Briga de gigantes: as relações entre EUA e China

Foto: State Department/ Public Domain

As relações no sistema internacional nunca se fazem sozinhas: o crescimento de um país pode ser visto tanto como oportunidade quanto ameaça. O desenvolvimento de armamentos pode significar guerra em potencial, enquanto que assinar acordos e tratados podem fortalecer canais de cooperação. Definitivamente a interação entre os países tem suas consequências. Agora jogue nessa bagunça internacional duas das maiores economias da atualidade e uma história de afastamento e aproximação. O resultado é complexo.

Você sabia que, além de tudo, os EUA e China estão atualmente envolvidas em uma guerra comercial? Pronto pra entender a evolução desse relacionamento complicado e uma exposição do que isso pode significar para todas as economias do mundo, incluindo a do Brasil? Vêm conhecer a briga de gigantes que é as relações externas entre EUA e China.

Uma história marcada por ideologias

Podemos usar a Guerra Fria – quando o mundo estava dividido em dois polos, um lado comunista, comandado pela antiga União Soviética, e outro lado capitalista, comandado pelos Estados Unidos -, como ponto de partida para falar da relação histórica entre EUA e China. Em 1949, Mao Tse-Tung, anuncia a criação da República Popular da China, sob regime comunista, portanto, do lado oposto aos Estados Unidos na guerra. É por isso que os EUA, no momento, não reconheceram o novo regime chinês.

Alguns chineses nacionalistas, insatisfeitos com a nova situação do país, fugiram para Taiwan, reivindicando independência. Durante a Guerra das Coreias, a marinha estadunidense (lembrando o contexto de Guerra Fria) protege Taiwan dos possíveis avanços comunistas expressados pela Coréia do Norte.  

Podemos, então, perceber que a história da relação Estados Unidos x China é recheada de tensão e desentendimentos. Mas, houveram também, momentos de aproximação, principalmente no governo de Bill Clinton, que decidiu por não apoiar o movimento separatista de Taiwan. Nesse mesmo período chegaram inclusive a um acordo, em  novembro de 1999, sobre a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC).

A entrada da China para a OMC foi uma das principais razões pela qual a economia chinesa pulou do nono lugar (em 1975), no ranking mundial, para  segundo (em 2001), dois anos após o acordo da OMC, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Toda discussão seguinte, sobre a ameaça da economia chinesa e sobre a dependência econômica entre Estados Unidos e China é consequência desse boom de crescimento econômico do país asiático em tão pouco tempo.

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Disputa pelo primeiro lugar

O crescimento da China assusta e abala a posição de conforto dos EUA no topo do sistema internacional. Isso significa que, cada vez mais, os Estados Unidos perdem sua posição como indiscutível potência hegemônica. E o que, de maneira simples, significa hegemonia? Bem, significa que os EUA têm relevância direta à nível global em áreas como economia, defesa e diplomacia, conferindo ao país influência internacional e, consequentemente, muito poder. E é contra toda essa influência mundial que a China propõe oposição, seja porque o PIB da China aumenta quase dez vezes mais rápido que o dos EUA, ou porque as despesas militares da China (tendo chegado, em 2011, um orçamento militar de US$ 91,7 bilhões) ameaçam ultrapassar as de Washington, e até porque, desde 2008, a China tem achado brechas nos países capitalistas fragilizados para se impor no cenário internacional.

EUA e China: uma relação de interdependência

Você poderia pensar que isso se encaminharia para um conflito gigantesco, certo? Mas a resposta não é tão simples assim. A verdade é que esses dois gigantes são tão inimigos quanto dependentes um do outro. Em inúmeras áreas existe cooperação efetiva entre EUA E China: na luta contra o terrorismo, na tentativa de conter a proliferação de armas de destruição em massa ou na luta contra a crise financeira.

A realidade é que, por mais que essas duas economias disputem o cenário econômico mundial, elas não conseguiriam se sustentar nele sozinhas. A China, desde a década de 2000, tem investido muito fortemente no Tesouro norte-americano e se tornado uma das maiores exportadoras para a América. Isso, de maneira prática e simples, significa que é muito do dinheiro da China que estabiliza a economia dos EUA, tanto porque empresta dinheiro ao governo em troca de um tipo de remuneração, com juros (através do investimento no Tesouro), quanto porque faz dinheiro entrar no país (com as exportações).

De maneira complementar, é justamente a compra de produtos pelo mercado estadunidense que garante o que chamamos de superávit (altos níveis de exportação) na balança comercial chinesa e a estabiliza como uma das economias que mais exporta. A compra e a venda de produtos são extremamente necessárias, de formas diferentes, para os dois mercados.

Fonte: COMTRADE

A questão é complexa: como coordenar uma situação onde se relacionar com um país para garantir a sobrevivência da sua economia é também fazer com que a dele cresça? E como não deixar que esse crescimento te tire de sua posição de poder mundial? É por isso que os EUA parece esse país tão “indeciso”, que ao mesmo tempo que recebe produtos chineses, acusa o país de violar as regras de mercado, de concorrer de forma “desleal”. É uma relação paradoxal de “cuspir no prato que come”, pois ao mesmo tempo que “se alimenta” dos produtos chineses, acaba por alavancá-los, temendo que sejam superados por eles.

E o mais irônico dessa história toda é que foram as próprias potências que, no começo do desenvolvimento de Pequim, se envolveram em uma relação tóxica de dependência. Os EUA tiraram proveito de uma mão de obra de baixo custo e consumo barato, ao mesmo tempo que mandavam suas empresas poluentes para a Ásia. As empresas em território asiático eram oportunidade de emprego ao mesmo tempo que oportunidade de desenvolvimento para um mercado que era novo na economia global. Saldo final e duradouro: nos EUA e China, baixa nos empregos e ataque ao meio ambiente, respectivamente. “Parceria” essa que dura até os dias de hoje, com altos níveis de emissão de carbono e economias dependentes.

Contudo, a vantagem mais significante dos EUA em comparação aos chineses é a sua ideologia: enquanto a cultura norte-americana já é facilmente difundida por todo o mundo, a cultura asiática, caracterizada por um maior conservadorismo e tradicionalismo, não encontra tamanha abertura, até porque bate de frente com o “poder do Ocidente”, ou seja, tradições mais liberais. A cultura dos EUA é tão difundida ao redor do mundo que qualquer oposição causa estranheza a um mundo acostumado com liberdades, tanto política quanto econômicas.

A penúltima administração dos EUA, pelo ex-presidente Barack Obama, tinha estabelecido canais de diplomacia. Mas o atual presidente Trump parece ter outras ideias para essa relação complexa. Já ouviu falar de guerra comercial? A gente te explica.

A guerra comercial entre EUA e China

O atual presidente norte-americano, Donald Trump, carregou o combate aos produtos “made in China” como uma das maiores bandeiras de sua campanha, se justificando pelo objetivo de fortalecer a indústria nacional estadunidense, fazendo com que seja mais atraente aos norte-americanos consumir produtos nacionais que importados. No entanto, há indícios, segundo o jornal Carta Capital, de que existem outros motivos para além das medidas de proteção do mercado interno, como o fato de os Estados Unidos estarem se sentido ameaçados economicamente pela China.

Os EUA sempre tiveram um déficit comercial em relação às exportações com a China – isso quer dizer que a China exporta muito mais para os Estados Unidos que ao contrário. Antes do governo Trump, isso não era um grande problema para os norte-americanos. Se acreditava que as empresas americanas fixavam filiais em território chinês, pela mão de obra e preços mais baratos, e exportavam seus produtos de volta para os EUA, só que com o avanço do investimento da China em tecnologia e comércio, elas acabaram por perder competitividade (destaque no mercado) para as empresas chinesas.

O ponto de maior tensão comercial aconteceu durante o governo Trump, em 2018, quando os Estados Unidos impuseram tarifas de 25% sobre a importação de aço e 10% sobre a de alumínio. Mesmo a medida afetando outros países – inclusive o Brasil -, para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), os chineses foram os alvos principais, por serem o maior parceiro comercial dos EUA. Desde de então, os gigantes travaram uma queda de braço de taxações, impostos e tarifas um sobre o outro.

Por enquanto, o conflito é taxado de guerrilha comercial, não guerra propriamente dita, pois nenhum outro país foi incluído de forma direta no conflito. Há, porém, um grande alerta sobre os rumos tomados pelo conflito, já que pode evoluir para algo mais sério caso não ocorra uma negociação.

Os acontecimentos dessa disputa

Desde seu início, em 2018, já se passaram mais de 440 dias de disputas comerciais entre Estados Unidos e China.  Conforme trazido pelo portal China Briefing, o total de tarifas aplicadas exclusivamente a bens chineses chega a US$ 550 bilhões e o de tarifas aplicadas exclusivamente a bens estadunidenses chega a US$ 185 bilhões.

Podemos considerar essa disputa com início em 22 de janeiro de 2018, quando Trump anunciou sobretaxas sobre as importações de máquinas de lavar e painéis solares, que afetaram diretamente a China. Desde então, as barreiras tarifárias se seguiram:

  • Em março do mesmo ano, Trump anunciou sobretaxas de 25 e 10%, respectivamente, sobre as importações de aço e alumínio;
  • Em abril a China retaliou, com 25% de sobretaxas em 128 produtos estadunidenses;
  • No dia seguinte, Trump anunciou 25% de sobretaxas em US$ 50 bilhões em produtos chineses e a China retaliou da mesma forma em US$ 50 bilhões de dólares em produtos americanos. 
  • Novas tarifas de ambos os lados se deram pelo restante de 2018, e assim se seguiu até o meio de 2019;
  • Em junho de 2019, após uma reunião entre os presidente da China e dos Estados Unidos,  durante reunião do G-20, uma trégua foi firmada;
  • Essa trégua durou pouco, e no mês seguinte, sob a alegação de que a China não cumpriu o acordo que fizeram n G-20, Trump anunciou novas tarifas, dessa vez de 10% sobre US$ 300 bilhões em produtos chineses;
  • Em 5 de agosto a China anuncia a suspensão de produtos agrícolas dos Estados Unidos e desvaloriza sua moeda, que fez com que os Estados Unidos classificassem o país como manipulador cambial;

Novas tarifas continuaram sendo colocadas desde então, e não há previsão para uma normalização  das relações econômicas entre ambos os países.

Estaria o EUA perto de perder sua influência mundial?

Até abril de 2018, as tarifas anunciadas ainda estavam apenas no estágio de ameaça, ainda não tinham entrado em vigor. Portanto, se esperava que os dois países pudessem entrar em acordo. Mas, caso a ameaça se concretize, é possível que as medidas protecionistas possam impulsionar os líderes tecnológicos chineses a tentar conquistar mercados antes dominados pelos EUA.

Seria a guerra então uma saída? Segundo o diretor da escola de investimentos internacionais do Grupo L&S, Liberta Global, Leandro Ruschel, a China não tem interesse nenhum em confrontos, pois seria muito mais afetada em termos de balança comercial (o total de exportações e importações de um país), já que sua economia é basicamente sustentada por exportações, 18% de tudo que a China exporta é comprado pelos EUA. No entanto, jornais chineses já falam sobre prejudicar a hegemonia dos EUA de forma permanente, colocando uma relevância mundial em Pequim como ator central do comércio global e um rival à altura dos EUA – mesmo que essas afirmações tenham um caráter de valorização própria.

Os presidentes de EUA e China, Donald Trump e Xi Jinping (Fonte: EXAME)

A guerra parece não ser uma opção para ambos os países. Mas então, o que fazer? Se continuar no caminho atual, os EUA talvez comecem a perder cada vez mais espaço no cenário. Continuar as retaliações comerciais? Essa também não parece ser a solução, ainda mais se considerarmos a possibilidade de afetar outros países. As relações das duas maiores potências afetam os países do mundo de forma significante e, se pensarmos no ditado africano, “quando os elefantes brigam quem mais sofre é a grama”, aqui, a grama são todos os países do globo assistindo uma briga entre duas das maiores economias da atualidade. A história da relação dual entre EUA e China ainda está longe de acabar.

Conseguiu entender as relações entre EUA e China? Deixe suas dúvidas e sugestões nos comentários!

Aviso: mande um e-mail para contato@politize.com.br se os anúncios do portal estão te atrapalhando na experiência de educação política. 🙂

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Publicado em 09 de janeiro de 2019. Última atualização em 25 de setembro de 2019.

Amanda de Brito

Graduanda do curso de Relações Internacionais UFSC. Faz parte do Grupo de Estudo, Extensão e Pesquisa em Política Internacional Contemporânea (GEPPIC), participa de projetos de extensão como Ampliar Cultura e SIEM UFSC (Simulação da ONU para o Ensino Médio) e participa do Centro Acadêmico de Relações Internacionais, CARI.

Leonardo Felipe de Souza

Graduando do curso de Relações Internacionais UFSC. Participa do Centro Acadêmico de Relações Internacionais (CARI) e participa de projetos de extensão como o SiEM UFSC (Simulação da ONU para o Ensino Médio).