Empoderamento: o que significa esse termo?

Empoderamento

E se todos nós tivéssemos plena certeza das causas que defendemos, argumentando de maneira clara nossos pontos de vista e sustentando nossas ideias fundamentadas em resultados sérios obtidos de trabalhos importantes, passando uma imagem forte da pessoa que somos? Alguns diriam que somos “empoderados”. Você já deve ter ouvido falar na palavra empoderamento, ou no mínimo, já conviveu com pessoas consideradas empoderadas, ainda que não tenha notado ou ligado-as a esse termo. Mas o que significa ser uma pessoa empoderada? Neste post vamos discutir esse conceito!

Definindo empoderamento

Muito em alta nos último tempos, o termo empoderamento é definido pelo dicionário Aurelio como:

Ação de se tornar poderoso, de passar a possuir poder, autoridade, domínio sobre; exemplo: processo de empoderamento das classes desfavorecidas.” O dicionário vai além, oferecendo uma extensão deste conceito, caracterizando-o como gíria: “Passar a ter domínio sobre a sua própria vida; ser capaz de tomar decisões sobre o que lhe diz respeito, exemplo: empoderamento das mulheres.

Não é difícil ligarmos o termo empoderamento às mulheres, mas veremos que as causas femininas não são as únicas a encaixar-se neste termo.

Empoderamento feminino

Empoderamento

Malala, em visita ao Rio de Janeiro, ao lado da imagem de Marielle Franco.

Por anos, as mulheres são taxadas de sexo frágil ou como aquelas que devem ser protegidas. O machismo existente durante toda a história trouxe diversas consequências como a cultura do estupro que, muitas vezes, descredibiliza as vítimas e defende os agressores. Esse tipo de situação e pensamento ainda perdura nos dias atuais, mas vem, pouco a pouco, sendo combatido. 

Antes de mais nada, vale lembrar que “empoderamento feminino” e “feminismo” podem estar ligados, mas são coisas distintas. Feminismo é uma doutrina ideológica que defende a igualdade de direitos entre gêneros em diversos aspectos – social, cultural e politicamente -, com estudos e bases teóricas. Já o empoderamento feminino está ligado a uma consciência coletiva por parte das mulheres e é constituído de ações tomadas por mulheres que não se deixam ser inferiorizadas pelo seu gênero e tomam atitudes que vão contra o machismo imposto pela sociedade. 

Por vezes, algumas mulheres agem de maneira empoderada mesmo sem saber da ideologia feminista. No entanto, ambos traçam um caminho cujo ponto final é o fortalecimento da igualdade entre os gêneros.

Direitos e respeito

Apesar disso, muitas mulheres ainda vivem sob um regime de discriminação, que repercute em, por exemplo, não lhes serem concedidos diversos tipos de direitos. Em 2017, a BBC News expôs algumas atividades que mulheres sauditas não podem fazer sem o consentimento de seus maridos ou tutores masculinos. Entre eles estão coisas simples para nós, ocidentais, como abrir uma conta no banco ou simplesmente fazer uma viagem. Estudar, para muitas mulheres, é uma conquista gigantesca, perto dos padrões sociais que estão acostumadas a viver.

No ano de 2009, mais precisamente no dia 15 de janeiro, o Talibã, movimento fundamentalista islâmico nacionalista difundido no Paquistão, proibiu mais de 50 mil garotas de frequentarem qualquer instituição de ensino. As mulheres não teriam mais o direito de estudar, tendo em vista que suas funções deveriam ser estritamente domésticas.

Malala Yousafzai, então com 11 anos de idade, tinha o sonho de crescer e tornar-se médica. O jornal americano The New York Times publicou um documentário contando a história da garota, que não se calou frente a essa proibição. Alguns anos mais tarde, a menina seria atingida com um tiro na cabeça enquanto voltava da escola, em represália por sua resistência. Malala sobreviveu e, após sua historia correr o mundo, a menina tornou-se a pessoa mais jovem a receber o prêmio Nobel da Paz, com apenas 17 anos de idade. Malala é uma mulher empoderada, e histórias como a dela podem ser vistas em vários países – a diferença é que nem sempre tem repercussão ou um final feliz.

Mas não pense que é só em países de cultura oriental, distante de nós, que o empoderamento feminino se faz necessário como um forma de luta à desigualdade de gênero. No Brasil e em países ocidentais ainda há muito machismo e desigualdade de gênero. Basta verificar os dados de diferença salarial, representação política, participação no mercado de trabalho, entre outros. Segundo a Central Única dos Trabalhadores, as mulheres brasileiras estudam mais, mas, ao mesmo tempo, possuem um salário menor e se ocupam mais com as tarefas domésticas do que os homens.

Para que serve o empoderamento feminino?

O empoderamento feminino contribui para que as mulheres tenham o direito de participar ativamente dos mais diversos tipos de debates, tomando decisões que influenciarão no futuro de sua região, país, ou sociedade como um todo.

Estamos acostumados a ler fatos sobre mulheres da história que lutaram bravamente em revoluções como Anita Garibaldi, Joana Darc, Jacqueline Cochran, Maria Quitéria e outras. Essas mulheres possuem um papel fundamental na história, mas não podemos nos esquecer de outras mulheres que tiveram suas lutas, não com uma espada ou arma de fogo, mas às vezes, com uma simples pena de escrever. Nísia Floresta, por exemplo, era uma mulher à frente de seu tempo, publicando em 1832 o livro “Direito das mulheres e injustiças dos homens”, considerada a primeira obra brasileira a tratar do direito feminino ao estudo e ao trabalho digno. Narcisa Amália, foi a primeira mulher a se profissionalizar como jornalista, e procurava combater tanto a opressão contra a mulher, quanto o regime escravista. 

Maria Amélia de Queiróz foi outra mulher que lutou pela abolição da escravatura, redigindo incontáveis colunas em jornais defendendo o direito à liberdade. Mulheres como elas tiveram a oportunidade de deixar sua marca registrada, defendendo suas convicções e lutando para serem ouvidas em meio a uma sociedade que pregava como padrão uma mulher silenciosa e obediente.

Empoderamento LGBTQ+

Dentro do segmento LGBTQ+, podemos pressupor que pessoas transsexuais sofrem com um preconceito particularmente mais intenso. Seja pelo modo de agir ou por suas lutas, essas pessoas precisam mostrar, todos os dias, que podem ser aquilo que desejam independente de sua condição ou do corpo que nasceram. No dia 22 de março de 2018, uma grande conquista foi alcançada pelas pessoas transsexuais. Nesta data, o Plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) autorizou a emissão de títulos eleitorais com o nome social, que é, basicamente, o nome pelo qual as pessoas de determinados gêneros preferem ser chamadas no seu dia a dia, diferenciando do nome oficialmente registrado no nascimento. Este fato eliminou o desconforto de transsexuais, travestis e transgêneros na hora de apresentar seu título no dia da votação.

Nas últimas olimpíadas realizadas na cidade do Rio de Janeiro, atletas assumidamente LGBTQ+ conquistaram um total de 14 medalhas sendo uma dessas conquistada pela brasileira Rafaela Silva no judô. Nascida e criada na Cidade de Deus (RJ), Rafaela precisou ser forte diante de vários preconceitos enfrentados. Mulher, negra, lésbica e pobre, a jovem encontrou no esporte a chance de tornar-se uma campeã. Hoje, a judoca luta não apenas nos tatames, mas também em suas redes sociais e televisão. Combatendo o preconceito, ela mostra um exemplo de força que as minorias ainda precisam ter.

No ambiente de trabalho, segundo o jornal Estadão, 61% dos profissionais LGBTQ+ escondem sua condição sexual com medo de preconceito ou represália. As políticas de inclusão nas empresas e indústrias possuem um papel fundamental no âmbito da aceitação e compreensão das diferenças sexuais dentro do próprio ambiente de trabalho. Além disso, campanhas de alcance nacional e internacional e produtos diretamente voltados à comunidade têm ajudado na autoaceitação e no processo de empoderamento dessas pessoas que ainda vivem em uma sociedade com valores e crenças heteronormativas.

Líderes LGBTQ+ também parecem escassos diante das indústrias que temos conhecimento. Tim Cook, presidente da Apple, por exemplo, é abertamente gay e afirma ter orgulho disso. “Por anos, eu tenho sido aberto com muitas pessoas sobre a minha orientação sexual. Muitos colegas na Apple sabem que eu sou gay, e isso não parece fazer diferença no modo como eles me tratam”, esclareceu ele em um artigo publicado no site da revista “Bloomberg Businessweek”. Segundo Ramon Jubels, Líder de LGBT+ Voices da KPMG no Brasil, a grande barreira que grandes líderes LGBTQ+ encontram é o preconceito como um todo. A violência contra comunidade ainda é muito grande e, por isso, muitos ainda se sentem inseguros e desconfortáveis para assumir sua sexualidade.

Empoderamento negro

As diversas culturas dos países do continente americano, em especial o Brasil, são resultados dos diferentes tipos de povos que, por diversos motivos, migraram para essa região durante o decorrer da história. Segundo o IBGE, o Brasil foi o país que recebeu a maior quantidade de negros escravizados da África. Esse título não traz nenhum orgulho quando analisamos ao que eram submetidos os escravos, trazidos de regiões como o Golfo de Benim e África Centro-Oriental. Forçados a trabalhar sob condições sub-humanas, os escravos eram submetidos aos mais diversos tipos de humilhações, que apontavam desde xingamentos e zombarias, até castigos físicos e por vezes a morte. Esta situação perdurou por, pelo menos três séculos, até por fim ser assinada a abolição da escravatura. O problema é que, mesmo com a escravidão sendo abolida, a cultura do racismo implantada e sustentada por tantos anos continua trazendo consequências até os dias atuais. 

Expressões como “não sou tuas negas”, “serviço de preto”, “tem o pé na senzala”, “cabelo ruim” e muitas outras ainda estão presentes no vocabulário de muitas pessoas. Essas expressões, por vezes em tom de piadas, normatizam aquilo que precisa ser combatido, o racismo institucionalizado

O cabelo crespo, alvo de críticas durante tantos anos, tornou-se uma bandeira de orgulho e empoderamento de pessoas negras. Vale salientar que uma pessoa negra não é proibida de alisar seu cabelo para ser empoderada, isso não impede dela se conscientizar e ter ideia do seu poder na sociedade, porém o orgulho do cabelo afro natural trouxe a tona uma nova identidade de auto-aceitação, que antes não era muito comum. A atriz Taís Araújo, foi uma das famosas que aderiram à chamada transição capilar (transição de um cabelo alisado quimicamente para um cabelo naturalmente cacheado), a fim de assumir sua identidade. Em um post no Facebook, a atriz empoderou-se e justificou sua decisão incentivando e aconselhando quem deseja fazer o mesmo: 

“Decidi compartilhar um pouco da minha história com vocês para que saibam que vale a pena esperar, que é difícil sim, mas é tão legal a gente se olhar no espelho e se reconhecer como realmente é e gostarmos de ser como somos. Mudar é legal também, vale tudo, só não vale ser quem você não é! Lisa, cacheada, crespa, careca… não importa! Seja quem você é e sinta-se bem como você quiser.”

No ano de 2016, o Victoria’s Secret Fashion Show, um dos eventos mais famosos no mundo da moda, abriu espaço para a diversidade. Conhecido por suas modelos com traços europeus, o evento apresentou em Paris as topmodels Maria Borges, Harieth Paul e Jourdana Phillips, que desfilaram apresentando seus cabelos crespos ao natural, sem nenhum tipo de química ou alisamento. Observando a grade de programação que temos na TV aberta hoje em dia, é notável o aumento de uma produção de conteúdos voltados a temáticas mais sérias como o racismo e orgulho negro, como por exemplo a série da Netflix Dear White People.

Percebemos no mês da Consciência Negra que, quando há comparativos de 10 a 20 anos atrás, essa produção era consideravelmente menor. Ainda assim, a representatividade negra é pequena. Segundo o Correio Braziliense, as novelas têm  46,2% de presença de homens brancos, 45,2% de mulheres brancas, 4,4% de homens não-brancos e 3,8% de mulheres não-brancas. Estes dados mostram que a luta de pessoas negras que buscam o empoderamento e representatividade ainda precisa enfrentar muitas barreiras, e para isto, a internet tornou-se uma ferramenta importante, conseguindo potencializar o empoderamento de homens e mulheres negras. Seja através de vídeos ou posts escritos, uma gama de influenciadores negros estão presentes no cotidiano de quem tem acesso às redes.

Orgulho da cor da pele, do cabelo, da cultura, das origens… o empoderamento negro envolve o indivíduo das mais diversas formas. Buscar a representatividade tornou-se um exercício diário, e ser esta representatividade ganhou um peso de responsabilidade gigantesco. 

Empoderamento para todos

Quando pesquisamos o tema “empoderamento”, os principais tópicos com o qual nos deparamos fazem referência ao que conhecemos por “minorias”, como as citadas nos tópicos acima. O que devemos entender é que empoderamento vai além de classes, gênero, raças, orientação sexual… Homens e mulheres, crianças e adultos, gays e héteros, brancos, negros, asiáticos, todos podem ter o empoderamento ou desenvolvê-lo ao longo de suas vidas. O desenvolvimento pode vir com a busca pelos direitos que cada um possui, e ainda utilizando a mesma busca a fim de proteger os direitos da sociedade. 

Ter poder sobre a própria vida, sendo consciente das ações efetuadas já é o passo inicial para tal empoderamento. Buscar conhecimento de si próprio, de seus direitos, de sua história e outros pode potencializar este processo.

Enfim, com o conhecimento sendo diariamente renovado, os direitos constantemente postos em prática e o respeito a todos efetuado, o empoderamento ocorre como consequência. 

Conseguiu entender o que é empoderamento? Deixe suas dúvidas e sugestões nos comentários! 

Publicado em 18 de julho de 2019.

Augusto Azevedo

Graduando em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina. Natural de Florianópolis, aspirante a professor, apaixonado por histórias antigas e grandes clássicos da mitologia. 

 

 

REFERÊNCIAS

DicioNexoMsnTribuna do CearáBBCUolSignificadosImpact Hub CuritibaHistória HojeCidade VerdeUaiPapelPopO GloboCarta CapitalEstadãoG1Estadão 2UnescoSlave VoyageHuffpostBeleza ExtraordináriaCorreio BrazilienseCUT

 

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