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Geopolítica

Você conhece este campo de estudo?

Foto: Pixabay

geopolítica

Quando observamos os mapas, como o mapa mundi, vemos finos traços que separam os territórios, mas nem sempre conseguimos imaginar quantas disputas políticas e guerras ocorreram para traçá-los. São as fronteiras: linhas políticas que não são naturais e imutáveis, pelo contrário, podem ser alteradas a qualquer momento. Territórios podem ser anexados, países podem ser separados e por trás disso se encontram estratégias, objetivos políticos e de poder.

Mas, afinal, o que é geopolítica e o que ela estuda?

Foto: Pixabay

geopolítica

A geopolítica busca analisar a relação entre poder e território. Para melhor entender as origens da geopolítica, precisamos voltar à época das expansões imperialistas no século XIX. Exploradores europeus iam em busca de novas terras com riquezas naturais, porém, a falta de informação e mapeamento dificultava a navegação para as desconhecidas terras. Assim surgiram as sociedades geográficas que, além de mapear, identificavam pontos específicos a serem explorados e contribuíam para os interesses das potências Europeias.

Porém, na segunda parte do século XIX, essas sociedades entraram em declínio, não eram mais tão funcionais e assim surgiram as sociedades acadêmicas que mudaram o foco para o estudo das relações entre território e poder, em que não mais tinham o incentivo do Estado, pois já não serviam a seus interesses.

Geopolítica x Geografia política

O geógrafo alemão Friedrich Ratzel, com seu livro “politische geographie”, de 1897, difundiu o conceito de geografia política, muito embora o termo já existisse, sua obra foi um marco. Para o geógrafo, para se estudar o homem e o espaço era necessário entender as relações políticas que cercavam este processo. Segundo ele, a grande finalidade dos Estados seria garantir a organização territorial e meios de subsistência à população. Sua conclusão é de que a geografia política é a ciência que estuda a luta pelo espaço territorial.

Mesmo o campo de estudo já existindo, a Geopolítica só veio a se chamar Geopolítica em 1905 com o sueco Rudolph Kjéllen, que assim a nomeou em seu artigo “As grandes potências”. Ela estuda a relação entre poder e território, e como a conquista de determinado território pode modificar as relações entre os Estados.

Embora a Geografia política e a geopolítica se relacionem e se sobreponham, são diferentes na abordagem. Enquanto a primeira estuda a relação entre território e o Estado, a segunda foca mais nas teorias e estratégias da obtenção de poder de determinado território e suas implicações.

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Quais os objetos de estudo da Geopolítica?

A Geopolítica estuda como a conquista de um território afeta as relações de poder político e econômico dos Estados (recursos minerais, demografia, etc.).

Poder Naval e Poder Terrestre

Dois grandes autores da geopolítica, o Almirante americano Alfred T. Mahan e o geógrafo inglês Halford Mackinder apresentaram teorias a respeito da supremacia de poderes.

Em sua obra, The Influence of Sea Power Upon History, de 1890, Mahan demonstra sua teoria de uma supremacia Naval em relação ao poder de forças terrestres. Para ele, uma grande nação devia ter um grande poderio naval.

Seus estudos e estratégias foram de grande importância para o governo estadunidense. Foi o primeiro a identificar uma característica singular dos EUA: analisando o mapa mundial, além de ficar entre dois oceanos, seu território também fica de leste a oeste cercado por mares, ou seja, uma invasão por terra não seria possível por esses lados, e também ao norte e ao sul os seus países vizinhos eram pacíficos.

Mas mesmo com essa singularidade, Mahan antecipou situações e visualizou formas de proteger o território dos EUA.Haviam países que preocupavam Mahan em questões de possíveis conflitos futuros e de um ponto de vista geográfico tentou buscar formas de proteger o território norte-americano.

Por temer uma ascensão do império japonês e também por visualizar uma potencial ascensão da China, Mahan acreditava que deveria haver uma base entre os EUA e esses países, as chamadas zonas de influência.Assim orientou a anexação do Havaí, pois, é uma região que está entre os EUA e a Ásia, dessa forma o Havaí seria uma base norte-americana em caso de possíveis ataques vindos do Japão ou China.

Do mesmo ponto de vista estratégico, o Alasca é a região que fica entre a América do Norte e Rússia, por isso foi comprado pelos EUA, por temer que uma possível influência Russa pudesse acontecer no Pacífico e também para se proteger de um possível ataque.

Foto: Otan.

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Já Halford Mackinder, geógrafo inglês e um dos principais nomes da geopolítica apresentou em 1904, em conferência na Real Sociedade Geográfica de Londres, sua teoria de que o controle dos mares já não era mais a chave para o poder das Nações. Para o Geógrafo, o poder terrestre tem mais condições de alcançar a hegemonia.

E também há a teoria da Heartland, que na tradução literal seria “o coração da terra”. Para ele o mundo estava dividido em três zonas: O grande oceano (que seria ¾ do planeta), a Ilha mundial (Europa, Ásia e África) e as ilhas continentais menores (as américas e a Austrália). Sendo assim, a heartland estaria localizada na região da Eurásia (Europa e Ásia), afastada dos mares e com características geográficas que a tornariam uma fortaleza natural cercada de acidentes geográficos como rios, desertos, geleiras, cadeias montanhosas e planaltos. Além disso, um grande potencial para agricultura, pecuária e grandes riquezas naturais. Por estar no centro de um grande continente, teria fácil projeção.

Essas diversas peculiaridades fariam da heartland uma zona vital, logo quem a dominasse teria um poderio central no jogo internacional.

Fascismo e Geopolítica

Foto: Gage Skidmore/Wikimedia Commons.

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À época da Alemanha nazista foi criado o Instituto Geopolítico de Munique, tendo como membro fundador o geógrafo Karl Haushofer, ligado ao partido nazista e importante nome na geopolítica alemã. O Instituto contava com colaboradores que estudavam e pesquisavam apenas sobre o tema.

A geopolitik, como ficou conhecida a forma de se pensar a geopolítica alemã, buscava legitimar a política expansionista da Alemanha Nazista e também conquistar o chamado Lebensraum, que seria o espaço vital, conceito criado por Friedrich Ratzel. Segundo esse pensamento, uma grande nação precisaria de um espaço vital para poder se expandir, essa região seria vasta e teria solo fértil para plantação, e para eles esse espaço ficaria na região do leste Europeu, sob domínio da então União Soviética.

Devido a institucionalização pela Alemanha e também por ter servido estrategicamente aos nazistas, a geopolítica passou a ser vista de forma obscura, chegou até a ser chamada de ciência maldita. Porém, a geopolitik alemã era de natureza ideológica, diferente da geopolítica real.  E embora tenha sido denominada como arma fascista, o pensamento geopolítico não era exclusivo do Estado nazista, as práticas de dominação baseadas no controle territorial serviram e servem tanto Estados autoritários quanto democráticos. Um exemplo disso, os EUA se consolidou como potência mundial acompanhado do pensamento geopolítico. Ela foi muito útil em diversas jogadas no cenário internacional para o país, assim como na defesa de seu território e decisivo na época da guerra fria.

Geopolítica brasileira

Veio com a corrente da Primeira Guerra Mundial, a maioria dos autores da geopolítica brasileira tinham a intenção de mostrar ao governo como transformar o Brasil em potência, para eles o país já dispunha dos recursos naturais para tal feito. São algumas dessas características: o Brasil tem um território extenso; uma população elevada, que poderia significar um maior número de pessoas para o exército do país no caso de uma invasão externa, o país possui abundantemente água doce para abastecimento e salgada para geração de energia e transporte. Ou seja, essas características geográficas tornavam o país autossuficiente em algumas questões.

Houve muitos projetos para a integração do país, diante do tamanho do território era preocupante que a maior parte estivesse desocupado, o interesse então era de ligar o país de norte a sul, de leste a oeste, para se tornar um bloco monolítico. Se este objetivo fosse atingido então o país poderia pensar em uma projeção regional e após isso talvez até em contexto mundial.

Escola Superior de Guerra (ESG)

Escola Superior de Guerra.
Foto: Forças Terrestres / http://www.forte.jor.br/2014/08/20/escola-superior-de-guerra-65-anos-dedicados-ao-pensamento-sobre-defesa-no-brasil/

geopolítica

Após a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, houve reconhecimento por parte dos EUA que chamaram alguns militares brasileiros para estudar na Fort Leavenworth War School, posto e escola militar americana. Ao retornarem ao Brasil, os militares sugeriram a criação da Escola brasileira Superior de Guerra, que foi criada em 1949. A instituição visou a criação de uma doutrina de segurança nacional e também focou no estudo de assuntos geopolíticos. Era necessário que a ESG formasse uma elite intelectual entre militares e civis. Sua função era identificar as demandas da sociedade e transformá-las em projetos, como por exemplo resolver o problema dos vazios demográficos, grandes regiões brasileiras que praticamente não eram povoadas.

General Golbery Couto, um dos militares que estudaram nos EUA e responsável pelo departamento de geopolítica da ESG, formulou uma teoria de integração do país em 3 etapas:

  • 1ª: Integração que ligaria a região nordeste e o Sul ao centro.

(Caso algum país atacasse o Brasil pelo Atlântico, essa integração facilitaria a locomoção de tropas para defesa);

  • 2ª: Povoar a região noroeste do Brasil para evitar invasão demográfica;
  • 3ª: Ocupar a Amazônia (região de grande vazio demográfico), devia se criar meios para que indústrias se instalassem no Norte;

Embora tenham ressaltado as fragilidades do território e sendo militar, os governos da ditadura não colocaram as teorias de Golbery em prática.

Referências

MAGNOLI, Demetrio. O que é Geopolítica.

MELLO, Leonel Itaussu. Quem tem medo da geopolítica? São Paulo: Edusp, 1999

MIYAMOTO, Shiguenoli. Geopolítica e relações internacionais: algumas considerações, IN: CARVALHO, Leonardo Arquimino (org.). Geopolítica e relações internacionais. Curitiba: Juruá Editora, 2002.

TRAVASSOS, Mário. Projeção Continental do Brasil. São Paulo.

Carta Maior – Geopolítica na América do Sul.

Publicado em 13 de setembro de 2017.

Suyani Kim

Estudante de Relações Internacionais na FMU. Interessada em temas de Política, História e Filosofia.