Em uma era marcada por avanços tecnológicos como foguetes espaciais e inteligência artificial, seria esperado que as relações entre países se orientassem mais pelo diálogo. No entanto, elas ainda são fortemente definidas pelo uso do poder, uma tática de coerção amplamente utilizada há séculos. Essa contradição é um claro exemplo da permanência de práticas associadas ao imperialismo, e ajuda a explicar a criação de uma reação a ela: o anti-imperialismo.
Esse conceito tem como base a autodeterminação das nações e se tornou uma ferramenta fundamental para compreender os diversos debates socioeconômicos internacionais presentes na atualidade.
Ao longo da história, esse conceito esteve presente em diferentes movimentos, discursos e interpretações políticas.
Leia também: Imperialismo: o que é, causas e características
O que é o anti-imperialismo?
O anti-imperialismo é mais do que uma simples oposição ao imperialismo. Esse conceito é baseado em uma corrente de pensamento que critica qualquer maneira de dominação entre países no organismo global.
Nesse sentido, o anti-imperialismo é fundamentado no conflito contra a desaprovação da soberania e da autodeterminação dos povos, evidenciada pelo controle social, político, econômico e militar ou pela homogeneização cultural.
Para realmente compreender o que é o anti-imperialismo, é necessário entender o conceito de imperialismo já que esse conceito tem sua base na expansão de países com alto poder político e influência sobre países com menor protagonismo internacional.
Dessa maneira, o anti-imperialismo construiu um novo olhar para as relações de poder e de domínio entre os países e para as assimetrias sociais que estão presentes nas relações internacionais.
Onde e quando nasceu o anti-imperialismo?
Essa oposição ao imperialismo não se formou em um único momento. Porém, na verdade, é reflexo direto de diversos fatores históricos que ocorreram em inúmeras partes do mundo.
Em meados do século XVIII, iniciou-se a Revolução Industrial. Esse movimento consolidou a ruptura com o modelo feudal e com o começo do estilo de vida urbano.

Com o avanço tecnológico, o advento das máquinas a vapor e dos teares, a industrialização criava um mercado consumidor em larga escala. Com isso, a nova forma de produção buscava novas fontes de matérias-primas. E os melhores lugares para achá-la eram os países tidos como “periféricos”.
Essa transformação representava uma mudança mais profunda: a sociedade estava trocando o mercantilismo (sistema econômico anterior ao capitalismo, fundamentado no comércio e na acumulação de ativos de reserva, como ouro e prata) pelo capitalismo.
Veja também nosso víde sobre como surgiu o capitalismo!
Veja também: A origem do sistema capitalista
Ao longo dos séculos XVIII e XIX, a industrialização reformulou a economia e a sociedade europeia. As fábricas exigiam enormes quantidades de insumos, como algodão, borracha e diversos metais, em escala sem precedentes. Para suprir essa condição, de materiais e de mercado consumidor, as grandes potências careciam de novos territórios.
Assim, nesse contexto, as potências da época “criaram” o neocolonialismo. O ápice deste conceito ocorreu com a Partilha da África, na Conferência de Berlim, entre 1884 e 1885. Essa conferência não tratou apenas da partilha da África, mas também definiu áreas de influência na Ásia.

Foi analisando esses acontecimentos de expansão e dominação que Vladimir Lênin publicou, em 1916, seu livro “Imperialismo, fase superior do capitalismo”. Para Lênin, o imperialismo simbolizava uma nova expressão do capitalismo, dominada por grandes corporações, bancos e indústrias, ou seja, o capital financeiro e pela dominação de nações e mercados pelo mundo.
E é por isso que o anti-imperialismo surge como uma resposta contra esse sistema de dominação descrito por Lênin. Mas, o que esse pensamento defende, afinal?
O que o anti-imperialismo defende e por que tantas pessoas apoiam essa causa?
Como explicado anteriormente, o anti-imperialismo é uma forma de garantir a soberania e autodeterminação dos povos, mas, obviamente, não é somente isso. De forma abrangente, ele é fundamentado em três grandes pilares, sendo:
Soberania nacional
De maneira resumida, a soberania é o fato de que um Estado possui sua autoridade máxima, dispondo dos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) organizados e autônomos, sem intervenção externa, seja por intermédio de intervenções militares, sanções políticas ou econômicas.
Esse ideal foi construído com bases ideológicas de Locke (1632-1704) e Rousseau (1712-1778), os quais foram os precursores da ideia de que é essencial existir uma relação entre governante e governado seja regulada por um Contrato Social.
Nessa perspectiva, a população confere o poder de seus líderes, que têm o dever de preservar o bem nacional. Caso os governantes usem esse poder em benefício próprio, os cidadãos detêm o direito de resistir.
Exatamente com essa base filosófica, de que o poder vem da população e o povo pode questioná-lo, foi nesse princípio que o anti-imperialismo se baseou.
Autodeterminação dos povos
Outro ponto crucial é o direito de uma nação escolher o seu próprio destino sociopolítico e cultural. Porém, difere-se da soberania na seguinte situação, a soberania é a autoridade máxima. Aqui é o direito de decidir como é exercida essa devida autoridade.
Entre infinitos exemplos, um merece atenção no qual esse direito foi tirado. Ele ocorreu na China, no século XIX, as chamadas Guerras do Ópio (1839-1842 e 1856-1860).
Esse episódio decorreu da pressão imposta pela Grã-Bretanha à China para que houvesse a abertura dos portos chineses ao comércio estrangeiro, contra a vontade do governo local, desrespeitando a autodeterminação do povo chinês.
Em decorrência desse acontecimento, ocorreu a assinatura do Tratado de Nanquim, em 1842, marcando o fim do primeiro conflito. Tal acordo baseava-se em concessões extremamente desiguais, como o pagamento de uma multa aos britânicos, a cessão de Hong Kong, aberturas de portos, entre outras medidas.
Esse exemplo demonstra que a dominação não se limita somente à política ou ao território, mas também é exercida pelo controle dos recursos e da economia, além do âmbito cultural.
Independência econômica
Essa busca por autonomia não fica só na esfera social, mas engloba a econômica. Por esse fator, o último pilar é a independência econômica. Uma das grandes maneiras de alcançar essa emancipação é por meio da criação de blocos regionais e alianças entre países.
Alguns exemplos dessas alianças são conhecidos, como o BRICS e o Mercosul, que promovem iniciativas relacionadas ao Sul Global. Esses organismos funcionam como uma contraproposta às entidades financeiras tradicionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), que detém a sua sede nos Estados Unidos, o que realça as atitudes imperialistas do Norte Global.

Para saber mais, leia: O que é a cúpula do BRICS?
Uma das principais estratégias do BRICS, por exemplo, para fortalecer a autonomia econômica de seus membros é a “desdolarização”, ou seja, o fomento de investimentos e financiamentos em moedas locais.
Não se trata da criação de uma moeda única, como o euro, mas sim do fortalecimento de moedas nacionais, como o real brasileiro, a rúpia indiana e o yuan chinês, assim, diminuindo a hegemonia de uma moeda.
São pensamentos e medidas iguais a essas que fazem com que diversas pessoas se autointitulam anti-imperialistas, por motivos e experiências sociais distintas, mas sempre com o mesmo objetivo, a garantia da soberania nacional e o direito à autodeterminação de sua cultura e de seu povo.
Quais são os intelectuais anti-imperialistas?
O anti-imperialismo é uma corrente ideológica diversa, pois existem intelectuais de várias áreas do conhecimento, da psicologia à política. Alguns exemplos são notáveis, como Frantz Fanon, Edward Said, José Martí, entre outros.
- Frantz Fanon (1925-1961) foi um psiquiatra e filósofo, que descreveu em suas principais obras como “Pele negra, máscaras brancas (1952)” e o “Os condenados da terra (1961)”. Tendo em vista como o colonialismo não enfraquece apenas “corpos”, assim como a mente, pois era preciso “descolonizar o inconsciente”. Essa análise foi insubstituível para estudar os efeitos psicológicos decorrentes da dominação derivada do colonialismo.
- Edward Said (1935-2003) foi um intelectual palestino-americano. Em sua obra mais influente, chamada, “Orientalismo (1978)”, apresentou como Ocidente possui uma imagem estereotipada do Oriente. Usufruindo dessa visão distorcida como justificativa para a dominação política-cultural. Para o autor, esse conceito funcionava como um instrumento de poder imperial, pelo uso de narrativas, as quais colocavam um lado mais civilizado que o outro, que precisava ser controlado.
- José Martí (1853-1895) foi um pensador latino-americano de maior sucesso no continente. Em sua obra, “Nossa América (Nuestra América – 1891)” ele abordou os iminentes perigos expansionistas dos Estados Unidos sobre os países latinos-americanos e alertou que o continente necessitava de uma unidade como forma de resistência. Para o autor, era vital que os povos latinos-americanos reconhecessem a sua identidade, em vez de imitarem o modelo norte americano e europeu. Além da crítica às elites locais, que rejeitavam suas raízes perante os interesses estrangeiros.
Existe uma intelectual brasileira que possui contribuições à ideologia anti-imperialista, que permanece sem receber o devido reconhecimento. Seu nome é Therezinha de Castro (1930-2000). Ela foi uma geógrafa e geopolítica notável, a qual teve contribuições relacionadas à soberania nacional. Em sua obra, “Geopolítica: princípios, meios e fins (1999)”, analisou e apresentou os riscos da internacionalização da Amazônia e defendeu a presença brasileira na Antártida e o papel estratégico do Atlântico Sul. A autora discute o papel central do Brasil nesse âmbito a partir de uma perspectiva ambientalista e da defesa dos recursos naturais.
Por fim, o que todos esses teóricos possuem em comum é o fato de buscarem formas de entender e preservar a própria identidade cultural, bem como de defender a soberania nacional e social.
O anti-imperialismo no século XXI
O debate sobre o imperialismo na contemporaneidade não é o mesmo do questionado no passado. Ele se reinventou e assumiu novas formas no mundo atual, entre elas:
- Teoria Centro-Periferia: é elaborada por intelectuais da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a Teoria Centro-Periferia argumenta que o mundo é separado entre um “centro” e uma “periferia”, o primeiro sendo o produtor da tecnologia e o outro o fornecedor de matérias-primas baratas. Assim, criando um ciclo vicioso de pobreza e uma relação desigual, fazendo com que os países “periféricos” fiquem dependentes das decisões econômicas das nações centrais.
- Imperialismo Digital: é um conceito amplamente discutido por países do Sul Global, como elaborado por Deivison Faustino, coautor do livro “Colonialismo Digital: por uma crítica hacker-fanoniana (2023)”. Ele alerta que a dependência excessiva em tecnologias estrangeiras é semelhante à velha dinâmica imperialista, onde os países ricos exploravam outros países em busca de insumos. Já na atualidade são dados que estão sendo extraídos, criando uma dependência tecnológica dos países “periféricos” em relação aos países “centrais”.
- Imperialismo Ecológico: é a forma como países industrializados do Norte Global usufruem de pautas ambientais para a continuação da dominação perante o Sul. Um exemplo é a Agenda 21, um documento elaborado na Rio-92, que estabeleceu compromissos mundiais para o desenvolvimento sustentável, considerando que países ricos oferecessem apoio financeiro e tecnológico aos mais pobres. Entretanto, como analisado pelo pesquisador Renán Vega Cantor, na realidade esses fatores, como os mercados de carbono, autorizam que o Norte Global continue poluindo, após adquirir créditos de países pobres. Isso fomenta a perpetuação do imperialismo, transforma o meio ambiente em um bem privatizado e promove a dependência ecológica do Sul Global.
Confira também: Você sabe o que é desenvolvimento sustentável?
Críticas e limites do conceito de anti-imperialismo
Apesar de sua relevância histórica e contemporânea, o conceito de anti-imperialismo não está isento de críticas e contradições. Diversos pensadores e correntes políticas apontam limites teóricos e práticos nessa forma de oposição à dominação entre países.
Uma das principais críticas direcionadas ao anti-imperialismo é a de que, com o tempo, o termo passou a ser utilizado de maneira tão ampla que perdeu parte de sua precisão analítica.
Ao classificar fenômenos tão distintos como a exploração colonial do século XIX, a dependência tecnológica contemporânea e as pautas ambientais sob o mesmo olhar conceitual, como ocorre nas discussões sobre imperialismo digital e ecológico, é possível que exista uma dissonância entre as especificidades deste conceito.
Outra crítica recorrente é o uso do discurso anti-imperialista por governos e lideranças que, internamente, reproduzem práticas autoritárias ou economicamente exploradoras. Nesses casos, a defesa da soberania nacional e da autodeterminação dos povos pode servir como justificativa para silenciar críticas internas ou para desviar a atenção de problemas domésticos.
O intelectual cubano José Martí já alertava para esse perigo ao destacar a necessidade de atenção não apenas às ameaças externas, mas também às elites locais que podem manipular esses discursos em benefício próprio.
O pensamento de Frantz Fanon também sugere uma crítica importante: o anti-imperialismo, quando pensado apenas como reação à dominação externa, pode negligenciar as complexidades internas das sociedades colonizadas. Para Fanon, a libertação não deveria ser apenas a expulsão do colonizador, mas também uma profunda transformação social e psicológica das populações oprimidas. Sem essa dimensão, o anti-imperialismo correria o risco de apenas substituir uma elite dominante estrangeira por uma elite local. Por fim, a busca pela independência econômica, que é um dos três pilares fundamentais do conceito, também enfrenta críticas práticas. Iniciativas como o BRICS e a desdolarização representam avanços importantes, mas será que elas realmente rompem com a lógica imperialista ou apenas criam novos centros de poder capazes de reproduzir dinâmicas semelhantes de dominação sobre países menores dentro desses blocos?
Essas críticas não invalidam o conceito de anti-imperialismo, mas ajudam a complexificá-lo, lembrando que a luta contra a dominação entre países deve estar acompanhada de uma reflexão constante sobre as contradições internas e os usos políticos do próprio termo.
E você, o que pensa sobre o anti-imperialismo? Deixe seu comentário e participe da discussão!
Referências
- Dicio – Significado de anti-imperialismo
- Relações Exteriores – Eric Hobsbawm e a revolução no ensino da história
- Movimento – O “Imperialismo” de Lênin: uma análise crítica dos argumentos econômicos – James Doughney
- Relações Exteriores – Orientalismo: o livro revolucionário de Edward Said explicado
- Universidade de Brasília – Revisitando autores da geopolítica brasileira: uma análise das publicações da Revista da Escola Superior de Guerra nos seus 40 anos de existência
- CASTRO, Therezinha de. Geopolítica: princípios, meios e fins. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1999.
- ANPUH – José Martí e o projeto identitário de Nuestra América: uma análise da construção de identidade americana – Lucas Machado dos Santos
- Universidade Metodista de São Paulo – Epistemologias de resistência: estratégias de enfrentamento da opressão colonial – Flávia Ribeiro Amaro
- Sankofa – Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana – Antirracismo, negritude e universalismo em Pele negra, máscaras brancas de Frantz Fanon – Gabriel dos Santos Rocha
- Brasil de Fato – Imperialismo digital: como IA e a captura de dados mantém o poder entre as grandes potências
- Digital Colonialism – Colonialismo Digital: considerações sobre uma dependência contemporânea – Mariana Campos Caldeira e Ramon Andreazza Clemente Mateo
- Misión Verdad – El imperialismo ecológico es uno de los motores de la crisis global
- Reuters – BRICS-backed bank plans first Indian rupee-denominated bond by end-March
- Agência Brasil – Dilma: Banco do BRICS terá 30% da carteira em moedas locais em 2026

