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Virada Política 2017: você já falou de política hoje?

Foto: Carla Mereles

virada política

A Virada Política aconteceu em novembro de 2017 na cidade de São Paulo e o Politize! esteve lá para falar sobre educação política. Foram tantos assuntos relacionados à política: propósito, desigualdade social, feminismo, movimento negro, fake news, políticas públicas, militância, lobby, accountability, participação, jogos sobre política, tecnologia, inovação, direitos humanos e tantas outras pautas em dois dias. Venha saber mais sobre a experiência na Virada Política!

O que é a Virada Política?

A Virada Política é um encontro de pessoas, movimentos, iniciativas e organizações da sociedade civil que têm um objetivo em comum: falar sobre política. O grupo que organiza a Virada Política é um coletivo independente, que a organiza de maneira colaborativa e sem ligações político-partidárias, e recebe doações para a realização do evento exclusivamente de pessoas físicas. A proposta da Virada Política em 2017, particularmente, era a de ser um Oásis da Política em meio à polarização, ao racha e à disputa política que divide tanto a sociedade.

A história do Oásis Político é:

“Conta-se que no deserto do Oriente Médio, havia um Oásis onde os vários povos se encontravam, cada um com suas crenças e percepções. Aqueles povos eram de tradição guerreira, mas tinham um pacto entre si: dentro do Oásis, não guerreariam, já que poderiam colocar em risco a única fonte de água disponível. Para entrar no Oásis, deveriam deixar as armas para fora. Aquele era um espaço em que os diferentes se encontravam para conversar desarmados.”

Foto: Carla Mereles

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E a proposta da Virada Política é de que a gente:

“Entenda a Virada Política como um Oásis. Aqui, vamos compartilhar da mesma água, vamos olhar, ver, escutar e esbarrar no diferente. Sem olhos, sem desprezo pelo outro. Esse é o espaço da conversa e da tolerância. Com menos certezas e mais calma. Menos berros e mais escuta.”

Foi uma experiência diferenciada poder botar rostos às iniciativas e aos movimentos que, por força de pessoas comuns, membros da sociedade civil como todos nós, estão fazendo sua parte e buscando empoderar-se de sua arma mais poderosa: a cidadania. De fato, o evento reuniu pessoas de várias partes do Brasil, ainda que de maioria da região Sudeste, que conversaram, trocaram ideias e, mais importante, buscaram unir forças. Seja incidindo diretamente sobre a política partidária, buscando renovação e educar futuros candidatos; seja criando ferramentas de participação social, transparência ou cidadania; seja buscando por meio da educação política maior consciência sobre o funcionamento da política no país, quais os problemas existentes e como buscar soluções.

Histórico da Virada Política

O evento ocorre anualmente desde 2014, quando teve sua primeira edição no Largo da Batata, na cidade de São Paulo, reuniu 20 organizações e teve 300 participantes. De início a participação foi tímida, mas no ano seguinte chegou a 1000 participantes, 60 organizações presentes e 20 oficinas realizadas. Em 2016, continuou com 60 organizações participantes, mas o público triplicou: 3 mil pessoas foram à Virada Política, participar dos 54 painéis e 18 oficinas oferecidas. Em 2017, o evento teve dois dias: o primeiro dia do evento foi na Câmara de Vereadores de São Paulo e o segundo foi em três co-workings – espaços colaborativos de trabalho. Foram 170 organizações participantes, com 80 painéis e 40 oficinas. Neste ano foram realizadas Viradas Políticas em outras 8 cidades também, como Rio de Janeiro, Salvador, Brasília, Recife, São José dos Campos…

Como foi a experiência na Virada Política?

Muito rica, de muito aprendizado e troca de ideias. Teve um ponto negativo, porém: a dificuldade em escolher, dentre tantos painéis e iniciativas interessantes, a qual comparecer. Mas vamos por partes…

O primeiro dia do evento foi na Câmara dos Vereadores de São Paulo, a casa do povo – em teoria. É muito impressionante pisar nessa casa pela primeira vez. Eu, que não sou de São Paulo, já fui à Câmara da minha cidade natal, onde nasci e cresci, diversas vezes. Na da cidade em que hoje moro, também. Mas nunca tinha ido à de São Paulo – e a grandiosidade daquele lugar é imensa.

A história é uma das questões mais legais de pensar. Tudo o que aquele lugar viveu, por todos os momentos que presenciou e dos quais foi casa. Lendo as escrituras na parede, impossível não notar que, além de grandioso, a Câmara também é um lugar masculino. Nas paredes, em que estão esculpidos os nomes de vereadores nas legislaturas históricas – e não antigas, pois datam de 1969, 1973 e 1978 – todos os nomes são de homens. A primeira reflexão que tive foi: em primeiro lugar, a felicidade em existir vereadoras na atual legislatura em São Paulo; em segundo, que a própria Virada Política, seja na composição da sua organização, seja nos participantes, estava repleta de mulheres ocupando aquele lugar que já foi – e ainda é majoritariamente – masculino. Essa foi a primeira virada política.

Depois de escolher os painéis, fui adiante.

Câmara de Vereadores de São Paulo

Foto: Carla Mereles

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Como a sociedade civil combate a corrupção?

O primeiro painel que compareci foi sobre corrupção e de que maneira a sociedade civil a combate. O tema chamou atenção porque parece ser o assunto mais debatido em tantos lugares… Da mesa de jantar às notícias de televisão, das primeiras páginas de jornais às postagens no Facebook, escândalos de corrupção são estampados continuamente. Segundo uma pesquisa recentemente divulgada pela Transparência Internacional, 78% dos brasileiros acreditam que a corrupção aumentou nos últimos 12 meses. Nada mais apropriado do que entender o que nós, sociedade civil, podemos fazer a respeito.

Falou-se sobre a importância de sabermos quem são os nossos políticos e, principalmente, o que eles fazem e deixam de fazer. O Ranking dos Políticos tem a proposta de accountability para com os políticos, isto é, que eles sintam a responsabilidade que têm uma vez que são eleitos. Na conversa após o painel, houve inclusive a sugestão de que haja um ranking dos partidos políticos – #ficaadica.

Quando votam a favor ou contra uma lei que o ranking considera importante, constará na ficha dos nossos congressistas. O Ranking dos Políticos faz uma lista que leva em conta a assiduidade em plenário, o gasto por gabinete, a fidelidade partidária, os processos judiciais em 2ª instância e a atividade legislativa. Como está o seu candidato?

Foto: Carla Mereles

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Outras duas iniciativas muito interessantes foram apresentadas. Uma delas é o Instituto Não Aceito Corrupção, uma iniciativa multidisciplinar, apartidária e não-corporativa, que preza para que a população conheça de que formas pode agir no combate à corrupção. Agem em três frente: pesquisa científica, políticas públicas e educação. Produzem pesquisas científicos sobre questões relacionadas à corrupção para qualificar o debate sobre o assunto – exemplo disso é a Radiografia da Improbidade. Já com políticas públicas, temos o exemplo do Ranking dos Tribunais de Conta, em que haverá uma disputa entre essas instituições para ver qual é a mais transparente. Pensando em educação, já foram feitas campanhas de conscientização, seminários e até um livro. Dê uma olhada na iniciativa aqui.

Por último, mas não menos importante, a Fundação Cidadania Inteligente, que trouxe um projeto em especial à Virada Política: A Teia e a Trama. A Fundação como um todo combate às desigualdades na América Latina, buscando construir uma democracia socialmente mais justa. Tem projetos em diversos países latino-americanos, em que age na formação de líderes, criando ferramentas de controle e fiscalização e tem o desejo de qualificar o debate político.

O Projeto A Teia e a Trama é um mapa mental sobre a Operação Lava Jato, além de trazer uma linha do tempo dos acontecimentos, o histórico, as quantias de dinheiro em questão e outros gráficos que ilustram o cenário. Uma enorme teia envolve parte das empresas acusadas e processadas na Lava Jato, assim como partidos políticos diretamente envolvidos nos escândalos e outros atores, como o BNDES e a Petrobras. Quanto maior a bola formada na teia, maior o número de ligações e mais forte a relação entre os entes. Se você queria entender melhor os esquemas e como essa operação funciona, esta é uma ferramenta brilhante. Acesse-a aqui.

Movimentos eleitorais: quem são e o que querem?

Dois painéis diferente num só texto, porque eles são paradoxais: um traz dez movimentos eleitorais e o outro traz cinco iniciativas de participação que fujam da participação partidária efetivamente. De um lado, há quem lute para conseguir entrar na política tradicional, renová-la e transformá-la com pautas da população. De outro, pessoas que querem agir localmente, além do voto e dos partidos políticos.

Em termos de movimentos eleitorais, a variedade é enorme. Há movimentos que buscam a renovação dos candidatos, concedendo ferramentas a quem quer se candidatar a um cargo eletivo, como o Movimento Acredito, Movimento Renove e o Renova BR. A Revista Construção, cuja linha editorial é progressista, atua para auxiliar esses políticos: mapeiam projetos e pautas num repertório de políticas públicas que busquem a redução das desigualdades em todos os setores. Assim, os políticos eleitos não precisam começar o zero e podem ter um ponto de partida sobre como agir.

A Bancada Ativista, que estava presente, foi um grupo que surgiu do seguinte pensamento: entrar na política de forma diferente – procuravam pessoas para se candidatar que nunca tivessem sido eleitas, que fossem ativistas, progressistas e atuassem em causas coletivas. No oposto do espectro político, estava lá também o Vem Pra Rua, que foi um ator trivial para os protestos em 2014 que pediam o afastamento e o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. O Vem Pra Rua atua no combate à corrupção e busca um Estado mínimo em suas campanhas e movimentos.

Movimentos eleitorais na Virada Política.

Foto: Carla Mereles

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Participação além do voto e dos partidos políticos

Quanto às formas de participação além do voto, houve diversas iniciativas também. O Delibera Brasil é um coletivo que quer promover a melhor participação da população na política por meio da deliberação, isto é, da discussão. Faz encontros experimentais do que chama de “mini-públicos” em que são discutidos diferentes tipos de problema enfrentados no país e sobre os quais deverá haver diálogo, falas sem ironia nem nada que prejudique a conversa para que o grupo chegue, junto, a um consenso e a soluções para os problemas.

Em termos de ferramentas que podem ser usadas pela sociedade civil, o site Plenário busca o controle social, a fiscalização e a transparência de tudo o que ocorre no Senado Federal. Utilizando o Plenário, os eleitores podem monitorar o desempenho de seus candidatos, além de quais pautas estão em plenário e como estão votando os senadores.

Outra ferramenta é a Beta Feminista. A Beta é uma “robô feminista até o último código” desenvolvida pela Nossas com a qual você pode conversar pelo chat do Facebook para: ser atualizada sobre o que de mais importante acontecer nas ruas e nas redes sociais pela luta feminista; receber notificações quando algo entrar em pauta ou em votação nas casas legislativas para que, assim, possa haver mobilização e participação ativa das mulheres para a proteção dos seus direitos.

Participação além do voto e dos partidos políticos

Foto: Carla Mereles

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A educação política na Virada

Essas foram apenas algumas das tantas iniciativas incríveis que buscam transformar a política e a cidadania brasileira de alguma forma. Em todos os painéis e oficinas das quais participei, havia um consenso: a educação política no Brasil é nula e precisa ser uma frente importante. Como a população participará se não sabe como? Como interagir com o poder público quando não se conhece as ferramentas existentes?

No próprio evento da Virada Política, foi promovido um “flertaço” com os vereadores de São Paulo. Dos 55, compareceram 8. A ideia era colocar cadeiras uma frente à outra e qualquer pessoa poderia conversar com qualquer um dos políticos presentes. A possibilidade estava ali: conversar, dialogar, perguntar, questionar, pressionar. Todos os cidadãos estavam com a faca e o queijo na mão, mas foram muitas as vezes em que as cadeiras reservadas a eles ficaram vazias – e tenho certeza que não era por falta de perguntas ou assuntos. Mesmo em um evento que fala sobre política e participação existe receio em se aproximar de políticos, em um ambiente no qual eles se dispuseram a participar. O quanto todos precisamos de educação, cultura e participação política ainda?

Flertaço com os vereadores de São Paulo

Foto: Carla Mereles

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Por esse e por tantos outros motivos, o Politize! esteve junto da Virada Política neste ano e eu, como representante, pude participar de um painel sobre o que fazemos no dia-a-dia: educação política. Foi uma experiência rica poder apresentar o Politize! pra tanta gente e, mais, falar sobre novos projetos e novas frentes com quem já o conhecia. De tantas conversas, os resultados foram vastos, mas as conclusões foram parecidas: precisamos urgentemente nos educar politicamente para conseguir agir e participar ativamente; as iniciativas políticas precisam se unir e somar-se, não dividir-se; por último, que há, sim, muitos degraus para andar em prol de uma política mais cidadã, mas que os passos estão sendo dados. Eventos como a Virada Política são alguns degraus que andamos para a politização e massificação da cidadania.

Nota do Politize!: este texto é parte de uma nova linha de publicações do Politize!, Reflexões Políticas. O objetivo desta seção é compartilhar pontos de vista diferentes sobre a política, e assim suscitar novas reflexões e debates para os leitores.

O que achou da experiência na Virada Política em 2017? Deixe seu comentário!

Publicado em 22 de novembro de 2017.

Carla Mereles

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), curadora do TEDxBlumenau e assessora de conteúdo do Politize!.