A falácia do custo irrecuperável

“Ah, mas nós já investimos tanto…”

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O restaurante era o mais conceituado do Sul da Ilha de Santa Catarina (Florianópolis). Dirigimos alguns quilômetros até o local. Chegando lá, a fila de espera estava de quase duas horas. Depois de 30 minutos, eu disse à minha esposa: “Vamos embora.” Ela respondeu: “De jeito nenhum, dirigimos até aqui e esperamos até agora.”

Tentei explicar que ela caiu na armadilha da falácia do custo irrecuperável. Ela respondeu meio a contragosto: “Você e suas teorias malucas.”

Projetos ruins e sem fim

Participo de inúmeras reuniões de negócios. Alguns projetos nunca cumprem as metas. Perco as contas de quantas decisões são pautadas com a mesma desculpa: “Já investimos tanto tempo / dinheiro nesse projeto que se o interrompermos agora, tudo terá sido em vão.” Projetos, campanhas de marketing, busca por novos clientes, ideias de negócios etc. Todos são vítimas da falácia do custo irrecuperável.

Mas afinal, o que é a falácia de custo irrecuperável?

Toda decisão ocorre em meio à insegurança. Aquilo que imaginamos pode dar certo ou não. É possível deixar a qualquer momento o caminho tomado, por exemplo, interrompendo um projeto e arcando com as consequências. Essa ponderação em meio à insegurança é um comportamento racional. A falácia de custo irrecuperável nos abocanha quando já investimos, sobretudo, muito tempo, dinheiro, energia, amor, etc. O dinheiro investido torna-se uma justificativa para continuar, mesmo quando do ponto de vista objetivo não faz sentido nenhum. Quanto maior o investimento, ou seja, quanto maiores forem os “custos irrecuperáveis”, mais forte será a pressão para continuar o projeto. É como se um investidor da bolsa quisesse manter sempre em seu portfólio a ação que mais perdas acumular.

Por que temos esse comportamento irracional? Simples, as pessoas se esforçam para parecer consistentes. Com consistência sinalizamos credibilidade. Para nós, as contradições são socialmente péssimas. É quase um crime mudar de ideia ou posicionamento. Quando decidimos interromper um projeto na metade, geramos uma contradição: reconhecemos que antes pensávamos de maneira diferente da que pensamos hoje. Levar um projeto absurdo adiante protela esse doloroso reconhecimento. Assim, parecemos consistentes por mais tempo.

O efeito Concorde

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O Concorde foi o exemplo paradigmático de um projeto estatal deficitário. Mesmo tendo reconhecido antecipadamente que a empresa do avião supersônico nunca seria lucrativa, ambos os parceiros, França e Inglaterra, continuaram a investir altas somas – simplesmente para manter as aparências. Desistir seria o mesmo que ceder. Por isso, a falácia de custo irrecuperável é também conhecida como efeito Concorde.

Grandes projetos governamentais sofrem dessa ilusão. É como deixar um defunto ligado em equipamentos médicos.

“Agora que já fomos tão longe…”; “Agora que já estou há dois anos trabalhando nesse projeto…”. Com base nessas frases, você percebe que a falácia de custo irrecuperável já mostrou os dentes em alguma parte do seu cérebro.

Existem muitas boas razões para continuar a investir e dar fim a alguma coisa. Mas existe uma razão ruim: levar em conta o que já foi investido. Decidir racionalmente significa ignorar os custos acumulados. Pouco importa o que você já investiu; a única coisa que conta é o agora e sua estimativa do futuro.

“Desistir de gastar não é desistir sonhar.”

Nota: texto publicado originalmente no portal WeGov. 

Publicado no Politize! em 27 de outubro de 2016.
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A WeGov é um espaço de aprendizado em governo, que dissemina a cultura de inovação no setor público. As ações da WeGov tem como premissas: empoderar os agentes públicos; iluminar ideias e ações que possam ser replicadas; aproximar os agentes públicos das três esferas e dos três poderes. Todas as quintas, novo post da WeGov no Politize!. Fique ligado!

André Tamura

André Tamura é Diretor Executivo da WeGov, empreendedor público, entusiasta da inovação em governo e das mudanças sociais. Desde que trabalhou como operário de fábrica no Japão, tem evitado as “linhas de produção”, de produtos, de serviços e de pessoas.