Este conteúdo é uma parceria do Politize! com o Youth Voices Brasil. O Youth Voices Brasil é uma iniciativa independente, composta por jovens líderes de todo o país, e apoiada pela Y2Y Community e escritório do Banco Mundial no Brasil, com o propósito de erradicar a exclusão produtiva da juventude brasileira.

Ao longo das próximas semanas, traremos textos para refletir sobre a juventude e o mercado de trabalho. Você também pode baixar o Ebook “Juventude Empregada: evidências e práticas“, que é a base dos textos.

Confira os textos já publicados:

1. Inclusão produtiva da juventude: muito além de números, trata-se do presente e futuro do Brasil

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Foto: Unsplash

Não é de hoje que o Brasil enfrenta o desafio de incluir a juventude no mercado de trabalho. Os dados de jovens que estão sem acesso a trabalho e estudo são alvo de notícias há ao menos uma década e o que vemos é uma sequência de números alarmantes .

Na última semana, em meio a crise sanitária- econômica- social que vivemos, chegamos a um cenário próximo de 1 em cada 3  jovens se encontrarem nessa situação de ausência de emprego e educação- um total de 4,1 milhão de jovens. Correspondem a 50 Maracanãs lotados de jovens que se perguntam se o país voltará a gerar empregos;  se eles irão conseguir se inserir no mercado de trabalho; e se terão um futuro em que poderão exercer todas suas potencialidades.

Em um cenário de tamanha privação, talvez o primeiro passo enquanto sociedade seja mudarmos a narrativa acerca dessa juventude. Não se tratam de jovens despreocupados e desinteressados que se tornaram os “nem-nem” comumente mencionados. Classificar jovens dessa forma passa uma falsa ideia de ausência de querer e reitera o estigma da juventude que não “corre atrás”. Em um momento em que o desemprego total assola 14 milhões de casas Brasil afora, fica evidente que o desafio da empregabilidade jovem no país vai muito além de falta de motivação.

É por essa razão que o Youth Voices Brasil defende a interrupção do termo “nem-nem”, e recomenda o emprego da expressão “jovens sem-sem”: sem oportunidades de trabalho e de estudo. Nossas juventudes vivem essa situação não por faltar vontade, mas porque há desafios estruturais que não permitem que oportunidades alcancem 30% dos jovens brasileiros.

A pandemia trouxe mais uma ausência para a juventude: a falta de perspectivas 

Ainda que não possamos atribuir à pandemia a dificuldade de unir as palavras jovem e mercado de trabalho, nunca havíamos tido uma parcela tão significativa da população jovem desocupada e em busca de oportunidades. Como também ocorreu com várias outras mazelas sociais brasileiras, a pandemia agravou em muito a dificuldade de inclusão produtiva jovem, trazendo novas facetas da problemática e escancarando desigualdades.

Em um cenário da pandemia em que, segundo pesquisa do Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE), metade dos jovens entrevistados tiveram seu emprego encerrado, paralisado ou de alguma forma afetado, e mais de 850 mil jovens se viram obrigados a largar o ensino superior particular, uma nova ausência se une às privações da população jovem: a falta de esperança da sua inserção no mercado de trabalho.

Desencorajados é o nome técnico dado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) aos que estão nessas circunstâncias de tamanha dificuldade de empregabilidade que ainda que queiram, não buscam mais oportunidades no mercado de trabalho por não acreditar mais na possibilidade de ouvir o desejado “sim”. No segundo trimestre de 2020, segundo dados da PNAD contínua, mais de 1 a cada 3 jovens sem-sem estavam enquadrados nessa categoria: sem trabalho, sem estudo, sem perspectiva.

A vida seguiu normal com o home-office? Não para todos os jovens

A COVID-19 também trouxe consigo uma nova realidade de estudo e emprego de forma remota, que não se distribuiu de maneira equânime na população brasileira. O acesso e habilidade tecnológica passaram a ser mais um limitante para um dos grupos historicamente mais vulneráveis e com mais dificuldade de acesso ao mercado de trabalho. 

Enquanto 78% dos jovens brancos que responderam à pesquisa do CONJUVE tiveram acesso à internet pelo computador ou notebook no período da pandemia, apenas 54% dos pretos e pardos responderam o mesmo. 

Saúde mental é risco para o futuro da geração 

Desde o início do isolamento social, os jovens sentem que a condição emocional foi bastante afetada, segundo o estudo “Juventudes e a Pandemia,” do CONJUVE.

Ansiedade. 

Tédio. 

Impaciência. 

Esses são os sentimentos mais citados e o equilíbrio emocional está dentre os principais desafios levantados pelo jovem para estudar em casa. 

O impacto da pandemia na saúde mental dos jovens e no desenvolvimento de suas habilidades e capacidades futuras, como a busca e obtenção de trabalho, ainda é incerto, mas o tema torna-se mais um risco no meio de um oceano de dificuldades para a inclusão produtiva jovem  brasileira.

O retorno sustentável passa por incluir a juventude no mercado de trabalho 

Mesmo ainda estando em uma situação de emergência nesta pandemia, é necessário ao  Brasil criar desde já alternativas para os grandes problemas que essa nação-continente precisa encarar de frente para não termos décadas – no plural  –  perdidas daqui em diante. 

É importante salvar vidas acima de tudo, assim como fornecer alívio aos que vivem com fome e pobreza. Ainda assim, é  importante também repensarmos a retomada do país – ou reinício – estabelecendo um plano de reinserção da juventude no mercado de trabalho a ser implementado por múltiplos atores  assim que a pandemia amenizar e tivermos mais pessoas vacinadas.

Muito tem se falado de repensarmos a forma com a qual desenvolvemos sociedades, governos e  organizações,  utilizando da crise provocada pela COVID-19 como oportunidade para estruturarmos um novo modelo: um retorno sustentável. 

Sustentabilidade é econômica, ambiental e social.  Estamos falando aqui de uma geração inteira que não pode passar sua vida condenada a ter tido seu futuro determinado pelos efeitos desse período de isolamento. Não incluir a empregabilidade jovem como pauta prioritária do momento pós-pandemia virá às custas de ter um país com grandes e cada vez mais irreversíveis débitos.

É hora de rever o descasamento entre habilidades e oportunidades

Dentre os caminhos possíveis a serem reforçados em prol da empregabilidade jovem, a desconexão entre as formações oferecidas pelo sistema educacional e a demanda do mercado de trabalho está nas maiores prioridades. As demandas dos negócios tem se reinventado em grande velocidade e é importante olharmos para a conexão da demanda do mercado de trabalho (necessidades de empresas ofertantes de vagas) com a oferta – capacitando a juventude.

Aprendendendo a se reinventar para o futuro do trabalho com habilidades técnicas e socioemocionais 

Mais da metade das ocupações formais no Brasil tem uma alta possibilidade de serem automatizadas até 2026, segundo estudo da Universidade de Brasília. As Tendências Globais de Empregabilidade 2020, da Organização Internacional do Trabalho (OIT),  também destacam que os trabalhos ocupados pelos jovens são mais prováveis de serem automatizados. Frente a  isso, é fundamental treinar os jovens nas habilidades técnicas e sociais para que realmente haja um futuro próspero do trabalho para a juventude.

No que toca a aptidões mais específicas, áreas voltadas a tecnologia e negócios digitais tem grande potencial de absorver o excedente de mão de obra, mas há também uma forte demanda de termos jovens capacitados nas habilidades cada vez mais exigidas no mercado de trabalho, como comunicação e resolução de problemas. A maioria dos jovens de hoje provavelmente terão mais de duas carreiras durante a vida, então o que precisamos mesmo é aprender a aprender.

Por uma via do empreendedorismo que seja uma opção digna

O empreendedorismo no Brasil carrega consigo um histórico majoritário de “empreendedorismo de necessidade” – aquele que aparece como único caminho quando não se há mais alternativas no mercado de trabalho. Esse chamado “empreendedor por necessidade” costuma enfrentar muitas dificuldades e condições de trabalho pouco dignas. Esse não é o único formato possível .Com o ambiente adequado, há oportunidades de termos uma nova via do empreendedorismo como uma grande fonte de inclusão produtiva jovem. 

O sonho de possuir um negócio próprio está cada vez mais no imaginário da juventude como carreira profissional. E para a  sociedade, essa alternativa tem muito potencial ao aliar  a necessidade de inclusão produtiva com a de desenvolvimento econômico. É momento de incluirmos essa oportunidade com a devida seriedade, criando o ambiente econômico-regulatório propício para isso e mais especificamente em relação aos jovens, fornecendo  formação e acesso a crédito para que possam criar seus próprios negócios.

O Brasil de jovens “tem-tem”: ele não virá de uma solução única – é necessário criar oportunidades múltiplas

O Brasil dos jovens sem-sem precisará abandonar sua tendência de buscar o salvador da pátria – aquele ou aquilo que virá para resolver nosso grande desafio da inclusão produtiva jovem- se quiser tornar-se o Brasil das oportunidades.

Não há solução, esforço ou setor que, de maneira independente, seja capaz de resolver o emaranhado de problemas complexos, tangentes e múltiplos que a empregabilidade jovem carrega, que foram potencializados com os difíceis impactos da pandemia. Necessitamos de articulação coordenada e multiplicidade de ações para dar voz e vez a toda a potência que 30% da população jovem tem e que aguarda ansiosamente por uma oportunidade.

Ao fim, o caminho para o Brasil dos jovens tem-tem passa por compreendermos o impacto causado por desviar o olhar da empregabilidade jovem.  Nessa mesa de decisão do país que seremos, todos têm responsabilidade e capacidade de atuação, dados os diferentes vínculos – da saúde à educação – com a inclusão produtiva jovem.

Se não souber por onde começar, inicie nomeando a juventude como o que ela de fato é: sem-sem. Que carece de chances e não de interesse em melhores oportunidades para si e para o país. E busque participar de movimentos, coletivos, iniciativas e projetos que potencializem a transformação dessa juventude para tem-tem: que tem oportunidade de trabalho e de estudo. 

Referências:

Ebook “Juventude Empregada: evidências e práticas

As Tendências Globais de Empregabilidade 2020

Juventudes e a Pandemia

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