O que é trotskismo?

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O trotskismo surgiu no interior do Partido Comunista da União Soviética (URSS) no início da década de 1920. Seu nome é alcunhado a partir de Leon Trótski, principal figura nos debates que deram origem ao movimento.

Divergências ideológicas, perseguição e repressão, luta por poder, influência internacional, revolução comunista permanente são alguns dos pontos mais sensíveis quando se discute o trotskismo.

Se você quer saber mais sobre Trótski e o trotskismo, continue com a leitura deste conteúdo da Politize!.

As origens do movimento

O trotskismo é uma corrente ou ideologia política que surgiu na primeira metade do século XX, especialmente durante a Revolução Russa. Muitas de suas raízes derivam das divergências ideológicas entre Trótski e Stalin, expostas mais claramente após a morte de Lênin em 1924. A década de 20 foi marcada justamente pelas disputas de poder entre Trótski e Stalin dentro do Partido Comunista da URSS.

Antes de explicar mais sobre o trotskismo, é preciso entender primeiro quem foi Trótski.

Quem foi Leon Trótski?

Lev Davidovich Bronstein, mais conhecido pelo pseudônimo Leon Trótski, nasceu em 7 de novembro de 1879 na aldeia de Ianovka (atual Bereslavka) na Ucrânia e morreu em 21 de agosto de 1940 na cidade mexicana de Coyoacán.

Trótski foi um revolucionário russo, líder comunista soviético e teórico marxista. Ele foi uma figura central em diferentes momentos da história russa. Por exemplo, na Revolução de 1905, na Revolução de Outubro, na Guerra Civil Russa e no estabelecimento da União Soviética.

Mesmo sendo o aparente herdeiro do líder soviético Vladimir Ilyich Ulianov (1870-1924), ou Lênin, Trótski foi derrotado por Josef Stalin (1878-1953). Exilado da URSS em 1929, ele procurou reunir seus seguidores para desafiar a liderança do governo russo no comunismo mundial. Porém, não pôde ver o seu plano concretizado devido ao seu assassinato por um agente stalinista em 1940.

Retrato em preto e branco de Leon Trotsky, pai do trotskismo. Feito em 1929.
Retrato de Leon Trotsky de 1929. Imagem: Wikimedia Commons.

Para entender um pouco mais sobre como funciona a atual Rússia, leia mais em: Rússia: como funciona o país de Vladimir Putin?

Trótski nos atos revolucionários

Foi no final da década de 1890 que Trótski se viu atraído por ideias radicais. Ele se juntou a um grupo de estudantes e trabalhadores para debater políticas radicais socialista, momento em que foi apresentado às ideias marxistas.

Preso em 1898 acusado de atividade revolucionária por participar de organizações proletárias, Trótski foi condenado a quatro anos de exílio na Sibéria. Passou os seis meses seguintes em uma prisão de trânsito em Moscou, onde ouviu falar de Lênin pela primeira vez. Em 1902, ele fugiu do exílio com um passaporte falso com o nome Trótski.

Foi para Londres e, em 1903, foi delegado no Segundo Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo. Nessa ocasião, ocorreu a divisão do partido comunista nas facções bolchevique e menchevique. Ambos os grupos entendiam que a revolução russa era uma revolução democrático-burguesa. Mas as diferenças conceituais, de tática e de objetivos eram muito grandes.

Os mencheviques defendiam esperar o amadurecimento das condições econômicas e sociais da Rússia para implementar o socialismo. Já os bolcheviques entendiam que era preciso assumir as rédeas da revolução democrático-burguesa para transformá-la em revolução socialista o mais rápido possível. E, para tanto, não abriam mão da possibilidade de uma revolução socialista armada.

A ala bolchevique era liderada por Lênin e representava a maioria dos membros do partido. Já a ala menchevique a minoria. Nas votações, Trótski ficou do lado dos mencheviques.

Para ler um pouco mais sobre os bolcheviques e os mencheviques, leia a Revolução Russa de 1917: o que mudou?

Trótski ganhou destaque pela primeira vez na Revolução Russa de 1905. Ele chegou à capital São Petersburgo em outubro, depois que uma greve geral foi declarada. Ele se tornou um dos principais porta-vozes do movimento revolucionário de greve que desafiava o governo czarista. Dentre os instrumentos de pressão pública, estavam greves de trabalhadores, agitação camponesa e motins militares.

Aproximadamente vinte pessoas montadas à cavalo, apropriadamente vestidas e armadas em São Petersburgo. Foto em preto e branco.
Tropas em São Petersburgo (Janeiro de 1905). Imagem: Wikimedia Commons.

Em resposta, o czar Nicolau II foi forçado a promulgar algumas reformas: a criação de uma assembleia legislativa chamada Duma, do sistema multipartidário e da Constituição Russa de 1906. Nicolau se manteve por pouco no poder, porém os eventos de 1905 se tornariam presságios do que estava por vir na Revolução Russa de 1917. E ainda confirmariam a Trótski de que os trabalhadores eram capazes e estavam prontos para tomar o poder da Rússia.

Em meio a todos esses movimentos, Trótski foi preso e levado a julgamento em 1906. A caminho da Sibéria para um segundo exílio em 1907, ele conseguiu escapar para o exterior. Com o início do colapso da autocracia russa em 1917, Trótski retornou à Rússia e uniu forças com Lênin. Os bolcheviques tomaram o controle de Petrogrado levando o seu líder ao poder.

Para saber mais, leia A ascensão e a queda do Império Russo.

Trótski passou a desempenhar importantes funções dentro do governo bolchevique, primeiro como comissário estrangeiro e depois como comissário de guerra. Quando exercia esta última posição, ele se encarregou de construir um novo Exército Vermelho e de se preparar para defender o governo comunista contra as ameaças iminentes de guerra civil e intervenção estrangeira.

As políticas militares de Trótski sofreram resistência, mas sem sucesso, de facções de ultra esquerda e líderes rivais do partido, principalmente Stalin. No entanto, o sucesso do Exército Vermelho acabou justificando suas decisões.

A sucessão de Lênin

Para saber mais sobre a história de Lenin, confira o texto 100 anos da morte de Vladimir Lenin: o líder da Rússia no século XX.

Fotografia de Lenin tirada em Zurique em março de 1916. Foto em preto e branco.
Vladimir Lenin em Zurique (1916). Imagem: Wikimedia Commons.

A questão da sucessão na liderança da Rússia se tornou mais alarmante depois da deterioração da saúde de Lênin em 1922. Trótski era visto como o candidato mais óbvio à ascensão aos olhos das bases do partido. Porém, conflitos entre seus colegas e Stalin fez com que em poucos anos Trótski sofresse uma derrota política total até ser expulso da URSS.

Um dos fatores apontados que pode explicar a perda substancial de influência política de Trótski é a sua inépcia como político. Ele era mais eficaz administrando as massas em uma época de agitação revolucionária do que dentro da administração pública. Stalin poderia não ser tão talentoso intelectualmente se comparado a Trótski, mas sabia muito bem manobrar intrigas políticas a seu favor.

As propagandas e esforços para enfraquecer o controle de Trótski sobre o comissariado de guerra e para descredibilizar seus apoiadores surtiram efeito. Com a morte de Lênin em 1924, Trótski se viu isolado e sem substancial apoio dentro do partido.

Em 1926, Trótski foi expulso do partido e, em 1928, ele e seus principais seguidores foram exilados em partes remotas da URSS. Um ano depois, Trótski foi banido do território da URSS. Sob pressão soviética, ele foi forçado a buscar asilo no México em 1936, se estabelecendo em Coyoacán.

Em agosto de 1940, Ramón Mercader, um comunista espanhol atingiu-o fatalmente com um piolet (ferramenta de alpinismo). O governo soviético negou qualquer responsabilidade e Mercader foi condenado a 20 anos de prisão de acordo com a lei mexicana.

Os princípios fundamentais do movimento

Depois de visto um pouco da história de vida de Trótski, é momento de apresentar o trotskismo e alguns dos seus principais fundamentos.

A revolução permanente

O termo revolução permanente foi cunhado pela primeira vez por Marx e Engels em 1850 para se referir à análise das revoluções de 1848. Desde então diferentes teóricos, entre eles Trótski, passaram a usar o termo para se referir a diferentes conceitos.

Em Trótski, a teoria da revolução permanente explica como uma revolução socialista pode ocorrer em sociedades de desenvolvimento tardio. Ou seja, em países atrasados que ainda guardam relações sociais pré-capitalistas.

A principal ideia de Trótski é que a burguesia nativa desses países não seria capaz de realizar uma revolução completa. Isto é, uma revolução que instituísse a democracia política e resolvesse as questões essenciais para desenvolver economicamente a Rússia.

A revolução ainda teria um aspecto burguês, mas seria o proletariado que a lideraria e que iniciaria uma luta para superá-la. O proletariado é entendido por Trótski como o sujeito social da revolução. Isso porque ele possuía o peso social e a capacidade estrutural para implementar completamente o seu próprio programa.

O proletariado teria, então, a dupla tarefa de levar a cabo a tarefa democrática de eliminar as relações sociais pré-capitalistas e de iniciar a transição ao socialismo. Assim, mesmo que a revolução fosse caracterizada como democrático-burguesa, ela ainda seria uma revolução socialista pela direção e dominação do proletariado.

A revolução exigiria a manutenção contínua da posição do proletariado na política de forma a evitar contrarrevoluções. Por isso, ela se tornaria um processo ininterrupto, permanente, e não um evento isolado que acaba quando da tomada de poder.

O internacionalismo

Trótski defendia a luta de classes como um fenômeno internacional em que a classe proletária de todos os países deveria se unir contra o capitalismo. É dessa noção que vem o conceito de internacionalismo: o socialismo só seria vitorioso se atingisse uma escala internacional.

A revolução socialista teria poucas chances de sucesso se o socialismo não chegasse às principais nações industrializadas do mundo. Isto é, se o socialismo não se transformasse em um sistema mundial.

Mesmo que a Rússia fosse um país atrasado, o seu proletariado poderia chegar ao poder antes do proletariado dos países avançados. Porém, uma vez lá, uma revolução socialista em âmbito mundial deveria ocorrer, mesmo que não simultaneamente em todos os países.

Stalin, por outro lado, defendia que o socialismo seria possível em um só país. Uma espécie de socialismo puramente russo. É uma posição teórica que estava alinhada aos interesses de uma burocracia satisfeita com o status quo. Entretanto, para Trótski, havia um alto preço a se pagar por este isolamento: o desenvolvimento de uma burocracia enrijecida no seio do Estado Soviético.

E essa burocracia começaria a apresentar interesses diferenciados do proletariado, a quem ela dizia representar.

A crítica à burocracia soviética

A luta contra as deformações burocráticas do aparelho estatal da URSS e do Partido Comunista iniciaram no início da década de 1920 por Trótski e Lênin.

Condições sociais e políticas da época potencializaram o surgimento dessa burocracia. Primeiro, porque a URSS não tinha mais uma pungente classe proletária como tinha na época da Revolução Russa. E segundo, porque ainda lidava com diferentes problemas derivados da guerra civil e do isolamento internacional.

Com o tempo, pessoas ligadas à máquina estatal foram se tornando cada vez mais politicamente independentes das massas proletárias. E também direcionar os interesses públicos de acordo com os seus próprios. Essas pessoas, a burocracia, era vista por Trótski como uma casta parasitária ao Estado com funções de comando e administração. E via Stálin como líder.

As deformações burocráticas teriam se consolidado a tal ponto que fez surgir um novo regime jurídico-político. Um regime caracterizado pela expropriação do poder político do proletariado pela burocracia do Estado e do partido.

Críticas ao trotskismo

Como mencionado anteriormente, a revolução permanente de Trótski defende que a classe trabalhadora deveria liderar a revolução. Porém, isso gerou controvérsias dentro do próprio marxismo. Isso porque Trótski não previu a possibilidade de que outras classes (que não o proletariado) pudessem liderar o movimento. Um exemplo é a Revolução Cubana, que teve o campesinato como base social.

Os stalinistas também criticavam Trótski por parecer subestimar o campesinato e querer apressar demais a revolução. Ou seja, de pular a fase democrático-burguesa. Similarmente, Lênin defendia uma etapa intermediária da revolução, uma ditadura democrática do proletariado e dos camponeses. Trótski, por sua vez, entendia que essa fórmula era vaga demais, pois a liderança precisava ser clara.

Depois de 1917, Lênin adotou uma postura mais próxima à de Trótski. Ele reconheceu a necessidade da ditadura do proletariado, mas ainda opinava que deveria ser apoiada pelo campesinato.

Antonio Gramsci (1891-1937) é outro crítico do trotskismo. Sua oposição se respalda no entendimento de que a abordagem de Trótski era mecanicista/economicista. Isto é, derivada a estratégia política de forma muito direta das condições econômicas. E ainda argumentava que faltava à teoria de Trótski uma adequação à realidade das sociedades capitalistas ocidentais.

Sobre o stalinismo

Mesmo com as críticas contundentes do trotskismo, o stalinismo provou ser um regime transformador seja para o bem ou para o mal. E existem alguns motivos para tanto.

Em janeiro de 1939 ocorreu o 17° Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Neste evento, Stalin comparou o crescimento industrial de vários países (em relação a 1913) usando fontes ocidentais. Os números apresentados foram os seguintes: Alemanha: -24,6%; Reino Unido: -14,8%; EUA: +10,2% e URSS: +291,9%.

Estatísticas oficiais apontam também que, durante os dois primeiros planos quinquenais (1928-1937), a produção de eletricidade aumentou de 5,05 para 36,2 bilhões de quilowatts-hora, a de carvão de 35,4 para 128 milhões de toneladas e a de aço de 4,0 para 17,7 milhões de toneladas.

Esses resultados ajudam a entender como a URSS passou de um país atrasado e agrário para um país avançado industrialmente em poucas décadas. Para muitos, isso provava a superioridade do sistema planificado de Stalin.

Esse poder industrial foi crucial para garantir que a URSS tivesse condições de competir com a produção bélica alemã durante a II Guerra Mundial. E, no fim, a desempenhar um papel determinante na derrota do nazismo.

Para mais detalhes sobre o nazismo, confira o texto Nazismo: você conhece a política disseminada por Hitler?

O campesinato foi um dos setores que mais sentiram essas mudanças. Ainda em 1928 ele constituía quase 80% da população total. Porém, ainda durante os dois primeiros planos quinquenais, milhões de pessoas afluíram às cidades. O resultado, um crescimento urbano de cerca de trinta milhões de pessoas.

Durante o mesmo período, os índices de educação também mudaram. Estima-se que a taxa de alfabetização das pessoas com 9 anos ou mais tenha aumentado de 51% para 81%, e as matrículas no ensino primário e secundário de cerca de 12 milhões para pouco menos de 32 milhões.

Como comentado anteriormente, Stalin defendia o socialismo em um só país. Para os defensores do stalinismo, isso significava a autossuficiência do país. Uma vez que a URSS se fortalecia internamente, ela se tornava mais forte para garantir a sua soberania em meio a um ambiente hostil de potências capitalistas.

De todas as maneiras, é amplamente entendido que essas conquistas foram entrelaçadas com políticas deliberadas de violência e terror.

Presença e influência do trotskismo na política contemporânea

A influência do trotskismo pode ser sentida até os dias de hoje, mesmo que de forma mais dispersa e em menor escala.

O pensamento teórico de Trótski, por exemplo, continua presente na academia. A revolução permanente, a problemática da burocracia, o internacionalismo e outros temas derivados de suas ideias ainda são debatidos por acadêmicos e ativistas políticos.

A influência também se estende a partidos políticos e movimentos sociais ao redor do mundo.

No Brasil, o Partido Socialista dos Trabalhadores (PSTU) e o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) são de orientação trotskista. Ambos possuem um forte engajamento com a luta de classes e a revolução socialista.

É importante mencionar que os trotskistas foram um dos mais influentes da esquerda na construção do Partido dos Trabalhadores (PT). Hoje em dia, porém, o partido têm buscado conciliar justiça social com economia de mercado. Isso mostra a migração que tiveram para uma orientação de centro-esquerda.

Outros países sul-americanos como a Argentina, o Peru e a Venezuela possuem partidos de orientação trotskista. O mesmo se pode falar de países como Espanha, Grécia, África do Sul, Turquia e os países do Leste Europeu.

O pensamento trotskista também tem inspirado movimentos estudantis, trabalhistas e anticapitalistas. Para citar um exemplo, tem-se o Movimento Esquerda Socialista (MES). O MES é um movimento político fundador do PSOL e baseado na ideologia trotskista. Foi formado em 1999 depois de cisões dentro do Partido dos Trabalhadores (PT) e continua atuante desde os dias de hoje.

Ainda assim, o trotskismo ainda encontra obstáculos para permanecer operante no cenário político contemporâneo. Por exemplo, a repressão durante o pós-guerra pelo stalinismo contribuiu fortemente para dispersar e trazer um grau de marginalidade ao movimento.

De qualquer forma, o trotskismo permanece relevante na política atual e na crítica ao capitalismo inspirando movimentos sociais ao redor do globo.

E, aí? Gostou de conhecer um pouco sobre o trotskismo? Qual a sua opinião sobre a importância desse movimento nos dias de hoje? Deixe a sua opinião ou pergunta nos comentários!

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Conteúdo escrito por:

Mayara da Mata Moraes

Nascida e criada no Paraná, mudou-se para Florianópolis para cursar Economia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Adora ler e escrever, e tem grande interesse por temas como teoria econômica, política, filosofia e literatura.
Moraes, Mayara. O que é trotskismo?. Politize!, 12 de janeiro, 2026
Disponível em: https://www.politize.com.br/trotskismo/.
Acesso em: 26 de fev, 2026.

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