Chegar à sociedade de um escritório de advocacia é o desejo de muitos(a) profissionais do Direito. Mas qual é o caminho para conquistar essa posição? E mais: quais são os requisitos, responsabilidades e desafios que essa transição envolve?
O processo para se tornar sócio(a) varia conforme o porte e a cultura do escritório e pode levar de 5 a 10 anos ou mais de dedicação intensa. Além da competência e excelência jurídicas, são avaliados critérios como capacidade de gerar receita, liderança de equipes, networking, alinhamento com os valores do escritório e potencial para atrair e reter clientes.
Neste texto, você vai entender tudo sobre como se tornar sócio(a) de um escritório de advocacia, desde os primeiros passos até a consolidação da sociedade.
O Guia das Carreiras Jurídicas, uma iniciativa do Instituto Mattos Filho em parceria com a Civicus e a Politize!, busca democratizar o conhecimento jurídico e orientar quem deseja explorar as diversas áreas do Direito, construindo uma carreira com propósito e impacto.
O que significa ser sócio(a) de um escritório de advocacia?
Ser sócio(a) de um escritório de advocacia significa deixar de prestar serviços jurídicos para alguma instituição e passar a empreender em seu próprio escritório. Ou seja, o(a) sócio(a) é co-proprietário(a) do negócio, o que implica passar de uma posição de executor(a) para uma de estrategista.
Essa transição envolve a responsabilidade direta pela saúde financeira da empresa, a gestão de pessoas e a prospecção de clientes, no qual o(a) profissional deixa de receber apenas por horas trabalhadas e passa a administrar o lucro e se envolver com o crescimento sustentável da marca.
Diferença entre advogado(a) associado(a) e sócio(a)
O(a)advogado(a) associado desempenha suas funções por meioda prestação de serviços para um escritório de advocacia, podendo ter vínculo empregatício (CLT) ou ser contratado(a) como pessoa jurídica (PJ).
Já o(a) advogado(a) sócio(a) é o(a) um(a) dos(as) “donos(as)” do escritório, ou seja, tem a possibilidade de participar de forma mais ativa nas decisões sobre a gestão do escritório, compartilhando riscos, lucros e rotas administrativas.
Tipos de sociedade em escritórios de advocacia
Existem diferentes tipos de sócios(as) em escritórios de advocacia:
- Sócio(a) fundador(a): participa da idealização do escritório desde o início e geralmente tem maior participação nas decisões e nos lucros;
- Sócio(a) equity (ou patrimonial): tem participação no capital do escritório e recebe parte dos lucros de forma proporcional;
- Sócio(a) non-equity: tem o título de sócio(a), mas não tem participação no capital. Seria como um(a) associado(a) sênior, com benefícios extras;
- Sócio(a) de serviço: contribui principalmente com conhecimento técnico e carteira de clientes, sem necessariamente investir capital.
Requisitos para se tornar sócio(a) de escritório de advocacia
A jornada para chegar à sociedade de um escritório varia muito, mas é possível levantar alguns pontos que podem favorecer este processo.
O art. 15 do Estatuto da Advocacia (Lei nº 8.906/1994) autoriza a formação de sociedades entre advogados(as). Ele estabelece que os(as) advogados(as) podem se reunir em sociedade civil de prestação de serviço jurídico, assegurando a independência profissional e a liberdade de organização da atividade advocatícia.
Além disso, os artigos 16 e 17 do Estatuto da Advocacia estabelecem requisitos específicos para a constituição e funcionamento dessas sociedades, definindo regras sobre denominação, impedimentos, incompatibilidades e outras características essenciais das sociedades advocatícias, além de registro no Conselho Seccional da OAB e responsabilidade dos(as) sócios(as) por eventuais danos causados aos(às) clientes por ação ou omissão no exercício profissional.
Tempo de experiência necessário
Na maioria dos escritórios de médio a grande porte, pode-se levar alguns anos até chegar à sociedade, pois é possível que os(as) sócios(as) atuais já estejam consolidados(as) nesta posição e tenham maior rigor ao selecionar as parcerias.
Em escritórios menores, esse tempo pode ser reduzido, mas, em ambos os casos, é importante demonstrar maturidade profissional e resultados consistentes que demonstrem que você é o(a) profissional adequado à posição.
Habilidades técnicas e jurídicas
Para tomar decisões estratégicas, que irão reger os caminhos do escritório, é necessário ter uma bagagem de conhecimentos e habilidades bem estruturada. Isso significa:
- Domínio profundo de pelo menos uma área do direito;
- Capacidade de resolver casos complexos; e
- Atualização constante sobre mudanças legislativas e jurisprudência.
Capacidade de captar e lidar com clientes
Um dos critérios mais valorizados na posição de sócio(a) de um escritório de advocacia é a capacidade de trazer novos(as) clientes. Os escritórios buscam sócios(as) que não apenas executam o trabalho técnico, mas que também fazem o negócio crescer. Sendo assim, construir uma carteira de clientes própria demonstra que você tem credibilidade no mercado e pode sustentar sua posição na sociedade.
Mas é importante lembrar que ser um(a) excelente técnico(a) não é suficiente! É importante saber lidar com as expectativas, frustrações e emoções dos(as) clientes. Como explica Marcelo Mansur, sócio do Mattos Filho, em entrevista para o Guia das Carreiras Jurídicas:
“Você tem que lidar com as expectativas e com as frustrações do cliente. Você tem que entender que, na sua frente, tem um ser humano, tem um juiz, tem um promotor, tem um cliente, que está frustrado, que está chateado.”
O Direito envolve pessoas, não apenas códigos e jurisprudência. Desenvolver inteligência emocional e habilidades interpessoais é tão importante quanto dominar a técnica jurídica.
Habilidades de gestão e liderança
O(A) sócio(a) participará de decisões estratégicas sobre:
- Contratação e desligamento de profissionais;
- Investimentos em tecnologia e infraestrutura;
- Expansão para novas áreas de atuação; e
- Definição de honorários e políticas comerciais.
Marcelo Mansur relata:
“Você vai aprendendo que o Direito não é tudo, né? Antes de entrar na faculdade, eu gostaria que tivessem me dito que eu ia ter que lidar com pessoas. Lidar com pessoas é algo que ninguém nunca me falou! Gerir pessoas, gerir times, equipes, motivar, é um papel fundamental que ninguém nunca me disse que eu ia ter que fazer.”
Essa é uma das competências pouco destacadas por quem almeja a sociedade, mas que se torna essencial no dia a dia de um(a) sócio(a).
Passo a passo para chegar à sociedade
A trajetória até a sociedade não é linear. Como bem coloca Marcelo Mansur:
“Você pode até ter alguma coisa planejada, mas você tem que saber que as oportunidades vão surgir e você vai ter que desviar daquilo que você planejou, o que nem sempre é ruim.”
Mantenha um plano, mas esteja aberto(a) para ajustá-lo conforme as oportunidades surgem.
Aqui estão alguns dos principais passos dessa jornada:
- Construa uma reputação sólida
Desde o início da sua carreira, trabalhe para ser conhecido(a) pela qualidade do seu trabalho. Cumpra prazos, seja ético(a), produza peças bem fundamentadas e conquiste a confiança dos(as) sócios(as).
- Desenvolva sua rede de contatos (networking)
Participe de eventos jurídicos, palestras, congressos e associações de classe. Conecte-se com outros(as) advogados(as), empresários(as) e potenciais clientes. O networking é essencial para desenvolver sua carteira e se tornar conhecido(a) no mercado.
- Especialize-se
Escolha uma ou duas áreas do Direito para se aprofundar. Escreva artigos, participe de debates, ministre palestras e empenhe-se ao longo da faculdade de Direito, aprofundando-se nas matérias de maior interesse. Quanto mais você for reconhecido(a) como especialista, maior pode ser a valorização do escritório.
Mas atenção: especializar-se não significa fechar-se para outras áreas. Como explica Mansur:
“Mesmo sendo especialista, você não pode fechar a cabeça para as outras coisas. Você pode não saber resolver o problema, mas você tem que saber identificar que existe um problema.”
O segredo é desenvolver-se tecnicamente em sua área, mas manter amplitude suficiente para identificar questões que exigem outros conhecimentos, atentando-se sempre para quando pedir ajuda.
Na dúvida sobre qual área do Direito gostaria de se especializar? Leia a publicação Áreas do Direito: saiba quais são e escolha a sua!

- Demonstre interesse pelo negócio
Mostre interesse pelos aspectos empresariais e administrativos do escritório. Sugira melhorias, participe de comitês, entenda a rentabilidade das áreas. Sócios(as) pensam como empresários(as), não apenas como técnicos(as).
Quando sentir que está preparado(a), converse abertamente com os(as) sócios(as) sobre suas ambições. Pergunte sobre os critérios específicos do escritório e, sempre que possível, peça feedback sobre seu desempenho e o que deve melhorar.
- Cultive boas relações e ganhe visibilidade no escritório
O networking não acontece apenas fora do escritório, viu? Escritórios de advocacia também são ambientes movidos a relacionamentos. Para crescer, não basta ser excelente na técnica, captar clientes ou gerenciar bem a equipe, é preciso que as pessoas saibam disso.
Especialmente em grandes bancas, onde virar sócio depende do voto da maioria, sua reputação precisa ir além do seu grupo direto. Não adianta ser reconhecido(a) apenas pelos(as) sócios(as) com quem você trabalha todo dia; você precisa circular e mostrar seu valor para outros líderes do escritório também.
Desafios de se tornar sócio(a)
- Investimento financeiro necessário
Em muitos escritórios, tornar-se sócio(a) equity exige um aporte de capital. Esse valor pode variar de dezenas a centenas de milhares de reais, dependendo do tamanho e prestígio da banca. Por isso, é necessário planejar-se financeiramente com antecedência.
- Mudança de responsabilidades
Como sócio(a), você assumirá responsabilidades que vão além do trabalho técnico: gestão de pessoas, decisões financeiras, planejamento estratégico e até questões administrativas. Esse escopo é diferente do de um(a) advogado(a) associado(a).
Essa mudança também envolve assumir riscos calculados. Como aconselha Marcelo Mansur:
“Você tem que assumir risco e saber mensurar até onde vale a pena assumir esse risco. Às vezes, surge uma oportunidade! Você pode aceitar esse emprego, aceitar essa posição, fazer um teste. Sempre sabendo que você pode recuar e retomar.”
A capacidade de avaliar riscos e tomar decisões estratégicas é fundamental para quem deseja chegar à sociedade.
- Pressão por resultados
Ao tornar-se sócio(a), a cobrança pode aumentar significativamente. Você precisa gerar receita, manter clientes satisfeitos, desenvolver novos negócios e ainda entregar trabalho técnico de qualidade. O equilíbrio entre essas demandas pode ser desafiador.
- Adaptação à cultura do escritório
Cada escritório tem sua cultura e valores. É fundamental que você se alinhe com a forma de trabalhar e com os objetivos estratégicos da banca. Incompatibilidades culturais podem inviabilizar a sociedade por tornar a rotina de trabalho e de tomada de decisões difíceis de administrar coletivamente.
Alternativas à sociedade tradicional
Se o caminho para a sociedade parecer muito longo ou se você não se identificar com a cultura do escritório em que trabalha, é possível pensar em alternativas, como:
- Abrir seu próprio escritório: embora ofereça autonomia, exige capital, clientes e conhecimento de gestão;
- Ter uma sociedade com colegas de profissão: unir-se a outros(as) advogados(as) com perfis complementares pode ser uma excelente alternativa para compartilhar os custos e, também, as responsabilidades.
Descomplicando a sociedade em escritório de advocacia em 3 perguntas
- Quanto tempo leva para se tornar sócio(a)?
Em média, entre 8 e 12 anos em escritórios tradicionais. Esse tempo pode ser menor em bancas menores (5 a 7 anos) ou maior (10 a 14 anos) em escritórios muito competitivos.
- Precisa ter OAB para assumir a sociedade de um escritório?
Sim. Para ser sócio(a) de um escritório de advocacia, é necessário ter inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Além disso, é necessário que o escritório (empresa) esteja também regularizado pela OAB, ou seja, precisa ser formalmente registrada no Conselho Seccional da OAB do estado em que atua.
- Posso ser sócio(a) sem ter clientes próprios?
Depende do tipo de sociedade. Para sócio(a) non-equity, é comum não ter clientes próprios. Para sócio(a) equity, geralmente é necessário demonstrar capacidade de gerar receita, seja trazendo ou retendo clientes ou sendo extremamente técnico em área estratégica para o negócio.
Considerações finais
Tornar-se sócio(a) de um escritório de advocacia é uma conquista que exige planejamento, dedicação e desenvolvimento constante. Não existe fórmula mágica, mas sim um conjunto de competências técnicas, comerciais e de gestão que precisam ser desenvolvidas ao longo dos anos.
Se esse é seu objetivo, comece hoje a construir as bases: invista em conhecimento, desenvolva sua rede de contatos, traga resultados para o escritório e demonstre visão de negócios. O caminho é longo, mas cada passo conta!
Lembre-se: a sociedade não é o único caminho para o sucesso na advocacia. Avalie suas prioridades, seus valores e o estilo de vida que deseja. O mais importante é construir uma carreira sólida, ética e que traga realização profissional e pessoal.
Se você tem interesse em explorar um pouco mais sobre a advocacia no setor privado, acesse outros materiais do nossoGuia de Carreiras Jurídicas! Aqui, você encontrará informações sobre jornadas diversas do Direito, nos setores público ou privado, com as quais pode se identificar.

Marcelo Mansur Haddad é sócio do Mattos Filho, especializado em seguros, resseguros e previdência, com atuação em temas regulatórios, contratos e M&A no setor. Também é professor da FGV e autor de publicações em direito securitário.
Autora:
Beatriz Ramos
Fontes:
