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Diferença salarial entre homens e mulheres

Foto: Roosewelt Pinheiro/ABr / Fotos Públicas (31/04/2014).

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As discussões acerca dos diversos temas que envolvem a questão de gênero parecem ter permeado variados espaços de reflexão em 2015 no Brasil. Estes questionamentos são importantes, pois questionar algo que é naturalizado em uma sociedade é sempre um passo indispensável para que mudanças efetivas sejam viabilizadas. É muito difícil propor resoluções para um determinado problema social quando a sociedade não tem conhecimento do problema.

Dessa forma, nesse breve texto, vamos iniciar mostrando que a desigualdade salarial entre homens e mulheres é um problema social que, há algumas décadas, intriga pesquisadoras e pesquisadores. Além disso, é um problema social que muitas pessoas na nossa sociedade não conhecem ou, quando conhecem, não têm dimensão real do seu tamanho.

Para saber o tamanho desse problema, dê uma olhada neste infográfico:

Que tal baixar esse infográfico em alta resolução?

Com essas informações, surge uma importante pergunta: por que isso acontece?

Poderíamos pensar que a diferença salarial está sendo afetada por diversas características diferentes entre os homens e as mulheres. No entanto, a partir dos dados do Censo 2010 é possível separar e observar um grupo de homens e mulheres que possuem as seguintes características em comum: idade, formação educacional, ocupação, número de horas trabalhadas, região geográfica e raça. Mesmo com todas essas características em comum, os dados mostram que essas mulheres ainda ganham em média 35% a menos do que os homens. Ou seja, ganham menos pelo simples fato de serem de outro sexo.

A desigualdade salarial de gênero é formada, muitas vezes, antes da entrada dos indivíduos no mercado de trabalho. No entanto, o mercado de trabalho pode funcionar como um reprodutor e consolidador desta desigualdade. Por exemplo, algumas pessoas argumentam que mulheres têm preferência por certas profissões que pagam menos e, por isso, a desigualdade salarial não tem relação direta com a desigualdade de gênero. Contudo, essas escolhas profissionais acabam sendo reflexo da desigualdade de gênero já existente.

Para diversos cientistas sociais, compreender como essas preferências profissionais são firmadas é muito importante. O Brasil tem um nível de segregação sexual entre cursos de graduação muito mais elevado do que os EUA, por exemplo. O importante aqui seria perguntar o porquê de mulheres estarem concentradas em cursos como educação e humanidades e comporem apenas 20% das engenheiras ou 40% das economistas. Será que isso teria a ver com o fato de existirem poucas professoras mulheres lecionando turmas de matemática, física ou química nas escolas? Ou será que existe um incentivo menor, na nossa cultura como um todo, para mulheres seguirem carreiras nas áreas mais ligadas às engenharias? Será que isso teria relação com as diferentes socializações primárias que são oferecidas para as crianças de acordo com seu sexo? Portanto, diversos são os fatores que poderiam explicar por que a proporção de engenheiras no Brasil é consideravelmente menor do que em outros países.

Além da escolha da formação, os papéis de gênero também influenciam nas trajetórias profissionais das mulheres, especialmente no que diz respeito à maternidade e às tarefas domésticas. Segundo estudo de Carlos Costa Ribeiro, em média 80% dos afazeres domésticos são realizados pelas mulheres. Isso afeta o tempo que mulheres gastam investindo em suas carreiras em comparação com os homens, especialmente quando estas têm filhos.

Outro fator importante é a licença maternidade, que ainda tem um custo muito alto na carreira das mulheres. Em países em que não existe uma forte licença maternidade, muitas mães, mesmo muito qualificadas no mercado de trabalho, acabam largando suas carreiras. Por outro lado, em países com fortes licenças maternidade, mas com fracas ou quase inexistentes licenças paternidade, mulheres acabam sendo preteridas em detrimento de seus colegas do sexo masculino. Isso ocorre, em parte, devido ao fato do risco financeiro de se contratar ou promover um homem ser menor. Na Islândia, por exemplo, país que ocupa o primeiro lugar no Global Gender Gap Index de 2014[1], a licença maternidade e paternidade é de 9 meses, dos quais 3 meses são para a mãe, 3 para o pai e mais 3 que são alocados da forma que os pais preferirem.

Pesquisa realizada pela professora Michelle J. Budig da Universidade de Massachusetts-Amherst aponta que existe no geral uma penalidade salarial para mães e uma recompensa para pais. A penalidade é muito maior para mulheres mais pobres. Enquanto para os homens a recompensa é bem maior para homens ricos. A pesquisadora acredita que isso possa ocorrer pelo fato de a paternidade sinalizar ao empregador certas características desejáveis do empregado, como comprometimento, responsabilidade e estabilidade.

Em resumo, podemos entender que o impacto das diferentes socializações e referências na infância na escolha profissional das mulheres, a persistência da concentração do serviço doméstico nelas e as diferenças de custo financeiro entre licenças maternidade e paternidade são alguns dos fatores que ajudam a entender a desigualdade salarial entre homens e mulheres.

Por que é importante pensarmos em estratégias para reduzir esta desigualdade?

Primeiro podemos argumentar que a igualdade entre os gêneros é importante por conta de uma concepção de teoria da justiça. Dependendo da concepção de justiça que defendemos, a igualdade entre os seres humanos deve ser buscada como um fim em si.

O segundo argumento tem como base uma noção de eficiência econômica e social, uma vez que, ao não promover igualdade de oportunidades para indivíduos desenvolverem os seus talentos independentemente de sexo, raça, orientação sexual, religião, dentre outras, a sociedade acaba alocando os indivíduos de forma ineficiente no mercado, o que pode levar a uma redução do crescimento econômico. Como destacado em artigo deste ano da The Economist, países poderiam aumentar o seu PIB entre 5 e 20% se a participação feminina no mercado de trabalho fosse parecida com a masculina.

Dessa forma, a luta pela igualdade de gênero não é apenas a coisa certa a se fazer de um ponto de vista ético, mas é também uma estratégia inteligente do ponto de vista econômico.

Referências:

BUDIG, M. J. The Fatherhood Bonus & the Motherhood Penalty. Parenthood and the Gender Gap in Pay. Thid Way, 2014.

IBGE: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios: Sintése de Indicadores 2014. Disponível em: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv94935.pdf

GALVÃO, Juliana. O Impacto da Segregação de Gênero nos Cursos de Graduação sobre o Diferencial Salarial entre Homens e Mulheres no Brasil. UnB, 2015.

GERBER, T. P.; CHEUNG, S. Y. Horizontal stratification in postsecondary education: Forms, explanations and implications. v. 34, n. 2008, p. 299–318, 2008.

RIBEIRO, C. A. C. Desigualdade De Oportunidades No Brasil. Belo Horizonte: Argumentum, 2009.

The Economist: Gender equality is good for economic growth.

The Economist: The Power of Parity: the world would be a much richer place if more women had paying jobs power.

World Economic Forum: The Global Gender Gap Report 2014.

[1] Um índice elaborado pelo Fórum Econômico Mundial que avalia o nível da desigualdade de gênero para 142 países a partir da avaliação de quatro fatores: participação econômica e oportunidade; realização educacional; saúde e sobrevivência; e empoderamento político.

Publicado em 03 de março de 2016.

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Juliana de Castro Galvão
Doutoranda em Sociologia na Universidade de Brasilia. Trabalha com pesquisas no campo da desigualdade social. Atualmente estuda os determinantes da desigualdade salarial entre homens e mulheres.