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A confusão entre islamismo e terrorismo

Este é o terceiro texto de uma trilha de conteúdos sobre grupos terroristas. Confira os demais posts da trilha: 1 – 2 – 3 – 4 – 5 – 6 – 7891011

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Após os atentados em Paris e o ataque que matou 14 pessoas na Califórnia, em novembro de 2015, o grupo autodenominado Estado Islâmico causou temor no mundo todo, principalmente por suas declarações contra o Ocidente.

Ataque em San Bernardino, Califórnia. Foto: reprodução.

Nos últimos anos, o preconceito contra pessoas da religião muçulmana vem aumentando, sobretudo por parte de nacionalistas europeus, que também criticam o movimento de entrada de refugiados em seus países. A onda anti-islâmica já existe desde os ataques às torres gêmeas em 2001. Na semana seguinte aos ataques em Paris, o debate acirrou-se nos EUA, com a reação de políticos contra a entrada de refugiados muçulmanos no país.

Como o preconceito normalmente é fruto de sentimento hostil, como consequência da generalização feita sem exame crítico, esse artigo tem por objetivo demonstrar de que estas pessoas não são terroristas por serem muçulmanas.

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Para entender melhor

Em primeiro lugar, é importante diferenciar árabes de muçulmanos, já que nem todo árabe é muçulmano e vice-versa.

Os árabes são os integrantes de um povo heterogêneo, originário da península Arábica, e habitam principalmente o Oriente Médio, região situada entre a Ásia e a África. As religiões predominantes entre os árabes são o islamismo, o cristianismo e o judaísmo.

Mapa geopolítico do Oriente Médio.

Já os muçulmanos são os indivíduos que aderem ao islamismo, religião monoteísta fundada pelo pelo profeta árabe Maomé. O Alcorão é o livro sagrado do Islã, texto considerado pelos seus seguidores como a palavra literal de Deus (Alá, em árabe).

Com a morte de Maomé, em 632, houve discordância sobre quem iria sucedê-lo como líder da comunidade muçulmana. Das divisões que surgiram, os sunitas e os xiitas são os principais grupos. A maioria dos muçulmanos são sunitas, cerca de 85%, enquanto os xiitas representam cerca de 15%. O maior país muçulmano do mundo é a Indonésia.

Fundamentalismo religioso

Fundamentalismo religioso é o termo usado para se referir à crença na interpretação literal dos livros sagrados. Fundamentalistas são encontrados nas mais diversas religiões e pregam que os dogmas de seus livros sagrados sejam seguidos à risca. O termo surgiu no começo do século XX nos EUA, quando protestantes determinaram que a fé cristã exigia acreditar em tudo que está escrito na Bíblia.

Os ataques de 11 de setembro de 2001, organizados pelo grupo fundamentalista sunita Al Qaeda, reacenderam a preocupação contra fundamentalistas e criaram dois mitos frequentes: o de que todo fundamentalista é muçulmano e o de que todo muçulmano é terrorista.

O fundamentalismo, porém, não é parte do islamismo. O que ocorre é que alguns grupos interpretam que a religião deve ser seguida estritamente e tentam impor essa visão à sociedade. Assim como grupos fundamentalistas islâmicos como a Al Qaeda, o Boko Haram e o Estado Islâmico, há grupos fundamentalistas também no judaísmo, como o Kach Kahane Chai – que objetiva restabelecer os territórios judaicos como determina a Torá e expulsar os palestinos da região – e no cristianismo, como Christian Voice (Voz Cristã), da Inglaterra – que condena o divórcio,  as clínicas de aborto e faz a promoção da cura de homossexuais.

Outro ponto importante é o de que há grupos fundamentalistas em todas as religiões, porém nem todos praticam atos de terrorismo. O fundamentalismo cristão, por exemplo, defende que a sociedade e a ciência devem se basear estritamente nos ensinamentos da Bíblia, mas, apesar existirem ações de violência isoladas contra os que violam esse entendimento, não há grupos organizados que praticam atos terroristas.

Diferentemente do que muitos afirmam, o Alcorão não prega a violência. Os que o utilizam com esse propósito, fazem suas próprias interpretações para justificar seus atos. De acordo com Fernando Celino, assessor de comunicação da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro, a própria palavra “islã” vem da raiz árabe “salam”, que significa “paz”. A saudação islâmica “salamaleico” significa “Que a paz esteja com você”.

Apesar de o autodenominado Estado Islâmico se declarar muçulmano, grande parte dos adeptos do islamismo repudia os atos do grupo e afirma que eles não representam o Islã. Desse modo, o problema não é a religião, mas as forças políticas que usam o Islã para se promoverem por meio da violência.

Neste momento crítico em que se encontra a questão do terrorismo, espera-se que os governantes tomem medidas para combater a intensificação da islamofobia, sobretudo porque pode agravar ainda mais a crise dos refugiados. Além disso, a discriminação contra os muçulmanos é uma ferramenta muito potente que o Estado Islâmico usa para recrutar jovens europeus.

Nesse sentido, o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deu uma declaração afirmando que o EI “não fala pelo Islã. São matadores e assassinos […] Devemos atrair as comunidades muçulmanas como um dos nossos mais fortes aliados, em vez de afastá-los pela suspeita e pelo ódio”.

Fontes

Folha de São Paulo, Super Interessante, G1

Publicado em 07 de dezembro de 2015.

Renata Cabrera de Morais

Formada em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP), estuda para o concurso de admissão à carreira diplomática e é grande entusiasta do desenvolvimento sustentável, em busca de um mundo mais harmônico e equilibrado.