Entre as muitas lições que a pandemia de COVID-19 tem nos ensinado está a noção de que o meio ambiente não é um universo paralelo, à parte do ser humano. Ambos estão intimamente conectados, impactando um ao outro.

Em janeiro deste ano, o Fórum Econômico Mundial, encontro que reúne anualmente em Davos, na Suiça, líderes políticos, empresários e acadêmicos, publicou a 16ª edição de seu relatório sobre riscos globais (The Global Risks Report 2021). Na lista dos dez maiores riscos a serem enfrentados na próxima década, doenças infecciosas, fracasso na ação climática, clima extremo, perda da biodiversidade e danos ambientais causados pela humanidade lideram por impacto e probabilidade.

A profunda interconexão existente entre saúde humana e ambiental, assim como a necessidade de tratar seus desafios e possíveis soluções de forma integrada, deu origem à abordagem Saúde Única (One Health). Embora o conceito não seja novo, ele só começou a ganhar força nos últimos anos e tem se mostrado fundamental diante da atual situação de caos e incerteza causada pela COVID-19, com 3.7 milhões de vidas perdidas até o momento e custos estimados entre $8 a $16 trilhões de dólares apenas em 2020. 

Ainda que não existam evidências definitivas sobre a origem da COVID-19 e duas principais hipóteses estejam em debate atualmente na comunidade científica – o surgimento do vírus na natureza em oposição ao seu surgimento no Instituto de Virologia de Wuhan, a pandemia trouxe à tona não apenas a problemática do comércio e consumo de animais silvestres, mas o contexto maior no qual ele está inserido, reacendendo a discussão sobre o elo existente entre saúde humana, animal e ambiental. 

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Neste artigo, iremos explicar o que é a abordagem Saúde Única, sua importância e relação com  a conservação ambiental e como sua aplicação pode prevenir futuras pandemias.

O tripé Saúde Humana, Animal e Ambiental

Ebola, HIV/AIDS, Zika, MERS, SARS. Esses são apenas alguns exemplos de uma lista de zoonoses, doenças causadas por vírus que têm sua origem em animais silvestres ou domésticos e que de alguma forma – diretamente ou através de um animal intermediário – “pularam” do animal de origem para o ser humano com efeitos sociais e econômicos desastrosos. 

Segundo um estudo publicado na revista científica Nature em 2008, cerca de 60% das doenças infecciosas que emergiram no período de 1940 a 2004 tiveram sua origem em animais, sendo que mais de 70% delas foram causadas por agentes patogênicos – organismos que causam doenças infecciosas, tais como vírus, bactérias e parasitas – originários de animais silvestres. O estudo aponta ainda para uma correlação entre o aparecimento dessas doenças e fatores sócio-econômicos, ecológicos e ambientais. 

A expansão da atividade industrial e agropecuária, o desenvolvimento de projetos de extração e infraestrutura, o crescimento populacional e a ocupação humana de áreas naturais provocam alterações drásticas nos ecossistemas resultando em uma maior interação entre a vida selvagem, animais domésticos e o ser humano o que favorece o surgimento de doenças. Um segundo estudo publicado na revista Nature em 2020 revelou que espécies de animais silvestres que carregam patógenos transmissíveis aos seres humanos estão presentes em ambientes alterados em maior proporção do que em áreas preservadas. 

O desmatamento e a degradação ambiental contribuem também para o agravamento da crise climática que, por sua vez, aprofunda ainda mais o desequilíbrio ecológico e as chances de contágio. O aquecimento do planeta e o consequente deslocamento de pessoas e da vida selvagem em busca de ambientes mais favoráveis aumentam as possibilidades de contato entre eles, facilitando a propagação de agentes patogênicos.

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Some-se a isso a prática de atividades como o comércio e o consumo de animais silvestres e está criado o cenário perfeito para a disseminação de doenças. Cientistas estimam que existam cerca de 1.7 milhões de vírus ainda não identificados, dos quais 631,000 a 827,000 teriam potencial de transmissão aos seres humanos (Carroll, 2018). Em um mundo globalizado como o nosso, onde transitar de uma região para outra se tornou relativamente fácil, o risco de termos pandemias ocorrendo com mais frequência, se espalhando de forma mais rápida e com impactos ainda maiores na saúde e economia é real. 

Saúde Única: o que é e qual sua importância

As relações de causa-efeito descritas acima mostram que não é por acaso que os riscos de doenças infecciosas e riscos ambientais lideram na lista elaborada pelo Fórum Econômico Mundial. Ambos caminham juntos e seus impactos afetam também outros campos como economia, emprego e educação. 

É desse contexto que emerge a abordagem Saúde Única. Originário do inglês One Health, o termo nasceu em 2004, resultado de um simpósio em Nova Iorque organizado pela organização não-governamental Wildlife Conservation Society que reuniu especialistas em saúde humana e animal do mundo todo para discutir a transmissão de doenças entre humanos, animais domésticos e vida selvagem. O encontro serviu de base para o conceito One World, One Health que em 2019 foi atualizado para One Planet, One Health, One Future.

Não há uma definição oficial para o termo Saúde Única. Entre as diferentes interpretações existentes, todas muito próximas entre si, adotaremos aqui a descrição usada pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) nos Estados Unidos: “Saúde Única é uma abordagem colaborativa, multisetorial e transdisciplinar, atuando nos níveis local, regional, nacional e global, com o objetivo de atingir os melhores resultados na área da saúde reconhecendo a interconexão existente entre pessoas, animais, plantas e o meio ambiente que eles compartilham“.

Em essência, Saúde Única reconhece que a chave para a saúde humana está no equilíbrio dos ecossistemas e na conservação da biodiversidade, e entende que prevenir o surgimento de zoonoses passa necessariamente por propor soluções que tenham em vista o bem-estar humano, animal e do planeta. 

Uma vez que doenças zoonóticas são causadas por fatores complexos e de naturezas distintas – epidemiológicos, ambientais, sociais, econômicos e culturais – a abordagem Saúde Única propõe que medidas de prevenção e mitigação sejam desenhadas por meio da colaboração entre especialistas de diversas áreas, que inclui não apenas membros da comunidade médica, infectologistas e virologistas, mas também ecólogos, especialistas em conservação da biodiversidade e veterinários, além de profissionais da área de ciências sociais e políticas públicas. 

E será que uma economia sustentável é possível? Confira esse debate no vídeo!

Saúde Única na prática: como a conservação ambiental pode evitar futuras pandemias

Se o risco de aparecimento de novas pandemias aumenta com a degradação do mundo natural, parece sensato e até mesmo lógico que preveni-las envolva reverter esse quadro através de medidas que promovam a conservação e restauração dos ecossistemas e a preservação da biodiversidade. 

Em um estudo publicado na revista Science, um grupo de cientistas que pesquisou os aspectos ecológicos e econômicos envolvidos na prevenção de pandemias mostra que o contato humano e de animais domésticos com a vida selvagem aumenta em áreas que perderam mais de 25% de sua cobertura vegetal. O estudo cita como exemplo morcegos frugívoros, entre eles a espécie que carrega o vírus Ebola, os  quais tendem a se alimentar próximo a assentamentos humanos quando seu habitat natural encontra-se degradado. 

Outro caso interessante é o do vírus Zika. Transmitido por mosquitos do gênero Aedes e identificado pela primeira vez em 1947 na Uganda, o vírus se espalhou pelo continente africano, Ásia, ilhas do Pacífico e Américas, provocando em 2016 no Brasil uma epidemia com centenas de casos confirmados de microcefalia, uma má-formação cerebral em bebês. Na Uganda, no entanto, a transmissão nunca atingiu o estágio de epidemia. Segundo Julius Lutwama, virologista do Instituto de Pesquisa de Vírus de Uganda, isso se deve, entre outros motivos, ao estado de conservação das florestas na Uganda, onde o habitat do mosquito se encontra relativamente preservado. Lutwama acredita que em países afetados pelo desmatamento o mosquito tenha migrado para as zonas urbanas onde se adaptou. 

Os estudos aqui mencionados indicam que ambientes intactos ou bem preservados reduzem as chances de disseminação de zoonoses entre animais e seres humanos, mostrando que promover a conservação ambiental é atuar de maneira preventiva no combate à epidemias e pandemias.  

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É preciso, no entanto, priorizar sua importância através de políticas, programas e planos de ação que tragam o tema da conservação ambiental para o primeiro plano. Entre as medidas sugeridas pelo painel de especialistas da Plataforma Intergovernamental Científico-Normativa sobre Diversidade Biológica e Serviços dos Ecossistemas (IPBES) estão:

  • Aprimorar o conhecimento sobre a relação entre degradação e restauração dos ecossistemas e estrutura da paisagem, e o risco de surgimentos de zoonoses; 
  • Criar um conselho intergovernamental de prevenção à pandemias responsável por prover informações e evidências científicas sobre zoonoses e áreas de risco, avaliar o impacto econômico de potenciais pandemias e coordenar o desenho de um marco global de monitoramento; 
  • Estabelecer metas e objetivos comuns a serem atingidos pelos países na implementação do conceito de Saúde Única, com claros benefícios para as pessoas, os animais e o meio ambiente; 
  • Integrar os temas de restauração ecológica, adaptação climática e provisão de serviços ecossistêmicos à decisões ligadas à saúde; 
  • Institucionalizar a abordagem Saúde Única entre os países, visando criar planos de preparação para pandemias e promover a atuação preventiva na detecção de zoonoses; 
  • Desenvolver avaliações sobre riscos de doenças zoonóticas e impactos na saúde e incorporá-las a projetos de desenvolvimento e uso do solo; 
  • Reformar os mecanismos de ajuda financeira de modo que benefícios e riscos à biodiversidade e à saúde sejam reconhecidos e abordados de forma explícita;
  • Integrar o custo econômico de pandemias às políticas de consumo e produção e aos orçamentos dos governos; 
  • Valorizar a participação e o conhecimento de comunidades locais, povos tradicionais e indígenas em programas de prevenção à pandemias;
  • Educar comunidades em áreas com alto potencial de surgimento de doenças zoonóticas sobre os riscos à saúde associados ao uso e comércio da vida selvagem; 
  • Aumentar a fiscalização do comércio ilegal de espécies silvestres e reduzir ou eliminar espécies de alto risco do comércio de animais; 
  • Promover mecanismos sustentáveis para reduzir o consumo de animais silvestres preservando, ao mesmo tempo, seu papel na segurança alimentar de comunidades locais, povos tradicionais e indígenas. 

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Em 2006, o Fórum Econômico Mundial já tinha alertado para o risco de uma pandemia global. Quinze anos e muitos outros alertas depois aqui estamos novamente batendo nessa mesma tecla. Com a casa pegando fogo é compreensível que a atenção esteja agora focada no desenvolvimento de vacinas, medidas de higiene pessoal e o distanciamento social, que de fato salvam vidas. Mas seguindo o ditado – bastante propício, aliás – de que é preciso tratar não apenas os sintomas mas as causas do problema, devemos atuar de forma estratégica e buscar sim apagar o incêndio mas acima de tudo evitar que ele aconteça novamente.

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REFERÊNCIAS

WORLD ECONOMIC FORUM. The Global Risks Report 2021, 16th Edition

JONES, K., Patel, N., Levy, M. et al. Global trends in emerging infectious diseases

GIBB, R., Redding, D.W., Chin, K.Q. et al. Zoonotic host diversity increases in human-dominated ecosystems. Nature 584, 398–402 (2020

CARROLL, D. et al. The global virome project. Science 359, 872-874 (2018).

CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, National Center for Emerging and Zoonotic Infectious Diseases (NCEZID)

DOBSON, A. P. et al. Science 369, 379–381 (2020). Ecology and economics for pandemic prevention

O GLOBO. Uganda: Por que o berço do zika nunca teve nenhum surto?

THE GUARDIAN. ‘Tip of the iceberg’: is our destruction of nature responsible for Covid-19?

THE GUARDIAN. Halt destruction of nature or suffer even worse pandemics, say world’s top scientists

NATURE. Why deforestation and extinctions make pandemics more likely

HARVARD T.H. CHAN. Coronavirus, Climate Change, and the Environment. A Conversation on COVID-19 with Dr. Aaron Bernstein, Director of Harvard Chan C-CHANGE

IPBES (2020) Workshop Report on Biodiversity and Pandemics of the Intergovernmental Platform on Biodiversity and Ecosystem Services.

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