Os minerais estratégicos, em especial os chamados “elementos de terras raras”, estão no centro de disputas econômicas e políticas atualmente.
Esses recursos naturais são importantes porque são usados em dois setores com alta demanda: a indústria de tecnologia e a da transição energética.
O Brasil é um ator relevante no cenário global de minerais estratégicos. Temos a segunda maior reserva mundial de terras raras e depósitos de vários outros minerais.
Então, o que são terras raras e minérios estratégicos e como o Brasil se encaixa no mercado mundial aquecido? É o que vamos ver neste artigo.
- O que são minerais estratégicos?
- Minerais considerados estratégicos por gerarem grande volume de importações
- Minerais considerados estratégicos por serem fundamentais para o avanço tecnológico
- Minerais considerados estratégicos por gerarem receita com moeda estrangeira
- Principais minerais estratégicos do Brasil
- Por que o Brasil é relevante no cenário global de terras raras e minérios estratégicos?
- Papel dos minerais estratégicos brasileiros na transição energética
- O futuro e os desafios do Brasil nos mercados globais
O que são minerais estratégicos?
Os minerais são chamados de “estratégicos” quando têm um papel importante na indústria, na economia ou no desenvolvimento tecnológico de um país. A nomenclatura também é usada no caso de minerais relacionados à defesa e à segurança da nação.
No Brasil, consideramos economicamente estratégicos os minerais que precisamos importar em grande volume de outros países e aqueles que têm potencial para gerar divisas, ou seja, entrada de moeda estrangeira em nosso país. Essas diretrizes fazem parte do Plano Nacional de Mineração 2030 (PNM30), lançado em 2011 pelo Ministério de Minas e Energia (MME).
O PNM30 apresenta os objetivos do Brasil com relação às políticas para os setores energético e mineral. Nele, temos um detalhamento da importância de cada tipo de mineral estratégico para o nosso país:
Minerais considerados estratégicos por gerarem grande volume de importações
O Brasil considera como estratégicos aqueles minerais dos quais dependemos de importação para garantir o suprimento nacional em um setor vital para o país. Esse é o caso do fertilizante NPK, uma combinação de fosfato, potássio e nitrogênio. O Brasil importa mais de 70% do NPK usado na nossa agricultura. E não precisamos nem lembrar que o setor rural é importantíssimo para a economia brasileira.
Saiba mais: Você sabe o que são recursos naturais?
Minerais considerados estratégicos por serem fundamentais para o avanço tecnológico
Os minerais considerados estratégicos para o avanço tecnológico são aqueles vitais para a indústria de equipamentos eletrônicos e para as inovações de sustentabilidade.
Para o Brasil, são importantes os minerais necessários para as tecnologias de transição energética, ou seja, a mudança para fontes mais limpas de geração de energia. Enquadram-se nesse caso minerais como lítio, nióbio, tântalo e as chamadas “terras raras”.
Minerais considerados estratégicos por gerarem receita com moeda estrangeira
Os minerais são considerados estratégicos nessa categoria quando são comprados em grande quantidade por outros países, gerando entrada de moeda estrangeira no Brasil. O ferro e o nióbio são exemplos desse caso. Esses minerais têm forte impacto na nossa economia, por conta da alta demanda mundial.

Principais minerais estratégicos do Brasil
A indústria mineral tem grande relevância para a economia brasileira. Números do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Ministério de Minas e Energia (MME) mostram que, nas últimas décadas, esse setor representou entre 2,5% e 4% do PIB. Em valores, é uma movimentação entre R$ 150 bilhões e R$ 340 bilhões por ano.
Estes são os principais minerais estratégicos para o Brasil, de acordo com o Governo Federal:
Terras raras
O que são terras raras? São chamados de “Elementos Terras-Raras” (ETRs) um conjunto de 17 minerais, sendo 15 do grupo de elementos químicos da série dos lantanídeos e mais dois outros, o escândio e o ítrio. Os lantanídeos são metais com propriedades incomuns, como fluorescência, condutividade e magnetismo.
O Conselho Regional de Química de São Paulo explica que essas são características químicas únicas e, por isso, insubstituíveis. Isso faz com que os metais terras raras sejam muito úteis quando utilizados em ligas ou misturados em pequenas quantidades com metais mais comuns, como ferro e alumínio.
O interessante é que os lantanídeos não são de fato raros. O que dá a eles essa classificação especial é a dificuldade de extrair e processar esses elementos em escala industrial.
A demanda pelos ETRs está cada vez maior porque esses elementos são utilizados nas indústrias de alta tecnologia. Eles são usados na fabricação de discos rígidos, fibras ópticas, sistemas de defesa, radares e lasers industriais.
Os ETRs são importantes também para as soluções de transição energética, estando presentes em turbinas eólicas, nos painéis solares e nas baterias para carros híbridos, por exemplo.
Saiba mais: O que são terras raras?
Agrominerais
Os agrominerais são insumos da mineração que podem ser usados como fertilizantes. O Brasil é um dos maiores exportadores de produtos agrícolas do mundo, portanto, nossa necessidade de nutrientes para o solo é alta.
O NPK é o principal agromineral utilizado na agricultura brasileira, o que deixa nossa economia muito dependente de exportações. Mas já há pesquisas sobre outras alternativas.
O Serviço Geológico Brasileiro (SGB) está estudando o uso de remineralizantes nacionais. Conhecidos como “pó de rocha”, os remineralizantes são uma categoria de agrominerais que também podem ser usados como fertilizantes.
Atualmente, o SGB está executando estudos para a identificação e caracterização de rochas com potencial remineralizador em diferentes regiões do Brasil.
Saiba mais: Os impactos do agronegócio na economia e no meio ambiente
Carvão mineral
O carvão mineral é uma mistura de componentes orgânicos sólidos, fossilizados ao longo de milhões de anos.
O Brasil conta com uma das maiores reservas de carvão mineral do mundo e nós utilizamos esse recurso de duas formas: como combustível para geração de energia elétrica e na siderurgia para produção de ferro, aço e coque (também um tipo de combustível usado na indústria).
O principal uso do carvão mineral no mundo é a geração de energia em usinas termoelétricas, mas o elemento também é utilizado na produção de gases industriais e químicos.
Segundo o MNE, o carvão brasileiro tem baixo teor energético e alto teor de impurezas. Por isso, se fazem necessárias ainda pesquisas para desenvolver formas de melhor aproveitar esse potencial e utilizá-lo de maneira mais limpa e eficiente.
Minerais não-metálicos
Como o nome já diz, minerais não-metálicos são aqueles que não possuem as características dos metais. São exemplos de minerais não-metálicos o vidro, a cerâmica, o cimento, o gesso e o barro. Esses elementos são muito importantes para a indústria da construção civil.
Saiba mais: O que é a Agência Nacional de Mineração?
Por que o Brasil é relevante no cenário global de terras raras e minérios estratégicos?
O Brasil é relevante no cenário global de minerais estratégicos por dois motivos. Primeiro, porque contamos com grandes volumes desses recursos naturais em nosso solo. E segundo, porque precisamos exportar muitos insumos que não produzimos de outros países. Ou seja, somos importantes compradores, mas também temos potencial para sermos grandes exportadores.
Embora a China esteja em primeiro lugar absoluto em reservas de terras raras, com 44% do volume global, nós estamos em segundo, com 17%. Austrália é a terceira colocada com 2,5%.
O tamanho das reservas e a variedade dos recursos minerais disponíveis em território brasileiro ainda estão sendo descobertos. Já sabemos que contamos com rochas alcalinas cabonáticas (que são agrominerais e contêm potássio e sódio) e depósitos de grafita, argila, granito, manganês e níquel. Estudos sobre terras raras e outros minerais estratégicos indicam que as reservas brasileiras podem ser ainda maiores.
No primeiro semestre de 2025, o mercado brasileiro de minerais somou US$ 16,01 bilhões. O número equivale a 53% do superávit total da balança comercial do país no período. Mesmo tendo que comprar também muitos insumos minerais, a conta ficou mais favorável para a nossa economia. Exportamos US$ 20,1 bilhões em minerais e importamos US$ 4,1 bilhões.
Papel dos minerais estratégicos brasileiros na transição energética
Os minerais estratégicos estão no centro da conversa sobre transição energética, pois são usados na fabricação de diversas soluções para o uso de energia limpa.
Nossa principal aposta é no potencial das reservas nacionais. O Brasil detém mais de 90% das reservas globais de nióbio. O metal pode ser utilizado na fabricação de baterias mais limpas do que as atuais de íon-lítio.
Minas Gerais é o estado com o maior volume estimado de terras raras no Brasil. Pesquisas da Agência Nacional de Mineração (ANM) calcularam que as reservas mineiras podem ter em torno de 10 milhões de toneladas de terras raras. Esse número é quase a metade do total identificado em todo o território nacional.
Outro destaque é o Vale do Jequitinhonha, também em Minas, que ganhou o apelido de Vale do Lítio. O governo do estado estimou que projetos com o metal devem receber cerca de R$ 30 bilhões em investimentos até 2030. Em 2023, esse setor atraiu investimentos de mais de R$ 5,5 bilhões.
Outras reservas são encontradas também em Goiás e no Amazonas. Estudos estão sendo realizados para confirmar a existência de outros depósitos no Rio de Janeiro, em São Paulo e na Bahia.
Saiba mais: Energia renovável: por que é importante para a política?
O futuro e os desafios do Brasil nos mercados globais
Como vimos até aqui, o potencial brasileiro na exploração de minerais estratégicos é enorme. Entretanto, enfrentamos desafios no caminho para nos tornarmos uma grande força mundial de minerais estratégicos. Embora sejamos ricos em recursos naturais, a estrutura em torno da indústria deixa a desejar.
A consultoria PWC diz que o Brasil está em uma posição vantajosa no mercado, pois além da riqueza mineral, o país conta com energia limpa, relativa estabilidade e visibilidade crescente depois da COP30. Mas a empresa também enxerga desafios.
“A cadeia dos minerais críticos vai muito além da mineração”, diz a consultoria PWC. “Cada elo – da prospecção geológica à reciclagem – exige conhecimento técnico, escala industrial e regulação eficaz. O Brasil tem vantagens na extração, mas carece de infraestrutura e políticas públicas para avançar nas etapas de maior valor, como o refino, a transformação química e a manufatura tecnológica”.
Entre os problemas apontados pelo PWC estão a baixa coordenação entre os diferentes setores da indústria (a mineração, a logística, a pesquisa, etc.), a ausência de plantas de refino, a falta de marcos regulatórios eficazes e a necessidade de mais incentivos à inovação.
O próprio Governo Federal afirma que a estrutura industrial em torno da exploração dos minérios estratégicos é a principal dificuldade e o ponto a ser vencido no futuro. Para que o Brasil vire uma liderança mundial, o MNE diz que precisamos da implantação de um modelo de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação.
Mesmo com dificuldades, a indústria e as pesquisas sobre minerais estratégicos seguem avançando. Atualmente, vários estudos investigam a capacidade das reservas brasileiras. Alguns exemplos são os trabalhos da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) e da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemge).
Empresas estrangeiras também estão de olho no que o nosso solo pode oferecer. As australianas Viridis Mining e Minerals Limited têm atividades em Poços de Caldas (MG), enquanto a Foxfire Metals está no Vale do Lítio. Já as americanas Denham Capitals e Mineral Groups atuam em Goiás.
Em janeiro de 2026, o Brasil fechou uma parceria de cinco anos com a Arábia Saudita para colaboração bilateral sobre minerais estratégicos. O acordo prevê intercâmbio técnico, estímulo a investimentos e desenvolvimento conjunto de projetos de mineração. O foco será em minerais usados para a transição energética.
Outro acordo está sendo costurado com a Comissão Europeia para investimentos conjuntos em terras raras e outros minerais estratégicos.
Grana estrangeira, aliás, deve ser um dos pontos positivos e um dos desafios para o futuro da nossa indústria de minérios. Em 2025, o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) divulgou uma estimativa de que o setor de minerais estratégicos no Brasil deve receber cerca de R$ 100 bilhões em investimentos até 2029. A maior parte desse valor deve vir de fora do país.
Receber atenção e investimentos estrangeiros movimenta o setor, mas especialistas apontam a necessidade de políticas públicas nacionais para essa indústria. Desde 2024, o Congresso Brasileiro discute a criação de uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
Saiba mais: Geopolítica, você conhece esse campo de estudo?
Além da alta dependência brasileira dos minérios importados, outro fator complicador são as disputas geopolíticas. A liderança absoluta da China na exploração de terras raras, que detém 85% do refino mundial, atiça os Estados Unidos, o principal competidor comercial dos asiáticos.
Saiba mais: China x EUA, entenda a guerra comercial
A busca norte-americana por formas de peitar a China nesse setor tem levado a disputas políticas. No início de 2026, o presidente dos EUA, Donald Trump, levantou a hipótese de adquirir ou anexar a Groenlândia (país autônomo que faz parte do reino da Dinamarca). O solo groenlandês é rico em terras raras.
Enquanto China e Estados Unidos duelam no ringue global, o Brasil tem uma vantagem natural que pode ser usada a nosso favor. Seguiremos acompanhando como nosso país avança nesse setor.
Agora que você entendeu tudo sobre minerais estratégicos, o que você acha sobre o potencial do Brasil nessa indústria? Ficou com alguma dúvida? Fala para a gente nos comentários.
Referências:
- Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação – Minerais estratégicos
- Ministério de Minas e Energia – Conheça os minerais estratégicos e como eles fazem parte do seu dia a dia
- Frente Parlamentar da Mineração Sustentável – Minerais estratégicos
- Portal Amazônia – Plano Nacional de Mineração 2030: Geologia, Mineração e Transformação Mineral
- Ipea – Ipea e MNE lançam estudo sobre a extensão da cadeia produtiva da mineração no PIB brasileiro
- Conselho Regional de Química de São Paulo – Lantanídeos: Por dentro das novas tecnologias
- Terra – O que são terras raras e onde estão as maiores reservas do mundo
- Serviço Geológico Brasileiro – Remineralizadores de solo são alternativa para fertilizantes tradicionais na produção agrícola
- Portal da Indústria – Conheça a indústria brasileira de produtos minerais não-metálicos
- Revista Galileu – Onde estão, afinal, as terras raras do Brasil
- Neofeed – Brasil mira R$ 100 bi de investimentos para entrar na birga por mercado de minerais estratégicos
- CNN Brasil – Ibram: Minerais críticos no Brasil vão atrair mais de R$ 100 bi até 2029
- Revista Forum – Potência das terras raras: Cientistas da USP desenvolvem bateria de alta tecnologia com mineral estratégico abundante no Brasil
- O Tempo – Terras raras colocam Minas Gerais no centro da transição energética global
- Brasil Mineral – A corrida pelos minerais estratégicos no Brasil
- PWC – Brasil na era dos minerais críticos
- Poder360 – Brasil e Arábia Saudita firmam acordo para cooperação em mineração
- Poder360 – UE e Brasil negociam acordo para investir em terras raras