O dia 28 de junho marca a data em que a comunidade LGBTQIA+ percebeu a importância de lutar contra a repressão que sofria. 

Na madrugada daquele dia, em 1969, um grupo de policiais de Nova York (EUA) fez uma batida violenta no bar Stonewall Inn, local que era frequentado por gays, lésbicas, trans, drag queens e outras figuras marginalizadas. Revoltados com os abusos policiais, os frequentadores se recusaram a ser presos.

A ação impulsionou a criação de diversos protestos, incluindo a realização da primeira Parada do Orgulho, chamada na época como Dia da Libertação Gay da Rua Christopher. Mas você sabia que todo esse movimento foi liderado por uma ativista trans? 

Leia também: Movimento LGBT: a importância da sua história e do seu dia

Quem foi Marsha P. Johsson? 

Nascida em 1945, no estado de Nova Jersey (EUA), Marsha P. Johnson estava na linha de frente contra a violência policial ao lado de outras mulheres trans e drag queens. 

Sua luta foi fundamental para a conquista de direitos LGBTs na contemporaneidade. Johnson trabalhava nas ruas e lidava constantemente com o abuso de autoridades. Ela passou a protestar contra a prisão e perseguição de seus “irmãos e irmãs gays” e exigiu a libertação de pessoas trans e homossexuais presas injustamente.

É importante ressaltar que, apesar deste marco histórico, Marsha e sua amiga Sylvia Rivera, também ativista, enxergaram a necessidade de fazer algo a mais pelas pessoas trans, já que elas continuaram sendo marginalizadas pela sociedade e dentro da própria comunidade LGBTQIA+.

Na década de 1970, elas fundaram a Streat Transvestite Action Revoluntionaries (S.T.A.R.), que oferecia abrigo, comida e roupas para jovens trans e drag queens que viviam nas ruas de Greenwich Village.

Em entrevista ao Politize!, Letícia Nascimento, autora do livro “Transfeminismo” pela coleção Feminismos Plurais, afirma que as mulheres trans e travestis sempre estiveram à frente da luta da comunidade como um todo. 

“Essas identidades estavam no front de batalha e com o tempo sofreram um apagamento, enquanto o gay branco acabou ganhando ênfase. As travestis são marginalizadas dentro do próprio movimento até os dias de hoje, quando na realidade elas estavam presentes desde o início”, relata. 

Em 1992, o corpo de Marsha foi encontrado no rio Hudson, próximo ao bairro onde viveu. Ela tinha 46 anos. Classificada como “suicídio”, as circunstâncias de sua morte nunca foram totalmente esclarecidas ou investigadas. Os desdobramentos do caso foram retratados no documentário “A morte e vida de Marsha P. Johnson”, disponível na Netflix.

Quem foi Xica Manicongo e qual é a sua importância para o Brasil? 

Xica Manicongo é considerada a primeira travesti documentada na história do Brasil. Sua história foi descoberta pelo antropólogo Luiz Mott através de uma denúncia que foi feita nos Tribunais do Santo Ofício, em 1591.

Xica se vestia com um pano amarrado com nó para frente, similar às vestimentas dos quimbanda (termo bantu para definir “invertido” ou “curador”). Seu sobrenome, Manicongo, era um título utilizado pelos governantes no Reino do Congo para se referir aos seus senhores e às suas divindades. Dessa maneira, a tradução de seu nome seria Rainha ou Realeza do Congo.

Ela chegou em Salvador como escravizada e teve que viver com a sua identidade anulada. Ela trabalhava como sapateira e se tornou conhecida na Cidade Baixa por ter diversos relacionamentos amorosos. 

Historiadores afirmam que Xica tinha resistência as vestimentas masculinas, pois isso ia contra as tradições de sua origem, onde ela assumia sua identidade feminina. No século XVI, ela enfrentou o Tribunal da Inquisição, o mesmo que queimava bruxas na Europa. Para escapar da pena de morte, ela teve que jurar que iria se vestir de acordo com os costumes da época. 

“A gente entende que ali houve uma transgressão, houve um risco de morrer. Esse risco de morrer só não aconteceu naquele momento, porque ela teve que negociar a própria identidade para poder existir. Isso é muito cruel”, conta Nascimento.

A data e as circunstância da morte de Xica são desconhecidas. 

A luta por direitos das pessoas trans nos dias atuais 

A história do movimento LGBTQIA+ é marcada pela invisibilidade das pessoas trans, apesar delas estarem desde o início do movimento na linha de frente para a conquista de direitos fundamentais para toda a comunidade.

As marcas dessa invisibilidade podem ser traduzidas nos dados da violência contra essa população: o Brasil continua sendo o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Em 2020, foram 175 assassinatos, com uma alta de 41% em relação ao ano anterior (124 homicídios). 

As travestis que se prostituem são as principais vítimas dos crimes (65%), ao lado das negras (71%) e que moram em regiões periféricas. As informações foram divulgadas pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Apesar das conquistas políticas que ocorreram na última década, como o nome social e a doação de sangue, as leis para proteger essa população continuam precárias.

“Hoje temos acesso a hormonização pelo SUS e a cirurgia de redesignação. No caso da cirurgia, 5 centros fazem o procedimento em todo o Brasil. Como você pode atender toda uma população apenas com essas instituições? Não chega a toda a população, fora a burocracia”, reflete Nascimento. 

A criminalização da LGBTfobia também é outra questão, já que equipara a um crime já existente. Não há uma lei específica que puna esses crimes. Apesar dos avanços, de acordo com a comunidade, as conquistas ainda precisam ser institucionalizadas e aprimoradas. 

Leia também: LGBTfobia no Brasil: fatos, números e polêmicas

REFERÊNCIAS

Livro Transfeminismo – Coleção Feminismos Plurais

Canal Preto – À Todas Xicas Manicongo 

Meteoro – Quem foi Marsha P. Johson?

Buzzfeed – Você conhece Xica Manicongo? 

Deixe um Comentário








Enter Captcha Here :