Gilberto Gil com violão. Movimento Tropicália.
Gilberto Gil, importante nome do movimento tropicália. Foto: Wikimedia Commons.

A década de 60 representou para a música um período revolucionário, despertando o potencial de grandes artistas e movimentos de fortes ideologias. No contexto internacional, em 1965, viu-se a explosão de grandes nomes, como Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Bob Marley e Janis Joplin. Em consonância, a década se encerrou com “chave de ouro” para os hippies a partir do Festival de Woodstock em 1969 – o grande marco da contracultura.

No Brasil, a década também surpreendeu. Em meio a um contexto político incerto, explodiram expressões politizadas e de protesto, além do pop da Jovem Guarda e o excêntrico da Bossa Nova. E no meio de tudo isso, outro movimento passou a transgredir: o tropicália, que contaremos melhor a seguir!

O que foi o movimento Tropicália?

O movimento tropicália ou tropicalismo foi um movimento cultural que atingiu, sobretudo, a música brasileira a partir da década de 60, mas também influenciou na terceira fase do Cinema Novo (1968 – 1972), um movimento cinematográfico brasileiro marcado pela sua crítica à desigualdade social. Grandes nomes conhecidos hoje, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, atuaram ativamente fazendo com que características estéticas e ideológicas reverberassem por essa esfera cultural sonora.

Além desses artistas, o movimento envolveu muitos outros músicos que, partindo das ideias transgressoras do tropicalismo, construíam canções misturando elementos de diferentes tipos.

Apesar de hoje ser conhecido por esse nome, o movimento nem sempre foi considerado de tal forma. E para entendermos melhor essa questão, vale pensar, então, em como ele surgiu.

Como o tropicalismo surgiu?

Tudo começa com o Festival de Música Popular Brasileira. Inaugurado em 1965, foi um concurso anual de canções originais e inéditas que revelou muitos talentos considerados hoje clássicos da música brasileira, tais como Elza Soares, Chico Buarque, Elis Regina, Nara Leão, Roberto Carlos, Os Mutantes (com Rita Lee), entre outros.

Foi por meio desse evento que, em 1967, na terceira edição, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Os Mutantes abalaram a tradição da música brasileira. Trazendo novos elementos às canções, os artistas apresentaram no Festival, respectivamente, “Alegria, alegria” e “Domingo no Parque” – interpretada mutuamente por Gil e Os Mutantes.

Veremos com o pesquisador Celso Favaretto que essas músicas denotavam certa ambiguidade e, assim, revelavam algo diferente: “pela primeira vez, apresentar uma canção tornava-se insuficiente para avaliá-la, exigindo-se explicações para compreender sua complexidade”.

Tudo indicava, portanto, uma ruptura com o que era feito até o momento na música e um novo processo para a construção das canções, repleto de singularidades e complexidade. Era um movimento de inovações estéticas que propunha reinventar a música brasileira.

Desse modo, o Festival configurou o ponto de partida de todo um movimento que seria denominado pela imprensa, por fim, como Tropicália.

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A origem do nome Tropicália

“Tropicália” nomeia, inicialmente, a obra do artista plástico Hélio Oiticica, exposta na mostra Nova Objetividade Brasileira, de 1967, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A respeito da obra, o portal Memórias da Ditadura nos revela suas características que curiosamente têm semelhanças com o tropicalismo:

“A obra era constituída por um labirinto de madeira forrado com areia e pedras, que, ao ser percorrido pelo espectador, colocava-o em contato corporal com diversos elementos naturais e culturais do Brasil, como plantas tropicais e araras nativas, num percurso que terminava em frente a um aparelho de televisão ligado.”

Conhecendo a exposição de Oiticica, o fotógrafo jornalístico Luíz Carlos Barreto, ao ouvir a produção de Caetano Veloso e sabendo que ela não tinha nome ainda, sugere “Tropicália”, reconhecendo as semelhanças de ambos trabalhos. Caetano, entretanto, não gosta tanto da ideia, já que sequer conhecia a obra do artista plástico.

Ainda assim, mais tarde, como afirma o cantor, sem um nome para sua produção, como se “não achasse nunca um outro melhor e o disco já estivesse pronto, Tropicália ficou e oficializou-se”. Dessa forma, o nome foi para o álbum e, posteriormente, para o próprio movimento. Nesse último caso, Caetano esclarece:

“A ideia de que se tratava de um movimento ganhou corpo, e a imprensa, naturalmente, necessitava de um rótulo. O poder de pregnância da palavra tropicália colocou-a nas manchetes e nas conversas. O inevitável ismo se lhe ajuntou quase imediatamente.”

Quais as características do movimento?

Para entender as características do movimento Tropicália, é importante lembrar que ele surgiu em um contexto bem específico. Naquele momento, muitas canções eram politizadas funcionando como forma de protesto em meio à ditadura militar. Ao mesmo tempo, outras músicas percorriam o pop com influência do rock internacional.

Além desse contexto, para compreender o projeto do movimento Tropicália, também é preciso entender sua relação com a poesia concreta e conhecer o movimento Antropofágico que surge nos anos 20 com o modernismo brasileiro, mais especificamente, com Oswald de Andrade.

Em primeiro lugar, os tropicalistas, ao focarem no aspecto estético das canções, criavam jogos linguísticos com grande semelhanças à poesia concreta. O próprio Augusto de Campos, um dos primeiros poetas concretos do Brasil, em 1966, saúda Caetano Veloso e sua música em uma matéria jornalística.

Para mais, a partir das canções mencionadas apresentadas no Festival de Música Popular Brasileira em 1967, o movimento Tropicália se inicia a fim de misturar expressões e gerar uma nova música brasileira. E são essas características que revelam a sua forte semelhança e influência do movimento Antropofágico de Oswald de Andrade.

Movimento tropicália e a Antropofagia

A Antropofagia começa em 1928 com a publicação do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. A partir disso, um movimento começa a despertar, principalmente na literatura, em que os autores buscam adotar a antropofagia para a composição de suas obras.

Oswald recupera esse nome do ritual de grupos tribais em que se comia uma ou várias partes de um ser humano inimigo. No mesmo sentido, o projeto literário propõe o ato de devoração ou deglutição daquilo que for bom nas outras culturas. Com isso, devorando somente o benéfico do colonizador e recuperando a tradição e o primitivo do Brasil, os modernistas acreditavam que finalmente alcançariam uma literatura nacional.

Caetano Veloso assume a influência desse movimento e, em sua própria biografia, Verdade Tropical, dedica um capítulo, intitulado “Antropofagia”, para comentar sobre o assunto:

“O segundo manifesto, o Antropófago, desenvolve e explicita a metáfora da devoração. Nós, brasileiros, não deveríamos imitar e sim devorar a informação nova, viesse de onde viesse, ou, nas palavras de Haroldo de Campos, ‘assimilar sob espécie brasileira a experiência estrangeira e reinventá-la em termos nossos, com qualidade locais ineludíveis em que dariam ao produto resultante um caráter autônomo’ (…).”

Ainda em Verdade Tropical, fica explícito o processo de devoração que o próprio músico realiza ao compor suas canções, resgatando e misturando elementos de diferentes linhas estéticas, como ilustra o trecho:

“Pensando num velho samba de Noel Rosa chamado ‘Coisas nossas’, que enumerava cenas, (…), imaginei uma canção que tivesse temática e estrutura semelhantes, só que, como no caso de ‘Alegria, alegria’, em relação a ‘ Clever boy samba’, não ficasse no tom simplesmente satírico (…).”

O projeto nacional – como objetivava o movimento antropofágico –, por sua vez, revela-se na fala, por exemplo, da Rita Lee em entrevista: “Caetano e Gil é que me deram todas as dicas de como fazer música brasileira, que até então era só coisa gringa, só coisa de outras pessoas”. Sobre seu próprio processo artístico, a cantora ainda completa: “é uma mistura de tudo, eu sou uma mistura de tudo. (…) Eu não me misturava com nada e eu era tudo”.

Qual a relação do Tropicália com a política?

O movimento Tropicália, como mencionado nasceu durante a Ditadura Militar no Brasil. Esse regime, instaurado em 1964, despertou nos artistas determinada consciência política sobre suas produções. Assim, usaram da música para realizarem seus protestos contra a realidade política em que viviam. Um exemplo deles é o Geraldo Vandré cuja canção ficou famosa pelo protesto implícito nos versos:

“Caminhando e cantando e seguindo a canção Somos todos iguais braços dados ou nao Nas escolas nas ruas campos construções Caminhando e cantando e seguindo a canção Vem vamos embora que esperar nao e saber Quem sabe faz a hora não espera acontecer”

Muitas outras canções tinham objetivos políticos e sociais, mas, para os tropicalistas, na verdade, a experiência transgressora da composição das canções era o foco da revolução. Nesse sentido, o sociólogo Cláudio Coelho aponta que o movimento Tropicália “compartilha alguns elementos da visão sobre a cultura e a política predominante nos anos 60, mas lhes atribui um significado diferente. O tropicalismo construiu uma versão alternativa das relações entre cultura e política”.

Desse modo, os tropicalistas reconheciam – bem como outros movimentos musicais da época – a associação da produção artística às transformações revolucionárias. Contudo, suas manifestações eram feitas, na verdade, por meio das inovações estéticas na composição das canções. E foi assim que inauguraram um novo jeito de fazer música brasileira.

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REFERÊNCIAS

Agência Brasil: 50 anos tropicália

Caetano Veloso: Verdade Tropical

Celso F. Favaretto: Tropicália: Alegoria, Alegria

Cláudio N. P. Coelho: A Tropicália: cultura e política nos anos 60

Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello: A Canção no Tempo 2

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