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Destaque-índice de progresso social

Índice de Progresso Social: outro modo de medir o sucesso das sociedades?

Na imagem, folha de papel com um gráfico desenhado. Conteúdo sobre índice de progresso social.Nossa vida hoje é repleta de indicadores. Números como o PIB, o Índice de Desenvolvimento Humano, as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs) e uma variedade de outros índices específicos, nos ajudam a compreender o mundo a nossa volta e a definir prioridades.

Desde que surgiram, esses indicadores fazem parte do debate público sobre o que o Estado deve fazer e cada um deles nos leva a uma direção diferente. Esforços para aumentar o crescimento do PIB, por exemplo, podem envolver desregulamentação ambiental e enfraquecimento de leis trabalhistas, afetando, pelo menos no curto-prazo, indicadores relacionados à biodiversidade e à qualidade de vida e de renda da população.

Leia mais sobre o PIB aqui!

Neste artigo do Politize! conheceremos um indicador bastante novo, chamado Índice de Progresso Social. Este indice coloca as pessoas no centro da análise e chama atenção a necessidades muito concretas, como ter o suficiente para comer e ter acesso a oportunidades de crescimento pessoal e realização. Vamos lá?!

O que é o Índice de Progresso Social?

No início dos anos 2010, um grupo de pesquisadores da Escola de Administração de Empresas de Harvard (Harvard Business School) e da Escola Sloan de Administração do MIT (MIT Sloan School of Management), liderados por Michael Porter e Scott Stern, reuniram-se com o objetivo de criar uma medida do desenvolvimento socioeconômica das nações que fosse além do PIB ou de índices de competividade. Poucos anos depois, em 2013, nasceu a Social Progress Imperative, uma organização sem fins lucrativos com o propósito único de desenvolver e difundir essa medida, que foi batizada de Índice de Progresso Social (IPS).

O objetivo do IPS, segundo seus idealizadores, é oferecer uma medida das “coisas que realmente importam para pessoas reais”. Embora o IPS não seja um substituto ao PIB per capita – uma das medidas mais comuns do nível de desenvolvimento das sociedades – ele procura ser uma alternativa, ou, segundo seus criadores, “uma nova maneira de definir o sucesso de nossas sociedades”.

O ponto de partida para a elaboração do índice é o conceito de progresso social, que para os mantenedores do índice, significa o seguinte:

“[Progresso social é] a capacidade que uma sociedade tem para atender às necessidades humanas básicas de seus cidadãos, lançar os alicerces que permitirão a cidadãos e comunidades aprimorarem e manterem a qualidade de suas vidas, e criar as condições para que todos os indivíduos atinjam seu potencial máximo.”

Não há ninguém melhor para falar do Índice do que o próprio pessoal que o inventou, por isso, se tiver um tempinho, confira esta palestra TED em que Michael Green, uma das cabeças por trás do IPS, apresenta o Índice e discute sua relevância.

Como o Índice é calculado?

O IPS é uma verdadeira boneca russa de indicadores, pois se trata de um índice composto de índices compostos de índices compostos! Calma que vamos explicar! É um índice composto por ser um indicador padronizado (o que o torna um “índice”) e construído a partir da combinação ou agregação de outros índices (o que o torna “composto”).

Especificamente, o IPS se decompõe em três dimensões, que são também representadas por índices compostos: (1) necessidades humanas básicas, (2) alicerces do bem-estar, e (3) oportunidades. Essas dimensões, por sua vez, se desdobram, cada uma, em quatro componentes e, finalmente, esses componentes são feitos de indicadores.

Para ficar mais fácil para você entender tudo isso, a gente fez essa tabelinha:

Figura 1 – Dimensões do Índice de Progresso Social

Índice de Progresso Social

Necessidades Humanas Básicas

Alicerces do Bem-Estar

Oportunidades

  • Nutrição e atendimento médico básico;

  • Água e saneamento;

  • Moradia;

  • Segurança pessoal.

  • Acesso a conhecimento básico;

  • Acesso a informação e comunicações;

  • Saúde e bem-estar;

  • Qualidade ambiental.

  • Direitos pessoais;

  • Liberdade e escolhas pessoais;

  • Inclusão;

  • Acesso a educação avançada.

E o que esse índice tem de especial?

O IPS tem duas características marcantes que o diferenciam dos mais conhecidos PIB per capita e do IDH (que aliás contém o PIB per capita na sua fórmula): (1) Chamamos essa forma de medir de abordagem baseada em resultados; e (2) ele não utiliza a variável renda ou qualquer outro indicador financeiro como indicador de bem-estar das sociedades.

Saiba mais: o que é o IDH?

A escolha dos criadores do IPS foi montar o índice a partir de um conjunto de indicadores sociais que medem, diretamente, a real condição de vida das pessoas, em vez de utilizar indicadores considerados como “intermediários”. Por exemplo, em vez de medir os gastos de um país com educação, mede-se diretamente o acesso das pessoas a essa educação; em vez de medir se um país tem ou não tem boa legislação ambiental, mede-se diretamente a preservação do meio ambiente. Isso porque, para os criadores do IPS, esses indicadores intermediários podem até propiciar ou favorecer o acesso a direitos e melhores condições de vida, mas eles não têm valor social intrínseco.

Nesse sentido, a renda também é considerada um fator intermediário, afinal não é a renda em si que produz uma melhora no bem-estar, mas aquilo que se adquire com ela. Isso porque em muitas situações as pessoas são impossibilitadas de converter suas rendas em maior bem-estar, atrapalhadas por barreiras em seus próprios lares ou fora deles. Imagine, por exemplo, se os preços de planos de saúde forem muito altos, isso pode acarretar em uma faixa considerável da população inteiramente privada de acesso que não vai ter, assim, condições de cuidar adequadamente da própria saúde.

E qual a relação entre o IPS e o PIB per capita?

O IPS põe em evidência uma ideia já bastante aceita sobre a relação entre a prosperidade e o bem-estar: se a relação entre os dois é, por um lado, muito forte, ela não é absoluta.

No gráfico abaixo, cada pontinho corresponde a um dos 142 países que tiveram seu IPS calculado em 2018. No eixo horizontal (x), colocamos o PIB per capita e, no eixo vertical (y), o Índice de Progresso Social. Os dois índices possuem uma correlação positiva forte: quanto maior o PIB per capita, maior tende a ser o IPS e vice-versa. Essa correlação está ilustrada pela curva vermelha.

Acontece, porém, que essa correlação não tem um comportamento linear e sim logarítmico. E por que a gente diz isso? Repare que a curva vermelha começa bem inclinada, mas vai achatando conforme nós andamos da esquerda pra direita (do PIB per capita mais baixo para o mais alto). Essa é a cara da curva logarítmica.

Em uma curva logarítmica, quando estamos no início do gráfico (bem à esquerda), um aumento pequeno na variável do eixo X (se andarmos em direção à direita do gráfico), é acompanhado de um largo aumento da variável do eixo Y (indo para cima do gráfico). Quando mais avançamos na curva, menor é o efeito que um “passo” no eixo X tem no eixo Y.

Nesse caso específico do IPS vs PIB per capita, isso quer dizer o seguinte: no início da curva, quando os países têm um PIB per capita baixo, aumentos no PIB per capita trazem grandes ganhos de Progresso Social. Mas essa relação não se mantem ao longo de toda curva, assim o “retorno” ou o “benefício” social de aumentos no PIB per capita se torna cada vez menor conforme chegamos a níveis mais altos de prosperidade.

Figura 2 – Relação do PIB per Capita com o Índice de Progresso Social, para 142 países, em 2018.

Essa relação imperfeita nos leva a uma conclusão importante a respeito de políticas públicas: muitas vezes, promover o crescimento econômico não é o caminho mais eficiente para melhores condições de vida. Nas palavras do economista americano Michael Porter, um dos criadores do índice:

“O crescimento econômico tirou centenas de milhares de pessoas da pobreza e melhorou as vidas de muitas outras ao longo do último meio-século. Ainda assim, está cada vez mais evidente que um modelo de desenvolvimento humano baseado apenas no progresso econômico está incompleto.”

Alguns países, mesmo estando no mesmo nível de prosperidade (medida por PIB per capita), apresentam Índices de Progresso Social muito discrepantes justamente por esse motivo. Na já mencionada espirituosa (e muito visualizada) palestra TED de Michael Green, atual CEO da Social Progress Imperative, a Costa Rica foi citada como exemplo dessa situação. O país da América Central atinge índices muito acima aos de outros países da mesma faixa de renda ou até de rendas superiores, como Argentina e Panamá.

Famosa por ter abolido seu exército em 1949, para canalizar o dinheiro público a outras áreas, a Costa Rica apresenta elevados níveis de acesso à educação, à saúde e a um ambiente livre de poluição, não muito distantes dos de países desenvolvidos.

Ao mesmo tempo, países como a Rússia atingem um nível de IPS aquém do que se esperaria para seu patamar de renda. Em “Segurança Pessoal”, “Qualidade do Meio-Ambiente” e “Direitos Pessoais”, a Rússia fica nas 123ª, 115ª e 120ª posições! Isso a despeito de seu PIB per capita de $ 24,791, que a coloca em 43º lugar entre os países do mundo em termos dessa medida.

Na tabela abaixo, fica claro que ser uma grande potência econômica (isto é, classificada em termos de PIB), não é sinônimo de ser uma “potência social.” Dos 10 países de maior PIB no mundo, apenas 3 (Alemanha, Canadá e Japão) aparecem na lista de países com alto progresso social. Com o PIB per capita, a relação é apenas um pouco mais direta: 4 dos 10 países de maior PIB per capita são também líderes em Progresso Social.

Pos.

Índice de Progresso Social

PIB per capita

PIB (em bilhões de dólares)

1

Noruega

90,95

Luxemburgo

116597,3

EUA

20544,34346

2

Dinamarca

90,09

Suíça

82828,8

China

13608,15186

3

Suíça

89,89

Noruega

81734,47

Japão

4971,32308

4

Finlândia

89,56

Irlanda

78582,95

Alemanha

3947,620163

5

Suécia

89,45

Islândia

73368,12

Reino Unido

2855,296732

6

Islândia

89,29

Qatar

68793,78

França

2777,535239

7

Nova Zelândia

88,93

Cingapura

64581,94

Índia

2718,732231

8

Alemanha

88,84

EUA

62886,84

Itália

2083,86426

9

Canadá

88,81

Dinamarca

61390,69

Brasil

1885,482534

10

Japão

88,34

Austrália

57395,92

Canadá

1713,341705

Fontes: Índice de Progresso Social: Social Progress Imperative. Banco Mundial.

O Brasil no IPS

Em 2014, em uma apresentação no evento de inovação TEDx, Michael Green, um dos criadores do Índice de Progresso Social, apresentou o Brasil como um caso de sucesso. Isso pois, naquele ano, embora o Brasil ocupasse a 66ª posição em termos de PIB per Capita, seu Índice de Progresso Social o colocava em 44º lugar. Pensando na relação entre IPS e PIB per capita de que falamos antes, essas posições indicam que o Brasil, pelo menos à época, estava tendo sucesso em garantir a sua população um nível de progresso social acima de seu nível de renda.

Durante a apresentação, utilizando um gráfico parecido com o que vimos acima, Green fala sobre a posição do Brasil do índice e encerra com uma provocação:

“Aqui está o Brasil: progresso social de cerca de 70 de um total de 100, PIB per capita de cerca de 14 mil dólares por ano. E olhem, o Brasil está acima da linha. O Brasil está fazendo um trabalho razoavelmente bom de conversão de PIB em progresso social. Mas para onde vai o Brasil depois? Digamos que o Brasil adote um plano econômico ousado de dobrar o PIB na próxima década. Mas essa é só metade do plano. É menos da metade do plano, Porque onde o Brasil quer chegar em progresso social?” (GREEN, 2014; tradução nossa)

Figura 2 –  Posição e nota do Brasil no Índice de Progresso Social, de 2014 a 2019

Gráfico índice de progresso social

De 2014 para cá o Índice de Progresso Social do Brasil sofreu uma queda. Em 2019, o Brasil pontuou 72,87 no IPS (registrando um pequeno aumento em relação aos 72,66 de 2018) e ficou na 49ª posição.

Apesar da principal categoria afetada ser a de Oportunidades, pode-se considerar que continuamos relativamente bem posicionados nessa dimensão. Em grande parte, isso se deve ao Brasil ter um maior número de universidades classificadas em rankings globais, e uma aceitação de gays e lésbicas acima da média global (muito embora esse número tenha caído desde 2016).

Já na dimensão Necessidades Humanas Básicas, por exemplo, o Brasil fica com um índice mediano em quase todos os componentes, com exceção de “Segurança Pessoal”. Nessa categoria, o Brasil é puxado para baixo por uma taxa de homicídios muito alta, e um elevado número de mortes no trânsito por 100.000 habitantes, ficando na 128ª posição.

Você pode conferir a pontuação do Brasil em maior detalhes diretamente no site do IPS.

Mais do que para servir de ranking global, O IPS também foi pensado para ser uma ferramenta para governos de todos os níveis, do nacional ao municipal. Gestores públicos podem utilizar as medidas para encontrar temas em que há maior carência de atuação do setor público e assim orientar as prioridades para a resolução dessas áreas. Aqui no Brasil, ele já é empregado pela Prefeitura do Rio de Janeiro e pela ONG Imazon, ambos em parceria com a Social Progress Imperative, para mapear o IPS da cidade do Rio de Janeiro e dos municípios da região amazônica.

Ainda não sabemos os resultados da aplicação do índice, mas há, por certo muito o que se fazer a partir dele! E você, o que acha? Gostou da metodologia do Índice? O retrato que ele mostra do Brasil parece fidedigno? E que ações podemos tomar a partir das informações que o índice nos dá?

Publicado em 25 de setembro de 2020.

redatorBernardo Menescal Ferreira da Silva

Formado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, hoje trabalha na área de saúde do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Como redator voluntário do Politize!, procura contribuir para um debate público aberto, cordial e bem informado sobre os rumos do nosso país.

 

REFERÊNCIAS

Michael Porter: “Why Social Progress Matters”. World Economic Forum. 10 de abril de 2015.

Página Oficial do Índice de Progresso Social

Índice de Progresso Social – Rio de Janeiro

Índice de Progresso Social – Amazônia

O que é crise econômica?

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O que é PIB? 

O que é PIB

Foto: Marcello Casal/Agência Brasil.

Este conteúdo que aborda o conceito de PIB é o quinto post da trilha de conteúdos baseada na série Economia Animada, do portal Por Quê – Economês em bom português.

Confira os demais conteúdos desta trilha:

  1. O que é economia? 
  2. O que é escassez? 
  3. O que são recursos? 
  4. Qual a diferença entre macroeconomia e microeconomia? 
  5. O que é PIB?

Você já deve ter ouvido um milhão de vezes sobre o tal do PIB, não é mesmo? Basta ligar o noticiário e lá estará ele, descendo ou subindo, determinando qual a situação da economia no país. Neste texto, você pode tirar todas as suas dúvidas sobre esse importantíssimo indicador econômico, o que ele representa, como é determinado e como se relaciona com a sua qualidade de vida. Você vai chegar à conclusão de que ele é mais do que simplesmente um número: tem tudo a ver com o seu dia a dia! 

PIB: o conceito

O Produto Interno Bruto (ou apenas “PIB”) é a soma de todos os bens e serviços produzidos em uma economia durante um certo período. Portanto, o PIB nos ajuda a avaliar se a economia está crescendo e se o padrão de vida está melhorando.

Que tal baixar esse infográfico em alta resolução?

Como se calcula o PIB?

Em geral, quando falamos de PIB estamos tratando da produção anual de um país. Nada impede, porém, que analisemos o PIB de uma cidade, de um bairro ou de um setor econômico (como a agropecuária, por exemplo). Também é possível medir o PIB em um semestre ou mês, se for preciso. Esses casos, entretanto, são pouco comuns porque somente são úteis para quem estuda algum tema mais específico, de maneira aprofundada.

Vamos às contas: há várias maneiras de calcular o PIB. A maneira mais fácil e intuitiva de estimá-lo é pela chamada ótica da produção: devemos somar o valor de todos os produtos e serviços finais que foram produzidos numa economia. Isso é, devemos computar o valor de todas as vendas que foram feitas para o consumidor final. Por “finais” entendemos aqueles produtos que não serão utilizados durante o processo de produção: os bens intermediários. Em outras palavras: as matérias-primas. Se somássemos as matérias primas, estaríamos fazendo dupla contagem. Agora sabemos, portanto, de onde vem o “P” do “PIB”.

Já o “I” vem de “interno“: o PIB está relacionado aos bens e produtos vendidos dentro da área que estamos analisando. Por isso, consideramos tanto a produção de empresas locais quanto a de multinacionais que operam lá. Se os cálculos não levassem em conta o território, mas apenas a nacionalidade, estaríamos tratando do Produto Nacional Bruto (PNB). O PNB, em contraste com o PIB, leva em conta a produção vendida por empresas nacionais que operam fora do país, e desconsidera a atuação de empresas estrangeiras dentro do país.

Outra maneira de definir o PIB é pela ótica da renda, já que todo o produto ou serviço que foi adquirido corresponde a uma remuneração às pessoas que, de uma forma ou de outra, contribuíram para o produto. A essa relação os economistas chamam de identidade do produto e renda. Por exemplo: ao comprar um pãozinho, estamos pagando pelo serviço e lucro do padeiro, pelo custo dos equipamentos da padaria e, claro, pela farinha de trigo. Quando o padeiro pagou pela farinha, estava remunerando os insumos do produtor de farinha: o trabalho dos operários, o lucro do dono e o custo do trigo. O produtor de trigo, por sua vez, também recebeu um montante que remunerou seu trabalho e os insumos que usou para produzir o grão. No fim das contas, como ilustrado no gráfico abaixo, o valor do pãozinho é equivalente à soma da renda de todas as pessoas envolvidas na sua produção: o padeiro, o dono e os operários na indústria de farinha e o produtor de trigo.

Porém, repare: não estamos considerando o valor da depreciação dos equipamentos da padaria. Depreciação é o custo do desgaste físico dos bens imóveis, como casas, máquinas, computadores etc. O curioso é que a depreciação não é, em si, um custo monetário, mas somente o efeito do tempo: é a tinta da parede de casa descascando, o óleo do motor envelhecendo, a mesa enferrujando, o computador ficando obsoleto… enfim, todos os problemas que nos levam a, de vez em quando, gastar dinheiro com reparos, reposições ou reformas. Apesar de ser um componente do custo que todos comerciantes repassam para os consumidores, a depreciação é muito difícil de ser estimada. Por isso, os economistas e estatísticos preferem deixá-la de lado ao calcular o valor da produção. Daí a origem do “B” do PIB: ele é a estimativa de Produto Bruto, pois não considera o efeito da depreciação. Quando a depreciação é estimada, temos o Produto Líquido.

PIB nominal e PIB real: qual a diferença?

Existem dois modos de calcular o PIB: o primeiro é considerar o valor do produto a preços correntes. Esse valor, chamado PIB nominal, considera a variação dos preços da economia (seja inflação ou deflação), causando uma distorção no cálculo da quantidade de bens e serviços produzida. É por isso que economistas preferem calcular o PIB real, em que é escolhido um ano-base para calcular a variação da produção (por exemplo: para calcular a produção de 2015, toma-se o ano de 2014), desconsiderando a inflação do período.

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E como o PIB está relacionado com o crescimento econômico?

De maneira geral, quando os analistas se referem a crescimento econômico, estão falando da variação percentual do PIB de um ano em relação a outro. E por que se preocupar com o crescimento da economia? Em primeiro lugar porque, via de regra, a renda é proporcional à qualidade de vida. Populações com maior renda têm acesso a melhores serviços de saúde, educação e lazer. O crescimento da renda, portanto, é fundamental para que cada vez mais pessoas tenham melhores condições de vida. Esse aspecto é o mais relevante quando tratamos de países mais pobres.

Não devemos, entretanto, concluir que a renda é o único fator que importa para determinar a qualidade de vida. Há muitas críticas em relação ao uso do PIB como indicador de bem-estar, pois ele nada diz sobre a distribuição de renda, a degradação do meio ambiente ou os outros efeitos negativos do modelo de vida consumista geralmente associados com o crescimento da economia.

De modo bastante relacionado com a melhora do bem-estar, o crescimento do PIB também é um indicador da geração de empregos. Em uma economia que cresce, a demanda por trabalho tende a se acelerar, o que é um outro modo de enxergar a relação entre PIB e qualidade de vida.

Por fim, o crescimento da renda permite que as poupanças e investimentos sejam maiores. Isso é benéfico por vários motivos: dá mais segurança financeira para os trabalhadores, ajuda empreendedores a criar novas empresas, aumenta o saldo disponível para que os bancos e o governo financiem mais investimentos e, dessa forma, impulsionem a economia e contribua para um ciclo virtuoso de crescimento – mas esta é uma história complexa e foge do nosso escopo aqui.

Outros conceitos relacionados

Além de entender o que é PIB, vale também descobrir algumas expressões que têm tudo a ver com ele. Veja a seguir alguns deles:

PIB per capita: como sabemos, a população mundial deve continuar crescendo nas próximas décadas. Por isso, o crescimento da renda deve ser suficiente para que essas pessoas que estão chegando ao mundo tenham um padrão de vida ao menos tão bom quanto o da nossa geração. Para avaliar se a economia está indo nessa direção, analistas olham para o PIB per capita, que nada mais é do que o PIB dividido pela população. Se o PIB aumenta menos do que o crescimento população, o PIB per capita cai, implicando que, na média, a renda por pessoa está menor.

Distribuição de renda: no nosso exemplo da padaria, vimos que o valor do produto remunera o trabalho do padeiro, o lucro do dono da fábrica e do produtor de trigo. À medida que aproximamos esse exemplo da realidade, vamos perceber que os juros do banco e o aluguel do ponto comercial, por exemplo, também contribuem para a formação do preço do pãozinho. A maneira com a qual esse valor é distribuído, em forma de renda, às diversas pessoas que colaboraram com a sua produção, é o que se denomina distribuição de renda. Um indicador célebre para analisá-la é o índice de Gini.

Recessão: é um período de crescimento econômico negativo. Em níveis moderados, a recessão é usualmente chamada de estagnação. Por outro lado, uma longa fase de crescimento negativo é caracterizada como uma depressão. Para identificar uma recessão, o critério técnico mais usado é o de dois trimestres em crescimento negativo. As recessões têm como consequências o aumento do desemprego e a redução do nível de investimentos privados.

Estagflação: é uma recessão (ou estagnação) conjugada com aumento do nível de preços, ou seja, inflação. A estagflação é um dos piores tipos de crise: o desemprego fica alto e o poder de compra dos salários é corroído pela inflação, afetando duplamente o nível de bem-estar da população.

E o PIB brasileiro?

Todos os anos, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publica o resultado do Produto Interno Bruto brasileiro e a variação desse resultado em relação ao ano anterior. Em 2016, segundo o IBGE, o PIB diminuiu 3,6% no Brasil. É o segundo ano seguido que registramos recessão (diminuição do nosso produto), o que não acontecia desde o biênio 1930-1931 (auge da crise econômica mundial iniciada em 1929). Em 2015, já havíamos registrado um recuo de 3,8%. Em valores absolutos, o Brasil possui um PIB de R$ 6,266 trilhões. Já o PIB per capita está em R$ 30.407.

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Para entender o PIB de maneira didática e divertida, veja este vídeo dos nossos parceiros do Por Quê – Economês em bom português:

Ficou alguma dúvida sobre o que é o PIB? Deixa pra gente nos comentários!

Publicado em 16 de fevereiro de 2016. Última atualização em 30 de maio de 2017.

Eduardo Constantini

Redator voluntário do Politize!.

Por que economêsO Por Quê – Economês em bom português é uma iniciativa que busca descomplicar a economia para os brasileiros. Isenção, didatismo, precisão, clareza e criatividade. Essas são as nossas bases para traduzir o economês para bom português e transformar aversão em interesse. Vamos aprender mais?

REFERÊNCIAS

Olivier Blanchard: Macroeconomia (4ª edição, 2007)

The Economist: economia de A a Z