Educação Sexual: o que é e como funciona em outros países?

Educação - Fonte: Pixabay

Com a nova série da Netflix, Sex Education, muito tem se falado sobre educação sexual. O tema também bastante comentado durante as Eleições presidenciais de 2018, em função da polêmica do “kit gay” . Embora o suposto kit não existisse, a história demonstrou que a educação sexual é, ainda, um tema cercado por tabus.

Neste post, o Politize! esclarece algumas questões fundamentais relacionadas ao tema.

O QUE É E QUAL O OBJETIVO DA EDUCAÇÃO SEXUAL?

Educação sexual é um termo utilizado para se referir ao processo que busca proporcionar conhecimento e esclarecer dúvidas sobre temas relacionados à sexualidade. Por sexualidade entende-se o conjunto de comportamentos relacionados ao desejo sexual.

Este processo de educação sobre sexualidade tem sua importância relacionada à prevenção de diversas situações indesejadas, como doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), gravidez na adolescência e experiências sexuais traumáticas.

Educação sobre sexualidade como um programa de ensino nas escolas é, muitas vezes, chamado de orientação sexual – o que pode causar confusão com a ideia de preferência sexual de cada indivíduo. Em função disso, neste post utilizaremos o termo educação sexual para tratar, especificamente, do programa adotado em escolas.

A Organização das Nações Unidas (ONU) considera que a educação sexual está relacionada à promoção de direitos humanos – direitos das crianças e jovens e o direito que toda pessoa tem à saúde, educação, informação e não discriminação. Por essa razão, a ONU é favorável a implementação de um currículo para educação sexual nas escolas:

“Educação sexual é um programa de ensino sobre os aspectos cognitivos, emocionais, físicos e sociais da sexualidade. Seu objetivo é equipar crianças e jovens com o conhecimento, habilidades, atitudes e valores que os empoderem para: vivenciar sua saúde, bem estar e dignidade; desenvolver relacionamentos sociais e sexuais respeitosos; considerar como suas escolhas afetam o bem estar próprio e dos outros; entender e garantir a proteção de seus direitos ao longo da vida.” (UNAIDS, Guia técnico para educação sexual)

Veja o que mais a ONU diz sobre a educação sexual em escolas, no vídeo abaixo:

O PAPEL DA ESCOLA NISSO TUDO

Mas, afinal, a escola tem algo a ver com essa história? Essa é uma questão que divide opiniões.

Os argumentos dos favoráveis à educação sexual

Os defensores da aplicação de programas de educação sexual nas escolas entendem que educadores e instituições de ensino não só devem falar sobre o assunto como também estão inevitavelmente ligados ao tema.

Eles argumentam que a escola deve tratar do assunto por que:

  • criação de hábitos saudáveis e noções de cuidado com a saúde devem ser incentivadas desde a infância. Por isso a importância da educação sexual nas escolas, pois ela está relacionada a questões que afetam a saúde reprodutiva, sexual ou mental de jovens (gravidez, aborto, HIV/AIDS, casamento infantil, violência sexual).
  • A conversa sobre educação sexual nem sempre acontece em casa. Muitos jovens não recebem instruções importantes para prevenção de DSTs e gravidez. Por isso a escola deveria oferecer as informações necessárias.
  • Sexualidade é parte da vida humana. A defesa da abordagem da educação sexual nas escolas também parte do entendimento de que a sexualidade é parte natural da vida humana e de nossa vivência social. Logo, não haveria razão para a exclusão do tema dos ambientes de ensino. Além disso, a educação para a sexualidade ajuda jovens a compreender e lidar melhor com experiências naturais como puberdade, menstruação e virgindade.
  • Há uma necessidade de direcionar o assunto. Desde gestos de conotação sexual e brincadeiras entre si até o início de relacionamentos afetivos, são situações frequentemente observadas no ambiente escolar. É por isso que especialistas da saúde e da educação entendem que a escola deve direcionar o assunto, com uma abordagem educativa.

A visão de quem se opõe

Por outro lado, há quem defenda que educação sexual não é um assunto apropriado para o ambiente escolar. Essas pessoas acreditam que:

  • Sexualidade é assunto da família. A escola não deve tratar de temas relacionados à sexualidade por não haver um consenso com relação ao assunto. A forma como a sexualidade é enxergada e tratada diverge entre pessoas de diferentes culturas, vivências e crenças. Por isso, cabe à família, e não à escola, educar a criança sobre o assunto da forma que julgar mais adequada. O próprio Presidente da República, Jair Bolsonaro, é adepto dessa linha de pensamento, conforme afirmou em entrevista.
  • A escola exerce influência sobre a sexualidade do jovem. Os educadores podem transmitir para os alunos seus próprios valores, crenças ou preferência sexual. Isso pode, inclusive, afetar a orientação sexual de crianças e jovens ou incentivá-los a ter relações sexuais.
  • Erotização infantil. De acordo com Damares Alves, Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, essa é a maior preocupação do governo. A Ministra, bem como o atual presidente, acreditam que crianças não devem ser expostas a imagens de genitálias e outras consideradas eróticas.

COMO APLICAR EDUCAÇÃO SEXUAL NAS ESCOLAS? 

Também no que diz respeito ao currículo de educação para a sexualidade não há um consenso.

A Organização das Nações Unidas oferece instruções de como desenvolver e aplicar um currículo para o tema:

  • No processo de criação de um programa para educação sexual em escolas deve haver a participação de especialistas em saúde, afinal, trata-se de uma ciência.
  • Devem ser considerados outros aspectos importantes da sexualidade para além da saúde, como questões de gênero e diversidade, com o objetivo de promover respeito na sociedade.

  • Jovens e pais devem ter participação no processo de criação do programa – pois é fundamental que o currículo de educação sexual seja orientado pelas necessidades dos jovens e das famílias.

  • As aulas devem oferecer informações científicas sobre doenças sexualmente transmissíveis e gravidez.

  • Os temas devem ser tratados em sequência lógica: consenso e prevenção devem ser abordados antes das instruções sobre a atividade sexual.

  • Oferecer informações sobre os serviços de saúde disponíveis na comunidade e como acessá-los.

  • A educação sexual pode ser abordada em uma disciplina específica ou de forma transversal, dentro de outras disciplinas.

Entretanto, essas instruções não são aceitas pela totalidade de pessoas que concorda com a aplicação de educação sexual em escolas. Para algumas pessoas, os educadores devem se restringir a proporcionar apenas as informações mais relacionadas à saúde, como prevenção de DSTs e de gravidez na adolescência, sem abordar tópicos como gênero, orientação sexual e consentimento.

DE ESTADOS UNIDOS À CHINA: COMO OUTROS PAÍSES TRATAM DO TEMA? 

Ao redor do mundo, a educação sexual recebe tratamentos diversos: nos países mais liberais da Europa o tema é considerado completamente natural e necessário, já em alguns países Islâmicos do Oriente o assunto é proibido.

Na Europa, os Estados geralmente estabelecem algumas instruções básicas sobre pautas relacionadas ao tema que devem ser tratadas nas escolas. Mas as abordagens de educação sexual diferem entre as unidades federativas e até mesmo entre escolas. A média de idade para o início da aplicação de currículos de educação sexual é entre 11 e 13 anos, e geralmente adota-se uma abordagem transversal: ou seja, não é ministrada uma disciplina específica de educação sexual, invés disso o tema é abordado dentro de outras disciplinas. No contexto europeu o tema é majoritariamente abordado nas aulas de biologia e, eventualmente, em alguma outra disciplina.

Vejamos alguns exemplos de como a educação sexual é abordada ao redor do mundo:

Holanda

O país entende a sexualidade como algo completamente natural e saudável, e aplicação de programas de educação sexual é compulsória em todo o país. O tema é tratado desde os quatro anos de idade, porém com abordagens diferenciadas de acordo com a faixa etária. O programa de educação sexual do país foca em construção de respeito pelo corpo e sexualidade próprios e dos outros, e inclui lições sobre consenso, DSTs e prazer. A taxa do país de gravidez na adolescência no país está entre as mais baixas do mundo.

Outros países que também adotam educação sexual compulsória nas escolas são Bélgica, Nova Zelândia, Inglaterra e Escócia.

Estados Unidos

A educação sexual tem apoio de mais de 90% dos pais nos Estados Unidos, mas as regras para aplicação nos currículos escolares variam entre os Estados. Em quase metade dos Estados não é obrigatório instruir jovens sobre prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Além disso, estudos realizados no país apontam que aproximadamente metade dos adolescentes afirmam não terem recebido instruções sobre preservativos e contraceptivos antes da primeira relação sexual.

China e Índia

A China apresenta um quadro controverso apesar de ter taxas crescentes de doenças sexualmente transmissíveis, programas de educação sexual são quase ausentes. As escolas não oferecem instruções sobre prevenção de DSTs, mas as Universidades fornecem testes de HIV – devido a alta incidência da doença no país.

Assim como na China, a Índia também não incentiva a adoção de programas de educação sexual. No entanto, o currículo de educação sexual desenvolvido no país é considerado o melhor do mundo – o problema é que ele quase não é adotado nas escolas indianas.

Como você pode ver, o tratamento que a educação sexual recebe varia muito ao redor do mundo.

O CENÁRIO DA EDUCAÇÃO SEXUAL NO BRASIL

O caso do Brasil é semelhante ao dos Estados Unidos. Aqui, a aplicação de um programa de educação sexual também não é compulsória aos currículos escolares.

As diretrizes para a educação no Brasil estão contidas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), desenvolvida pelo Ministério da Educação (MEC). A BNCC serve para nortear os currículos das redes de ensino em todo o Brasil, ela estabelece uma base de temas que devem ser tratados na educação. Não consta na Base Nacional um currículo para educação sexual (ou orientação sexual, termo que costuma ser usado no Brasil).

Nos últimos governos, o Ministério da Educação adotou uma posição de incentivar, mas não obrigar, a aplicação de programas de educação sexual nas escolas. No Brasil o assunto vem sendo tratado de forma transversal, ou seja, é sugerido que o tema seja abordado dentro de outras disciplinas.

Desde 2007, os Ministérios da Educação e da Saúde atuam em conjunto por meio do Programa Saúde na Escola para instruir jovens sobre prevenção e promoção de saúde. O programa dá instruções relacionadas ao uso de drogas e a sexualidade. Em fevereiro de 2019, os ministérios assinaram uma carta de compromisso para prevenção da gravidez na adolescência, que pretende atualizar o Programa Saúde na Escola.

Apesar desse avanço na direção de maior promoção da educação sexual, são recorrentes projetos de lei pela proibição do assunto no ambiente escolar. O projeto do Programa Escola sem Partido (EsP) é o exemplo mais notório. O programa defende que aspectos relacionados à educação moral, religiosa e sexual devem ser tratados apenas no âmbito privado (na família), e não devem ser abordados no ambiente escolar.

Confira nossos textos sobre o Escola sem Partido

Conforme mencionado anteriormente, o Presidente da República, Jair Bolsonaro, já deu declarações contrárias à educação sexual. Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro fez declarações sobre um “kit gay” supostamente distribuído em escolas públicas. Mais recentemente, o presidente também afirmou que “Educação sexual tem que ser feita por pai e mãe.” e ainda incentivou que pais rasgassem cartilhas de educação sexual.

DADOS E RESULTADOS: EDUCAÇÃO SEXUAL FUNCIONA?

A UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) realizou uma série de estudos sobre os efeitos da educação sexual: foram 87 estudos ao redor do mundo em 2008 e 99 em 2016. A Organização apresenta os resultados dos estudos, e também instruções para programas de educação sexual, em seu Guia internacional sobre educação sexual (International technical guidance of sexuality education). A partir dos resultados, a UNESCO averiguou que estes programas contribuem para:

  • Que a iniciação das atividades sexuais ocorram mais tarde;

  • Redução da frequência da atividade sexual entre jovens;

  • Redução de relações arriscadas;

  • Aumento do uso de preservativos;

  • Aumento no uso de contraceptivos.

  • Maior conhecimento sobre gravidez e doenças sexualmente transmissíveis (DSTs);

  • Prevenção, de baixo custo, do HIV.

Entretanto, esses estudos analisam indicadores mensuráveis, os efeitos mais indiretos da educação sexual são mais difíceis de observar.

Especialistas do tema acreditam que estes programas também contribuem para melhorias na saúde a longo prazo, para redução da violência doméstica e da discriminação e para promoção da igualdade de gênero.

Por outro lado, há setores da sociedade receosos de que a educação sexual exerça uma influência negativa sobre crianças e jovens, expondo-os a sexualização precoce ou incentivando determinados comportamentos sexuais.

Como você pode ver, educação sexual é um tema frequentemente discutido em todo o mundo! Qual a sua opinião sobre o assunto? Conta pra gente nos comentários! 🙂

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Aviso: mande um e-mail para contato@politize.com.br se os anúncios do portal estão te atrapalhando na experiência de educação política. 🙂

Publicado em 14 de março de 2019.

 

Isabela Moraes

Assessora de conteúdo no Politize! e graduanda de Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Quer ajudar a descomplicar a política e aproximá-la das pessoas, incentivando a participação democrática.

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