Advocacy em Direitos Humanos: o que é e como atuar

Há alguns anos, a atuação do(a) advogado(a) vem sendo repensada. Se por muito tempo a profissão esteve associada à defesa de interesses individuais (um(a) cliente, um processo, uma sentença), hoje cresce um modelo de prática jurídica com foco no coletivo, em causas que afetam comunidades inteiras, grupos vulneráveis e até gerações futuras. 

Essa nova dimensão é o advocacy. Foi por meio dele que movimentos sociais e juristas construíram, ao longo de anos, a tese que levou o STF a criminalizar a LGBTfobia em 2019, por exemplo. Não houve um réu, nem um processo isolado. Houve pesquisa, articulação institucional e mobilização coletiva até que a decisão reconhecesse, de forma ampla, o amparo jurídico a um grupo historicamente vulnerabilizado. 

Se você se interessa por justiça social, políticas públicas, direitos humanos ou quer entender como o Direito pode transformar realidades coletivas, continue acompanhando a leitura!

O Guia das Carreiras Jurídicas, uma iniciativa do Instituto Mattos Filho em parceria com a Civicus e a Politize!, busca democratizar o conhecimento jurídico e orientar quem deseja explorar as diversas áreas do Direito, construindo uma carreira com propósito e impacto.

O que é advocacy?

O termo vem do inglês to advocate, que significa defender, apoiar, recomendar. No contexto jurídico e político, advocacy é o conjunto de ações organizadas com o objetivo de influenciar decisões públicas em favor de um grupo, causa ou princípio.

Diferente da litigância tradicional, que busca resolver conflitos específicos por meio do Judiciário, o advocacy atua no campo da prevenção, ou seja, ele busca transformar leis, políticas públicas e práticas institucionais antes que o dano se consolide. 

No Brasil, o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (Lei nº 13.019/2014) foi um avanço importante para estruturar a relação entre o Estado e as entidades que fazem advocacy. A lei reconheceu formalmente o papel das Organizações da Sociedade Civil (OSCs) na formulação e execução de políticas públicas, criando um ambiente mais seguro e transparente para quem atua na defesa de causas coletivas. 

Advocacy e Lobby: qual é a diferença?

Essa é uma das dúvidas mais comuns sobre o tema. O lobby é, basicamente, uma forma de advocacy em que se busca a influência direta sobre legisladores, e pode ser legítimo quando transparente e regulamentado. Exemplo disso são organizações, como o CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria), que atuaram durante anos junto ao Congresso Nacional para que a violência doméstica contra a mulher fosse tratada como crime e não mais como contravenção penal.

O advocacy, por sua vez, é mais amplo, pois inclui a mobilização da opinião pública, a produção de evidências, a articulação com movimentos sociais e o engajamento da mídia.

Quem faz advocacy?

O advocacy pode ser realizado por OSCs, movimentos sociais, associações de classe, gabinetes estratégicos, escritórios de advocacia especializados, departamentos jurídicos de faculdades e empresas e organismos internacionais. 

Exemplos no Brasil incluem: Greenpeace Brasil, Instituto Marielle Franco, Instituto Oncoguia, Instituto Sou da Paz e diversos outros. Qualquer área que busque influenciar políticas públicas de forma organizada está, em algum grau, fazendo advocacy.

A relação entre advocacy e Direitos Humanos

Os Direitos Humanos são direitos que, na prática, precisam ser constantemente defendidos e ampliados. É nesse contexto que o advocacy exerce seu papel mais transformador. 

Quando uma organização pressiona o Congresso Nacional para ampliar a proteção de pessoas LGBTQIAPN+, quando advogados(as) pedem ao STF que reconheça direitos de povos indígenas, ou quando ativistas lutam por legislação mais rígida contra o trabalho análogo à escravidão, estão fazendo advocacy em direitos humanos. 

O que torna a relação entre advocacy e Direitos Humanos tão essencial é que os direitos humanos, poucas vezes na história, se consolidaram por vias espontâneas. Eles são resultado de muita reivindicação e disputa de narrativas, prioridades legislativas e interpretações jurídicas. O advocacy é justamente o conjunto de estratégias que organiza essa disputa, dando voz a grupos que foram, historicamente, excluídos dos espaços onde as decisões são tomadas. 

No Brasil, direitos como a proteção de comunidades quilombolas, o reconhecimento de territórios indígenas e a criminalização da violência doméstica só avançaram porque houve organizações e juristas dispostos a sustentar essas causas por anos, dentro e fora dos tribunais. A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), por exemplo, foi resultado direto de décadas de advocacy do movimento feminista, que pressionou pelo reconhecimento legal da violência doméstica como violação de direitos humanos.

Senadora Ivete da Silveira (MDB-SC) em discurso à sessão especial de 17 anos da Lei Maria da Penha. Fonte: Flickr | Roque de Sá/Agência Senado.

Quer conhecer alguns casos inovadores de advocacy? Confira essa publicação: Casos de advocacy inovadores no Brasil e no mundo

Litigância estratégica como ferramenta de advocacy

Uma das pontes mais poderosas entre o Direito tradicional e o advocacy é a litigância estratégica: o uso intencional de processos judiciais para resolver um caso individual e também criar precedentes que beneficiem uma determinada coletividade. Casos emblemáticos no Supremo Tribunal Federal, por exemplo, frequentemente nascem de ações cuidadosamente planejadas por organizações ou grupos de advocacy.

A Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) é um dos instrumentos mais utilizados nesse contexto. Por meio dela, organizações podem levar ao Supremo Tribunal Federal (STF) questões que afetam grupos inteiros, como a ADPF 132, que contribuiu para o reconhecimento da união estável homoafetiva em 2011, resultado de anos de articulação jurídica e social. 

Habilidades de advocacy na carreira jurídica

O advocacy pode ser aprendido e desenvolvido ao longo da trajetória profissional, por isso, não existe um único caminho, mas algumas práticas podem fazer diferença desde a graduação para saber como fazer advocacy.

Engajamento com a realidade social

Advogados(as) de advocacy conhecem profundamente as comunidades e grupos que defendem. Participar de grupos de pesquisa, clínicas jurídicas, projetos de extensão e organizações da sociedade civil é um ótimo ponto de partida.

Comunicação como competência jurídica

Saber escrever bem, falar em público, construir argumentos acessíveis para públicos não-jurídicos e usar as redes sociais de forma estratégica são habilidades cada vez mais valorizadas, inclusive em escritórios corporativos, que podem ajudar a estabelecer a ponte entre sociedade civil e sistema jurídico. 

No advocacy, isso significa traduzir teses jurídicas mais rebuscadas e complexas em “histórias” que engajam, sensibilizam a população e possibilitam outros pontos de vista sobre uma opinião.

Conhecimento sobre políticas públicas

Entender como funciona o processo legislativo, como se estrutura o orçamento público e quais são os espaços de participação institucional é parte essencial da formação de quem quer atuar nessa área. 

Afinal, uma proposta de intervenção que ignora o contexto político e orçamentário dificilmente sai do papel. Por isso, conhecer os mecanismos do Estado é importante, assim como conhecer a legislação. 

Descomplicando a carreira em advocacy em 3 perguntas 

1) Advocacy é a mesma coisa que ativismo?

Não necessariamente. O ativismo tem uma dimensão mais ampla e pode incluir mobilização de rua, protestos e campanhas de conscientização. O advocacy foca na influência sobre decisores e na mudança de políticas específicas.

2) Preciso me especializar em direitos humanos para atuar em advocacy?

Não obrigatoriamente. O advocacy existe em diversas áreas (ambiental, tributária, trabalhista, de saúde e de tecnologia, por exemplo), por isso profissionais de todas as especialidades podem desenvolver competências de advocacy para ampliar seu impacto.

3) Quem atua em advocacy precisa se dedicar exclusivamente a essa área?

Não. O advocacy é, na maior parte dos casos, uma dimensão da atuação jurídica, não uma especialidade fechada. Por exemplo: um(a) advogado(a) tributarista pode pressionar por mudanças na legislação fiscal, um(a) advogado(a) ambientalista pode articular campanhas no Congresso Nacional e um(a) advogado(a) trabalhista pode integrar coalizões por reformas na legislação do trabalho. 

Considerações finais

O Direito sempre foi considerado um instrumento de poder e, por isso mesmo, sempre pode ser instrumento de transformação. O advocacy coloca esse poder a serviço de causas coletivas, ampliando o alcance da atuação jurídica para além dos processos individuais.

Para estudantes e profissionais que querem fazer do Direito uma ferramenta de impacto real, desenvolver competências de advocacy é parte da formação de um(a) profissional completo(a), preparado(a) para os desafios do nosso tempo.

Se você se interessa por essa e outras áreas do Direito, continue acompanhando o Guia das Carreiras Jurídicas para conhecer as diversas possibilidades que um(a) profissional do ramo tem para se desenvolver.

Autora: 

Beatriz Ramos

Fontes:

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