Sabemos que a universalização do ensino e a alfabetização estão entre as metas de políticas educacionais no ensino brasileiro, entretanto, vocês sabiam que existe uma diferença importante entre “Letramento” e “alfabetização”? Neste artigo, iremos explicar sobre suas divergências e como a enxergamos no cenário atual. 

Qual a diferença entre letramento e alfabetização?

De acordo com a professora Ângela B. Kleiman, o letramento é “um conjunto de práticas sociais que usam a escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos, para objetivos específicos” (KLEIMAN, 1995, p.19). Por outro lado, a alfabetização é o domínio da escrita e da leitura. Por isso, não há ninguém, que vive em sociedade, “iletrado”, ao passo que existem “analfabetos”. 

No ensino da gramática, estamos habituados a aprender regras, como se a língua fosse algo a parte da nossa realidade, por exemplo: quem nunca ouviu “oração subordinada adjetiva” e ficou pensando “o que é isso?”. A gramática tradicional busca separar o conteúdo das nossas práticas sociais. Por isso, o conceito de letramento é mais “amplo”, buscando a emancipação política e a concepção de multiletramentos de forma que seja possível alcançar a igualdade e os letramentos marginalizados, ou seja, ultrapassar a gramática tradicional para se relacionar com a nossa vivência.

Qual a importância do letramento?

Vamos pensar assim: se a universalização do ensino zerasse a taxa de analfabetos, haveria realmente uma mudança na qualidade de vida e na inclusão social?

Isso significa que a alfabetização não garante necessariamente desenvolvimento! Assim, reconhecer as práticas sociais e os multiletramentos é o ato de sensibilizar o estudo da língua, porque não é apenas nas salas de aulas que temos interações e utilizamos a língua portuguesa.

É dessa forma, então, que podemos pensar no letramento através de mídias sociais, de livros, de memes, de conversas do WhatsApp ou até mesmo bilhetes… Isso porque a interação está entre todas essas modalidades da língua e linguagem, que se modificam também através dos suportes da escrita e que moldam completamente os sentidos dos textos.  

Nesse sentido, Marcelo El Khouri Buzato, professor universitário de Linguística Aplicada na Universidade de São Paulo, relata que […]

A consequente emergência da escola como principal agência de letramento das populações redundaram numa concepção etnocêntrica e disciplinar de letramento, a qual, por sua vez, fez, e continua a fazer, do letramento muito mais um mecanismo de homogeneização, exclusão e submissão do que de inclusão, expressão da diferença e transformação social.” 

Isso significa que, para além da universalização e democratização do ensino nas salas de aula, é preciso refletir sobre as demais instituições que também fazem parte das nossas práticas de ensino, como: família, igreja, teatro, entre outros. Afinal, como coloca Bakhtin, todos os gêneros que fazem parte do nosso cotidiano, por serem parte de estruturas sociais, não são neutros, são ideológicos. Vale destacar aqui que ideologia, nessa perspectiva, é a consciência política que determina os motivos pelos quais utilizamos um gênero ao invés do outro – por exemplo, falamos de uma maneira quando estamos com um amigo e agimos de outra maneira quando estamos em uma reunião de trabalho.

Mas como isso tudo se aplica na prática? Em Portugal, na Escola da Ponte, há 40 anos os alunos vivenciam a horizontalização do ensino. Isso significa que os alunos têm a oportunidade de serem sujeitos ativos no seu próprio processo de aprendizagem. Assim, os discentes podem escolher como eles querem ser avaliados – pode ser uma conversa, uma apresentação, um projeto inovador de determinado assunto… – e, no final, há uma roda interativa sobre pontos negativos e positivos de todas as conversas. 

Outro exemplo é a Finlândia, referência de ensino no mundo todo! No país, a educação é valorizada desde o ensino primário. Os testes padronizados não são obrigatórios lá, o que significa que a educação nacional não se prende a sistemas artificiais baseados em uma grade curricular específica e limitada. O sistema de classificação é de responsabilidade do professor e quem avalia é o próprio Ministério da Educação, considerando a faixa escolar e os diversos grupos sociais. 

E como esse debate pode ser aplicado no Brasil?

Vale destacar que na concepção freireana, no Brasil, temos a educação bancária como fonte de aprendizado, o que significa dizer que o detentor do conhecimento político é a elite dominadora. Assim, apesar de conhecermos o letramento como ponte fundamental para a educação, para o autor, o saber está ainda nas mãos de apenas uma parte da população.

Dessa maneira, Freire propõe o método educacional que se baseia no diálogo com os educadores e educandos, contendo 4 fases:

  1. Investigação da demanda temática de interesse da comunidade de educandos;
  2. Escolha das temáticas importantes que conversem com as necessidades da comunidade;
  3. O desenvolvimento aprimorado de propostas temáticas para delimitar as propostas didáticas em sala de aula;
  4. Redução dos temas para melhoria do diálogo entre as unidades de aprendizagem. 

Nesse contexto, ainda, Freire menciona a Educação libertária no diálogo com as comunidades para um acesso igualitário para a educação, ou seja, ele reconhece os multiletramentos como uma forma de impulsionar a emancipação política.

“É na realidade mediatizadora, na consciência que dela tenhamos, educadores e povo, que iremos buscar o conteúdo programático da educação.” (FREIRE, 1986)”.

Assim, experienciaríamos os educandos atuando na escolha dos conteúdos que viriam a aprender em conjunto com os políticos e os educadores! E não apenas como escolhas individuais, mas em uma perspectiva coletiva, de acordo com a realidade social, histórica e cultural e das necessidades de cada população.

Nesse sentido, o debate sobre os multiletramentos, com o princípio de reconhecer os ditos marginalizados, busca auxiliar a construção da educação popular. Como argumenta Kleimann, “Os Estudos do Letramento defendem uma concepção pluralista e multicultural […] permitem focalizar atividades situadas, locais, nas quais são construídos contextos sociais em que há distribuição do poder e nos quais podem ser subvertidos (KLEIMAN, 2008, p. 490).

Por fim, ao pensarmos nos estudantes como fonte ativa na produção de aprendizados, o multiletramento pode ser uma alternativa para refletirmos sobre a metodologia atualmente utilizada nas escolas brasileiras. Afinal, como expôs Paulo Freire,  

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” 

REFERÊNCIAS.

BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. Paulo Bezerra (Organização, Tradução, Posfácio e Notas); Notas da edição russa: Seguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2016. 164p. 

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Editora Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1986.

KLEIMAN, Angela B. Modelos de letramento e as práticas de alfabetização na escola”. In: KLEIMAN, Angela B. (Org.). Os significados do letramento. Campinas, S.P.: Mercado de Letras, 1995. 294 p. p. 15-61

SANTOS, Marcelo Sousa. A oferta do letramento e a garantia de futuros sociais: análise das políticas de letramento da UNESCO e de suas ideologias linguísticas. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro RJ. Brasil, 2019. 

OLIVEIRA, Daniela de Fátima de; BARIN, Nilsa Reichet. VARIAÇÃO LINGUÍSTICA NO GÊNERO BILHETE E O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA

OLIVEIRA, M. B. F.; SZUNDY, P. T.C. (2014). Práticas de multiletramentos na escola: por uma educação responsiva à contemporaneidade. Bakhtiniana, São Paulo, 9 (2), ago./dez. pp. 184-205.

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