Você já ouviu falar no conceito de anomia social? Não? Pois não se preocupe, a Politize! te explica direitinho o significado de um dos temas mais importantes para a sociologia e ainda vai te ajudar a entendê-lo com exemplos do seu cotidiano!
O que é anomia social?
O conceito de anomia social é um importante marco na história das Ciências Sociais. Cunhado pelo sociólogo Émile Durkheim, comumente denominado como o pai da sociologia, anomia social nada mais é que um estado de enfraquecimento do laço social, momento em que normas e regras se tornam menos definidas e mais borradas, fazendo com que o indivíduo, imerso na sociedade, se sinta perdido ou desconectado daquela realidade.
Nesse caso, o suicídio ou a criminalidade – exemplos muito explorados na trajetória de Durkheim – são facetas da sociedade que justificam a anomia social, uma vez que os indivíduos circunscritos nessas esferas passam a agir fora de um “padrão social” estabelecido.
Mas vamos com calma.
Qual é a origem do termo?
A palavra anomia, na verdade, deriva do grego antigo, em que “a” funciona como um prefixo de negação e “nomos” significa lei ou norma. Daí, justamente, vem seu significado literal, que seria mais ou menos algo como “falta de norma” ou “falta de lei”.
Para Durkheim, era importante compreender a sociedade por meio dos fatos sociais. O sociólogo compreendia que os fatos sociais são as formas de ser e agir que a sociedade impõe aos indivíduos, exercendo sobre eles certa coerção em vias de corresponderem, da maneira corretamente estabelecida, com as normas da sociedade.
Se quiser saber mais detalhadamente sobre os fatos sociais, recomendamos esse texto: Política e fatos sociais: qual a relação?
Ou seja, padrões de comportamento, regras de etiqueta, regras de convivência, leis jurídicas, leis de parentalidade, hierarquia das posições sociais, todas exercem algum tipo de inferência no modo como se vive em sociedade, são instituições que cumprem funções organizacionais sob o modo como as pessoas vivem.
Desse modo, um fato social é algo ordinário, comum, e exerce determinada orientação para que os indivíduos em sociedade atuem de determinada forma.
Exemplo de fato social
A trajetória de Durkheim, e sua consagração como um dos sociólogos mais importantes da história foram marcadas significativamente por sua obra O Suicídio, de 1897.
Nela, Durkheim abordou o suicídio como um fenômeno social, distanciando-se das explicações psicológicas e biológicas.
Entendendo como um fato social, o sociólogo recrutou uma série de dados em jornais e obituários, visando mapear as causas e influências nas taxas de suicídio daquela época.
Dessa forma, constatou-se que o ato de suicidar, por vezes, tinha a ver com o meio social, as expectativas e regras sociais que recaiam sobre os sujeitos.
No livro, Durkheim categorizou alguns tipos de suicídio: o egoísta e o altruísta, esses em um nível mais pessoalizado, e o anômico e o fatalista, esses em esfera mais social.
Cada um condiz com um grau de estreitamento social com a sociedade, ou seja, cada um corresponde a um nível de laço social. Por exemplo: o egoísta diz respeito a um indivíduo pouco vinculado à sociedade, como as pessoas solteiras, enquanto o altruísta seria um agente muito vinculado, por exemplo, os kamikazes servindo a um Estado em situação de guerra.

O suicídio fatalista, para Durkheim, seria aquele que poderia ocorrer em sociedades autoritárias, ou regimes escravagistas, por exemplo, situações em que a sociedade sufocaria o indivíduo, retirando-lhe as possibilidades de vivência livre.
Por fim, temos o suicídio anômico, que diz respeito, justamente, ao estado de anomia tratado aqui no texto. Este tipo seria condizente com as pessoas que se veem desvinculadas da sociedade por razões não diretamente ligadas às suas vidas pessoais, mas às situações macrossociais, como grandes crises econômicas ou políticas, gerando instabilidade social e financeira, fazendo com que a vida em sociedade não seja próspera.
Outras vertentes da anomia social
Outro influente sociólogo que trabalhou com o conceito de anomia foi Robert Merton. Merton, inclusive, deu sequência ao trabalho de Durkheim, dando maior enfoque, contudo, ao aspecto cultural do conceito.
Uma vez que Durkheim não esclareceu a separação entre uma suposta estrutura social e uma estrutura cultural, Merton (1968) ressalta que a anomia funciona como uma ruptura na estrutura cultural, rompendo com normas e objetivos culturais inseridos numa conformidade socialmente estruturada pela sociedade.
Dessa forma, Merton expandiu as classificações do que pode ser considerado normal e o que não é normal dentro de uma sociedade.
Nesse caso, o autor foi um expoente importante da sociologia da violência, estudando e aplicando seus modelos de anomia dentro de variados espectros da criminalidade – que configura, por sua vez, como um exemplo de estado anômico da sociedade.
Um de seus principais exemplos é a criminalidade. Merton conceituou o crime como um padrão moralmente comum dentro da sociedade, uma vez que o criminoso, conformando-se dentro de uma certa anomia, rompe com a estrutura cultural, mas se encaixa dentro de uma estrutura social que produz a criminalidade como efeito colateral de outras condições da vida, dada a fragilidade existente em meio aos laços sociais constituídos.

E aí, restou alguma dúvida ainda sobre o conceito de anomia social? Conte pra gente nos comentários!
Referências:
- DURKHEIM, Émile. Fato social e divisão do trabalho. Apresentação e comentários de Ricardo Musse. São Paulo: Ática, 2007.
- DURKHEIM, Émile. O suicídio. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
- MERTON, R. K. Sociologia: teoria e estrutura. São Paulo: Mestre Jou, 1968.
- SELL, Carlos Eduardo. Sociologia clássica: Durkheim, Weber e Marx. Itajaí. Santa Catarina. 2001.

