Hamas: o grupo envolvido no conflito entre Palestina e Israel

Braço Militar do Hamas. Foto: AFP

Hamas

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Considerado o maior grupo islâmico na Palestina, o Hamas (cuja sigla significa, em português, Movimento de Resistência Islâmica) é um grupo sunita fundado em 1987 e que luta contra a existência do Estado de Israel, criado após a Segunda Guerra Mundial para abrigar os judeus perseguidos nesse período. Quer conhecer melhor as características do grupo? Acompanhe!

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Sunitas x Xiitas

Com a morte do profeta Maomé, em 632, houve discordância sobre quem iria sucedê-lo como líder da comunidade muçulmana. Das divisões que surgiram, os sunitas e os xiitas são os principais grupos. A maioria dos muçulmanos são sunitas, cerca de 85%, enquanto os xiitas representam cerca de 15%. Enquanto os sunitas se consideram o ramo ortodoxo e tradicionalista do islã, os xiitas reivindicam o direito de Ali, genro do profeta Maomé, e seus descendentes de guiarem o islamismo.

Como surgiu o grupo?

O Hamas nasceu como organização social nas cidades e campos de refugiados cercados pelas tropas de Israel. Nessas áreas, o grupo organizava clínicas e escolas para palestinos insatisfeitos com a ineficiência da Autoridade Nacional Palestina, controlada pelo Fatah.

Em sua carta de fundação, o Hamas estabeleceu como objetivos a luta armada contra Israel e a realização de programas de bem-estar social. Além de não reconhecer a existência do Estado de Israel, o Hamas defende a criação de um único Estado palestino que ocuparia a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, área onde hoje fica Israel.

Depois da Primeira Intifada (uma manifestação palestina contra a ocupação de Israel), o Hamas ganha fama como principal opositor a um processo de paz em negociação, conhecido como os Acordos de Oslo, que buscavam a gradual retirada das tropas israelenses dos territórios ocupados na Palestina e em troca a Palestina garantiria a segurança de Israel. As negociações não foram suficientes para evitar que os confrontos seguissem, algo que perdura até os dias de hoje.

Na atualidade, a atuação do Hamas na Palestina pode ser dividida em algumas áreas:

  1. O braço militar, com as brigadas Al-Qassam;
  2. O partido político, desde 2006 quando venceu as eleições parlamentares palestinas;
  3. A filantropia, que fornece assistência a famílias em regiões de Gaza e da Cisjordânia.

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A relação com o Fatah

A delicada relação entre o Hamas e o Fatah não é algo novo. A principal razão para a rivalidade dos dois grupos é a diferença entre seus objetivos, um tanto opostos: enquanto o Hamas é um grupo radical que busca a total extinção do Estado de Israel, o Fatah é um grupo nacionalista que defende um acordo de paz através da divisão do território entre Israel e Palestina.

O Fatah (cuja sigla significa Movimento de Libertação Nacional da Palestina) é uma organização política e militar fundada em 1959 por Yasser Arafat e configura a maior facção da Organização para a Liberdade da Palestina (OLP). O contexto de seu surgimento foi a diáspora palestina, quando os judeus ocuparam o território islâmico onde hoje está Israel, e os conflitos acabaram expulsando os muçulmanos da região.

Os conflitos entre os dois grupos começam durante a Primeira Intifada, em 1987, quando protagonizam sua primeira disputa interna política, pelo controle da Organização. É nessa época que o Hamas realiza seu primeiro ataque a Israel, se recusando a lutar ao lado do Fatah, dando início à longa disputa entre as duas organizações.

A ruptura entre os grupos se intensificou em 1988, quando a OLP reconheceu a existência do Estado de Israel e a possibilidade de ambos (Israel e Palestina) viverem lado a lado. O Fatah se posicionou a favor do acordo, o que o Hamas considerou uma traição da causa Palestina.

Em 2006, quando o Hamas venceu a maioria das cadeiras no Parlamento palestino, o Fatah (que também conquistou cadeiras no Parlamento) se recusou a reconhecer a vitória do seu opositor. Nesse momento a ruptura entre os dois grupos é definitiva, gerando como consequência que o Hamas passasse a controlar a Faixa de Gaza e o Fatah ficasse com o controle da Cisjordânia. Assim, a década de conflito entre os grupos é motivada por uma disputa interna pelo poder.

Terrorismo ou resistência?

O Hamas é mais um exemplo de como a classificação terrorista é uma questão de perspectiva. Enquanto países como Estados Unidos, Canadá e Japão consideram o grupo uma organização terrorista pela sua recusa em renunciar à violência e reconhecer o Estado de Israel, nações como Qatar e Turquia enxergam o Hamas como um movimento legítimo de resistência. A União Europeia classificou o grupo como terrorista em 2003, após um ataque à Jerusalém que resultou na morte de centenas de civis israelenses.

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O histórico acordo de paz

Em 12 de outubro de 2017 o Hamas e o Fatah assinaram um histórico acordo de paz, depois de uma década de conflitos. O acordo, que foi assinado no Egito, tem seus detalhes divulgados aos poucos, sendo um deles a transferência dos postos de fronteira em Gaza – hoje sob o comando do Hamas – ao novo governo de união nacional palestino. Até o início de dezembro o controle administrativo de Gaza também será entregue ao governo de união nacional.

Contudo, muitos pontos continuam em aberto (como a existência das brigadas militares do Hamas) o que deixa em dúvida se os conflitos entre os dois grupos realmente chegaram ao seu fim.

Após divulgação do histórico acordo, autoridades de Israel divulgaram uma nota afirmando que se opõe a qualquer reconciliação que não inclusa o desarmamento do braço militar do Hamas e reconhecimento de Israel pelo grupo.

A nova intifada

Em dezembro de 2017, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reconheceu Jerusalém como a capital de Israel. A decisão é um tanto polêmica, já que enquanto o Estado de Israel considera Jerusalém sua capital eterna e indivisível, os Palestinos pedem que parte da cidade – Jerusalém Oriental – seja a capital de seu futuro Estado.

Para a comunidade internacional, a decisão do presidente estadunidense coloca em risco uma série de acordos de paz entre Palestinos e Israelenses, já congeladas há algum tempo. Prova disto é que pouco tempo após o anúncio de Trump, o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, convocou uma nova intifada (levante contra Israel). Segundo Haniyeh, a decisão é uma “declaração de guerra contra os palestinos”.

Logo após a decisão, diversos protestos tomaram as ruas do Oriente Médio e de outras partes do mundo. De que forma será conduzida a nova intifada do Hamas permanece um futuro incerto.

E você, o que achou da atuação do Hamas? Deixe seu comentário!

Publicado em 23 de outubro de 2017. Atualizado em 11 de dezembro de 2017.

Isabela Souza

Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e assessora de conteúdo do Politize!.