Caminhar foi a primeira atividade usada pelo Ser Humano para se locomover pelo mundo antes de utilizar animais, carroças, carros e outros meios de locomoção. Com o advento do automóvel particular, assim como pela forma que as grandes cidades foram projetadas, caminhar pelas ruas para atividades corriqueiras foi se tornando uma atividade pouco frequente. Mas você sabe quais são as consequências disso? Conhece a expressão “caminhabilidade”? 

Neste artigo, vamos aprofundar no tema e explicar o que é a caminhabilidade e a sua importância no contexto urbano!

O que é caminhabilidade?

O corretor ortográfico do computador não reconhece a palavra “Caminhabilidade” quando a escrevemos, mas ela existe e está sendo colocada em prática quem sabe aí perto de você. Mas, afinal, o que ela significa?  

Caminhabilidade, tradução para o termo em inglês Walkability, é de acordo com o ITDP (Instituto de Transportes de Políticas e Desenvolvimento)  “a medida em que as características do ambiente urbano favorecem a sua utilização para deslocamentos a pé”.

Para o urbanista Lincoln Paiva, a caminhabilidade é 

Uma metodologia que utiliza recursos quantitativos e qualitativos para avaliar como uma rua ou bairro pode se tornar convidativo, promovendo ambientes mais agradáveis e seguros com infraestrutura para facilitar a mobilidade a pé.

A caminhabilidade não está atrelada só em existir boas calçadas para o pedestre, mas passa por diversas questões, entre elas, as que estão ligadas a mobilidade onde é necessário que existam outros meios de transporte, além do carro, que facilitem e estimulem o caminhar – como, por exemplo, o transporte público e as bicicletas. Além disso, também entram na conta locais atrativos, segurança, boa iluminação, conforto ambiental, entre outros fatores.

Caminhabilidade é coisa de primeiro mundo! É isso que afirma Janette Sadik-khan, ex-secretária de transportes da cidade de Nova Iorque (2007-2013), que em sua gestão transformou quase um milhão de metros quadrados desta cidade de asfalto em áreas exclusivas para ciclistas e pedestres. Como diz a urbanista,

Acho que quando falamos dos próximos cinco, dez, quinze anos, é sobre celebrar essa vida na rua. Todos acham que veículos autônomos serão a próxima onda, mas um carro é um carro. Seja seu carro pessoal, Uber ou Lyft ou um veículo autônomo, ainda é um carro. E o propósito da mobilidade não é dar espaço para carros, mas fazer cidades melhores

Por que a caminhabilidade é importante?

A maioria das grandes cidades estão planejadas para servir mais ao automóvel particular do que para servir ao pedestre ou a outro tipo de transporte, como a bicicleta.

Com o aumento expressivo dos congestionamentos no trânsito, alta produção de carbono e tantos outros danos causados pelo carro, o questionamento sobre as formas que utilizamos para nos locomover cresceu no mundo todo. A ideia do carro particular como solução de mobilidade, por exemplo, passou a ser questionado por muitos estudiosos, entre eles os urbanistas como, por exemplo, Jean Gehl e Jeff Speck, ambos especializados em projetar cidades voltadas para a escala humana como prioridade.

O arquiteto Jean Gehl, com mais de 50 anos de carreira, destaca-se em projetos para que diversas cidades do mundo tenham mais qualidade de vida urbana. Para ele, o planejamento urbano deve priorizar pedestres, ciclistas e a ocupação de espaços públicos. Seu trabalho contribuiu para que Copenhague (Dinamarca) se tornasse referência no mundo como uma das cidades mais agradáveis para se viver, por exemplo. Nesta cidade, o principal meio transporte é a bicicleta – é necessário dizer que este transporte já era bastante utilizado pelos seus cidadãos, porém o aumento das ciclofaixas estimulou mais ainda o uso deste meio de transporte. Copenhague não é só uma cidade com espaço para as bicicletas, mas é uma cidade caminhável que prioriza a escala humana.

É necessário entender que a transformação na mobilidade das grandes cidades é algo que já está acontecendo e que o desencorajamento do uso (e consequentemente a compra) do automóvel é um caminho sem volta. O veículo particular vem deixando de ser solução para tornar-se um problema a ser eliminado nas grandes cidades em todo o mundo. Hoje, tanto urbanistas como gestores públicos, entendem que o carro tem tomado um espaço absurdo nas ruas, seja com a construção de estacionamentos ou mesmo utilizando o mobiliário público para estacionar – ou seja, espaços na cidade que devem ser disponibilizados para TODOS e não apenas para veículos.

As cidades antes projetadas para os carros caminham para tornarem-se cidades projetadas para pessoas. Afinal, mobilidade não se trata em termos carros mais rápidos e sim fazer cidades melhores onde todos possam chegar aos seus destinos com diversas opções de locomoção.

Dentro desse contexto, a caminhabilidade é fator essencial, já que os outros meios de transporte, como, por exemplo, a bicicleta, o patinete e o transporte público nos incentivam a caminhar mais pelas ruas. Em contrapartida, também é necessário que os espaços possuam maior conforto ambiental e sejam mais seguro  – com calçadas livres e adaptadas a quem possui necessidades especiais, sinalizações, entre outros fatores, por exemplo – para podermos estimular as pessoas a caminharem mais pelas ruas. 

LEIA TAMBÉM: Como melhorar a mobilidade urbana? Alternativas

Nova York, um case de sucesso em caminhabilidade 

A cidade de Nova York possui um case de sucesso amplamente conhecido sobre parte de suas ruas que antes eram voltadas prioritariamente para os automóveis.

Na gestão do prefeito Michael Bloomberg, a então comissária do departamento de transportes de Nova York, Janette Sadlk-Khan, após fazer um estudo para entender melhor como as pessoas usavam as ruas na cidade, conseguiu tornar alguns locais prioritários para pedestres.

Assim, sem grandes intervenções, Janette e sua equipe trasnformaram alguns locais das ruas de Nova York em pocket parks (pequenos parques), sinalizando-os com tinta, informando aos carros que sua passagem por ali não era mais permitida. Além da sinalização e pintura do ambiente, a equipe incluiu mesas e cadeiras de plástico e vasos de plantas para que o espaço se tornasse convidativo à permanência dos pedestres. 

Sobre estas intervenções, Janette afirma

Assim, aquele espaço passou de um lugar onde as pessoas estacionavam seus carros para um local sinônimo de relaxamento. Um dos efeitos foi perceber que funcionários dos edifícios comerciais do bairro passaram a comprar  gradualmente suas refeições nos cafés locais e nos food trucks ao redor, comendo- as nas mesas ali instaladas, abrigadas sob os guarda-sóis da praça. Foi uma transformação bastante rápida – ocorreu em apenas algumas semanas – tendo sido facilmente aceita e integrada ao dia a dia do bairro.

Após esta primeira intervenção citada, diversas ruas e avenidas da cidade também foram reformuladas, recebendo novas ciclovias e espaços públicos. Os projetos de Janette foram concentrados em diminuir o uso do automóvel e incentivar o caminhar e o uso da bicicleta. Para isto, ela fechou algumas ruas para carros, reformou calçadas e praças e criou uma rede de ciclovias com mais de 500 quilômetros de extensão.

E no Brasil ?

No Brasil, as gestões municipais também estão repensando as formas de mobilidade da cidade. Em Recife, por exemplo, a prefeitura vem compreendendo a necessidade de uma cidade caminhável e vem trabalhando em projetos como o Calçada legal. O projeto visa requalificar 134 quilômetros de calçadas e 56 mil metros quadrados em várias partes da cidade, além da Avenida Conde Boa Vista (uma das principais avenidas da cidade).

Apesar disto, vale dizer que o Governo do Estado de Pernambuco ainda caminha a passos lentos neste assunto, principalmente, quando avaliamos o serviço de transporte público que não encoraja aqueles que possuem outras formas de se locomover a utilizá-lo.

REFERÊNCIAS

ITDP Brasil. Índice de Caminhabilidade Versão 2.0 (Ferramenta), 2019

Cidades de pedestres : A caminhabilidade no Brasil e no mundo, Victor Andrade & Clarisse Cunha Linke.

PAIVA, Lincoln. Urbanismo Caminhável: a caminhabilidade como prática para a construção de lugares.

SADIK-KHAN, Janette. (Entrevista concedida a João Melhado) Site Caos Planejado. Carros vs. Pedestres: Entrevista exclusiva com Janette Sadik-khan. Jan/2020.

SPECK, Jeff. Cidade Caminhável. 1ª Ed. Editora  Perspectiva,2017.

SOARES, Roberta. Investimento pela mobilidade a pé no Recife


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1 comentário

  1. TATIANA CRISTINA DA SILVA CHAVES em 4 de agosto de 2021 às 10:59 pm

    Perfeito, adorei, mt esclarecedor e enrequecedor sobre o assunto. Parabéns!

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