Uma Noite de 12 Anos: a história por trás do filme de Mujica

“Sem nomes e sem mágoas”. Foi com esse pensamento que os escritores Mauricio Rosencof e Eleuterio Huidobro se dedicaram a escrever as suas “memórias do calabouço”. Juntos com José Pepe Mujica, eles passaram doze anos encarcerados com outros sete colegas, na prisão de Puntas Carretas, onde hoje funciona o Shopping Center mais chique da capital. Com uma dramaturgia bem-sucedida na humanização dessa experiência, o filme Uma Noite de 12 Anos, escrito e dirigido por Álvaro Brechner, que está em cartaz nos cinemas e também na plataforma de streaming Netflix, reconstitui essa história. Que tal conhecê-la melhor?

Extra: Veja o trailer do filme!

A ERA DOS EXTREMOS

Para conhecer a história do filme Uma Noite de 12 Anos, vale a pena retomar um pouco do que foi o século XX. Ou melhor, a época que o historiador Eric Hobsbawm chamou de a “Era dos Extremos”, o curto e intenso “século de setenta e cinco anos”.

De acordo com Hobsbawm, o século XX pode ser compreendido a partir dos eventos ocorridos entre a 1º Guerra Mundial (1914-1918) e a Queda do Muro de Berlim, em 1989. Este recorte cronológico é inovador pois considera o século como um período de 75 anos, ou seja, um “breve século” que fez com que as questões ideológicas fossem mais determinantes do que as fronteiras nacionais e culturais. Isso porque, se em escala europeia, a 1º Guerra Mundial deu início às tensões entre o Nazi-fascismo de um lado e o Liberalismo e o Comunismo de outro, foi a 2º Guerra Mundial que, por sua vez, internacionalizou as fronteiras entre os capitalistas e os comunistas, e deu origem à chamada Guerra Fria.

Um dos arquitetos dessa Guerra Fria foi o braço direito do ex-presidente norte-ameicano John Kennedy, o seu Secretário de Defesa, Robert McNamara, que em entrevistas chegou a recordar daqueles tempos como uma “guerra quente”. Desde o seu alto escalão, os EUA vigiaram e moderaram diversos conflitos internacionais, por exemplo, a tensa Crise dos Mísseis, em 1961, e o duradouro e controverso envolvimento na Guerra do Vietnã.

Para se ter uma ideia da temperatura daquele momento, em outubro de 1961, a Crise dos Mísseis levou os presidentes dos EUA e da URSS a se falarem por telefone a fim de encontrarem uma saída para o desarmamento da pequena e revolucionária Cuba. Apenas dois anos após a sua revolução nacionalista, a ilha caribenha continha mais de cento e quarenta mísseis soviéticos de médio e longo alcance. Os extremos estavam postos: as ideologias norteavam não somente as relações internacionais, mas também as interpessoais em torno da chamada lógica “amigo-inimigo”: algo como “ou está conosco ou está contra nós”.

A GUERRA FRIA NA AMÉRICA LATINA

O filme Uma Noite de 12 Anos opta por um excelente recurso narrativo para nos situar neste clima de guerra: a câmera realiza uma panorâmica de 360º sobre seu próprio eixo para registrar o encarceramento de pessoas e acompanhar a resistência dos prisioneiros. Dito de outra forma, as cenas iniciais são feitas de maneira a caráter panóptico do sistema carcerário. Essa dimensão panóptica das instituições modernas foi problematizada por Michel Foucault. De acordo com o filósofo, escolas, quartéis, hospitais, indústrias e prisões deixaram um legado comum: a tarefa de disciplinar hábitos, costumes e comportamentos através, por exemplo, de sirenes escolares, exercícios físicos, apitos de fábricas, iluminações semafóricas, dentre outros dispositivos.

Dessa maneira, o giro da câmera no começo do filme serve para mostrar como, apesar de não conseguirem ver aquilo que os vigia, tudo e todos estão sendo vigiados. Além disso, nos leva a compreender como os uniformes, as restrições alimentares e outras regras servem, sobretudo, para quebrar a resistência física e as convicções políticos dos prisioneiros. Para se aprofundar nas questões filosóficas e políticas relacionadas ao panóptico, conheça o documentário “Foucault por ele mesmo”.

O filme de Brechner consegue humanizar não somente os indivíduos em encarceramento, mas também o olhar que nós, espectadores, lançamos sobre eles. Afinal, o ponto de vista da narrativa é operado de modo a provocar uma imersão no sistema de repressão da ditadura civil-militar uruguaia. Aliás, diga-se de passagem: poderia ser qualquer ditadura latino-americana, pois as referências territoriais, físicas ou cronológicas são deixadas de lado para dar lugar à subjetividade e aos delírios das personagens.

Essas personagens são Tupamaros, integrantes de um movimento político que surgiu no Uruguai quatro anos após a Revolução Cubana. Essa relação é importante para se compreender o filme, pois inspirados não somente pelos resultados, mas principalmente pelas estratégias dos cubanos, o Movimento de Libertação Nacional Tupamaru (MLNT) também apostava na luta armada como uma forma de resistência social e de transformação política.

O nome do movimento político era uma homenagem ao líder da maior revolta anticolonial de toda a América Hispânica, Túpac Amaru. Nascido no Peru com o nome de José Gabriel Condorcanqui, ele adotou o nome do último imperador Inca e encabeçou cerca de cem mil indígenas contra os domínios coloniais. Assim, a atualização deste imaginário anticolonialista nos anos 1960 tinha um propósito: a proposta de conscientização tanto da população urbana quanto a rural pela defesa da autonomia nacional do Uruguai diante das interferências militares e financeiras estadunidenses.

Dessa maneira, os Tupamaros praticavam assaltos de cargas, bancos e  empresas tendo em vista a distribuição de mantimentos nas periferias urbanas e rurais e para o financiamento da luta armada. Para alguns, o ponto alto da organização foi em 1970, com o sequestro do chefe da Segurança Pública uruguaia, Dan Mitrione, um agente do FBI que ficou conhecido nos meios diplomáticos latino-americanos como um infiltrado difusor de técnicas de tortura, algo que ele chegava a considerar uma ciência.

Em troca da libertação de Mitrione, os Tupamaros exigiam a libertação de 150 prisioneiros políticos. Diante da negativa de negociação por parte do Governo Pacheco Areco (1967-1972), o corpo de Mitrione foi encontrado morto dentro de um carro. A repressão foi imediata e não somente sobre aos agentes do MLNT, pois houve perseguições políticas também a artistas e intelectuais cujos ideais fossem considerados revolucionários. Muitas dessas pessoas foram parar na oficina Automotores Orletti, um  centro de detenção clandestino sediado no bairro Florida, em Buenos Aires, Argentina.

Estas conexões internacionais eram expressões da Doutrina de Segurança Nacional, uma doutrina diplomática induzida pelos EUA aos governos latino-americanos após a Revolução Cubana. Sintetizada na Operação Condor, ela se pautava na lógica de que,a partir de então, o inimigo não estava mais somente no estrangeiro, mas sim “dentro de casa”. Seria então necessária uma articulação internacional latino-americana que visasse o combate ao que se chamava o “inimigo interno” e, sendo assim, as distinções entre sociedade civil e campo militar tendiam a desaparecer.

Neste cenário, em março de 1972, Luis María Bordaberry foi democraticamente eleito presidente do Uruguai sob grande tensão social. De um lado, os Tupamaros eram capazes de grande mobilização social a partir do campo, de outro havia a Convenção Nacional dos Trabalhadores, a CNT, capaz de promover greves gerais. Porém, no ano seguinte de sua eleição, uma junta militar amparou o governo de Bordaberry para fechar o Congresso e colocar os partidos políticos na ilegalidade, o que deu início formal a primeira e única ditadura da história do Uruguai.

A NOITE DE DOZE ANOS

Nove Tupamaros foram encarcerados, porém o filme se concentra em três deles: José Mujica, Mauricio Rosencof e Eleuterio Fernández Huidobro. Idealistas, esses três jovens mais tardes se tornaram, respectivamente, presidente do Uruguai, jornalista e dramaturgo, e jornalista e escritor. O passado destas personagens e as causas do encarceramento nos são dados ao longo do filme.

Desde as cenas iniciais, nota-se uma geografia dividida entre o que é humano e o que é sub-humano: a força do aparato militar permanece visível e vigiando a sociedade, enquanto nos subsolos sobrevivem aqueles que, em geral, eram tidos como ‘inimigos nacionais’.

Dessa maneira, o filme permite uma reflexão sobre o que é o chamado “estado de exceção”, um regime que, além de legislar sobre a diplomacia, a política e o mercado, também diz quem deve viver e quem deve morrer. Em outras palavras, enquanto as cidades com suas regras, ordens e instituições públicas, isto é, a “civilização”, está ao nível daquilo que se considera humano, os subterrâneos contém os esquemas repressivos ditatoriais.

Uma Noite de Doze Anos recusa soluções fáceis, tal como abusar das cenas de tortura como uma forma de sensibilização diante das crueldades. Ao contrário destes artifícios comuns no cinema latino-americano, o filme aposta numa edição ágil composta por closes em gestos e insinuações corporais sutis que transitam entre momentos de delírio e imagens do passado das personagens.

Vale chamar a atenção ao seu apelo poético, isto é, para o fato de que antes de serem militantes, as personagens são apresentadas como encarcerados. E como pessoas capazes de reelaborar formas de comunicação através de batidas na parede ou mesmo favoráveis ao convívio com seus algozes quando estes pedem a escrita de uma carta de amor para uma namorada.

Depois de estrear em grande estilo no Festival Internacional de Veneza, o filme ganhou a Pirâmide de Ouro no Festival Internacional de Cairo, no Egito, e ainda arrebatou outra dezena de indicações mundo afora.  Por essas e outras razões, o filme se impõe dentro da cinematografia internacional, pois além de promover a humanidade do trio de protagonistas, ele tem êxito na sensibilização dos espectadores diante de um passado que, apesar da brutalidade, ainda quer permanecer presente dentre alguns setores sociais.

Conseguiu entender a história por trás do filme Uma Noite de 12 Anos?  Se você já viu ou pretende assistir o filme, conte para nós o que achou! 🙂

Aviso: mande um e-mail para contato@politize.com.br se os anúncios do portal estão te atrapalhando na experiência de educação política.

Publicado em 8 de fevereiro de 2019.
faio monteiro

Fábio Monteiro

Redator voluntário Politize!, é doutorando em História pela PUC-SP e produtor do canal de Humanidades Vestibular em cena.

Referências do texto: confira aqui aonde encontramos os dados e as informações!

BIBLIOGRAFIA:

AYERBE, Luis Fernando. Estados Unidos e América Latina – a construção da hegemonia. SP: Unesp, 2002.

ROSENCOF, M.; FERNANDEZ, H. Memorias del Calabozo. Espanha: Txalaparta, 1993

TANUS, Salma. Foucault simplesmente. SP: Loyola, 2004

FILMOGRAFIA:

Playlist “Dictaduras Latinoamericanas”, do Canal Encuentro.

Playlist “50 anos do Golpe de 1964”, do Canal TV Univesp.