Copa do Mundo e Jogos Olímpicos: valeu a pena?

Entre as muitas reclamações e reivindicações feitas em manifestações populares nos últimos anos no Brasil, uma das mais comuns foi em relação aos megaeventos esportivos que o país se comprometeu a realizar: a Copa do Mundo da FIFA em 2014 e os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, em 2016. A crítica principal era que os investimentos feitos nesses eventos deveriam ser aplicados na educação, na saúde ou em outros serviços básicos de que a população carece. “Queremos hospitais padrão FIFA”, diziam muitos cartazes nas manifestações de junho de 2013 que tomaram diversas cidades do país.

Com a Copa já realizada e as Olimpíadas a caminho, o Politize! traz para você um balanço geral desses eventos e convida você a avaliar: valeu a pena se comprometer com eles?

1) Copa do Mundo de 2014

Gastos: R$ 27,8 bilhões (estádios: R$ 8,3 bilhões; mobilidade: R$ 8,7 bilhões; aeroportos: R$ 6,3 bilhões; obras nos entornos dos estádios: R$ 1 bilhão)

Quem pagou: a iniciativa privada arcou com apenas 17% dos gastos com estádios; o resto ficou a cargo do governo.

Balanço geral: o Brasil foi escolhido país-sede da Copa em 2007. As críticas mais contundentes vieram apenas em 2013, a um ano dos jogos, quando virou um dos maiores alvos das manifestações de junho. Pode-se dizer que dos dois eventos, a Copa foi o mais criticado pela população.

As críticas foram mitigadas pelo fato de que a Copa, em si, foi considerada um grande sucesso, tanto na avaliação de brasileiros, quanto de turistas, jogadores e técnicos que participaram da competição. Os jogos foram espetaculares Esse ciclo de críticas no período que antecede os megaeventos esportivos, seguido de elogios durante e após a sua realização não é exclusividade do Brasil: já foi observado por pesquisadores em vários países, de tão comuns que são.  

De todo modo, as críticas à Copa não cessaram após sua realização. Alguns indícios de que houve má gestão dos recursos são: atrasos de várias obras, muitas das quais nunca chegaram a ser concluídas; estádios que saíram muito mais caros que o previsto; e a criação de “elefantes brancos”, estádios com grande capacidade e que ficaram subutilizados após a realização dos jogos, por falta de times de grande expressão ou tradição no futebol nacional nas cidades em que se localizam. Esse parece ser o caso dos estádios das cidades de Manaus, Cuiabá, Brasília e Natal. Matéria da BBC apurou que o prejuízo causado por três desses estádios já chega à marca de R$ 10 milhões (não se sabe o prejuízo exato da arena de Natal). Por outro lado, a FIFA saiu do Mundial com um lucro inédito de R$ 8,3 bilhões.

2) Olimpíadas do Rio 2016

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Gastos: Segundo o Portal da Transparência, as Olimpíadas têm orçamento de R$ 38,7 bilhões. Esse valor, porém, tem sido contestado e pode ser maior.

Quem paga: a divisão dos gastos é bem clara. São três grupos: 1) o orçamento do comitê organizador, instituição privada que desembolsará 7,4 bilhões de reais para custear alimentação, hospedagem, transporte, material esportivo e outras necessidades dos atletas; 2) as verbas da matriz de responsabilidades, que cuida, entre outras coisas, das instalações olímpicas e outras obras feitas especialmente para os Jogos. Essa parte desembolsará 6,67 bilhões de reais, sendo que pelo menos 4,2 bilhões vêm da iniciativa privada; e 3) o orçamento plano de políticas públicas, também chamado de legado, que reúne 27 projetos com baixa relação com o evento, mas que se beneficiam dele; ao todo, esses projetos custam R$ 24,6 bilhões, sendo que 10 bilhões ficarão a cargo da iniciativa privada. No total, 57% da conta será paga pela iniciativa privada, de acordo com a organização dos Jogos. Todos esses dados são apresentados nesse vídeo.

Balanço geral: o Rio de Janeiro foi escolhido em 2009 como cidade-sede para os jogos de 2016. Aquele era um momento de grande euforia com a economia brasileira, que continuava a crescer apesar da crise econômica mundial. O anúncio do escolha para os jogos apenas aumentou o sentimento de euforia.

Os Jogos também foram alvo de críticas nas manifestações de 2013, mas em menor escala que a Copa, que estava mais próxima de acontecer. Em 2014, porém, o Comitê Olímpico considerou os preparativos para os Jogos do Rio os piores de todos os tempos. Houve boatos até de um plano B.

Mas agora, a menos de um ano dos Jogos, as avaliações do andamento das obras são positivas, tanto por parte do Comitê Olímpico quanto pela Comissão do Esporte da Câmara dos Deputados. Também não há o mesmo nível de revolta popular contra os Jogos do que houve contra a Copa, o que é intrigante. Algumas preocupações que continuam são o impacto que os gastos com os Jogos terão no orçamento público, neste momento em que o país vive um ajuste fiscal, e a poluição da Baía da Guanabara, questão que não deve ser resolvida a tempo dos jogos, ameaçando a saúde de atletas de esportes aquáticos.

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3) Legado dos eventos

Alega-se que uma cidade que sedia uma Olimpíada ou uma Copa do Mundo se beneficia de uma série de investimentos, incluindo obras públicas nas áreas de mobilidade, infraestrutura, estrutura esportiva e preservação do meio ambiente.

Outra herança importante dos megaeventos seria a consolidação de uma marca global para a cidade-sede ou país-sede. O país que recebe grandes eventos esportivos garante, mesmo que por um tempo limitado, uma grande atenção internacional, atraindo um fluxo maior de turistas e tornando-se mais conhecido no exterior.

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4) O lado negativo

Críticos à Olimpíada e à Copa consideram que os megaeventos esportivos deixam mais problemas do que soluções. As dívidas contraídas para a execução das obras desses eventos podem levar décadas para serem pagas, segundo especialistas. O problema foi observado em cidades que sediaram os Jogos, como Atenas e Montreal. Além disso, é muito comum encontrar obras como estádios, estações de trem e equipamentos esportivos abandonados em diversas cidades que receberam algum desses eventos.

Mesmo o que é apontado como positivo, como o aumento do turismo, é desmentido por críticos, que observam que os fluxos de turistas de megaeventos esportivos não implicam em um aumento do número de turistas em longo prazo.

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5) Valeu a pena?

Fazer a Copa e as Olimpíadas teve, evidentemente, seus prós e contras. Deixamos para que você avalie: valeu a pena o Brasil ter se comprometido com a realização desses eventos? Você pode contribuir para esse debate comentando abaixo.

Fonte: Portal da Transparência

Publicado em 13 de novembro de 2015.

Bruno André Blume

Bacharel em Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e editor de conteúdo do portal Politize!.