Este conteúdo é uma parceria do Politize! com o Youth Voices Brasil. O Youth Voices Brasil é uma iniciativa independente, composta por jovens líderes de todo o país, e apoiada pela Y2Y Community e escritório do Banco Mundial no Brasil, com o propósito de erradicar a exclusão produtiva da juventude brasileira.

Ao longo das próximas semanas, traremos textos para refletir sobre a juventude e o mercado de trabalho. Você também pode conferir os demais textos nesta página e baixar o Ebook “Juventude Empregada: evidências e práticas“.

Bolinhas amarelas representando rostos humanos com expressões variadas. Imagem ilustrativa para habilidades socioemocionais.
Imagem ilustrativa. (Reprodução: Pixabay)

Já faz um tempo que se fala da importância de habilidades não técnicas: em uma pesquisa que ficou conhecida mundialmente no final dos anos 80, psicólogos da Universidade de Columbia realizaram o chamado Teste do Marshmallow. Nesse teste, a criança recebia um pedaço do doce e era comunicada que ficaria aguardando sozinha na sala. Caso conseguisse esperar o pesquisador voltar à sala sem tê-lo comido, ganharia outro.

O estudo demonstrou que as crianças com maior autocontrole apresentaram melhores resultados acadêmicos no futuro. Atualmente, sabemos que a inteligência socioemocional envolve questões muito mais complexas e que é inegável seu papel para a formação de indivíduos com suas potencialidades desenvolvidas. 

Soma a esse cenário mais recente, o momento em que vivemos: há robôs à venda para fazer trabalhos que até ontem eram nossos – de aspiradores de pó a cortadores de grama-  mostrando que o futuro do trabalho já bate à porta. A automação trazida pela Indústria 4.0 tem modificado  as condições de empregabilidade, não apenas eliminando postos de trabalho, mas também  trazendo novas oportunidades em relação a essas tecnologias. 

Habilidades socioemocionais e futuro do trabalho: o que muda para o jovem?

Como costuma ocorrer quando falamos de jovens e inclusão produtiva, essa parcela da população é a que mais apresenta chances de terem seus trabalhos automatizáveis, sendo mais vulneráveis ao desemprego em todo o mundo. É um temor que também ecoa por aqui no Brasil: um estudo recente da Pew Research Center mostrou que oito em cada dez brasileiros temem que a automação leve a uma redução no número de vagas ao longo deste século, sendo uma preocupação ainda maior entre os mais jovens, que têm entre 18 e 29 anos.

Novas habilidades emergem como resposta a esse cenário de automação, mas são as habilidades socioemocionais que estão cada vez mais em voga, pois o que é fundamentalmente humano pode ser o nosso único diferencial competitivo comparado aos robôs. Essas habilidades são aquelas que desenvolvemos para lidar com as emoções e com todos os diversos desafios de viver e conviver que enfrentamos enquanto seres humanos.

Nesse sentido, os resultados da pesquisa Skills Toward Employability and Productivity (STEP) ilustram como as habilidades emocionais estão ganhando cada vez mais importância no mercado de trabalho. A pesquisa revelou que a maioria das habilidades socioemocionais são relacionadas a salários de uma forma comparável à educação tradicional, tendo ambas demonstrado aumentos representativos na remuneração a depender do anos de estudos, no caso da educação técnica, e da capacidade socioemocional apresentada.

Hoje, em meio a pandemia e todas as mudanças causadas por  ela, falamos que estamos vivendo no mundo do caos BANI – acrônimo para explicar que em nossos tempos predominam a fragilidade, ansiedade, não-linearidade e incompreensibilidade. Em meio a isso, aprender a aprender e a ser resiliente são as prováveis habilidades mais relevantes para vida e para inclusão produtiva da juventude.

Se queremos uma chance dos jovens e das gerações futuras serem incluídos no mercado de trabalho, que já exige essas aptidões, precisamos dar o destaque ao tema – em capacitações e planejamentos -compatível com a importância que ele possui para decidir esses futuros.

Mapeando e compreendendo as competências socioemocionais

As competências socioemocionais são essenciais para a inclusão das juventudes no mercado de trabalho, mas essa análise vai muito além do recorte econômico, seja de aumento de renda ou de taxa de ocupação. Competências socioemocionais têm um  potencial transformador nas relações humanas. Destacamos a seguir  as principais delas, conforme a teoria do Big 5 desenvolvida na década de 60, e suas abrangências.

Estar pronto para o desconhecido  e perseverar

A abertura ao novo possibilita a ampliação da bagagem pessoal e expansão da criatividade do indivíduo. Essa habilidade, associada à ideia de deixar a zona de conforto, também dialoga com a resiliência – capacidade de lidar com situações que nos tiram de fora da caixinha. Ela pede que saibamos identificar nosso próprio “calcanhar de Aquiles” e desenvolver estratégias para manter o equilíbrio emocional em situações de grande estresse. 

Engajando com quem está ao redor

A extroversão é a capacidade de estabelecer e manter relacionamentos saudáveis nos grupos dos quais fazemos parte. É o que viabiliza o trabalho em rede e a união de esforços para a solução de problemas comuns. A amabilidade, da mesma forma, está relacionada à tendência de cooperar. É sobre ser altruísta, empático(a), respeitoso(a) e realizar a escuta ativa. Juntas, essas habilidades auxiliam na compreensão da realidade do outro e na construção de espaços em que as pessoas podem atuar ativamente e colocar sua energia onde se sentem mais confortáveis.

Autoconhecimento para evoluir

Consciência e autogestão são fundamentais para a organização dos objetivos individuais e coletivos. Em um cenário hipotético de busca por empregos ou escolha de carreira, essa competência pode evitar possíveis frustrações futuras, permitindo que sejamos  protagonistas de nossas próprias trajetórias. 

Aprender a identificar e trabalhar as competências socioemocionais constitui uma das etapas mais importantes para o autoconhecimento.Essas 5 competências são necessárias entre si e pedem uma análise multivariada sobre as suas possíveis relações para retroalimentar o desenvolvimento de cada habilidade.

  A partir disso, podemos desenvolver uma atitude mental positiva para compreender nosso propósito, alcançar metas e repensar atitudes, melhorando nossas relações intra e interpessoais. Desenvolver habilidades socioemocionais nos apoia a construir novos futuros e a lutar pelos propósitos individuais e comunitários que compartilhamos.

Para além da teoria: o que sabemos dos nossos jovens e suas habilidades socioemocionais? 

O atual contingente elevado de jovens sem-sem (sem acesso a oportunidade de trabalho e estudo) de quase um terço dessa população traz inúmeras implicações para os níveis de qualidade da inclusão produtiva dos jovens no futuro Dado esse cenário de múltiplas privações, há uma grande probabilidade de que o desenvolvimento de habilidades socioemocionais fique em último plano  e a condição de estar sem estudar e sem trabalhar e o desenvolvimento dessas competências sejam variáveis que se determinam simultaneamente. 

Os jovens com maiores chances de se encontrar em uma situação de ausência de estudo são também os jovens que menos acreditam em sua capacidade de determinar os eventos de sua vida (baixo locus de controle interno) e de solucionar problemas (baixa autoeficácia).Eles também não se avaliam de forma positiva (autoestima) e nem possuem perseverança em conquistar objetivos, como mostram os gráficos do IPEA abaixo.

Assim, o desenvolvimento dessas habilidades é uma fonte relevante para o jovem retomar as atividades de estudo e/ou trabalho. Apesar de ser difícil estabelecer uma relação de causalidade, estudos apontam que há grandes probabilidades  e habilidades socioemocionais e a condição sem-sem serem variáveis que se determinam mutuamente.

Gráficos do IPEA sobre Habilidades socioemocionais e autoavaliação do desempenho escolar;

Do singular ao plural: como desenvolver jovens socioemocionalmente competentes? 

 Diante do surgimento de novas tendências no mercado de trabalho, vale refletirmos sobre a capacidade dos nossos atuais modelos de educação de preparar os jovens para o futuro. À medida que tarefas rotineiras e repetitivas forem substituídas, a geração atual e as próximas poderão concentrar-se mais em atividades que utilizam a criatividade e a emoção.

Em razão de o trabalho criativo ainda ser uma parcela pouco expressiva do trabalho mundo, a relevância do desenvolvimento de habilidades socioemocionais segue pouco compreendida, principalmente em países em desenvolvimento, como  o nosso, onde prevalece a abordagem conteudista do conhecimento e a supervalorização dos diplomas.

Como uma primeira resposta a essas demandas, a UNESCO desenvolveu, ao longo da última década, uma visão de educação pautada no desenvolvimento de competências socioemocionais e que foi incorporada pela BNCC.  A nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reorganizou o ensino para que, até 2020, todas as escolas brasileiras contemplem as competências socioemocionais em seus currículos, buscando aproximar a educação escolar da realidade jovem e reestruturar o currículo aos novos desafios do século XXI.

Entretanto, mais do que uma resposta às mudanças no mercado de trabalho, medidas educativas que ampliam o investimento em capital  humano devem ser compreendidas à luz do seu potencial para gerar transformação social. Nesse sentido, a educação humanizadora, que tenha em seu cerne o fomento às competências socioemocionais, promove a colaboração entre os indivíduos, o desenvolvimento do pensamento crítico – tão necessário em tempos de polarização política -, e, sobretudo, da consciência coletiva. Para além da garantia do trabalho decente e sustentável, tal modelo educacional coloca-se como fundamental ao exercício da cidadania plena. 

Assim, desenvolver sócio emocionalmente nossas juventudes está para além do retorno econômico-financeiro – medidas educativas são capazes de alcançar as esferas cívica e política e promover transformações sociais. Mais que a garantia do trabalho decente e sustentável,rever os métodos de ensino mostra-se fundamental para o exercício da cidadania e o amadurecimento da democracia em nosso país.

A sociedade como agente e plataforma de desenvolvimento socioemocional 

Todos os envolvidos na vida do jovem tem um papel crucial: o processo de desenvolvimento de habilidades socioemocionais acontece de forma contínua na interação com diversos agentes que participam do processo de socialização da juventude. A família constitui um espaço primordial na medida em que proporciona um ambiente saudável e acolhedor para o indivíduo.

Diversos estudos sobre a teoria do Big 5 já afirmam que em todas as etapas da vida do jovem o convívio  com responsáveis que se preocupam com a inteligência emocional potencializa o bom desenvolvimento e autoconfiança dos indivíduos, o que pode depois ser aplicado a outras esferas da vida, como a profissional. 

Quanto à academia, deve-se pensar o seu lugar enquanto agente de disseminação de informações sobre o assunto para além de seus ambientes. É fundamental a construção de estratégias baseadas em evidências a fim de estabelecer uma ponte entre a academia e a sociedade.

A tradução e aplicação desses conhecimentos à vivência local e diária das famílias, comunidades e outros atores, como profissionais da educação, deve, portanto, ser feita de maneira colaborativa de modo a fomentar as iniciativas de fomento ao desenvolvimento socioemocional dos jovens. Essa abordagem também está associada à capacidade das Universidades de assumir um papel de liderança social, estando à frente do debate sobre decisões estratégicas na formulação de políticas públicas sobre o assunto.

No que diz respeito ao  terceiro setor, diversas organizações foram protagonistas ao trazer a agenda socioemocional para o país., como o Instituto Ayrton Senna e Instituto Porvir. Por meio de ações inovadoras e adaptadas aos contextos locais, elas forneceram  ferramentas para que milhares de jovens desenvolvessem suas habilidades de forma segura e contínua, ampliando suas oportunidades profissionais futuras.

Já a iniciativa privada destaca-se ao proporcionar oportunidades de emprego e renda, bem como de crescimento pessoal para as juventudes, já que orienta os jovens a utilizarem  sua bagagem de vida para responderem a problemas complexos e contemporâneos em nossa sociedade a partir das ocupações em que estiverem trabalhando. 

Por fim, cabe ao poder público articular o trabalho em rede desses diferentes atores mencionados acima. A construção de políticas voltadas ao convívio familiar, uso consciente de evidências científicas na tomada de decisão, articulação institucional para formulação e gestão de programas inovadores para criação de oportunidades são exemplos de contribuições a uma sociedade mais acolhedora e responsável com seus jovens. 

Revendo paradigmas: A inteligência socioemocional como propulsor do Brasil 

O Brasil, assim como boa parte do mundo, está em um processo de entender o que são essas habilidades socioemocionais e como podemos ensiná-las, aprendê-las e identificá-las. Para isso, além de rever métodos usados e responsabilidades,  necessitamos olhar para os valores que mantemos em diversas áreas da vida, incluindo no mercado de trabalho.

Muito já se fala de que empregados são contratados por suas habilidades técnicas  e demitidos por suas habilidades emocionais. Frente a isso, devemos avaliar se continuaremos valorizando apenas universidades de renome e cursos específicos na hora de escolher um candidato. Temos como importante alternativa a de avaliar, cada vez mais, a forma como os indivíduos lidam com as pessoas bem como as situações em que mostram resiliência e empatia para que passemos a valorizar esses atributos profissionalmente – e até quem sabe socialmente.

Essa pode ser uma oportunidade de inserirmos no mercado de trabalho pessoas que talvez não tenham obtido o melhor diploma, mas se viram constantemente superando obstáculos e desenvolvendo suas habilidades socioemocionais. Uma oportunidade de reverter a situação dos jovens Sem – Sem ao identificar suas potências  e capacitá-los no tema para que encontrem um espaço no mercado empregador ou no empreendedorismo.

É uma oportunidade para o Brasil de usar do seu melhor recurso – sua gente e suas interações – para ter uma nova chance de futuro.

Referências:

Banco Mundial – The STEP Skills Measurement ProgramBase Nacional Comum Curricular (MEC) – Competências socioemocionais como fator de proteção à saúde mental e ao bullying
Financial Management – PwC: Automation could hurt global youth employmentIPEA – Juventude e habilidades socioemocionais: contribuição para entender os jovens sem estudo e sem trabalho 
Instituto Ayrton Senna – Diálogos socioemocionais Politize – Juventude durante e pós pandemia: impactos, inseguranças e oportunidades
Porvir – Competências socioemocionaisThe New York Times – We Didn’t Eat the Marshmallow. The Marshmallow Ate Us 
Universidade da Califórnia em Berkeley – The Big-Five Trait Taxonomy:History, Measurement, and Theoretical Perspectives

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