Lawtechs: como a tecnologia é incorporada à rotina jurídica

Você já assinou um contrato pelo celular, sem imprimir nada, sem reconhecer firma ou ir a um cartório? Já usou alguma plataforma que gerou um documento jurídico automaticamente a partir das suas respostas?

Se a resposta for sim para qualquer uma dessas perguntas, você já teve contato com o universo das lawtechs, as startups do direito!

Essas startups estão mudando a forma como as pessoas se relacionam com o direito no dia a dia: contratos de prestação de serviço gerados em minutos, consultas jurídicas online acessíveis, petições automatizadas, assinaturas digitais com validade legal, tudo isso é produto de empresas que decidiram incorporar a tecnologia à rotina jurídica.

O crescimento dessa vertente de startups no Brasil e no mundo é cada vez mais notável e se trata de uma reconfiguração profunda de um mercado historicamente conservador, impulsionada pela transformação digital, pela demanda por serviços acessíveis e pela chegada de uma nova geração de profissionais que, na sua maioria, cresceu com a tecnologia já incorporada à sua rotina. 

Neste texto, você vai entender o que são as lawtechs, como elas se estruturam no Brasil, quais são suas principais características e de que maneira elas estão abrindo oportunidades para carreiras na área do direito.

O Guia das Carreiras Jurídicas, uma iniciativa do Instituto Mattos Filho em parceria com a Civicus e a Politize!, busca democratizar o conhecimento jurídico e orientar quem deseja explorar as diversas áreas do Direito, construindo uma carreira com propósito e impacto.

O que são lawtechs?

O termo lawtech é a fusão de law (direito, em inglês) com tech (tecnologia). De forma simples, lawtechs são empresas de tecnologia, em geral startups, voltadas para o setor jurídico. Elas desenvolvem soluções tecnológicas, como softwares, plataformas e ferramentas baseadas em inteligência artificial, para otimizar, automatizar ou transformar a prestação de serviços jurídicos.

É importante diferenciar lawtechs de legaltechs, embora os dois termos sejam frequentemente usados como sinônimos:

  • Legaltech é o termo mais amplo, englobando qualquer solução tecnológica para o setor legal, incluindo softwares desenvolvidos por empresas tradicionais;
  • Lawtech carrega o conceito de startup: uma empresa “jovem”, escalável, construída para crescer rapidamente e desafiar modelos tradicionais.

Mais adiante, apresentaremos as especificações de cada conceito, porém, de modo geral, uma lawtech genuína costuma combinar: 

  1. um problema jurídico real não resolvido ou mal resolvido pelo mercado tradicional; 
  2. uma solução baseada em tecnologia escalável (software, IA, automação); e
  3. um modelo de negócios inovador que amplia o acesso ou aumenta a eficiência do serviço jurídico.

Características das lawtechs

Diferente das bancas tradicionais, as lawtechs operam sob a lógica da nova economia digital. Elas buscam automatizar tarefas e remodelar a entrega do valor jurídico por meio de infraestruturas ágeis e orientadas a dados. 

Os pilares que sustentam esse modelo de negócio são:

  • Escalabilidade: em um escritório comum, para atender mais clientes, é necessário contratar mais advogados(as). Nas lawtechs, o crescimento é diferente, a mesma plataforma tecnológica pode atender dez ou dez mil pessoas ao mesmo tempo. Isso permite que a empresa cresça rápido sem precisar de uma estrutura física gigante; 
  • Foco no usuário: o Direito é famoso por, muitas vezes, ser complicado e cheio de termos difíceis para quem não é da área. As lawtechs têm potencial de quebrar essa barreira, criando aplicativos e sites fáceis de usar, com uma linguagem simples. O objetivo é que qualquer pessoa consiga entender o que está acontecendo no seu processo;
  • Inteligência Artificial: essas empresas, geralmente, usam inteligência artificial para ler e analisar milhares de documentos em segundos. Com o Processamento de Linguagem Natural (NLP), o sistema consegue identificar padrões em decisões de juízes(as) e até prever as chances de ganhar uma causa, tudo com base em dados históricos; e
  • Justiça para todos(as): muitas pessoas e pequenas empresas ficam sem ajuda jurídica porque os serviços jurídicos tradicionais podem ser caros. As lawtechs podem democratizar esse acesso criando soluções de baixo custo, como geradores automáticos de contratos e consultas online, permitindo que mais gente busque seus direitos.
Dois profissionais, um homem e uma mulher, analisando juntos dados jurídicos em um notebook e monitor com dashboard aberta.
O mercado de Lawtechs impulsiona a transformação digital no setor jurídico. Fonte: imagem gerada por Inteligência Artificial via ChatGPT.

Lawtech ou legaltech: qual a diferença?

Quem começa a estudar o tema quase sempre esbarra nessa dúvida: afinal, lawtech e legaltech são a mesma coisa? A resposta depende de onde você está no mundo e de quanto quer mergulhar na discussão conceitual.

No Brasil, os dois termos são usados como sinônimos na maior parte das vezes, pois, na prática do mercado nacional, qualquer startup que aplique tecnologia ao direito pode ser chamada de lawtech ou legaltech sem distinção.

Nos Estados Unidos e em outros mercados mais maduros, porém, a diferença aparece com mais clareza:

  • Legaltech: voltada para profissionais do direito, através de ferramentas e softwares voltados para advogados(as), escritórios e departamentos jurídicos. O objetivo é tornar o trabalho de quem já atua na área mais rápido, organizado e eficiente, sem necessariamente mudar a lógica do setor. 
  • Lawtech: direcionada ao público geral, por meio de startups com escopo mais amplo, que empoderam cidadãos(ãs) sem formação jurídica a acessar serviços legais por conta própria. 

Perceba que o modelo nacional une as duas atuações em uma proposta só, enquanto o modelo do exterior ramifica os focos em duas frentes.

Modelos de lawtechs mais comuns

As lawtechs não são todas iguais. Elas se dividem em diferentes especialidades para resolver problemas específicos do mercado:

  • SaaS Jurídico (gestão): são sistemas de assinatura (softwares) que ajudam advogados(as) e empresas a organizar processos, prazos e documentos em um só lugar;
  • Automação de documentos: ferramentas que criam contratos, procurações e petições automaticamente. Você preenche os dados e o documento sai pronto em segundos;
  • Marketplace Jurídico: funciona como o “Uber” do Direito, conectando quem precisa de um serviço jurídico diretamente com o(a) advogado(a) ideal;
  • Analytics e IA (dados): usam inteligência artificial para ler milhares de decisões judiciais e dizer, com base em números, qual a chance de ganhar uma causa ou quanto tempo um processo deve demorar;
  • ODR (Resolução Online): plataformas para resolver disputas e conflitos pela internet, através de acordos e mediação, sem precisar levar o caso a um juiz no tribunal;
  • Educação Jurídica: portais e cursos focados em treinar estudantes e profissionais para as novas tecnologias e mudanças do mercado legal.

O contexto das lawtechs no Brasil

O número de legaltechs no Brasil cresceu cerca de 50% entre 2022 e 2025, segundo a Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L).

Apesar do número expressivo, a atuação dessas lawtechs envolve uma tensão regulatória importante. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a partir da Lei 8906, proíbe a advocacia exercida por pessoas jurídicas com fins lucrativos, o que limita o modelo de negócio de algumas startups que desejam oferecer consultoria jurídica direta ao consumidor, por exemplo. 

Por isso, muitas delas optam por atuar como fornecedoras de tecnologia para escritórios de advocacia, ou em nichos que não configuram exercício da advocacia, como: informação legal, automação de documentos e gestão processual.

Oportunidades para estudantes de direito

O crescimento das lawtechs cria uma demanda nova por profissionais que unem conhecimento jurídico e fluência tecnológica. Estudantes de direito que dominam ferramentas digitais, entendem de Experiência do Usuário (UX), gestão de produtos ou ciência de dados podem ter um diferencial expressivo no mercado.

As principais oportunidades incluem: atuação como jurista de produto (profissional que conecta o time técnico ao conhecimento legal), consultor(a) de compliance em startups, especialista em privacidade de dados (LGPD) e até mesmo fundador(a) de uma própria lawtech.

Descomplicando as lawtechs em 3 perguntas

  1. As lawtechs são permitidas pela OAB?

Sim, desde que respeitem o Código de Ética da OAB, especialmente quanto à publicidade e à não mercantilização da profissão. Elas atuam como ferramentas de suporte tecnológico e não podem realizar atividades exclusivas de advogados(as), como dar consultoria jurídica sem um(a) profissional habilitado(a).

  1. Uma lawtech pode oferecer serviços de advocacia no Brasil?

Não diretamente. O Estatuto da OAB veda o exercício da advocacia por pessoa jurídica com fins lucrativos. Por isso, a maioria das lawtechs brasileiras atua como fornecedoras de tecnologia para advogados(as) e escritórios, ou em áreas que não configuram prática advocatícia, como informação jurídica, automação de documentos e resolução online de conflitos.

  1. É seguro usar contratos gerados automaticamente por plataformas?

Sim, desde que a plataforma seja confiável e utilize modelos atualizados conforme a lei. Essas ferramentas usam “templates inteligentes” que se adaptam às informações fornecidas pelo usuário, garantindo rapidez sem renunciar à segurança jurídica.

Considerações finais 

A ascensão das lawtechs pode gerar certa insegurança em relação ao futuro da advocacia tradicional, mas, por outro lado, ela representa uma possibilidade de expandir a atuação e evoluir os processos, trazendo mais eficiência, agilidade e o uso inteligente de dados que podem tornar algumas etapas de um processo menos onerosas.

Para o(a) profissional do Direito, as lawtechs podem acender ideias que vão além da importância de conhecer a lei, ao também entender como a tecnologia pode ser uma aliada para entregar melhores resultados e democratizar o acesso à justiça. 

Se você está começando sua jornada agora ou busca se reposicionar profissionalmente, o segredo é a adaptabilidade. O mercado demonstra-se cada vez mais aberto para quem estiver disposto(a) a aprender as inovações da área.

Se você quer entender como se preparar para as profissões do futuro, conhecer outras áreas do direito e dominar as competências que o mercado jurídico exige, continue acompanhando o nosso Guia das Carreiras Jurídicas. 

Autora: 

Beatriz Ramos

Fontes:

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