news – Claire Wardle – 7 types of fake news; 6 tipos de fake news nas eleições dos EUA em 2016 – Claire Wardle – Columbia Journalism; O mundo das fake news – El País; Pós-verdade – Dicionário Oxford; Fact-check.org – Papa Francisco endossou Donald Trump?; Estadão – TSE, Abin e Defesa combatem fake news; New York Times – Como fake news se espalham; The Guardian – Fake news ajudaram Trump a se elegerBuzzfeed News – Top Fake News 2016; Relação Turquia e União Europeia – Exame; O império da pós-verdade – Época;  

 

urna-eletronica

Urna eletrônica: como funciona e principas polêmicas

Imagem de uma urna eletrônica

A urna eletrônica no Brasil foi implementada em 1996, sendo criada para agilizar e dar mais segurança ao nosso processo eleitoral. Apesar das inúmeras vantagens, a urna causa polêmicas desde sua criação. Muitos questionam se ela é realmente confiável e se não haveria outra forma de garantir a segurança do voto.

A Justiça Eleitoral reafirma sua confiança no equipamento, mas alguns especialistas garantem que já quebraram seus métodos de segurança. Entenda como funciona a urna eletrônica e conheça as principais polêmicas em torno da sua utilização.

Primeiro, como surgiu a urna eletrônica?

Até a década de 1990 o nosso processo de votação funcionava por meio de cédulas de papel. O eleitor, por sua vez, anotava seu voto e depositava em uma urna, também feita de papel. Para informatizar o sistema eleitoral, especialistas começaram a desenvolver uma máquina que agilizasse todo o processo. Até chegarem a criação do primeiro protótipo, em 1989.

Mas foi somente em 1996 que a urna eletrônica começou a ser utilizada em uma eleição. Naquele ano, ela foi usada em apenas 57 municípios brasileiros. Isto porque estava em fase de teste e em função da falta de tempo para a fabricação de um número suficiente de unidades. Somente em 2000 é que a urna eletrônica foi utilizada em 100% das seções eleitorais.

Entretanto, a urna eleitoral não surgiu da maneira que conhecemos. Do modelo desenvolvido por Prudêncio ao modelo que conhecemos hoje, ela passou por um processo de evolução até chegar à atual etapa de informatização. Foram várias as formas utilizadas ao longo destes mais de 20 anos de existência.

Como funciona a urna eletrônica?

Bem, votar na urna eletrônica é uma atividade bem simples. Porém, vamos te explicar o passo a passo, para que você não tenha mais dúvidas. Vamos lá?

Nas eleições 2018, votamos para cinco cargos: deputado estadual, deputado federal, senador, governador e presidente. Cada cargo possui uma quantidade de números em sua identificação numérica, que são:

Esta também é a ordem em que você, eleitor e eleitora, vota na cabine. Ao final de cada cargo, as informações de quem você votou aparecem na tela da urna eletrônica. Caso tudo esteja correto, você aperta “CONFIRMA” (tecla verde). Caso as informações divergirem, você apera “CORRIGE” (tecla laranja), e refaz o processo.

Caso você opte por votar em branco, é só apertar a tecla “BRANCO” (tecla branca) e confirmar. Agora, para você votar nulo, basta digitar um número inexistente na urna e confirmar seu voto.

Depois de votar em todos os seus candidatos, a urna irá emitir um som característico, bem como a palavra “FIM” na tela.

Além disso, o TSE disponibiliza um simulador de votação, ideal para quem está votando pela primeira vez. Você pode acessá-lo aqui.

Quais as vantagens da urna eletrônica?

Entre as principais vantagens da urna está a agilidade na apuração dos votos. Com seu uso, os eleitores ficam sabendo dos resultados da eleição no mesmo dia da votação. Além disso, a informatização do processo eliminou a intervenção humana na contagem dos votos. O que impede fraudes muito comuns na época das cédulas de papel.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral – TSE, a urna eletrônica computa os votos de maneira segura e sigilosa, impedindo a identificação do eleitor e executando o processo com o melhor custo-benefício. Antes dela, a apuração poderia durar dias e exigia um grande número de pessoas na função.

Outro ponto positivo é a inexistência de ligação da urna com dispositivos de rede, como internet e bluetooth. O que, por sua vez, impede ataques feitos por hackers. O uso da urna permite também que todas as fases do processo de votação possam ser acompanhadas e auditadas, por representantes de partidos, instituições ou qualquer cidadão interessado, o que torna o processo mais transparente.

Quais são os mecanismos de segurança aplicados à urna?

O uso de processos informatizados na eleição pode ter acabado com tipos de fraudes comuns na época do voto em cédulas. Entretanto, trouxe um novo desafio para o sistema: garantir que a urna faça uma correta captação e contabilização dos votos.

O TSE, responsável pela segurança da urna eleitoral, conta com inúmeras ferramentas para garantir que o equipamento seja confiável. São dezenas de barreiras físicas e digitais aplicadas para que a ocorrência de fraude se torne altamente improvável. Conheça alguns dos principais recursos utilizados pelo tribunal para garantir a segurança desse sistema:

1) Programas exclusivos do TSE

Segundo o TSE, os programas de computador utilizados na urna são totalmente desenvolvidos pelo tribunal e criados a partir de uma versão única de códigos-fonte, uma ferramenta usada na programação de softwares. Esses códigos recebem uma assinatura digital, são gravados em mídia (pen drives) e lacrados em cofres.

O tribunal afirma que o sistema verifica se os programas usados no aparelho são autênticos, e não uma versão adulterada. Nem mesmo a empresa fabricante da urna consegue acessá-la sem permissão do TSE.

O tribunal garante que estes códigos-fonte são apresentados aos partidos, Ministério Público e entidades da sociedade civil. Isso acontece em uma cerimônia pública, onde o sistema pode ser analisado pelos ali presentes.

Mas o que o TSE trata como vantagem é visto com desconfiança pelos críticos do sistema. Para eles, uma vez que o tribunal é o único que conhece o código-fonte, é também o único que pode auditá-lo. O que prejudica a fiscalização por parte da sociedade.

2) Testes Públicos de Segurança

São testes promovidos pelo TSE, onde especialistas em informática e outros cidadãos podem tentar quebrar barreiras de segurança da urna. Realizados a cada ano de eleição, seu objetivo é o aperfeiçoamento dos softwares e hardwares das urnas eletrônicas. Bem como de outros procedimentos de segurança do processo de votação.

Os testes públicos começaram a ser realizados em 2009, mas somente em 2015 eles passaram a ser obrigatórios. Desde sua primeira edição, já foram encontradas diversas falhas no equipamento. Porém, todas corrigidas antes da eleição, garante o TSE.

3) Votação paralela

Processo de votação paralela

Esta é uma simulação de votação para avaliar a segurança da urna contra eventuais fraudes. A votação paralela ocorre no mesmo dia das eleições. A diferença é que, por ser uma simulação, os seus votos não são contabilizados, como acontece com as demais urnas.

A votação paralela funciona da seguinte forma: na véspera da eleição, são selecionadas algumas urnas entre aquelas já enviadas para as seções eleitorais. São escolhidas urnas em todos os estados, geralmente uma na capital e até quatro entre os outros municípios. Essas urnas são levadas para um local pré-selecionado, por onde passam por uma simulação de eleição, mas com candidatos reais.

O eleitor que participa da simulação deposita seu voto de duas formas: digitando na urna eletrônica e anotando em uma cédula de papel. O objetivo é comparar os votos contabilizados pela urna e os votos anotados em cédula.

Este processo é acompanhado por auditores independentes contratados pelo TSE. A digitação na urna é filmada, para ampliar a transparência do procedimento. Além disso, a votação paralela é pública, podendo ser acompanhada por qualquer pessoa interessada.

4) Recontagem dos votos

Sabemos que o processo eleitoral é altamente competitivo. Candidatos e partidos investem muitos esforços durante todo o período das eleições, mas nem todos saem satisfeitos com o resultado.

Muitos partidos desconfiam de possíveis falhas no processo de apuração dos votos, principalmente quando a diferença entre os candidatos é pouca. Por isso, a legislação eleitoral permite que candidatos e partidos políticos solicitem a recontagem dos votos, para terem a certeza de que o resultado está mesmo correto.

As urnas eletrônicas são confiáveis?

O TSE garante que a urna eletrônica é a opção mais segura e sigilosa para o processo de votação, mas nem todo mundo concorda.

No teste público promovido pelo TSE em 2012, um grupo de especialistas da Universidade de Brasília – UnB, coordenado pelo professor Diego Aranha, descobriu a ordem cronológica em que votaram 474 do total de 475 eleitores participantes da simulação. Isto representa um índice de acerto de 99,9% pelo grupo da universidade. O time não descobriu quem eram exatamente os autores dos votos, mas conseguiu obter os registros dos horários de cada voto e revelaram em que candidatos esses eleitores votaram.

De acordo com o empreendedor digital Helder Ribeiro, o fato de as urnas eleitorais trabalharem com sistemas isolados não evita que elas sejam invadidas por hackers. Para ele, o ataque pode ocorrer na fase de criação dos programas do TSE, pois os computadores desenvolvedores do programa são ligados à internet. Assim, o vírus poderia ser colocado na urna ainda em sua fase de criação. Apesar da teoria, nenhuma fraude dessa natureza foi comprovada no Brasil.

No final de 2017, após o teste público de segurança, foram identificados três falhas decorrentes das atualizações realizadas no sistema para as votações de 2018. A principal delas refere-se à chave eletrônica que dá acesso à urna. Segundo o coordenador da pesquisa, José de Melo Cruz, os investigadores conseguiram observar algumas informações da urna, mas não conseguiram acesso para modificá-las.

Gilmar Mendes, o então Ministro do TSE, afirmou que o objetivo desses testes é justamente verificar a possibilidade de falhas para corrigi-los antes das eleições.

E o voto impresso?

Até junho de 2018 a votação teria um sistema de impressão de votos. A votação ainda seria eletrônica, mas, no momento do voto, seria impresso um boletim para conferência do mesmo.

No novo sistema, o eleitor registra seu voto na urna eletrônica e verifica em uma impressora ao lado se o nome e o número do candidato estão de acordo com o que foi digitado. O processo só é finalizado quando o eleitor confirmar a correspondência entre o voto eletrônico e o registro impresso.

Contudo, no dia 6 de junho de 2018, o STF derrubou a medida do voto impresso. Segundo o Tribunal, a alternativa pode acarretar em situações que quebrarão o direito do voto secreto.

Leia também: Voto impresso: como funcionaria essa prática no Brasil?

O papel do eleitor na fiscalização

Oficialmente, a apuração dos votos é realizada pela Justiça Eleitoral, mas já existiram iniciativas que propuseram uma fiscalização da contagem de votos feita de forma independente. Procurando desenvolver um aplicativo que envolvesse o eleitor na fiscalização do pleito, um grupo formado por técnicos, professores e ativistas criou um projeto chamado Você Fiscal. Nas eleições de 2016, o projeto foi colocado em prática através de uma parceria com o aplicativo Apura Fácil. Entretanto, o Você Fiscal, atualmente, está inativo. De acordo com o aplicativo, ele já cumpriu seus objetivos.

Funcionava assim: após o término da votação, às 17 horas, cada seção eleitoral emitia um Boletim de Urna (BU). Este documento continha o registro do número de votos obtido por cada candidato em determinada seção, onde era fixado para que todo eleitor possa conferir. O BU continha um QR Code, um código que pode ser lido pelo aplicativo após ser capturado por um aparelho eletrônico. Esses dados totalizam o total de votos, para que o resultado seja comparado com o resultado da apuração oficial.

E você, o que pensa sobre a urna eletrônica?

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Publicado em 30 de setembro de 2016. Republicado em 10 de março de 2020.

 

Inara Chagas

Assessora de conteúdo no Politize! e graduanda de Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Acredita que o conhecimento é a chave para mudar o mundo. Como o Politize! é uma ferramenta para difundir conhecimento e mudar a realidade em que vivemos, tem prazer em poder contribuir e realizar este propósito.

 

 

Isabela Souza

Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ex-assessora de conteúdo do Politize!.

 

 

Referências:

Agência Brasil – Saiba como usar a urna eletrônica

BBC News – Entenda a segurança das urnas das eleições

Gazeta do Povo – Voto impresso torna processo eleitoral mais confiável, dizem especialistas

Senado Federal – Voto impresso começa a valer em 2018, mas já é alvo de críticas

Tribunal Superior Eleitoral – Faltam 19 dias: saiba como funciona a votação paralela

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