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Hezbollah: entenda tudo sobre o grupo

Soldado em meio a bandeiras do Hezbollah. (Foto: AP/Mohammed Zaatar)

Soldado em meio a bandeiras do Hezbollah. (Foto: AP/Mohammed Zaatar)

  • Este é o oitavo texto de uma trilha de conteúdos sobregrupos terroristas. Confira os demais posts da trilha: 1 – 2 – 3 – 4 – 5 – 6 – 7 – 8 – 91011.  Se tiver lido todos os posts até aqui, você terá concluído 73% desta trilha.

Em meio às tensões no Oriente Médio, que se intensificaram após o ataque dos Estados Unidos que culminou com a morte do general do Irã, Qasem Soleimani, o nome do Hezbollah tem aparecido com frequência no noticiário. Para explicar tudo o que você precisa saber sobre esse grupo, preparamos 6 perguntas e respostas. Vem com a gente!

1) Como o Hezbollah surgiu?

O Hezbollah é um grupo islâmico xiita nascido durante a Guerra Civil Libanesa, em 1982. O conflito foi resultado das tensões entre diversos grupos que habitavam o país, sobretudo entre cristãos e muçulmanos. Os grupos cristãos possuíam a maior parte do poder no Líbano e eram contrários à presença de palestinos no país, apoiando a causa de Israel. Por outro lado, os muçulmanos apoiavam a causa palestina e buscavam ter mais poder no território libanês.

Na época, o território do Líbano foi ocupado por tropas militares de Israel, motivados a expulsar as forças palestinas que operavam no sul do país. Por causa da ocupação, um grupo de clérigos muçulmanos criou uma organização política e militar para defesa do povo xiita, o grupo social mais pobre e marginalizado no país até então.

Assim surge o Hezbollah, que em árabe significa “Partido de Deus”. Criado como uma milícia (cidadãos armados com um suposto poder policial) se tornou hoje uma organização apoiada por 41% da população libanesa, e que está envolvida em diversas atividades sociais, além de organizar as atividades agrícolas para garantir a economia de subsistência no sul do país.

Você sabia?

Com a morte do profeta Maomé, em 632, houve discordância sobre quem iria sucedê-lo como líder da comunidade muçulmana. Das divisões que surgiram, os sunitas e os xiitas são os principais grupos. A maioria dos muçulmanos são sunitas, cerca de 85%, enquanto os xiitas representam cerca de 15%. Enquanto os sunitas se consideram o ramo ortodoxo e tradicionalista do islã, os xiitas reivindicam o direito de Ali, genro do profeta Maomé, e seus descendentes de guiarem o islamismo.

2) O que o grupo busca?

Logo que surgiu, o objetivo do grupo era a expulsão das tropas israelenses – presentes no país em função da guerra civil – e de seus apoiadores (como Estados Unidos e França) do território libanês, o que foi alcançado em maio de 2000, quando as últimas tropas inimigas deixaram o país.

Mas a hostilidade entre Hezbollah e Israel não terminou por aí, permanecendo até hoje como a principal plataforma do grupo. A principal motivação para as tensões é que os membros do Hezbollah enxergam o Estado de Israel como agressivo desde sua criação, construído em terras tomadas do povo muçulmano.

Contudo, a guerra contra Israel não é o único objetivo do grupo! Em 1985, o Hezbollah divulgou seu Manifesto, que expunha outros dois grandes objetivos: eliminar do Líbano qualquer organização com tendências colonialistas e criar um Estado Muçulmano, embora este último já não seja mais citado pelos seus adeptos, que preferem uma abordagem com diferentes frentes.

3) Como o Hezbollah se organiza?

Quando Israel assassinou o líder do Hezbollah, Abbas al-Musawi, em 1992, o novo líder do movimento – Hassan Nasrallah – reorganizou as estratégias do grupo, passando a sua atuação para o campo político. Naquele ano, Nasrallah decidiu que o Hezbollah disputaria as eleições gerais, conseguindo assim oito cadeiras no Parlamento.

Hoje, a organização tem enorme destaque na vida política do Líbano, organizada em quatro braços:

  1. O político, tendo membros no Parlamento, ministros e uma aliança com os partidos cristãos;
  2. O social, com trabalhos realizados em hospitais e escolas xiitas;
  3. O econômico, que inclui a captação de recursos ao redor do mundo e uma rede de televisão, a Al Manar.
  4. O militar, com uma milícia envolvida no conflito da Síria, apoiando o governo Bashar Al Assad contra os rebeldes. Existem dois principais motivos para o Hezbollah se juntar ao governo sírio na guerra civil: um deles é o futuro apoio de Bashar Al Assad no conflito do grupo contra Israel; o segundo é a presença de confrontos próximos à fronteira com o Líbano, região habitada por povoados xiitas.

4) Quem apoia o Hezbollah?

No mundo árabe e muçulmano, o Hezbollah é respeitado como uma força de defesa contra Israel e contra o envolvimento do Ocidente no Oriente Médio. As diversas ações sociais em defesa do povo xiita fazem com que muitos classifiquem o grupo como um “Estado dentro do Estado”, tendo a simpatia até mesmo de alguns sunitas e cristãos no país.

O grupo conta ainda com o apoio, sobretudo financeiro, de países como Síria e Irã.

5) Quem condena o Hezbollah?

A classificação do Hezbollah como grupo terrorista parte de uma perspectiva externa, por parte dos Estados Unidos e de Israel, que há anos colocaram o grupo em suas listas de grupos ligados ao terrorismo. Recentemente, outros países têm estudado classificar o grupo como uma organização terrorista, entre eles a Alemanha, a França e a Grã-Bretanha. Contudo, a União Europeia recomenda que seus países-membros declarem como terrorista somente o braço armado da organização, não ela inteira.

O principal motivo para isso é a constante troca de ataques entre forças israelitas e o Hezbollah. Mesmo após a retirada das tropas de Israel do território Libanês em 2000, o grupo continuou realizado ataques que resultaram na morte de milhares de cidadãos. Muitos ataques no mundo desde os anos 1980 são atribuídos ao grupo, que começou sua atuação com ações violentas. São exemplos o ataque à Embaixada dos Estados Unidos no Líbano, em 1983, e o ataque à Embaixada do Líbano na Argentina, em 1992.

6) O Hezbollah tem alguma relação com o Brasil?

Em 2014, uma operação da Polícia Federal apontou a existência de uma relação entre o grupo libanês e a organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), que atua principalmente nos presídios brasileiros.

De acordo com os relatórios da PF, em 2006 os dois  grupos passaram a atuar conjuntamente no contrabando de armas para o PCC, que em troca fornecia proteção aos membros do Hezbollah presos no Brasil. Relatórios apontam atividades do grupo libanês na tríplice fronteira – Argentina, Brasil e Paraguai – e o principal crime que leva seus membros à prisão na região é o tráfico de entorpecentes.

Conseguiu entender um pouco mais sobre o grupo? Comente o que achou do texto!

Publicado em 2 de outubro de 2017. Última atualização em 10 de janeiro de 2020.


Isabela Souza

Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ex-assessora de conteúdo do Politize!.

 

 

 

Referências

InfoEscola – Estudo Prático – BBC – Último Segundo – O Globo – G1 – O Estado de S. Paulo

11 de setembro

Atentados do 11 de setembro: o que aconteceu?

Atentados do 11 de setembro nos Estados Unidos

Foto: U.S. Navy Photo/Fotos Públicas.

O atentado do dia 11 de setembro de 2001 foi o maior ataque militar sofrido pelos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial. Quais foram suas motivações? E suas consequências? Para conseguir responder estas perguntas, é necessário entender o contexto histórico da época. 

Cenário mundial: como estávamos em 2001?

Atentados do 11 de setembro nos Estados Unidos

Foto: Google Maps

Os Estados Unidos sempre visaram o controle da Península Arábica e de seu petróleo, garantindo que esta fonte de energia não caísse nas mãos de um único poder regional. Por isso, os EUA estimularam a rivalidade entre Irã e Iraque – dois países grandes que possuíam potencial para dominar a região – com o objetivo de neutralizar os poderes individuais, ou seja, assim ninguém sairia vencedor.

Esta estratégia norte-americana precedeu a Revolução Iraniana em 1979, revolta que acabou com a monarquia autocrática no Irã, cujos líderes eram chamados de xás.

Ao mesmo tempo, no Iraque, Saddam Hussein assumiu o poder do governo iraquiano e foi responsável por atacar islamitas e grupos xiitas do Irã, iniciando uma longa guerra.

A Guerra Irã-Iraque sofreu constantes interferências dos EUA, que garantiram que o conflito durasse mais do que o esperado e nenhuma nação colapsasse ou conquistasse o controle da região.

Este era o cenário, nos países ao lado, quando Osama Bin Laden, fundador da organização terrorista Al-Qaeda (que tem a sua origem no Afeganistação), planejou o ataque às torres.

A meta de Osama era recriar o califado, uma forma islâmica monárquica de governo. Porém, para isso, era preciso que muitos países da região compartilhassem dos mesmos ideais. Algo que não acontecia, principalmente pela influência norte-americana.

Além disso, os governos muçulmanos se consideravam vulneráveis. Por isso, ao planejar o ataque de 11 de setembro, Bin Laden queria expor a existência de uma vulnerabilidade norte-americana e fazer com que o sentimento dos países muçulmanos fosse modificado.

Como foram os ataques?

O World Trade Center reunia sete edifícios, entre eles estavam as Torres Gêmeas – de 110 andares e 417 metros de altura. Oficialmente, seus nomes eram “World Trade Center One” e “World Trade Center Two”, e elas eram os edifícios mais altos de Nova York.

O voo 11 da American Airlines, um Boeing 767 com noventa e duas pessoas a bordo, decolou da cidade de Boston com destino a Los Angeles. Entretanto, depois de 45 minutos de voo, exatamente às 08:46, a aeronave atingiu a torre norte do World Trade Center, entre os andares 93 e 99.

O segundo avião, Voo 175, da United Airlines, também tinha destino a Los Angeles e atingiu a torre sul às 9:03. Por ter sido atingida no meio, esta levou menos tempo para desmoronar – às 9:59 o edifício já estava no chão, enquanto a torre norte desabou às 10:28.

Com o impacto dos aviões e o incêndio provocado pela grande quantidade de combustível, os prédios começaram a arder em chamas. Assim, toda estrutura que era sustentada por aço e ferro derreteu, causando seu desabamento.

O atentado deixou cerca de 3.000 mortos e aproximadamente 6.000 feridos.

Mais dois alvos

Atentados do 11 de setembro nos Estados Unidos

Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Foto: Tech. Sgt. Cedric H. Rudisill/Fotos Públicas.

O foco da Al-Qaeda não era apenas atacar um dos maiores centros comerciais de Nova York, mas causar pânico e medo em todo o país. Por isso, mais dois aviões foram enviados com destinos diferentes.

O terceiro avião era o Voo 77, da American Airlines. Apesar de seu destino também ser Los Angeles, o avião levantou voo em Dulles, na Virgínia. Este avião atingiu o Pentágono – sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos – às 09:37.

Já o quarto avião, Voo 93 da United Airlines, tinha como alvo o Capitólio – casa do Poder Legislativo americano. Devido atrasos na decolagem, informações sobre o ataque das torres chegaram à tripulação e aos passageiros, que tentaram impedir que os terroristas assumissem o controle da aeronave.

Impedidos de completar a ação, os terroristas optaram por derrubar o avião durante o trajeto, que caiu em um campo na Pensilvânia, causando a morte de todos que estavam a bordo.

Consequências e impacto internacional

O atentado de 11 de setembro motivou os Estados Unidos, cujo presidente na época era George W. Bush, a declarar uma Guerra ao Terror: estratégia de combate ao terrorismo cujos principais desfechos foram a invasão do Iraque e do Afeganistão. Leis anti-terroristas também foram endurecidas, e com isso, surgiu a Lei Patriótica.

Entre outros impactos internacionais, é possível citar um baque econômico gigantesco, que causou o fechamento da Bolsa de Nova York, o que não acontecia desde a Segunda Guerra Mundial.

Novas medidas de segurança também foram instauradas nos aeroportos, por exemplo a restrição em levar líquidos e uma rigorosa inspeção antes de embarcar. Assim como a nova regra que exige que os pilotos fiquem isolados nas cabines e só possam ser contatados através de um interfone.

Vamos entender melhor!

Guerra ao terror e o Ato Patriota

Marcelo Côrtes Neri, Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), afirma no livro “Do 11 de setembro de 2001 à Guerra ao Terror” que:

A visão do terrorismo contemporâneo enquanto ameaça externa foi fundamentalmente modificada pelo 11 de Setembro: evidencia-se mais assustadora ainda por ter sido executada por indivíduos que viviam nos Estados Unidos. A reação do presidente George W. Bush de declarar guerra ao terror foi alvo de críticas (…) Dado que a al-Qaeda não constitui um Estado, declarar guerra a esta organização, assim como ao terrorismo, foi considerado inapropriado. Ademais, a natureza não estatal da al-Qaeda mina possibilidades de retaliação, punição e, portanto, dissuasão nos moldes tradicionais, sobretudo em se tratando de ataques suicidas. Neste contexto, não é exagero afirmar que o 11 de Setembro transformou o significado do terrorismo internacional

Não há uma definição consensual, entre os estudiosos, ou mesmo amplamente aceita do terrorismo. Geralmente, considera-se o seu caráter não estatal e o fato de este buscar, por meio de atos violentos, aterrorizar a população civil, com objetivos de cunho político, ideológico e/ou religioso.

Veja também: O que é Terrorismo? 

Portanto, a Guerra ao Terror não estava direcionada a um país específico, mas visava combater organizações terroristas pelo mundo, os denominados como “eixo do mal”.

Esforços nos campos político-diplomático, econômico e militar foram feitos em busca do combate ao terrorismo. Entre as primeiras ações do presidente Bush, é possível citar a invasão e ocupação do Afeganistão, com o objetivo de caçar Osama Bin Laden, e do Iraque, com a justificativa de que o país possuía armas biológicas de destruição em massa.

Instalou-se uma promessa de agressão militar aos países definidos como pertencentes ao “eixo do mal”. Tudo isso com ampla colaboração das classes dominantes na Europa e de outras partes do mundo, em uma poderosa coalizão do “eixo do bem” contra o “eixo do mal”: a defesa da “civilização ocidental”.

Já em seu plano interno, o governo americano criou instrumentos legais para promover a espionagem doméstica e a anulação de algumas garantias constitucionais.

O Patriot Act (Ato Patriota ou Lei Patriótica) permitia ao governo obter qualquer informação sobre qualquer pessoa, como também adotar medidas de vigilância e espionagem, como interceptar ligações telefônicas, e-mails de organizações e pessoas supostamente envolvidas com o terrorismo. Nesse sentido, permitia a atuação do governo sem autorização judicial, sob a alegação de ‘guerra contra o terrorismo’.

Com o governo de Barack Obama, várias provisões desta lei expiraram e outras foram mantidas.

Algumas curiosidades sobre o atentado

  1. No total, 20 terroristas participariam do atentado, distribuídos em 5 para cada aeronave. Entretanto, o quarto avião, aquele que atrasou, estava com um integrante a menos: o único sobrevivente, que foi capturado e está preso até hoje.
  2. A limpeza da região só acabou em maio de 2002, oito meses após os ataques.
  3. Quando o avião destinado ao Pentágono acertou o alvo, todas as pessoas que trabalhavam no setor atingido pelo avião foram mortas, com exceção de uma única, que estava viajando a trabalho. No entanto, essa pessoa também acabou morrendo, pois, coincidentemente, estava em um dos aviões sequestrados que colidiram nas Torres.
  4. Em 1987, o então presidente dos EUA, Ronald Reagan, declarou a data 11 de setembro como o Dia do Número de Emergência, com o intuito de chamar atenção para o número 911, usando para situações emergenciais no País.

Museu e Memorial Nacional do 11 de setembro

Atentados do 11 de setembro nos Estados Unidos

Foto: Fotos públicas.

No décimo aniversário dos ataques, no dia 21 de maio de 2011, foi aberto ao público o Museu e Memorial Nacional do 11 de setembro. O espaço fica exatamente no lugar onde as Torres Gêmeas ficavam e 2.241 árvores rodeiam os monumentos, onde estão gravados em bronze o nome das vítimas que morreram naquele dia.

Conseguiu entender o contexto dos atentados do 11 de setembro? Qual a sua opinião sobre o assunto? Compartilha com a gente nos comentários!

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Publicado em 06 de janeiro de 2020.

redator voluntário

Rafaela Ponchirolli

Graduanda de Jornalismo pela Universidade Anhembi Morumbi. Apaixonada por história e comunicação, acredita que a informação é um direito de todos e quer levar conteúdo de qualidade a diferentes públicos.

 

 

REFERÊNCIAS

11 de setembro

Cronologia_dos_ataques_de_11_de_setembro_de_2001

O povo: curiosidades sobre o atentado do 11 de setembro

Infoescola: guerra ao terrorismo

IPEA: do 11 de setembro à guerra ao terror

A nova democracia: o mundo depois do 11 de setembro

segurança internacional

Segurança Internacional: o que é e para que serve?

A Força Aérea Brasileira (FAB) faz treinamento de interceptação aérea para os Jogos Olímpicos de 2016 (Foto: Tomaz Silva | Agência Brasil).

A Força Aérea Brasileira (FAB) faz treinamento de interceptação aérea para os Jogos Olímpicos de 2016 (Foto: Tomaz Silva | Agência Brasil).

Quando falamos em Segurança Internacional, qual é a primeira imagem histórica que lhe vem à cabeça? A rivalidade bélica entre Estados Unidos e União Soviética durante a Guerra Fria? Ou a tensão atual entre o poder nuclear da Coreia do Norte frente aos EUA?

Não há uma resposta certa para a questão, já que todas essas situações são matéria de Segurança Internacional. O campo vai mais além, abrangendo temáticas que ultrapassam a preocupação nacional dos países para com o poder bélico-militar de outros Estados e entrando na esfera cibernética, por exemplo. Contudo, para entender essas especificidades, deve-se primeiro definir o que é Segurança Internacional. Afinal, qual a diferença entre ela e Segurança Nacional? A partir dessa definição é que você poderá entender a Segurança Internacional no cenário atual, assim como suas consequências. Vamos lá?

O QUE É SEGURANÇA?

Segundo Marco Cepik, professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Segurança é “uma condição relativa de proteção na qual se é capaz de neutralizar ameaças discerníveis [identificáveis] contra a existência de alguém ou de alguma coisa”. Ou seja, trata-se da necessidade de proteger, por vários meios, “informações, sistemas, instalações, comunicações, pessoal, equipamentos ou operações”.

Entenda: qual é o papel das Armas Nucleares em conflitos políticos?

COMO UM TEMA DE SEGURANÇA É DEFINIDO?

Para facilitar a compreensão da definição anteriormente dada para Segurança, devemos visualizá-la como uma “condição relativa”. Isso significa que a Segurança – Nacional e Internacional – muda constantemente. Qualquer informação pode se tornar centro da proteção estatal em certo momento e deixar de sê-lo em outro. Quando um assunto se torna prioridade na pauta política, é porque esse está sendo securitizado.

Mas o que é “securitização”? Trata-se da percepção de ameaça que um Estado tem sobre alguma questão. Ao securitizar um tema, as políticas estatais definidas para lidar com aquele assunto deixam de ser consideradas “normais” e passam a ser tidas como “políticas de pânico”. Esse caráter emergencial permite que medidas ilegais ou incomuns sejam momentaneamente usadas. Uma política estabelecida emergencialmente foi a de Tolerância Zero do governo de Donald Trump, definida em abril de 2018. Tal política criminalizou imigrantes irregulares que ultrapassaram a fronteira estadunidense, separando preventivamente as crianças de seus pais durante o processo criminal. É importante destacar que essa decisão gerou tanta polêmica e foi tão criticada que acabou sendo revogada apenas dois meses após ter sido estabelecida.

O Politize! falou sobre essa polêmica na retrospectiva de junho de 2018, vai lá ver!

COMO DIFERENCIAMOS A SEGURANÇA NACIONAL DA SEGURANÇA INTERNACIONAL?

Os Estados são sociedades constituídas por grupos de indivíduos organizados que buscam objetivos em comum. Nesse sentido, a Segurança Nacional visa a proteção coletiva e individual dos membros que compõem essa sociedade contra ameaças à sobrevivência e autonomia. Tal busca pela sobrevivência estatal pode ser visualizada, por exemplo, na recente militarização das fronteiras entre Áustria e Itália como forma de evitar a entrada de migrantes irregulares que chegavam pelo Mar Mediterrâneo, o que foi tido como uma ameaça ao Estado.

Além disso, a denominação “nacional”, como constata Cepik, tem origem no contexto ocidental de delimitação territorial. Ou seja, trata-se de Segurança Nacional quando a questão ocorre dentro das fronteiras, as quais tradicionalmente separam um Estado Nacional de outro.

A noção de uma sociedade que pode se organizar politicamente significa a criação de um sistema de normas jurídicas, o qual inclui uma Constituição Federal e diversos outros regulamentos. Além das leis – e talvez ainda mais importante que essas –, dentro de um Estado existe uma hierarquia entre as instituições. Essa hierarquia significa que o Estado – representado pelos governantes – tem um poder sobre os cidadãos, que possuem direitos, mas também deveres. Trata-se da chamada soberania do Estado: não há uma instituição “acima” dele, nem dentro ou fora de seu território. Tal estrutura hierárquica entre governantes e governados é o que difere os membros de um Estado e os membros da Comunidade Internacional.

Internacionalmente, não há um órgão superior regulador, algum tipo de “governo mundial” que tem mais poder que os Estados. Também não há uma relação de subordinação entre os países do Sistema Internacional. Ou seja, todos são iguais entre si, o que torna o Sistema Internacional anárquico. Por causa dessa anarquia, os países cooperam e competem à nível internacional, visando principalmente a sobrevivência do Estado Nacional.

Mas, afinal, qual a diferença teórica entre securitizar um assunto nacionalmente – deixando a questão interna ao país em questão – e internacionalmente? Como vivemos em um mundo integrado e globalizado, essa diferenciação não é clara e, portanto, não existe uma explicação concreta. Para exemplificar como uma situação interna tornou-se tema de Segurança Internacional, vamos utilizar um exemplo prático que afetou o mundo todo: o 11 de setembro.

Depois que os ataques de 2001 foram definidos pelos Estados Unidos como tendo caráter terrorista, buscou-se responder e consequente retaliar tais atos de forma conjunta. Essa ação em grupo foi possibilitada, principalmente, por organizações internacionais. Como a Organização das Nações Unidas (ONU) era, e ainda é, o organismo internacional mais importante na esfera decisiva nos níveis econômico e militar, a pauta foi levada até ela. Sua relevância internacional é explicada não apenas pelo fato de a organização contar com 193 países-membros, mas por entre esses estarem os Estados mais poderosos do globo. Tais potências possuem, até hoje, uma força especial dentro das Nações Unidas, representada principalmente pelo Conselho de Segurança.

Que tal entender mais sobre os órgãos da ONU, como o Conselho de Segurança e outros?

Alguns membros do Conselho de Segurança desaprovaram a “Guerra ao Terror” estadunidense – a qual incluiu várias ações, como o aumento da fiscalização de passageiros que embarcam em aeroportos dos países do Oriente Médio com destino aos Estados Unidos. Contudo, isso não impediu atos posteriores e unilaterais de retaliação, como a Guerra do Iraque, em 2003. Com esse exemplo, fica claro que as pautas do processo decisório internacional são, na maior parte das vezes, definidas pelos atores mais poderosos do Sistema Internacional. Tais países também são os que possuem os meios necessários (financeiro, político e militar) para execução de ações a nível mundial.

Sobretudo com relação ao terrorismo, no pós-11 de setembro, o processo de tomada de decisão internacional passou a ser influenciado pela figura dos Estados Unidos. Dividindo os Estados do globo entre “guerreiros da liberdade” e “terroristas”. Como ressaltou Saint-Pierre, o país norte-americano definiu sua estratégia econômica e militar após os atentados visando combater quaisquer influências que os países do Oriente Médio pudessem ter sobre o Sistema Internacional.

Soldados do Exército Brasileiro durante o desfile militar do Dia da Independência de 2003 em Brasília (Foto: Victor Soares | Agência Brasil).

Soldados do Exército Brasileiro durante o desfile militar do Dia da Independência de 2003 em Brasília (Foto: Victor Soares | Agência Brasil).

QUAL A DIFERENÇA ENTRE SEGURANÇA E DEFESA?

Segundo General Linhares, do Exército Brasileiro, em vídeo de 2017 para o canal do Ministério da Defesa no Youtube, Segurança é “uma sensação; é quando o indivíduo não se sente ameaçado”. Para atingir tal objetivo trabalha-se conjuntamente a Defesa Nacional e a Segurança Pública.

A Defesa Nacional, no caso do Brasil, é uma atividade realizada pelas Forças ArmadasMarinha, Exército e Força Aérea –, que, segundo a Constituição, devem defender a pátria e os três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário. Em outras palavras, as Forças Armadas devem preservar a soberania nacional, a integridade territorial e o país de qualquer ameaça externa. A Segurança Pública, por sua vez, visa a integridade do cidadão e do patrimônio, assim como a ordem pública. Essa última é desempenhada, integradamente, pelas Polícias Militares, Estaduais e Federal.

Ademais, algumas Constituições – como a brasileira –, preveem a complementaridade das Forças Armadas no estabelecimento da segurança e da ordem pública. Esse ato é conhecido como Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e deve partir de uma demanda do Presidente da República, que define o tempo e a área da atuação da ordem. É possível que as Forças Armadas atuem na segurança pública somente quando as possibilidades de usar as forças tradicionais de segurança pública, como a Polícia Militar e Civil, tiverem sido esgotadas. A intervenção federal em diferentes comunidades do Rio de Janeiro, decretada em fevereiro de 2018, é um exemplo dessa possibilidade.     

QUAIS SÃO OS DESAFIOS ATUAIS PARA OS ESTUDOS DE SEGURANÇA INTERNACIONAL?

Para compreender o que se entende por Segurança Internacional, devemos evidenciar, por último, quais são os maiores desafios a serem enfrentados nesse campo.

Até os anos 1970, quando a bipolaridade da Guerra Fria ainda dominava o mundo, os estudiosos de Segurança Internacional limitavam o conceito de Segurança para um lado estatal e unicamente militar e nuclear. Com o afrouxamento da tensão desse conflito, e a consequente vitória capitalista, o Sistema Internacional sofreu uma série de mudanças. Esses novos processos resultaram em uma nova agenda de Segurança, a qual passou a propor novas temáticas e atores.

Segundo Barry Buzan, essa ampliação implicou em cinco setores aos quais a Segurança Internacional estaria submetida no novo momento:

Militar:

Tem a segurança e a defesa do Estado como principal objeto de referência. Anteriormente era a única esfera considerada no âmbito da Segurança Internacional.

Político:

Interpreta como ameaça a destruição ou o abalo da estabilidade organizacional do Estado. Consequentemente, preocupa-se  com a sua soberania, a qual envolve, internamente, o reconhecimento e a legitimidade da autoridade governamental. Já internacionalmente, a preocupação diz respeito à sobrevivência dos países e da Sociedade Internacional como um ambiente anárquico. Ou seja, sem que algum Estado governe os demais.

Econômico:

Levado em consideração principalmente quando há insegurança econômica – como momentos de crise econômica profunda –, que afeta as já citadas esferas militar e política.

International Federation of Red Cross (07/03/2016)

International Federation of Red Cross (07/03/2016)

Social:

Abriga as identidades coletivas que funcionam independentemente do poder estatal (sob a forma de tribos, clãs, nações, civilizações e religiões).

Meio-ambiente:

Foi incluído na agenda de Segurança Internacional ao constatar que também impacta as atividades humanas, tendo como referência principal a qualidade da vida e, consequentemente, a sobrevivência das populações.

Essa teoria de Buzan sobre as esferas importantes de Segurança Internacional pode ser ilustrada por acontecimentos práticos passados e contemporâneos. A Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, de 1972, que incentivou a criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente no mesmo ano, é uma delas. Seus principais objetivos – “manter o estado do meio-ambiente global sob contínuo monitoramento, recomendar medidas para melhorar a qualidade de vida da população sem comprometer os recursos e serviços ambientais das gerações futuras, etc.” –, continuaram a ser desenvolvidos por meio das Conferências seguintes (incluindo a Rio 92 e a Rio+10, ocorridas na cidade do Rio de Janeiro). Atualmente, a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável direciona as ações dos países na proteção do meio ambiente.

Ainda mais relevante é a questão migratória, a qual foi inicialmente pautada após a Segunda Guerra Mundial, com a criação do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), visando ajudar os milhões de europeus que fugiram de seus países ou perderam suas moradias. Seu momento atual, reconhecido como uma nova crise de refugiados, desloca cidadãos que fogem de seus países devido a perseguições políticas e guerras. A maioria desses, por sua vez, originários da Síria, tentam escapar da Guerra Civil que assola o país desde 2011. Em 2015, as estatísticas apontaram um total de 65,3 milhões de pessoas que já haviam passado pela situação migratória.

A segurança cibernética, finalmente, tem sido trazida pelas organizações internacionais, empresas privadas e, sobretudo, pelos Estados, a partir das últimas décadas do século XX, como uma das temáticas mais relevantes da era tecnológica. O tema tornou-se parte da agenda de Segurança Internacional por conta da preocupação com a proteção e transmissão da informação armazenada em aparelhos de computação pelas redes. Os Estados veem a cibernética como uma possibilitadora na alteração das relações convencionais de poder, aumentando a capacidade de monitoramento das informações na era da globalização. Os ataques de hackers à criptomoeda mais conhecida no mercado internacional, a Bitcoin, promovendo sua desvalorização imediata, são exemplos dessas capacidades cibernéticas ainda desconhecidas.

E então? Conseguiu entender o que significa Segurança Internacional? É um campo de estudos bem complexo, mas muito importante, e se conecta diretamente com a maneira que os países conduzem sua Política Externa.

Conseguiu entender o que é Segurança Internacional? Deixe suas dúvidas e sugestões nos comentários!

Publicado em 27 de novembro de 2018.

 

Maria Carolina de Castro

Graduanda em Relações Internacionais da UFSC. Faz parte do Grupo de Pesquisa e Extensão em Segurança Internacional e Defesa (GESED) e do Grupo de Estudo, Extensão e Pesquisa em Política Internacional (GEPPIC).

 

Referências:

BBC – Entenda a polêmica sobre a política que separava famílias de imigrantes ilegais nos EUA

BUZAN, Barry. Rethinking Security after the Cold War. Cooperation and Conflict, [S.L], v. 32, n. 1, p. 5-28, mar. 1997.

CEPIK, Marco. Segurança Nacional e Segurança Humana: Problemas Conceituais e Consequências Políticas. Security and Defense Studies Review, [S.L], v. 1, p. 1-19, 2001.

FERREIRA NETO, Walfredo Bento. Territorializando o “Novo” e (re)territorializando os tradicionais: a Cibernética como espaço e recurso de poder. Coleção Meira Mattos, Rio de Janeiro, v. 8, n. 11, p. 07-18, jan./abr. 2014.

JORNAL DO BRASIL – Áustria envia militares para fronteira e irrita Itália.

MINISTÉRIO DA DEFESA – Garantia da lei e da ordem.

NAÇÕES UNIDAS – A ONU e o meio-ambiente.

NAÇÕES UNIDAS – Histórico do ACNUR.

NAÇÕES UNIDAS – Países-membros da ONU.

POLITIZE – O que é estado?

POLITIZE – A crise humanitária dos refugiados.

SAINT-PIERRE, Héctor Luis. 11 de Setembro: do terror à injustificada arbitrariedade e o terrorismo de Estado. Revista de Sociologia e Política, [S.L], v. 23, n. 53, p. 9-26, mar. 2015.

SAINT-PIERRE, Héctor Luis. “Defesa” ou “Segurança”?: Reflexões em torno de Conceitos e Ideologias. Contexto Internacional, [S.L], v. 33, n. 2, p. 407-433, jul./dez. 2011.

SUPER INTERESSANTE – 11 de setembro: o que veio depois.

TANNO, Grace. A contribuição da Escola de Copenhague aos Estudos de Segurança Internacional. Contexto Internacional, Rio de Janeiro, v. 25, n. 1, p. 47-80, jan./jun. 2003.

YOUTUBE DO MINISTÉRIO DA DEFESA – Qual é a diferença entre defesa nacional e segurança pública?

Hamas

Hamas: o grupo envolvido no conflito entre Palestina e Israel

O Hamas está diretamente relacionado ao conflito entre Israel e Palestina. Entenda como atua esse grupo terrorista.

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Boko Haram: entenda a atuação do grupo

O Boko Haram é um conhecido grupo terrorista, atuante na Nigéria. Neste post, você conhece as características e formas de ação dessa organização.

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Talibã e sua atuação no mundo do terrorismo 

O Talibã é um grupo terrorista atuante no Afeganistão e no Paquistão. Você sabe o que defende e como age esse grupo no mundo do terrorismo? Descubra!

O que é terrorismo?

O que é e o que não é terrorismo? A definição é controversa e muitas vezes envolve objetivos políticos.

6 coisas sobre as Olimpíadas e o combate ao terrorismo

Com a ameaça do Estado Islâmico ao Brasil, vale a pena saber o que o país planeja o combate ao terrorismo nos jogos olímpicos deste ano.

A confusão entre islamismo e terrorismo

Desde 2001, o conceito de islamismo tem sido associado de maneira equivocada ao terrorismo. Veja por que essas são duas coisas diferentes.

Como funciona o financiamento do terrorismo?

Como acontece o financiamento do terrorismo? E mais: como o Brasil tenta coibir essas e outras atividades financeiras ilícitas? Veja neste post!