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A carga tributária no Brasil em comparação com outros países
2 maio 2023
2 maio 2023

A carga tributária no Brasil em comparação com outros países

A carga tributária no Brasil em comparação com outros países

Você já escutou alguém comentando que pagamos muitos tributos? Questionamentos e falas sobre esse tema são comuns. Segundo dados do Portal Tributário, há 95 tributos oficiais no Brasil atualmente (são eles que compõem a carga tributária). Imagine que o pagamento deles, por ser uma obrigação, é feito por todos os cidadãos que resulta em milhões e milhões de reais, certo? Isso é parte da carga tributária nacional.

Quando falamos sobre “carga tributária”, estamos nos referindo ao valor total da arrecadação de tributos no país e do seu impacto no PIB (produto interno bruto) – vamos nos aprofundar nisso no próximo tópico.

Para analisar o valor total da tributação, é necessário somar todos os tributos que foram arrecadados pela União (por meio dos tributos federais), Estados (por meio dos tributos estaduais), Municípios (por meio dos tributos municipais) e Distrito Federal (por meio dos tributos distritais). 

→ Se quiser saber mais sobre o Sistema Tributário Nacional, acesse o nosso post “Sistema tributário nacional: como funciona?”.

Depois de somar todos os tributos arrecadados pelos diferentes entes federativos (União, Estados, Distrito Federal e Municípios), o valor é dividido pelo PIB, e a carga tributária é definida. Por meio dela, podemos entender melhor a tributação do país como um todo (e não apenas a cobrança de um tributo específico). Desse modo, é possível avaliar como os valores recolhidos por meio dos tributos afetam a sociedade. Para saber como isso ocorre no Brasil, segue com a gente!

→ Nesse eixo do projeto conversamos com a Marina Costa, advogada de direito tributário do Mattos Filhos e discutimos sobre os diferentes tipos de tributos e como o sistema tributário brasileiro pode impactar a desigualdade. Confere esse papo aqui:

O projeto Tributos e Desigualdade é uma realização do Instituto Mattos Filho, produzido pela Civicus em parceria com a Politize!. Juntos, temos o objetivo de levar conhecimento e informações sobre a tributação no Brasil e seus impactos sobre as desigualdades.

O que é carga tributária?

A carga tributária é calculada da mesma forma em todos os países (mas há diferença na forma como cada um cobra tributos). Como apresentado, ela é definida pela soma de todo o valor arrecadado por meio da tributação e dividida pelo PIB (Produto Interno Bruto) do país. Você pode estar se perguntando: “mas o que é PIB?”

O PIB é a soma de toda riqueza que foi produzida durante um determinado período no país, isto é, considera todos os bens e serviços finais realizados e, geralmente, utiliza o período de um ano para definir o resultado. Cada país calcula o PIB em sua própria moeda. Em 2025, por exemplo, o PIB brasileiro foi de 12,7 trilhões de reais, segundo dados do IBGE

Papel contendo um gráfico de barras da carga tributária, em cima dele há pilhas de moedas de diferentes tamanhos.
Imagem ilustrativa da carga tributária brasileira. Imagem: ABDE – Associação Brasileira de Desenvolvimento.

A partir dessa relação entre o total do valor arrecadado e o PIB, chamada de carga tributária, a contribuição financeira da sociedade para o Estado por meio do sistema tributário nacional é determinada. Entender isso é muito importante para que seja possível avaliar o valor arrecadado, como isso afeta a vida da população e, principalmente, como isso impacta a garantia do bem-estar social. 

Como a carga tributária brasileira é composta

Como já apresentamos, a carga tributária é uma parcela do PIB, que é a riqueza produzida no país. Ela é, mais especificamente, a parcela correspondente ao valor arrecadado pelo Governo a partir de todos os tributos.

Segundo o Boletim de Estimativa da Carga Tributária Bruta do Governo Geral de 2025, publicado pelo Tesouro Nacional em abril de 2026, a carga tributária bruta brasileira foi de 32,40% do PIB em 2025. Isso significa que, a cada R$ 100 produzidos no país, cerca de R$ 32,40 foram arrecadados pelo governo por meio de tributos. 

Em relação a 2024, houve um pequeno aumento de 0,18 ponto percentual do PIB. A alta foi puxada principalmente pelo crescimento da arrecadação do Governo Central, enquanto os estados tiveram leve queda e os municípios registraram pequeno aumento.

Para entender melhor esse número, é importante observar quais tipos de tributos compõem a carga tributária brasileira. Em 2025, os principais destaques foram:

→ Se quiser saber mais sobre os tipos de tributos, veja nosso post “O que é o tributo?

Tipo de arrecadaçãoParticipação no PIB em 2025
Impostos sobre bens e serviços13,78%
Impostos sobre renda, lucros e ganhos de capital9,16%
Contribuições sociais6,72%
Impostos sobre a propriedade1,73%
Impostos sobre comércio e transações internacionais0,71%
Impostos sobre folha de pagamento e mão de obra0,31%
Carga tributária bruta total32,40%

Observando os dados, é possível perceber que a tributação no Brasil se concentra em tributos incidentes sobre bens e serviços. Muitas vezes, fazemos o pagamento deles sem perceber, já que estão inseridos no preço de tudo que consumimos. 

Além disso, o valor arrecadado é distribuído entre as diferentes esferas de governo: o Governo Federal, os governos estaduais e do Distrito Federal e os governos municipais. O gráfico abaixo mostra como essa divisão ocorreu entre 2010 e 2025:

Gráfico 1. Carga Tributária Bruta por esfera de governo – Anual – Brasil 2010 a 2025 (Dados em: % do PIB – Fonte: STN).

A maior parte dos tributos é cobrada pela União e destinada ao Governo Federal. O restante é dividido entre os governos estaduais, o governo do Distrito Federal e os governos municipais. 

Com esses dados, podemos entender um pouco mais sobre como o valor arrecadado por meio dos tributos é composto e para onde é distribuído e como impacta as políticas públicas e a organização administrativa do país. É claro que o sistema tributário é muito mais complexo e cada um desses tributos é dividido em diversos tipos de cobranças, ou seja, há diferenças entre cobranças de tributos entre Municípios e Estados, por exemplo. 

Comparação entre o Brasil e países da OCDE

Para analisar as diferenças entre o sistema tributário brasileiro e o de outros países, uma referência possível é a OCDE, sigla para Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. A escolha da OCDE como base de comparação se justifica porque a organização reúne países com diferentes modelos econômicos e mantém estudos, indicadores e recomendações sobre políticas públicas, incluindo a área tributária. Assim, seus dados ajudam a observar tendências internacionais e a compreender como outros países organizam a arrecadação de tributos.

Fundada em 1961, a OCDE tem como objetivo promover o desenvolvimento econômico, o comércio mundial, a democracia e o bem-estar social. Em 2022, a organização contava com 38 países membros. Além de reunir dados comparativos, a OCDE também analisa os sistemas tributários dos países membros e produz recomendações sobre políticas fiscais e possíveis melhorias. Mesmo quando um país não faz parte da organização, essas referências podem ser utilizadas como apoio para debates e propostas de mudança, como é o caso de uma reforma tributária. 

É importante pontuar que comparar sistemas tributários distintos, de países com renda per capita (renda por pessoa) diferentes e com diferentes cobranças sobre previdência, por exemplo, também podem gerar algumas conclusões erradas. 

Diante disso, uma forma mais adequada de comparação é observar a concentração de tributos em cada país, isto é, se há uma maior quantidade de tributos diretos (cobrados diretamente do cidadão) ou indiretos (inseridos no valor do produto e de serviços). Essa análise permite identificar diferenças importantes entre os modelos tributários, sem ignorar as características específicas de cada país. 

Pensando nisso, buscamos analisar a concentração de tributos em cada país, isto é, se há uma maior quantidade de tributos diretos (cobrados diretamente do cidadão) ou indiretos (inseridos no valor do produto e de serviços). Assim, podemos ter uma noção comparativa, mesmo que não seja possível chegar a uma conclusão definitiva, para evitar conclusões baseadas em distorções e na desconsideração das particularidades que o sistema tributário de cada país possui. 

Para isso, podemos analisar os dados publicados pela própria OCDE em seu relatório de estatísticas sobre a tributação de seus países membros e comparar com o cenário brasileiro publicado em 2025. 

Diferentemente dos dados anteriores, apresentados como percentual do PIB, as informações da OCDE a seguir mostram a participação de cada categoria de tributo no total da arrecadação tributária de cada país.

Um dos pontos de comparação é o peso dos tributos sobre renda, lucros e ganhos de capital em diferentes economias, como as listadas abaixo:

País/grupoParticipação na receita tributária
Dinamarca66,6%
Estados Unidos48,5%
México44,5%
Média da OCDE36,4%
Brasil28,3%

Esses dados indicam que, no Brasil, a participação dos tributos sobre renda, lucros e ganhos de capital é menor do que a média dos países da OCDE e também inferior à observada nos três países usados como exemplo.

Por outro lado, quando analisamos os tributos sobre bens e serviços, que compõem a carga tributária indireta, o cenário se inverte:

PaísParticipação na receita tributária
Dinamarca28,2%
Estados Unidos16,6%
México35,1%
Brasil42,6%

Ou seja, enquanto o Brasil arrecada proporcionalmente menos com tributos sobre renda, lucros e ganhos de capital, ele depende mais da tributação sobre bens e serviços. Isso ajuda a explicar uma característica central do sistema tributário brasileiro: o peso elevado dos tributos indiretos, que incidem sobre o consumo e acabam sendo pagos por toda a população, independentemente da renda.

Pesquisadores da área de Economia, David Decacache e Lucas DiCandia, afirmam que essa regressividade do sistema tributário brasileiro, caracterizada pela concentração da arrecadação em tributos indiretos (aqueles que são cobrados sobre bens e serviços), aprofunda a histórica e crônica desigualdade social no país. Isso porque esse tipo de cobrança será proporcionalmente mais cara para aqueles com renda menor.

Existem outros aspectos que surgem nas comparações entre a forma como a tributação ocorre no Brasil e em outros países mais desenvolvidos do ponto de vista econômico. Entretanto, o aspecto da regressividade é o mais evidente no que se refere aos impactos para desigualdade social. 

Recomendações da OCDE 

A partir das análises e recomendações que a OCDE apresenta para os países membros, é possível relacioná-las com a realidade brasileira para sugerir mudanças visando a melhoria social e econômica. Isso é feito por Institutos e pesquisadores que analisam a tributação.

Em 2022, o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) publicou uma Nota Técnica que buscava apresentar possíveis mudanças para tributação brasileira a partir das recomendações feitas pela OCDE. 

De modo geral, foi concluído que é necessário concentrar a tributação sobre renda e propriedade ao invés de concentrá-la nos bens e serviços, como ocorre atualmente. Isso porque a arrecadação de tributos sobre consumo foi aproximadamente 50% superior no Brasil, se comparado à média dos países de maior desenvolvimento econômico. Para melhorar o cenário brasileiro, uma recomposição da carga tributária poderia ser feita, isto é, uma reorganização entre quais tributos sofrerão maior impacto na arrecadação do país.

É nesse contexto que entra a Reforma Tributária, que está sendo implementada no Brasil desde 2023. Ela afeta tanto os tributos indiretos quanto os diretos.

Nos tributos indiretos, os impactos vão variar conforme a atividade econômica. De modo geral, o novo IVA-dual (o Imposto sobre o Valor Agregado, composto pelo IBS e pela CBS) terá uma alíquota próxima de 28%, que pode ser maior ou menor do que as alíquotas que existiam antes, dependendo do setor. A Reforma também ampliou as possibilidades de aproveitamento de créditos de tributos pagos em etapas anteriores da cadeia produtiva, o que também vai influenciar a carga tributária final.

Nos tributos diretos, a Reforma ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda das Pessoas Físicas e criou mecanismos para tributar de forma mais intensa as rendas mais altas.

Por enquanto, o governo ainda não publicou uma estimativa oficial sobre o impacto dessas mudanças na composição da carga tributária. Então, ainda não dá para saber com certeza se a arrecadação de tributos indiretos vai diminuir enquanto a de tributos diretos aumenta. Acompanhar esse processo será fundamental para avaliar se a Reforma vai, de fato, aproximar o Brasil das recomendações da OCDE.

Marina Costa, advogada da área de direito tributário do Escritório Mattos Filho, afirma que a tributação atual no Brasil afeta a competitividade econômica (devido à quantidade de tributos sobre produção) e a economia local, já que, devido à concentração da arrecadação por meio de tributos indiretos, que, por sua vez, afeta a renda da população mais pobre, pode haver uma diminuição no consumo de produtos e serviços. Ela foi nossa convidada no episódio “Como funcionam os tributos e como impactam a nossa sociedade?”. Para saber mais, nos acompanhe no Spotify.

Veja todo o conteúdo desse eixo de forma resumida em nosso infográfico: Tributação e desigualdade: como isso acontece no Brasil?

Conclusão 

Com base em todos esses dados e valores, podemos perceber que, apesar das semelhanças ou diferenças, cada país possui particularidades em seu sistema tributário, já que a tributação é um resultado da história de cada um deles. 

→ Você pode saber mais no post “O tributo ao longo da história no Brasil

Quando analisamos a composição da carga tributária de um país, podemos verificar como a arrecadação se organiza – principalmente no que se refere aos tributos diretos e indiretos e também a maneira como o valor arrecadado é distribuído entre os entes federados.

A partir disso, a regressividade do sistema tributário brasileiro, caracterizada pela grande quantidade de tributos que é cobrada de forma indireta, fica evidente. Além disso, a comparação com outros países e com as recomendações da OCDE possibilita verificar a necessidade de que parâmetros mais justos sejam estabelecidos. 

Apesar de não haver uma conclusão única ou definitiva sobre o tema, é evidente que refletir sobre a tributação e suas consequências é parte importante na construção de uma sociedade mais justa e igualitária, tendo em vista, inclusive, que a arrecadação é um pilar essencial para possibilitar a criação e permanência de políticas públicas.

Para entender melhor como cada tipo de tributo afeta sua vida, segue com a gente! Nos próximos posts, apresentaremos como cada um dos tributos é cobrado e para que eles servem. 

→ Neste vídeo, apresentamos de forma simples e didática quais tributos existem no Brasil, como funciona o sistema tributário nacional e qual a sua relação com a desigualdade social. Clique no vídeo para começar:

  • Esse conteúdo foi publicado em 02/05/2023 com objetivo de democratizar o conhecimento jurídico sobre o tema de forma simples para toda população. Para encontrar mais informações e atualizações sobre o assunto, acesse a página do projeto.

Autores:

  • Bianca Sampaio de Oliveira
  • Lanna Garcês Castro
  • Laryssa Gonçalves Brum
  • Leonardo Linck Squillace
  • Luiza Linardi Guanabara
  • Mariana Mativi
  • Pâmela Larissa Miguel Gottardini
  • Pamela Vieira de Souza
  • Paola dos Santos Flávio
  • Rafaela Cury Silveira 

Fontes:

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