Como a polarização alimenta a desinformação?

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Nunca foi tão difícil saber em que acreditar. Você já teve a sensação de que as pessoas ao seu redor — na sua família, no trabalho ou online — vivem em mundos completamente diferentes, com seus próprios “fatos” e verdades? Esse é um sinal claro de um problema que está afetando a todos nós: a polarização e a desinformação andando de mãos dadas.

Nos últimos anos, esses dois fenômenos cresceram de forma exponencial na sociedade. De um lado, a polarização política parece ter atingido a maioria das democracias contemporâneas, em que lados políticos opostos tem se radicalizado e o diálogo tem sido cada vez mais difícil. Em conjunto a isso, a circulação de notícias falsas, mentiras e teorias da conspiração também tem aumentado.

O que acontece é que uma coisa alimenta a outra: quanto mais polarizados ficamos, mais acreditamos em qualquer informação que ataque o “outro lado”. E é sobre isso que vamos ver melhor neste terceiro texto da trilha “Nome da trilha”, que irá explicar como esses fenômenos se conectam e representam um perigo para a democracia.

O que é polarização?

A polarização, em seu sentido mais amplo, é um fenômeno de divisão de dois pólos opostos. Na Física, por exemplo, nos estudos sobre eletromagnetismo, a polarização é uma propriedade das ondas eletromagnéticas, quando elas possuem uma única direção de vibração.

Mas aqui estamos tratando da polarização sócio política que ocorre na sociedade e existe há muito tempo na nossa história. Assim, no contexto sociopolítico, a polarização refere-se ao processo de divisão da sociedade em blocos ideológicos opostos, com visões de mundo e opiniões diferentes.

Como consequência, o diálogo se torna difícil e aquele que não pertence ao seu grupo ideológico é visto como inimigo, gerando intolerância e dificultando consensos. É importante destacar que a polarização não se trata apenas de divergência de opiniões, um elemento saudável em qualquer democracia, mas de uma divisão profunda.

Nessa divisão, o “outro lado” é visto não apenas como equivocado ou diferente, mas como uma ameaça moral, existencial ou à identidade do grupo. Ou seja, é visto como um inimigo. As pessoas passam a desgostar, temer e desconfiar daqueles identificados com o grupo oposto.

A polarização na promoção da desinformação

A polarização e a desinformação andam de mãos dadas e formam um ciclo que se retroalimenta. A polarização cria as condições psicológicas e sociais adequadas para a desinformação florescer, e a desinformação, por sua vez, aprofunda a polarização.

Conforme aponta o professor de Direito e Psicologia da Universidade de Yale, Dan M. Kahan, em seu artigo “Misconceptions, Misinformation, and the Logic of Identity-Protective Cognition”, indivíduos altamente polarizados e identificados com um grupo tendem a processar informações como advogados em defesa da sua ideologia. 

Com isso, a avaliação de um fato não começa com uma pergunta crítica do tipo “Isso é verdade?”, mas com “Isso beneficia meu grupo ou prejudica o grupo oposto?”. Se uma informação se alinha com as crenças pré-existentes e a identidade do grupo, então a sua aceitação será mais fácil, mesmo que haja evidências que provem o contrário.

Kahan chama esse comportamento de “cognição protetora da identidade”, que representa a tendência em acreditar ou desacreditar seletivamente em informações ou evidências que protegem a identidade do grupo no qual está inserido. 

Nesse sentido, quando a polarização é alta, a veracidade é colocada em segundo plano, não tendo mais importância, alimentando a desinformação. Ou seja, mesmo que uma  informação seja falsa, se ela estiver alinhada com a ideologia do grupo ou for negativa para o grupo oposto, há uma maior chance das pessoas acreditarem e compartilharem ela.

Esse ciclo se retroalimenta, em que a desinformação ganha mais força à medida que a polarização também é fortalecida, e vice-versa. Isso porque a verdade perde a sua importância, e conteúdos que reforçam determinadas crenças, ideologias ou visões de mundo passam a ter maior relevância, mesmo que distorçam a realidade.

Como as redes sociais intensificam o conflito

Alguns fatores podem ser vistos como responsáveis pelo crescimento da polarização no mundo nos últimos anos. Um deles são as plataformas de redes sociais. Isso porque o modelo de negócio predominante nessas plataformas baseia-se na captura da atenção do usuário.

Assim, conteúdo que gera fortes reações emocionais – como indignação, medo ou euforia – obtém mais cliques, comentários, compartilhamentos e tempo de tela. Ocorre que o quanto uma mensagem vai se espalhar nas redes depende do quanto as pessoas interagem com ela, ou seja, de quantos likes, comentários e compartilhamentos ela recebe.

Com isso, os conteúdos que geraram maiores emoções e tiveram maiores interações vão ser impulsionados pelo algoritmo das plataformas. E toda ação sua na plataforma deixa uma marca, como uma pegada digital, que mostra para o algoritmo quem você é, o que gosta, o que acredita e até sua visão política.

Dessa forma, se você interagiu e reagiu a conteúdos sobre um assunto “X”, mais conteúdos sobre esse assunto irão aparecer para você. Isso se torna um terreno fértil para a polarização e a desinformação, pois o usuário será mais e mais impactado por publicações que reforçam as suas crenças e os seus valores, em um ciclo vicioso.

Esse cenário tende a reforçar extremismos, o que dificulta o diálogo e aumenta a hostilidade, pois a intolerância a opiniões divergentes acaba aumentando e as chamadas “bolhas” ou “câmaras de eco” são formadas.

IA, algoritmos e a formação de bolhas

A recomendação de conteúdos em plataformas digitais ocorre por meio dos algoritmos, que sistematizam as publicações e os assuntos que o usuário teve maior identificação e interação. 

Esses algoritmos identificam padrões nos cliques e no tempo de visualização do usuário e, para maximizar o engajamento, tendem a recomendar conteúdo cada vez mais alinhado às visões do usuário. 

Ao longo do tempo, isso cria “bolhas” ou “câmaras de eco” que reforçam o viés de confirmação ao mostrar conteúdo similar às preferências do usuário, isolando-o de visões opostas, e priorizando engajamento. Ou seja, o usuário passa a estar exposto apenas a informações alinhadas às suas crenças, sem exposição a conteúdos divergentes, aumentando a polarização.

Ao mesmo tempo, esse usuário passa a ter maior contato com um grupo de pessoas com visões e ideias semelhantes às suas, levando a visões extremas. E a crença em conteúdos radicais e polarizantes, bem como em desinformação, tem aumentado por conta das ferramentas de Inteligência Artificial (IA).

O surgimento de ferramentas de IA generativa adicionou uma nova camada de complexidade. Agora, é possível criar escala conteúdo textual, visual e audiovisual (os chamados deepfake) hiper-realista e sob medida para reforçar qualquer narrativa, seja ela verdadeira ou falsa. Isso dificulta a verificação de fatos e aumenta as chances dos usuários acreditarem no conteúdo, principalmente se esse conteúdo está alinhado com sua ideologia.

Estratégias para reduzir a polarização e a desinformação

A polarização e a desinformação são prejudiciais à democracia pois podem corroer a confiança pública nas instituições, distorcer o debate público e impedir o diálogo necessário para a resolução de problemas sociais.

Nesse sentido, romper o ciclo entre polarização e desinformação é um dos desafios mais urgentes das sociedades contemporâneas. Não há soluções simples, mas um conjunto de estratégias que envolvam todos os setores da sociedade.

Uma das estratégias que podem ser utilizadas para combater a polarização e a desinformação é a Comunicação Não Violenta. Quando uma pessoa se comunica de forma agressiva, isso piora a situação. Em vez de prestar atenção no que está sendo dito, quem recebe a mensagem foca no ataque e na raiva que sentiu. Isso acaba reforçando a desinformação, aumentando a divisão entre as pessoas e fazendo com que elas se afastem ainda mais.

Por outro lado, usar uma Comunicação Não-Violenta nos ajuda a entender as necessidades e os sentimentos dos outros, criando pontes. Uma comunicação que une, em vez de separar, pode contribuir para um espaço público mais pacífico, respeitoso, saudável, democrático e livre de notícias falsas.

Além disso, ações lúdicas também podem ser úteis para combater a desinformação, buscando conscientizar as pessoas por meio da diversão. Por isso, a Politize!, em colaboração com a CIVICUS World Alliance, por meio do programa Digital Action Lab, criou o jogo “IAgora?”.

O jogo “IAgora?” como ferramenta de combate a desinformação

Em um cenário onde a desinformação se tornou uma ferramenta política complexa, compreender seus mecanismos é o primeiro passo para combatê-la. É exatamente essa compreensão que o jogo “IAgora?” busca promover de forma acessível e envolvente.

O “IAgora?” é um jogo online e acessível e foi desenvolvido com o objetivo de abordar, de forma didática, a desinformação gerada por Inteligência Artificial e suas consequências políticas e sociais durante o período eleitoral. 

A ideia é que os jogadores aprendam a identificar conteúdos falsos e descubram como combatê-las de maneira consciente na vida real ao aprender as técnicas de desinformação do jogo.

Através de um sistema de caminhos e consequências, a experiência lúdica revela os desafios éticos e os danos reais causados pela desinformação gerada pela Inteligência Artificial. Mais do que um simples jogo, “IAgora?” é um simulador de consequências que busca equipar os cidadãos com o discernimento necessário para combater a desinformação no mundo real.

Acesse, jogue e compartilhe: https://iagora.org/

Referências

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Conteúdo escrito por:

Eduardo de Rê

Eduardo de Rê, de 28 anos, é licenciado e mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com pesquisas nas áreas de política internacional e segurança internacional, sendo membro do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Política Internacional Contemporânea (GEPPIC) desde 2018. Sua monografia foi premiada ao final de sua graduação, conquistando o segundo lugar no Prêmio Santos Dumont de 2021, concedido pelo Ministério da Defesa e pelo Ministério da Educação do Brasil. Durante dois anos, atuou como redator e coordenador de conteúdos na Civicus, uma empresa parceira da Politize!, onde foi responsável pela criação e desenvolvimento de projetos com temáticas sociais, cidadania e direitos humanos. Atualmente, é assessor internacional na Politize!
, Eduardo. Como a polarização alimenta a desinformação?. Politize!, 16 de fevereiro, 2026
Disponível em: https://www.politize.com.br/polarizacao-alimenta-a-desinformacao/.
Acesso em: 16 de fev, 2026.

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