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5G: o que é e qual sua importância política?


Conteúdo sobre 5G.Carros que dirigem sozinhos, geladeiras que encomendam sua comida antes de acabar, fábricas com robôs que nos avisam quando estão prestes a dar defeito, filmes de completa imersão em realidade virtual… Tudo isso faz parte do “admirável mundo novo” prometido pela 5G, a quinta geração de redes de comunicação móvel.

Talvez você também já tenha ouvido falar, porém, que há uma tremenda discussão política em torno da 5G, envolvendo China de um lado, Estados Unidos do outro e todo mundo no meio! Mas, afinal, o que é a 5G e qual é a sua importância política? Apertem os cintos imaginários do seu assento e vamos descobrir!

Aviso: as sanções e políticas adotadas por cada país, inclusive pelo governo brasileiro, em relação ao equipamento 5G estão sujeitas a constante mudança até que a situação se estabilize no médio-prazo. É possível que medidas arroladas no momento da redação desse artigo já tenham sido superadas.

A 5G e redes de comunicação móvel

Como dito acima, a 5G é um nome curto dado à quinta geração de redes de comunicação móvel. Hoje, quando usamos nossos celulares para enviar mensagens, assistir vídeos ou fazer ligações (sem utilizar o Wi-Fi), nos valemos das redes 2G, 3G, 4G ou mesmo 4.5G a depender da cobertura de rede do lugar de onde estivermos falando. No momento da publicação deste artigo, a cobertura de 3G no Brasil é praticamente universal, chegando a 99,8% dos cidadãos brasileiros, e a cobertura de 4G não fica muito para trás, atingindo 97,3% da população, como pode ser visto na figura.

Mapa 5g.

Cobertura de rede no Brasil. Fonte: Anatel.

Essas redes de comunicação móvel, sejam da geração que forem, consistem em um conjunto de tecnologias que nos habilita a trocar informações a partir de dispositivos portáteis (como os celulares) a qualquer momento, do lugar onde estivermos, mesmo que estejamos em movimento. Isso as diferencia das redes de comunicação fixa, que só podem ser utilizadas a partir de pontos precisos no espaço, como é o caso dos telefones fixos (GUIMARÃES, 1998).

E como essas tecnologias chegam até nós? Bem, enquanto consumidores, nós não compramos a tecnologia de infraestrutura 5G propriamente dita, produzida por empresas como Huawei, Ericsson, Nokia e ZTE. Essas tecnologias são adquiridas e instaladas pelas operadoras de telefonia – Claro, TIM, Oi e Vivo – que usam dessa tecnologia para oferecer o serviço 5G que, aí sim, contratamos.

E, vale dizer, o Estado brasileiro, principalmente na figura da Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), tem a função de “regular” os serviços de comunicação móvel. Isso envolve adotar medidas para o bom funcionamento desses serviços como, por exemplo, decidir qual equipamento pode ou não pode ser utilizado para sua prestação.

Um vôo rasante pelas gerações de redes móveis

A 5G, que hoje está em vias de ser implantada no Brasil, é a culminação de um longo processo histórico de evolução tecnológica.

Lá em 1979, quando a primeira geração de redes de comunicação móvel (1G) foi posta em operação no Japão, a tecnologia de sistemas de rádio analógicos utilizados à época só permitia a comunicação por áudio, a tradicional chamada telefônica.

Pouco mais de 10 anos depois, foi lançada a segunda geração (2G) – agora com sinal digital – que além de aumentar a segurança das comunicações viabilizou o envio de mensagens SMS (do inglês, Short Messaging Service, mensagens apenas de texto) e MMS (Multimedia Messaging Service, para imagens e vídeos).

O verdadeiro ponto de inflexão na nossa forma de usar as comunicações móveis, porém, veio com a terceira geração (3G). As taxas de transmissão – nome técnico daquilo que coloquialmente chamamos de “velocidade” da internet” – da 3G eram de tal forma superiores à da 2G que com ela era possível carregar vídeos na hora, jogar jogos online, fazer chamadas de vídeo e interagir em tempo real em redes sociais; tudo isso direto do seu celular.

Essa tecnologia, por si só revolucionária, recebeu um empurrão a mais com o lançamento do iPhone 3G, em 2008, marco de abertura da era dos smartphones.

A transição para a quarta geração (4G) foi mais suave. Embora a tecnologia tenha continuado a evoluir e as taxas de transmissão a aumentar, essa geração não desembocou em uma mudança tão radical na forma como utilizamos a tecnologia móvel. Inclusive, neste exato momento, as redes 4G continuam a ser aprimoradas para se tornar o que chamamos de 4.5 G.

O diferencial da 5G

A 5G, de que agora falamos, combina ganhos de desempenho em diversos aspectos. Além de melhorar o funcionamento geral da internet em dispositivos móveis, viabiliza aplicações antes impensáveis, entre elas a adoção em massa da computação em nuvem, a Internet das Coisas (IoT) e os veículos autônomos.

Os principais ganhos de desempenho aparecem em quatro características da rede: elevadíssimas taxas de transmissão, a alta confiabilidade de rede, latência próxima a 0 e alta capacidade de rede. Os nomes técnicos dessas características podem parecer um pouco complicados, mas já vamos explicar!

Taxas de transmissão

Com taxas de transmissão (velocidade de download e upload) mais altas, podemos receber e enviar conteúdos mais “pesados”. Isso aconteceu ao longo da evolução da comunicação móvel e é bem fácil de perceber. Você deve se lembrar que há alguns anos não existia essa de chamada de vídeo pelo celular e, se for um pouco mais velho, talvez se recorde de só conseguir usar o YouTube no computador. Para citar um exemplo mais recente, pense que aplicativos baseados em imagens e vídeos, como Instagram e Snapchat, só dão certo porque esses conteúdos carregam rápido o suficiente.

Com a 5G, para você ter uma ideia, a internet poderá ficar até 1000 mais rápida que a 4G, chegando a vertiginosas taxas de 10GB por segundo. Isso equivale a baixar um filme de 1 hora e meia em 4K no Netflix em um literal piscar de olhos (Digital Trends, 2020)! Veremos então emergir o uso rotineiro de vídeos em alta definição, imensos conjuntos de dados (Big Data) ou até mesmo ambientes computadorizados extremamente detalhados, projetados para uso com um dispositivo de Realidade Virtual.

Confiabilidade

A confiabilidade de uma rede é definida como a capacidade da rede de continuar funcionando quando há alguma falha em uma parte dela. Imagine que a rede de comunicações é como uma malha de estradas, que te leva da cidade A à cidade B. Em um primeiro cenário, há apenas um túnel interligando as duas cidades. Se depois de um temporal uma árvore tomba bem em frente a entrada, bloqueando a passagem, e não há lá ninguém que a remova, fica impossível ir de um lugar para o outro. Em outro cenário, porém, em que existam várias vias conectando as cidades ou alguém que rapidamente retire as árvores caídas do caminho, você pode confiar nas estradas para, a qualquer dado momento, se deslocar entre as cidades.

Assim, a grande vantagem da alta confiabilidade da 5G aparece em seu emprego para serviços essenciais (chamados mission critical em inglês) em que a existência de um conexão confiável pode ser questão de vida ou morte, como em cirurgias operadas remotamente (CHEN et al, 2006).

Latência

A latência, medida em milissegundos (ms), é o tempo entre o envio de um comando (por exemplo, o clique sobre um botão em uma página da internet) e o retorno do resultado desse comando (a ação daquele botão, que pode ser te levar para outra página).

Se só fazemos um uso corriqueiro de navegação na internet, a latência pode atrasar o carregamento de um site e tirar nossa paciência, mas nada muito grave. Por outro lado, para um drone ou um carro autônomo que decide pra onde ir e do que desviar com base em informações recebidas e enviadas da internet, um atraso pequeno pode ser catastrófico. A tecnologia 5G resolverá esse problema esmagando a latência de 200ms para 1ms! Exatamente – um milésimo de segundo.

Capacidade de rede

Por fim, vale mencionar o aumento prodigioso na capacidade de rede. A capacidade, como o próprio nome indica, é uma medida de “quanto cabe” na rede, isto é, quanta informação pode transitar por ela ao mesmo tempo (lembre-se aqui da analogia com as estradas) em um dado espaço. Da 4G para a 5G podemos esperar um aumento de até 100x no número de dispositivos ligados simultaneamente por unidade-área (por exemplo, por quilômetro quadrado, km2).

Com tanto espaço a mais, não serão mais só os celulares e computadores que ficarão ligados na internet: produtos de todos os tipos estarão conectados entre si e na nuvem, criando aquilo se conhece como Internet das Coisas (ou IoT, do inglês Internet of Things).

No ambiente doméstico, aparecerão as “casas inteligentes” (smarthomes), em que a geladeira, a televisão, o sistema elétrico e até mesmo os sistema de aquecimento/ar-condicionado receberão e enviarão dados pela internet, fazendo ajustes em seu funcionamento em tempo real. As aplicações são tantas também em outros setores, como na agricultura e na indústria que valeriam até um artigo próprio.

Dá para perceber a escala do impacto da 5G, não? Em um estudo recente, a empresa americana de tecnologia Qualcomm, estima que o potencial econômico máximo da 5G será atingido por volta de 2035. Até lá, a quinta geração contribuiria para um aumento da produção global equivalente a 13 trilhões de dólares (ou 65 trilhões de reais à taxa de câmbio ilustrativa de R$ 5,00) e geraria mais de 22 milhões de empregos ao redor do mundo.

A política da 5G: conflito ou competição saudável?

E afinal, onde está a confusão política nessa história da 5G? Para todos os lados! Mas podemos dizer que o problema central é o seguinte: pairam sérias suspeitas, principalmente por parte dos Estados Unidos e alguns países Europeus, sobre a empresa líder de mercado no oferecimento de infraestrutura 5G – a gigante chinesa Huawei – e seu comprometimento com a segurança das comunicações em suas redes.

Especificamente, existe o receio de que os equipamentos da Huawei tenham as chamadas backdoors, isto é, canais clandestinos de comunicação. Em tese, as backdoors poderiam ser utilizadas pelo governo chinês para promover todo tipo de ações escusas, como coletar dados em massa ou realizar ataques cibernéticos a infraestrutura crítica.

Para piorar a situação, esse debate se insere em um contexto de tensas relações sinoamericanas. As duas potências já entraram em confronto em diversas pautas, desde as disputas territoriais pelo Mar do Sul do China, à recente guerra tarifária e, agora na crise da pandemia de COVID-19, com os embates sobre a origem do vírus e a gestão da Organização Mundial da Saúde (OMS) acusada pelo presidente Trump de ser dominada pela China.

Surgiu, assim, uma discussão entre governos ao redor do mundo sobre permitir ou não a compra e uso de equipamento da Huawei em seu território. Aqueles que defendem impedir a Huawei (e outras empresas chinesas, como a ZTE) de entrar nos mercados de seus países argumentam que a segurança nacional deve ter primazia – o Estado não pode pôr em risco informações confidenciais ou mesmo a privacidade de seus cidadãos. Por outro lado, para aqueles favoráveis à ampla competição, a entrada da Huawei nos mercados de comunicação é salutar. Afinal, argumentam, o equipamento da empresa é bom e sua presença na disputa pelo mercado ajudará a derrubar os preços, beneficiando os consumidores.

Os Estados Unidos, sob a liderança do presidente Donald Trump, têm procurado dar apoio a empresas fortes de países aliados como a sueca Ericsson e a finlandesa Nokia. Para se ter um ideia da força dessas empresas, elas detêm, respectivamente, 27% e 22% do mercado de infraestrutura 3G e gerações anteriores, ficando atrás apenas da própria Huawei. Além disso, o governo Trump tem lançado mão de outras “punições” contra a empresa chinesa, como vedar a entrada de seus funcionários nos EUA e proibi-la de utilizar equipamentos projetados usando tecnologia americana.

Alguns países têm dado sinais de preferir a via de Trump, enquanto outros adotam uma postura mais aberta. No primeiro grupo encontramos, por exemplo, o Reino Unido, cujo Secretário de Estado para Assuntos Digitais anunciou, no dia 14 de julho, que empresas de comunicação operando em solo britânico estarão proibidas de comprar o kit 5G da Huawei a partir de 31 de dezembro deste ano, e ainda terão de remover todo o equipamento já instalado até 2027. Seguem nesse mesmo caminho também a Austrália – que já havia banido o equipamento da Huawei lá em 2018 – e o Canadá.

Certos países europeus têm demorado mais a responder e lançam mão de políticas mais brandas. Na França, o governo tem recomendado (mas não obrigado) as companhias de telefonia a não comprarem equipamento da Huawei, enquanto a Alemanha preferiu adiar sua decisão para o final desse ano.

Quer entender mais sobre as disputas políticas em torno da 5G? Assista nosso vídeo sobre o assunto!

A política da 5G no Brasil

Aqui no Brasil, o debate segue as linhas gerais observadas na querela internacional. No momento, ainda estamos, por assim dizer, “em cima do muro” com grupos importantes entrando em choque sobre a melhor política a adotar. Essa decisão é importante, porque sem ela o Brasil terá dificuldades em avançar na instalação de sua rede 5G e, assim, não conseguirá extrair as enormes vantagens econômicas que a 5G tem para oferecer.

Em termos de política pública (ou melhor, regulação, como falamos lá no inicio), a 5G só poderá engatar no Brasil uma vez realizado o famoso “Leilão da 5G”. Neste leilão, o Governo Federal vende autorizações para o uso econômico de certas faixas de frequência (a faixa de frequência é como a “estrada” por onde passa a comunicação sem fio) às operadoras de telefonia móvel. É nessas faixas de frequência que transitarão nossos vídeos, zap zaps e afins. No entanto, se não há decisão sobre aceitar ou não o equipamento da Huawei, as empresas não conseguem saber qual comprar – e aí de pouco adianta fazer o leilão.

Opiniões opostas dentro do governo

Mas bem, para falar apenas do Governo Federal, temos de um lado o grupo que muitos veículos de imprensa se referem como  “ala ideológica” do governo Bolsonaro (termo aliás rechaçado pelo próprio presidente) – da qual o Ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo é um dos principais expoentes – e, do outro, membros do governo com preocupações de ordem econômica, como a Ministra da Agricultura Teresa Cristina e o Ministro da Economia Paulo Guedes.

A “ala ideológica’ tende a se alinhar com a posição de contestação à China adotada pelo presidente Trump e, portanto, contrária à entrada dos produtos da Huawei no Brasil. Jair Bolsonaro, que já seguiu o presidente Trump em outras pautas, como a crítica à Organização Mundial da Saúde na resposta à pandemia de COVID-19 e a defesa aos interesses do Estado de Israel, parece inclinado a fazer o mesmo no caso da 5G. Em uma live no dia 11 de julho, disse o seguinte:

“Nós vamos atender requisitos da soberania nacional, segurança das informações, segurança de dados e política externa, que também entra nessa questão” (Jair Bolsonaro, 11 de Julho de 2020)

Precisamente com a justificativa de interesse nacional, Bolsonaro determinou que o leilão da 5G saísse da alçada da ANATEL e passasse a ser monitorado pelo próprio Palácio do Planalto, diminuindo o teor técnico e realçando o teor político da decisão.

Já aqueles que apoiam a entrada da Huawei no Brasil diriam que o problema com essa postura é que ela traz sérios prejuízos, sobretudo econômicos. Em primeiro lugar, a China é, disparado, o maior parceiro econômico do Brasil, como se pode ver pelo volume de exportações e importações entre os dois países. Despertar animosidades do gigante asiático significa pôr em risco boa parte da economia brasileira, parcialmente dependente da demanda (como o agronegócio e o setor de mineração) ou da oferta chinesa (como o setor industrial) para se sustentar e crescer.

Em segundo lugar, seguindo uma linha de argumentação econômica liberal, a presença da Huawei no mercado brasileiro é benéfica, pois ela amplia a concorrência, e assim contribui para que o preço do equipamento caia e a qualidade dos produtos oferecidos aumente. Nas palavras de Paulo Guedes:

“Na hora que chega o 5G, seria interessante deixar a competição funcionar. Deixar a Ericsson de um lado (…), deixar a Huawei do outro lado. Deixar chinês brigar com americano, brigar com os nórdicos, pra ver quem nos serve melhor.” (Ministro da Economia Paulo Guedes, em entrevista à CNN Brasil, no dia 6 de Julho de 2020)

O resultado da combinação desse vai-e-vem político com algumas dificuldades técnicas que a ANATEL tem experimentado nos testes da 5G, é que o Leilão da 5G, ao que tudo indica, só acontecerá em 2021. E isso não é só um aborrecimento burocrático, mas um sério motivo de preocupação no que diz respeito à competitividade da economia brasileira. A 5G, afinal, não nos trará meras geringonças frívolas, mas uma nova estrutura para a economia mundial.

O pesquisador de Relações Internacionais, Oliver Stuenkel, observa uma demora na resposta do governo federal às necessidades regulatórias impostas pela 5G, e coloca a questão da seguinte maneira:

“Contudo, os atrasos também mais se parecem com um desejo de adiar um decisão difícil que deixará ou os EUA ou a China profundamente desapontados. Tal estratégia põe em risco a competitividade brasileira em uma economia global cada vez mais dependente de novas tecnologias, que vão desde carros autônomos e drones até comunicações e finanças globais. (…) Na realidade, serão poucos, ou nem sequer um, os setores da economia ou governaça que não serão afetados pela tecnologia 5G.” (STUENKEL, 2020)

Com a recente recriação do Ministério das Comunicações (desmembrado do MCTIC), o ministro Fábio Faria (PSD-RN) passou a se engajar no processo da 5G e mostrou-se, até o momento, finamente alinhado com o presidente Bolsonaro.

Em entrevista recente, diz estar em contato e negociação com diferentes fornecedoras de tecnologia 5G, inclusive a Huawei, mas frisa

“No final quem vai decidir é ele [o presidente]”. É possível que, colocando o assunto debaixo de um ministério com menos atribuições, sob o comando de um ministro próximo ao presidente, o processo flua melhor – o que não garante que as controvérsias desaparecerão de imediato.

E você, o que acha sobre o debate da 5G?

Publicado em 05 de outubro de 2020.

redator

Bernardo Menescal

Formado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, hoje trabalha na área de saúde do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Como redator voluntário do Politize!, procura contribuir para um debate público aberto, cordial e bem informado sobre os rumos do nosso país.

REFERÊNCIAS

AHAD, Abdul; TAHIR, Mohammad; YAU, Kok-Lim Alvin: 5G-Based Smart Healthcare Network: Architecture, Taxonomy, Challenges and Future Research Directions

ANATEL, Agência Nacional de Telecomunicações: Qualidade da Telefonia Móvel

BBC NEWS: Huawei: China attacks UK’s ‘groundless’ ban of 5G kit

CHEN, He; ABBAS Rana. CHENG, Peng; SHIRVANIMOGHADDAM, Mahyar , HARDJAWANA, Wibowo; BAO, Wei; LI, Yonghui; e VUCETIC, Branka Vucetic: Ultra-reliable Low Latency Cellular Networks: Use Cases, Challenges and Approaches

DIAS, Pedro Henrique Sales: Redes 5G I: A nova geração de redes celular” em Seção Tutoriais Telefonia Celular

Digital Trends: How Much Data Does Netflix Use?

Equipe TOTVS: 6 aplicações de internet das coisas em sua rotina

Global Agency: Telecom industry’s first 5G core competitive analysis published by GlobalData reveals it is a close race

GUIMARÃES, Dayan Adionel: Introdução às Comunicações Móveis

IGI Global: What is Network Reliability?

KANAVAGH, Sacha: How fast is 5G?

PANCEVSKI, Bojan: U.S. Officials Say Huawei Can Covertly Access Telecom Networks

Qualcomm. “Everything you need to know about 5G”

STUENKEL, Oliver. “Brazilian 5G: The Next Battleground in the U.S.-China Standoff”

Teleco – Inteligência em Comunicações: Cobertura das operadoras e população atendida

TÉRAL, Stéphane: IHS Markit: Huawei Led Global 4G LTE Infrastructure Market which totalled $22.9B in 2018; China CAPEX bottoms out

Thales Group: Introducing 5G technology and networks (definition, use cases and rollout)

The Economist: America’s war on Huawei nears its endgame

U.S. Department of Commerce: Commerce Addresses Huawei’s Efforts to Undermine Entity List, Restricts Products Designed and Produced with U.S. Technologies

Valor Econômico: Leilão de 5G será incluído no PPI e será monitorado pelo Palácio do Planalto

Destaque segue o fio

Estados Unidos e China: a guerra pelo 5g!

Já não ouviu falar no termo “Guerra Fria 2.0”? A Guerra Fria “original” foi a disputa entre Estados Unidos e União Soviética após o fim da Segunda Guerra Mundial. Como sabemos, ela carrega esse nome por não ter ocorrido nenhum tipo de conflito armado entre as potências, por mais que a tensão e disputa bélica fossem constantes.

Agora temos a chamada “Guerra Fria 2.0”, que envolve, novamente, os Estados Unidos, mas, desta vez, com uma nova adversária: a China. As duas maiores economias do globo disputam a narrativa de vários setores, dentre eles, o desenvolvimento de novas tecnologias como, por exemplo, o 5G, que promete grandes mudanças na sociedade como um todo.

No vídeo de hoje vamos falar sobre como essa tecnologia irá revolucionar a nossa sociedade e entender como e por que Estados Unidos e China estão disputando o 5G. Ficou curioso? Então continue assistindo!

Gostou do conteúdo? Toda semana tem vídeo novo no nosso canal do Youtube!

China e Estados Unidos: como o coronavírus afetou a relação entre as potências?

Na imagem, os presidentes da China e dos Estados Unidos apertam as mãos. Conteúdo sobre China e Estados Unidos.

Foto: Shealah Craighead/Fotos Públicas.

Você conhece bem as relações sino-americanas? Sabe como elas foram afetadas pela atual pandemia? Ou, ainda, consegue traçar possíveis previsões acerca da disputa por hegemonia pós-crise de Coronavírus?

A partir desse texto, você conseguirá responder as perguntas acima e um pouco mais. Começaremos abordando o histórico de convivência entre a China e os Estados Unidos; depois, um breve resumo sobre o surto de COVID-19 e as diferentes maneiras que as potências estão lidando com isso. Partiremos, então, para as características atuais do relacionamento sino-americanas e como elas podem afetar o futuro do cenário internacional.

O histórico das relações sino-americanas

Foi no meio do século passado, com a largada da Guerra das Coreias (1950-1953), que o diálogo entre China e Estados Unidos começou a se acirrar. Nesse sentido, Bruce Cumings afirma em seu livro “The Korean War: a history” (Guerra das Coreias: a história) que a Coreia do Norte teria invadido o sul da península coreana, o qual, apoiado por tropas da Organização das Nações Unidas – majoritariamente dos Estados Unidos –, conseguiu fazer as forças norte-coreanas recuarem.

À vista disso, a China, vizinha da Coreia do Norte, exigiu que as fronteiras chinesas não fossem ultrapassadas  sob quaisquer circunstâncias, em função de sua neutralidade a respeito da guerra. No entanto, durante o processo das batalhas, as tropas estadunidenses desacataram imposições do país asiático, utilizando suas fronteiras para chegar ao território coreano. Assim, a China revidou, ocasionando a derrota do 8° Exército dos Estados Unidos.

Em 1953, a partir de negociações multilaterais, foi decretado o Acordo de Armistício Coreano, isto é, aquele que cessava as guerras armadas. No entanto, o clima de hostilidade já havia sido instaurado; assim, os Estados Unidos, movido por um forte ressentimento, enviou as primeiras armas nucleares para a Coreia do Sul, em 1958, rompendo com o cessar-fogo.

Saiba mais em Estados Unidos e Coreia do Norte: entenda a relação!

Mapa. Conteúdo China e Estados Unidos.

Mapa da Coréia dividida com rótulos em inglês. Imagem: Patrick Mannion/Domínio Público.

Entre as décadas de 1950 e 1960, em plena Guerra Fria – período de disputa entre o socialismo soviético e o capitalismo americano pela hegemonia ideológica –, a China, adepta ao socialismo, passou a romper gradativamente seus laços com a União Soviética, devido à desavenças internas. Assim, houve uma abertura e um pretexto para os Estados Unidos se aproximarem da China: a contenção da União Soviética, agora sua inimiga em comum.

No entanto, dois acontecimentos adiaram a possibilidade de aproximação entre Estados. Primeiro, a Guerra do Vietnã (1955-1975), que colocava os dois países em lados opostos da batalha: a China, ao norte socialista, e os Estados Unidos, ao sul capitalista. O segundo acontecimento, por sua vez, foi a Revolução Cultural Chinesa (1966-1976), sob a liderança do Partido Comunista Chinês, a qual estabeleceu, mais uma vez, uma discordância de natureza ideológica, que afastou politicamente os dois países.

Nos anos que seguiram, houveram ações anti-diplomáticas de ambos os lados, dentre as quais estão: os embargos econômicos estadunidenses à China – que haviam iniciado paralelamente aos acirramentos sino-americanos –, os esforços para que o Estado chinês não se filiasse ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e a promoção de propagandas americanas contra o país sino-asiático. A República Popular da China, por sua vez, passou a desenvolver armamento nuclear, em uma estratégia de preparação para possíveis conflitos e de geração de dissuasão.

O diálogo Estados Unidos-Taiwan: qual a relevância para a temática em questão?

Se tratando de compreender as relações sino-americanas, a abordagem quanto ao diálogo com Taiwan é fundamental, posto que as interações estabelecidas com os Estados Unidos são, provavelmente, uma das maiores peças dos conflitos aqui abordados.

Para um entendimento breve e claro, a China é composta por sua parte continental, a República Popular da China (RPC), comandada por Pequim – o lado comunista –, e pela República da China (RC), comandada por Taiwan – o lado capitalista. Essa divisão ocorreu em 1949, devido a uma guerra civil travada entre o Partido Comunista Chinês e o Partido Nacionalista Chinês, na qual os nacionalistas do Kuomintang (KMT) se viram em uma situação de transferência para a ilha de Taiwan. Posteriormente, Pequim apresentou à República da China (RC) propostas para a reunificação chinesa, as quais, contudo, não obtiveram êxito.

Embora tenha havido a separação territorial, o assento chinês na Organização das Nações Unidas continuou sendo concedido à Taiwan até 1971, quando este foi expulso e a China passou a ser representada por Pequim. Diante do ocorrido, a maioria dos países deixou de reconhecer a legitimidade da República da China (RC), inclusive os Estados Unidos.

No entanto, em 1979, o país estadunidense aprovou a “Lei de Relações com Taiwan”, considerada o principal marco jurídico do relacionamento bilateral. Esta permitia a continuidade das relações políticas, comerciais e militares com a República da China (RC), ainda que os Estados Unidos não a reconhecesse diplomaticamente. Assim, tem-se mais um ponto nos conflitos sino-estadunidenses, no qual República Popular da China (RPC) acredita que as ações dos Estados Unidos – sobretudo no que diz respeito à venda de armamentos militares – se tratam de um desrespeito ao reconhecimento político de Pequim e uma intervenção grosseira nos assuntos chineses.

Mapa. Conteúdo China e Estados Unidos.

Imagem: Wikimedia Commons.

Saiba mais em política externa da China: entenda os planos dessa potência.

A relação sino-americana no século XXI

Foto da destruição dos prédios causada pelo ataque terrorista do 11 de setembro. Conteúdo China e Estados Unidos.

Foto: Pixabay.

O tempo passou e o início dos anos 2000 trouxe outra oportunidade de aproximação entre as nações. O famoso atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, reacendeu o debate sobre o terrorismo e trouxe a narrativa da “guerra ao terror”, isto é, a tentativa de contê-lo.

À vista disso, os Estados Unidos, juntamente à República Popular da China (RPC) – uma vez que haviam dois chineses dentre os passageiros mortos naquele incidente –, voltaram seus olhares para o Oriente Médio. Nesse sentido, o governo do país asiático não só deu apoio político-econômico, como também votou a favor da Resolução 1373 do Conselho de Segurança das Nações Unidas – o qual a China passou a integrar em 1971 –, que declarava intervenção militar no Afeganistão.

Saiba mais em atentados do 11 de setembro: o que aconteceu?

Assim, nos anos que seguiram, iniciou-se um grande período de cooperação China-Estados Unidos em relação à diversas temáticas, como: 01) a recuperação do sistema econômico internacional pós-crise financeira de 2008, 02) o combate à degradação do meio ambiente, por meio, por exemplo, do comprometimento com as mudanças climáticas e da ratificação do Acordo de Paris (2015) – o qual visa a redução da emissão de gases do efeito estufa – e 03) a contenção de armas de destruição em massa, especialmente nos acordos com o Irã, assinados em 2015, que estabeleciam a progressiva diminuição da capacidade nuclear do país.

No entanto, o novo discurso de colaboração internacional não dispensa a rivalidade político-ideológica entre as duas superpotências. De outro modo, esta voltou à tona com as consequências da entrada da República Popular da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001. Posto que esse acontecimento teria contribuído para a elevação gradativa da economia chinesa, até torná-la, em 2011, a segunda no ranking mundial – ultrapassando o Japão e ficando atrás, somente, dos Estados Unidos – iniciou-se um grande período de guerra comercial entre as potências, que manifesta-se atualmente nos governos de Donald Trump (2017-hoje) e Xi Jinping (2013-hoje).

Em termos financeiros, a economia do país asiático é fundamentada essencialmente nas suas exportações, dentre as quais, em sua maioria, se destinam aos Estados Unidos. A nação americana, nesse sentido, é profundamente dependente das importações de produtos chineses, devido a baixa atividade de produção de determinados setores da indústria americana – sobretudo de bens manufaturados, produtos agrícolas e combustível – e a alta demanda da população. No entanto, há um imenso conflito de taxações, impostos e tarifas entre os dois países, na tentativa de conter a expansão alheia e se sobressair economicamente.

Saiba mais em EUA e China: entenda a guerra comercial! 

Ademais, do ponto de vista político-financeiro, estão as disputas pelo Mar do Sul da China, região estratégica para o setor econômico. Basicamente, os Estados Unidos acreditam que ele faz parte de águas internacionais e que, por isso, todas as nações têm direito de explorá-lo; por outro lado, a perspectiva chinesa é de que ele é sua propriedade e de que outras nações não possuem direitos sobre o local. Desse modo, a porta-voz do Departamento de Estado americano, Morgan Ortagus, afirmou em comunicado:

“As repetidas ações provocativas da China visando o desenvolvimento de petróleo e gás em outros países ameaçam a segurança energética regional e enfraquecem o livre e aberto mercado de energia do Indo-Pacífico”.

Como as potências estão lidando com a crise do coronavírus e quais são os atritos atuais?

O Relatório “Made in China 2025”, publicado em 2015, pela China, já revelava grandes avanços técnico-científicos chineses, os quais estão sendo traduzidos na prática durante a pandemia. “Rastrear, testar e isolar”, foi a definição utilizada pelo professor Carlos Medeiros, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para exemplificar a reação da potência frente à crise de COVID-19.

Assim, a República Popular da China (RPC) tem revelado grande capacidade de inovação e de utilização de inteligência artificial em massa, voltados para os setores de saúde e do sistema produtivo industrial, a ponto de suprir, não só as demandas nacionais, como internacionais, de dispositivos para a contenção do vírus. Além disso, a potência tem cooperado socialmente em larga escala, em função das ajudas humanitárias, do papel de liderança asiático e mundial e do apoio à Organização Mundial da Saúde.

Por outro lado, a crise de Coronavírus nos Estados Unidos tem acentuado ainda mais a dependência nacional de importações, por meio da compra massiva de materiais chineses, especialmente de máscaras de proteção e de respiradores. Ademais, a tardia reação do país ao vírus, no que tange à detecção e isolamento social, provocaram um rápido crescimento dos infectados e  uma superlotação dos hospitais, posto que estes não estavam preparados para lidar com uma demanda tão grande de pacientes. Assim, Jeremy Youde, especialista global em políticas de saúde e reitor da Escola de Humanidades da Universidade de Minnesota, em Duluth, afirma:

“Demorou muito tempo para as autoridades perceberem que esse era um problema sério.”

Consequentemente, os Estados Unidos se tornaram o epicentro mundial do vírus, em função do ultrapasse de mais de 1 milhão de casos de COVID-19 – número, este, que continua crescendo em larga escala. Enquanto isso, em números oficiais, a China ainda não chegou aos 100 mil infectados e não há previsão para alcançar essa quantidade.

Quer saber mais sobre como os Estados Unidos se tornou o epicentro do coronavírus? Acesse nosso vídeo!

No entanto, posto que países com uma população bem menor que a chinesa tiveram números maiores, é importante mencionar as acusações dos Estados Unidos a Pequim. Estas estariam denunciando uma possível ocultação dos dados reais de infectados e mortos, a fim de vender uma imagem de sucesso no combate sino-asiático à pandemia. A dúvida que fica é se essas acusações têm fundamentos ou se não passa de mais uma disputa política entre as superpotências.

Quais são as previsões para o futuro?

As previsões acerca do impacto econômico já se comparam à crise de 1929 . Nesse sentido, o Fundo Monetário Internacional estima que, neste ano, a economia global irá encolher 3% e a estadunidense 9,1%. De outra forma, a instituição prevê que o PIB  da China crescerá 1,2%, o menor percentual em décadas, mas ainda extremamente vantajoso diante do cenário de recessão econômica global. Ainda, é esperada uma forte recuperação em 2021, tendo a China como líder dessa restauração do sistema financeiro mundial.

Dessa forma, a atuação chinesa diante da pandemia de coronavírus, aliada ao crescimento da sua economia e provável participação do país na recuperação global, aumentam largamente a área de influência da potência e abrem margem para o início de um novo século com maior protagonismo do país asiático.

Contudo, não se pode subestimar a capacidade americana de resiliência e de financiamento na recuperação de crises. A exemplo, embora a crise financeira de 2008 tenha surgido nos Estados Unidos, as consequências foram muito mais sentidas nos demais países do que no território estadunidense, que, por outro lado, teve uma rápida recuperação e instaurou uma progressiva tendência de recentralização e valorização de sua moeda: o dólar.

Finalmente, havendo duas potências extremamente estáveis, eficazes e motivadas, o que se espera é a radicalização das disputas sino-americanas pela hegemonia mundial e, no processo, a intensificação das atividades imperialistas, que poderão sufocar e causar colapsos político-econômicos nos países subdesenvolvidos e vulneráveis socialmente.

Saiba mais sobre o Coronavírus: o hoje e o amanhã.

E aí? Conseguiu entender a relação entre os Estados Unidos e a China e as previsões para o futuro pós-pandemia?

Publicado em 23 de julho de 2020.

Laryssa Moreira

Redatora do Politize! e graduanda em Defesa e Gestão Estratégica Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

REFERÊNCIAS:

Seminários virtuais do Instituto de Relações Internacionais e Defesa – Geopolítica mundial em tempos de crise.

Reflexões sobre o mundo pós-COVID19.

S. Shiow: a inserção internacional da China no pós-Guerra Fria

B. Cumings: the Korean war: a history

BBC: a pouco conhecida história de como os EUA levaram as primeiras armas nucleares à península da Coreia.

Estado de Minas: EUA se dizem preocupados com “interferência” chinesa no Mar do Sul da China

BBC: o que está por trás das imagens da vala comum para mortos do coronavírus em Nova York

UOL: EUA se aproximam de 84 mil mortes; total de casos sobe para 1,38 milhões

UOL – Alexandre Tanzi e Wei Lu: EUA devem liderar retração do PIB global em 2020

Destaque-alta-do-dolar

Alta do dólar: quais as causas e consequências?

Homem segurando notas de dólar. Conteúdo alta do dólar

Nos últimos meses temos escutado muito sobre a alta do dólar perante o real brasileiro. Se você separa um tempo do seu dia para assistir aos jornais ou ler um portal de notícias (ou até pelas redes sociais) com certeza já se deparou com reportagens e especialistas tratando das máximas da moeda norte-americana.  Desde o início de 2020 até o dia em que este texto é escrito, onze de maio, a moeda se valorizou mais de 40%.

Nessa matéria, o Politize! tenta elucidar as principais questões que envolvem o assunto: Por que o real se depreciou tanto? Quais são as causas? As projeções? Existem pontos positivos? Todavia, antes de entrarmos nesses tópicos, o que acha de entender como a moeda americana ganhou todo esse protagonismo no sistema financeiro internacional? Então, vem com a gente.

A alta do dólar

Gráfico alta do dólar.

Desde o início de 2020 até onze de maio, o dólar valorizou mais de 40%. Fonte: Tradingview.

Você já reparou que enquanto a moeda norte-americana detém grande notoriedade, outros numerários como o euro – União Europeia – e a libra – Reino Unido – não são nem noticiados? E aí, você sabe como anda a cotação do euro ou da libra frente ao real? Há uma explicação, voltemos a história.

Até o primeiro quartel do século XX a libra dominava o cenário financeiro global. Não só pioneiros na Revolução Industrial, como seus professores te ensinaram na escola, os ingleses possuíam o sistema financeiro e bancário mais desenvolvido até então, atuando em diversas partes do mundo.

Aqui no Brasil, por exemplo, a independência em relação a Portugal somente foi reconhecida através de vultosas indenizações, totalizando um empréstimo de 3 milhões de libras, e no século seguinte, o governo brasileiro se utilizava muito do financiamento inglês para a política de defesa dos preços do café. Ademais, todos os territórios os quais pertenceram a Inglaterra, que juntos formaram o maior império da história da humanidade, contribuíram para a expansão da zona da libra.

A Primeira Guerra Mundial foi o momento de inflexão da hegemonia inglesa para a ascensão americana. Os Estados Unidos mantiveram-se em neutralidade até 1917, aproveitando as oportunidades comerciais da guerra. Ao entrarem no conflito, concederam empréstimos à França e Inglaterra, ajudando a atrelar as moedas de seu aliados, a um câmbio desvalorizado, ao dólar. O fim da batalha deu fim também aos empréstimos americanos para com seus aliados europeus, incluindo a Inglaterra, a qual já sofria pelas perdas materiais e humanas, teve que lidar com a falta de recursos para sua reconstrução e um endividamento dolarizado.

Apesar dos fatores acima, foi após a Segunda Grande Guerra que o poderio estadunidense se consolidou. Os motivos são inúmeros, mas aqui levantaremos apenas cinco:

  • Em primeiro lugar, o crescente desejo por dólares por parte de Inglaterra e França a fim de negociar com os EUA suprimentos para o conflito, como munições e petróleo.

  • Em segundo lugar, a ação estadunidense de  financiar e controlar diretamente a produção petrolífera no Golfo Pérsico. Os EUA perceberam o enfraquecimento de seu monopólio produtivo e por isso lograram buscar novos territórios para manter sua preponderância no setor. Desta forma, com a pressão americana, o petróleo passou a ser precificado em dólar(ou seja, o preço era dado em dólares), e por isso países que necessitavam importar o “ouro negro” precificaram também sua exportações em dólar. Assim, esses países importadores da commodity obtiam moeda americana para pagar as importações e satisfazer suas necessidades comerciais.

  • Os EUA saíram extremamente fortalecidos da guerra e o desenrolar pós conflito mostra os reflexos disso. A conferência de Bretton Woods estabeleceu o dólar como a moeda internacional, pareada em ouro, enquanto as outras deveriam manter sua conversibilidade em moeda americana, podendo oscilar. O Plano Marshall, que você se lembra das aulas de história, permitiu a reconstrução de economias aliadas e ocasionou o endividamento europeu em dólares.

  • O governo estadunidense abriu seus mercados às exportações de parceiros comerciais estratégicos, o que garantia receita em dólares para estes países, além de estimular o investimento estrangeiro em suas multinacionais, o que claro, precisava ser feito em dólares.

  • Por último, organismos financeiros internacionais criados no pós guerra – como FMI e o BIRD – eram estruturados em moeda norte-americana, uma vez que era exigido dos países participantes aportes de capital.

Estas e outras investidas americanas internacionalizaram o dólar e expandiram sua zona de atuação para o mundo inteiro. Ufa, chega de história, não acha? Agora que você já descobriu como a moeda se tornou celebridade, vale discorrer sobre como os vaivéns do câmbio afetam sua vida, a exemplo da inflação.

Como assim inflação?

O conceito básico de inflação é o aumento generalizado dos preços em um período de tempo, sendo o índice mais comum o IPCA, calculado pelo IBGE. Esse índice mensura a inflação de uma cesta de bens e serviços, no varejo, de consumo das famílias de 1 até 40 salários mínimos.

Entendida essa parte, como uma mudança na cotação pode ter efeito inflacionário? Simples, basta que o produto consumido ou algum componente dele possua elementos importados, nesse caso, a depreciação do real – o dólar custar mais reais –  pode levar ao aumento de preços. Se sua cabeça está pensando no encarecimento de eletrônicos ou eletrodomésticos, como smartphones, computadores, televisores e geladeiras, saiba que você está meio certo. Existem também outros produtos atingidos pela ascensão do dólar, por exemplo o pão, ou sendo mais genérico, o trigo.

Leia mais sobre inflação aqui!

Até o trigo?

Imagem de oferta e demanda de trigo. Conteúdo sobre alta do dólar.

Fonte: ABIMAPI.

Caso alguma vez você tenha ouvido que o “Brasil é o celeiro do mundo”, os dados acima da ABIMAPI podem te surpreender. Tanto por conta da quantidade quanto da qualidade, mais de 50% do suprimento de trigo é importado, e como tal produto é precificado em dólar, o pão nosso de cada dia pode encarecer. Não só o pão como massas em geral e biscoitos também podem pesar mais no seu bolso. Todavia, a relação não é tão direta assim: os preços variam de região para região, o comerciante pode optar por não repassar o ágio(ou só uma parte dele), há uma parcela de trigo estocada adquirida à cotações anteriores, e claro, as forças de oferta e demanda.

Gasolina e derivados do petróleo

Em 2016, Pedro Parente assumiu a presidência da Petrobras e foi dada a ele a missão de tirar a companhia do vermelho após inúmeros casos de corrupção. Nesse cenário, em outubro ele adotou uma nova política de preços, a qual consta no próprio site da Petrobras:

“A nova política terá como base dois fatores: a paridade com o mercado internacional – também conhecido como PPI e que inclui custos como frete de navios, custos internos de transporte e taxas portuárias – mais uma margem que será praticada para remunerar riscos inerentes à operação, como, por exemplo, volatilidade da taxa de câmbio e dos preços sobre estadias em portos e lucro, além de tributos.”

Basicamente, o preço dos combustíveis passou a refletir as oscilações do dólar e o valor do petróleo no mercado internacional, além dos ajustes nos preços serem feitos em espaços de tempo mais curtos. Certa ou não, anos mais tarde essa medida foi o epicentro da revolta dos caminhoneiros em maio de 2018, que você deve se lembrar bem. Pedro Parente pediu demissão, mas sua política continua em vigor.

Gráfico alta do dólar.

Fonte: ANP/G1.

Isso não quer dizer que os combustíveis só tendem a subir. Na verdade, de acordo com o gráfico das informações da ANP – produzido pelo G1 -, tem caído nos últimos meses devido as últimas quedas no preço do barril. Ademais, vale salientar: alterações nos combustíveis afetam toda a cadeia produtiva, já que o transporte brasileiro é preponderantemente rodoviário.

Outros produtos

O Brasil é o maior importador mundial de fertilizantes e apenas em  2019 foram comprados 27 milhões de toneladas. Tal fato nos sinaliza que variações no câmbio podem ter efeitos mais abrangentes na agricultura do que só o preço do trigo. Dados da Scot Consultoria, em São Paulo, já revelam aumento de 3,2%, em média, no preço de fertilizantes nitrogenados entre fevereiro e março deste ano.

Mudando de setor, produtos eletrônicos e eletrodoméstico demandam muitos componentes importados, situação na qual as indústrias por vezes atuam quase como montadoras. Artigos químicos importados também são essenciais para a fabricação de produtos de beleza e higiene. A empresa farmacêutica é extremamente dependente de matéria-prima estrangeira. Mesmo assim, lembre-se que a situação não é exatamente proporcional: variações nos preços dependem também do volume dos estoques, da região, se o comerciante pretende repassar o aumento para o consumidor entre outros aspectos.

Analisadas as consequências do dólar para a inflação, vamos entender por que estamos diante desse cenário de forte valorização da moeda norte-americana.

Subiu. Por quê?

Vejamos abaixo alguns possíveis motivos para a recente alta do dólar.

1)Recorde Nominal X Real

Antes de apresentarmos os motivos para o rali do dólar, vale uma observação. Apesar de ter atingido seu recorde nominal, o câmbio ainda não atingiu seu recorde verdadeiro, ou melhor, real. De maneira resumida, quando nos referimos a valores nominais estamos tratando de valores não ajustados pela inflação. Geralmente, os dados apresentados em programas de televisão e jornais estão em termos nominais.

Se você pensou o contrário para valores reais você já entendeu: neste caso, a inflação entra na conta. Para calcular a taxa real é necessário ter em mãos as inflações acumuladas dos EUA e Brasil, escolher um momento passado e sua cotação naquele momento. Em 10 de outubro de 2002, o dólar chegou a atingir R$3,99 e desde então a moeda americana acumula inflação aproximada de 42%, enquanto o Brasil 179,41%(!).

Para obter o mesmo poder de compra de outubro de 2002, uma regra de três simples resulta que um dólar deveria ser equivalente a mais de R$7,86 hoje. Esse é o recorde real. No entanto, é importante ressaltar: tal valor não é fixo, já que conforme o tempo passa, o cálculo deve ser refeito para novos montantes de inflação acumulada. Sabendo disso, é bem possível que o recorde aumente, basta o Brasil registrar índices inflacionários superiores aos índices dos EUA.

 2) A taxa de juros

Você já deve ter ouvido que a Selic é a taxa básica de juros na economia brasileira, mas essa não é a verdade por inteira. Segundo as palavras de Alexandre Assaf Neto, em seu livro “Mercado Financeiro”, página 58:

O Selic é um sistema informatizado que executa a custódia dos títulos públicos de emissão do Tesouro Nacional e Banco Central, e efetua também o registro, controle e liquidação das operações com esses papéis.”

Tal sistema propiciou maior organização, segurança e liquidez às operações do mercado monetário. Por meio dele, as instituições financeiras podem realizar compras e vendas de títulos todos os dias, originando, para este fim, uma taxa diária chamada de Selic overnight (ou apenas over). Ela é a média ponderada dos juros praticados pelas entidades financeiras cujos ativos estão custodiados no sistema Selic.

Por outro lado, é a taxa Selic meta que servirá de referência e norte para tais transações interfinanceiras. Ela é definida por um comitê atrelado ao Banco Central, o COPOM, em reuniões periódicas. Enquanto a taxa Selic meta em 2016 era de dois dígitos, 14,25%, hoje está em apenas 3%. Uma queda extraordinária, não acha? Os motivos que levaram a esse declínio não fazem parte do escopo dessa discussão, porém você pode pensar que o governo diminui o juros quando está mais preocupado em estimular a economia do que controlar a inflação.

Retomando a explicação anterior, uma consequência clara do tombo dos juros é o menor retorno dos título públicos, comercializados a pessoa física através do conhecido programa Tesouro Direto. Se paga pouco e o cenário é de risco (mais explicações abaixo), você pega seu dinheiro e vai embora. E como isso afeta o câmbio?  Muitos investidores estrangeiros aplicavam seu dinheiro em títulos públicos brasileiros, porque como já foi dito, o juro era alto. Esses investidores precisavam trocar seus dólares por reais para comprarem os títulos, o que inundava o mercado de dólares, a oferta da moeda aumentava – lei de oferta e demanda – e seu preço caía. O “mesmo processo” ocorre quando você compra a fruta que mais gosta dentro ou fora da estação: quanto mais no mercado, mais barata.

O Brasil foi um dos países o qual mais cortou sua taxa de juros esse ano e muito se discute se o país viverá uma nova fase de juros baixos. Não se engane pensando que esse processo é prejudicial. Com as taxas lá em cima, o governo separava uma grande fatia da pizza orçamentária pagando o rendimento aos investidores, dinheiro que poderia ser destinados a outros fins, como saúde. Se quiser, faça uma pesquisa: pense em algum país rico, que você usa de modelo nas discussões de redes sociais, e pesquise sua taxa de juros básica. Majoritariamente encontrará valores mais baixos do que os praticados anos atrás no Brasil.

3) Conjuntura

Um investimento atrativo é aquele que possui boa relação risco-retorno, ou seja, o maior retorno com o menor risco possível. No tópico anterior foi abordado como e quanto o retorno caiu. Neste tópico, trataremos do aumento da insegurança e do risco, analisando a conjuntura atual.

Brasil

O Brasil atravessa um momento extremamente delicado e vários indicadores econômicos provam isso. Começando pelo desemprego: a menor taxa averiguada pelo IBGE desde o início da série histórica, em 2002, foi de 5,8%, no primeiro trimestre de 2012. Nos últimos meses, os números passam de 10%, enquanto a média dos países da OCDE, organização que reúne 35 das principais economias do mundo, foi abaixo de 6% no início de 2020.

Gráfico alta do dólar

Fonte: IBGE

O PIB representa a soma de todos os bens e serviços finais produzidos a preços de mercado dentro do país, geralmente no período de um ano. No Brasil, a média de crescimento do PIB da última década – de 2010 a 2019 –  foi de 1,39%, pior resultado desde 1900. Em 2015 e 2016, o Produto Interno Bruto encolheu 3,55% e 3,28%, respectivamente. A expectativa atualizada de crescimento do PIB para 2020, dada pelo boletim Focus, emitido pelo Banco Central, é de -5,12%.

 

Gráfico alta do Dólar

Fonte: IBGE.

 

Ainda analisando indicadores, iremos agora para a dívida pública. Segundo o site do Tesouro Nacional:

 “A Dívida Pública Federal (DPF) refere-se a todas as dívidas contraídas pelo governo federal para financiamento do seu déficit orçamentário, nele incluído o refinanciamento da própria dívida, e para outras operações com finalidades específicas, definidas em lei”.

Saiba mais: como a dívida pública afeta o seu dia a dia?

Existem dois conceitos de cálculo mais utilizados no Brasil, sendo eles a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) e a Dívida Líquida do Setor Público (DLSP), todos em relação ao PIB . Esse indicador, que é ótimo para avaliar a saúde do governo, tem tido trajetória ascendente desde 2014, em que, segundo o conceito DLSP, saiu de níveis a 30% para mais de 50%. A queda observada no final de 2019 e início de 2020 não se deve a superávits fiscais(ou seja, mais receita do que despesa), mas sim a fatores extraordinários, como a recompra de títulos públicos, leilões de petróleo e venda de reservas internacionais.

Gráfico alta do dólar.

Fonte: IPEADATA.

O resultado do desempenho desses e de outros indicadores se resume em uma palavra: risco. É com esses olhos que investidores do mundo todo tem observado o Brasil. Por fim, para a receita do bolo ainda falta acrescentar as inúmeras crises política internas, desde a operação Lava-Jato, caso e possíveis ameaças de impeachment, delações premiadas, troca-troca de ministros, entre outras turbulências que aumentam a sensação de instabilidade nacional.

Mundo

Nem tudo é culpa do Brasil. A globalização coloca cada Estado refém do desempenho e das expectativas de agentes econômicos espalhados pelo mundo, e claro, isso varia de país para país. Nossa nação é a maior população da América do Sul, é o país mais extenso em terras e possui o maior PIB, sendo o oitavo maior PIB do mundo.

Apesar disso, ainda não somos vistos de maneira singular aos nossos vizinhos sul-americanos, mas sim como um bloco conjugado a eles. Isso quer dizer que a depressão venezuelana, com inflação que já chegou a mais de 1.000.000% ao ano, a Argentina sofrendo estagflação – combinação de estagnação econômica e inflação – a crise e as manifestações em Santiago, no Chile, são um balde de água fria em qualquer perspectiva positiva para o Brasil.

Não podemos deixar de tratar da COVID-19, a qual se tornou oficialmente pandemia pela Organização Mundial da Saúde em onze de março. Segundo dados da OMS, até a primeira quinzena de maio, o número de infectados ultrapassa os 4,5 milhões de pessoas e o de mortes 300 mil. A maioria dos países emitiu recomendações de distanciamento, higiene, por vezes lockdown – quando as recomendações tornam-se mais rígidas, obrigatórias e seu descumprimento sujeito a punição – e a ajuda emergencial para vulneráveis.

Todas essas medidas, as quais visam controlar ao máximo a circulação de pessoas, não conseguiram evitar em sua totalidade o colapso dos sistemas de saúde, a falta de equipamentos de proteção e o número ascendente de mortes. Tudo isso em um cenário de conhecimentos científicos ainda escassos, perigo de uma nova onda de contaminações e uma pancada inevitável em certos setores econômicos após o isolamento.

Os comentários acima são necessários para nos situarmos brevemente no status quo mundial. Há sentimentos generalizados de insegurança e incerteza, agravados no Brasil por crise econômica e política preexistente. Seguindo em frente, vamos fazer uma análise mais técnica, porém necessária para entender os movimentos do dólar.

4) Balança Comercial

A balança comercial é um dos componentes do balanço de pagamentos de um país. Este é registro contábil das transações econômicas entre um país e outras nações do mundo durante um determinado intervalo de tempo. Dentro deste registro de contas, inserido em uma divisão chamada conta corrente, está o balanço comercial, o qual simplificadamente consiste na subtração de dois montantes, exportações menos importações. Se você concluiu o primário sabe que o resultado de uma subtração pode ser positivo, negativo ou zero, o que nesse caso significa superávit, déficit ou equilíbrio, respectivamente.

Agora fica fácil raciocinar: se no superávit as exportações são maiores que as importações, contabiliza-se mais entrada de dólares do que saída, logo a oferta da moeda aumenta e seu valor pode cair. O inverso ocorre quando há déficit na balança comercial: saída de dólares e eventual valorização da moeda norte-americana. No entanto, não pense que só a balança comercial resume o saldo monetário do país, pois outras contas do balanço de pagamentos também são importantes nesse aspecto, como a conta capital e a conta financeira.

O gráfico abaixo, extraído do Valor Econômico, expõe o desempenho modesto da balança comercial nos últimos anos, principalmente a partir de 2018. Se junto a isso somarmos os fatores já levantados sobre a taxa de juros e a conjuntura mundial, teremos como resultado o que vemos hoje, fuga de dólares e queda do investimento estrangeiro.

Gráfico alta do dólar

Fonte: Banco Central/Valor Econômico.

Nem tudo são lágrimas

Há um pensamento pessimista que paira sobre a desvalorização do real. Ele está relacionado a inflação, problemas para algumas empresas, seja por conta de dívidas em dólar ou necessidade de importar componentes e tecnologias, e claro, ao cancelamento das suas viagens de férias. Mesmo diante disso, não se engane, existem pontos positivos nessa história.

No novo horizonte de câmbio, o setor industrial sai favorecido, já que o real desvalorizado torna os produtos brasileiros mais atrativos para a exportação e o dólar valorizado dificulta as importações, estimulando a indústria interna. Além disso, a queda dos juros, abordada anteriormente, facilita a concessão de crédito e o investimento. Para fazer uma observação um pouco mais profunda, vale apresentar um estudo do IPEA(Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada): “A “Década Perdida” das Exportações da Indústria Brasileira: análise de constant market share para o período 2005-2016”.

Esse relatório, com nome auto sugestivo, expõe que o período entre 2005 e 2016 foi marcado pela redução do market share (fatia ou parcela de mercado) da nossa indústria no comércio mundial. Mais especificamente, a participação brasileira na soma das transações internacionais caiu de 0,97% – média de 1978 a 2008 – para 0,57% no período analisado.

A principal culpada desses números decrescentes foi a perda de competitividade da indústria, oriunda do crescente custo unitário do trabalho, da falta de inovações em pesquisa, de política comercial passiva e ineficaz e, não poderia faltar, uma taxa de câmbio valorizada. Em 2017, a quantidade exportada se situou nos mesmos níveis de 2008, e o prejuízo imposto pela redução da competitividade foi da ordem de 25% do faturamento exportador no período.

Gráfico alta do dólar.

Fonte: UN Comtrade, FMI e Funcex/IPEA.

Visto isso, o real depreciado pode proteger a indústria nacional e ajudá-la a voltar aos trilhos, ocasionando uma substituição de importações. Felizmente ou infelizmente, a economia é sempre assim, cheia de prós/contras e dilemas conflitantes – ou no jargão, trade off – que dividem opiniões entre especialistas. Nada é apenas sorriso e nem tudo são lágrimas.

Conclusões

O dólar subiu e a consequência mais imediata para você que não tem uma empresa e/ou não vai viajar é o encarecimento de alguns produtos, como os eletrônicos. Já que a atividade econômica anda muito deprimida, ainda não há demanda suficiente para um aumento generalizado dos preços, então inflação pode ficar para depois.

Não necessariamente a taxa de juros se manterá nos patamares atuais (3%). Na ata da última reunião do COPOM foi manifestada a possibilidade de mais cortes nos juros, porém parece que tal movimento de queda está chegando ao fim. Tudo dependerá dos acontecimentos dos próximos meses. O Focus, o qual já foi citado nesse texto, estima aumento da Selic para os anos seguintes.

O fato da Selic se manter em níveis mais baixos não significa que o real não pode se valorizar. Caso o risco-Brasil alivie, os investidores podem se interessar em investir mais no país, seja diretamente em alguns setores considerados prósperos ou na própria bolsa de valores, elevando a entrada de dólares e valorizando o real. Ou mesmo no curto prazo, uma simples melhora nas expectativas, originada de novos tratamentos para a pandemia ou o anúncio de uma nova política econômica vista como favorável já são o suficiente para causar valorização do real frente ao dólar.

Tentar prever o câmbio (ou chutar com técnica) é sempre uma tarefa duvidosa devido aos vários condicionantes. Então, os especialistas preferem agir ex post, ou seja, esperam o dia se desenrolar e depois contam a história e dão os porquês. Mesmo assim, algumas previsões são feitas, por exemplo, por motivo de planejamento financeiro. A última edição do boletim Focus atualizou a estimativa do câmbio para R$ 5,28 no fim de 2020 e exatos R$ 5,00 para o final de 2021. Para o banco suiço UBS, em sua visão mais pessimista, o dólar pode alcançar os R$ 7,35 em 2021!

Diante disso, o que nos resta agora é esperar os próximos acontecimentos e torcer pelo melhor. Uma vacina, um impeachment ou um atentado terrorista, são várias as possibilidades para os tempos que estão por vir. Quem sabe o que nos aguarda quando ligarmos novamente a TV?  As últimas notícias nos mostram que podemos esperar por tudo  –  inclusive nada.

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Publicado em 24 de junho de 2020.

redatores voluntários

 

Luiz Carlos

Graduando em ciências econômicas pela UFV. Acredito que a economia deve ser disseminada de forma técnica, didática e sem mimimi.

REFERÊNCIAS.

B. J Eichengreen: A globalização do capital: uma história do sistema monetário internacional

A, A. Neto: Mercado Financeiro

M. de P. Abreu: A Ordem do Progresso

C, A. Feijó: Contabilidade Social

Maurício Metri: A ascensão do dólar e a resistência da libra, uma disputa político-diplomática

IFI: RAF – Relatório de Acompanhamento Fiscal (09/04/2018) – Nº 15

Fernando Ribeiro (IPEA): “Década Perdida” das Exportações da Indústria Brasileira: análise de constant market share para o período 2005-2016 – IpeaData: Dívida Pública Total

Banco Central do Brasil: Boletim Focus (15/05/2020) – Banco Central do Brasil: Ata da 230ª Reunião do COPOM – Banco Central: Calculadora do Cidadão

IBGE: o que é inflaçãoSistema de Contas Nacionais TrimestraisO que é PIBPesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínu

ABIMAPI: Estatísticas Trigo – Oferta e Demanda

Petrobras: Fatos e Dados – Adotamos nova política de preços de diesel e gasolina

G1: Petrobras aumenta preço da gasolina nas refinarias em 10%

Scot Consultoria: alta nos preços dos fertilizantes no 1o. trimestre de 2020

Uol Economia: pão francês, remédios, gasolina: saiba como a alta do dólar afeta seu bolso

Folha de São Paulo: para bater recorde real, dólar teria de subir mais 39% e chegar a R$ 7,86

CPI Inflation Calculator: Calculadora de inflação

Valorinveste: por que o dólar está alto?Valorinveste: cenário para dólar no Brasil depende de retomada de agenda de reformas, diz UBS

TradingView: cotação USD/BRL tempo real

Infomoney: Entre 15 países, Brasil é o 2º que mais cortou sua taxa de juros

OECD DATA: Desemprego

OMS: Informações sobre o coronavírus

Reuters: Brasil deve importar menos adubo em 2020 apesar de alta de consumo, diz FCStone

 

 

Destaque Irã e Estados Unidos

Irã e Estados Unidos… a Terceira Guerra Mundial?!


Foto do general Qasem Soleimani em referência as tensas relações entre Estados Unidos e Irã.

General iraniano Qasem Soleimani morto por drone estadunidense no início de 2020.

Nos últimos dias, as notícias internacionais não falaram de outra coisa: o ataque comandado por Donald Trump que matou o principal líder militar iraniano, Qasem Soleimani e a “Terceira Guerra Mundial” que se conjectura decorrer desse fato. Mas… como assim, “Guerra Mundial”?! O que exatamente está acontecendo entre Irã e Estados Unidos? Bora tentar entender melhor esse cenário e desmistificar esse imbróglio todo?

A primeira coisa que precisamos compreender são as relações entre EUA e Irã: você sabia que durante boa parte do século XX, os dois Estados eram próximos aliados? O que fez então com que eles, de repente, se tornassem inimigos tão fervorosos?

O Irã no Oriente Médio

Mapa para localização do Irã

Fonte: Google Maps, 2020.

República Islâmica do Irã é um país que se encontra na porção asiática do Oriente Médio. Como pode-se perceber pelo mapa acima, faz fronteiras com Iraque, Turquia, Azerbaijão, Turcomenistão, Afeganistão e Paquistão, e possui grandes ligações marítimas. Sua posição estratégica no mapa, contudo, não é recente: as raízes do país traçam a grandes impérios que dominaram e exerceram grande influência na região. Em seu auge, o antigo Império Persa alcançou territórios na África, Ásia e Europa.

Hoje, a hegemonia iraniana na região se dá em especial por três elementos:

  1. A Liderança Xiita (o país conta com a maior população xiita da região) e – em debate com a Arábia Saudita – islâmica regional (uma vez que é o único Estado democraticamente islâmico do Oriente Médio, após a Revolução Islâmica popular de 1979 – onde o povo foi às ruas pedir pela oficialização dessa representação político-religiosa, como explicamos neste post);
  2. Sua forte indústria petrolífera, com 13% das reservas mundiais de petróleo, atrás apenas da Venezuela e da Arábia Saudita – segundo dados da OPEP (ainda sem contar as descobertas de novas imensas jazidas em 2019);
  3. Sua aliança não-convencional a grupos e atores contrários ao status quo regional – em outras palavras, atores estatais e não-estatais que desafiam as lideranças do Oriente Médio como elas são hoje, com forte influência da Arábia Saudita, Israel e demais governos apoiados pelo Ocidente.

A Revolução Iraniana de 1979 e as relações do país com os EUA

Agora que já conseguimos criar um panorama do Irã atual, vamos a uma breve história de suas relações com os EUA, que se dividem em 2 partes: antes de 1979 e depois de 1979.

Entre 1925 e 1979, o Irã viveu sob uma monarquia secularizada e ocidentalizada, conhecida como a Dinastia do Xá. Dentre os principais elementos sócio-políticos daquele momento estavam:

  • Uma forte aproximação e alinhamento com o Ocidente (em especial, com os EUA), social, cultural e politicamente – e a consequente perda da milenar identidade persa nacional;
  • E uma modernização secularizada – um Estado sem fortes características religiosas, apesar da identificação islâmica e xiita da maior parte da população;
  • Um período de monarquia e ausência da democracia – chegando ao ápice de um silenciamento da imprensa e intensificação da política secreta (Savak) contra cidadãos que se opusessem ao regime;
  • Aumento nas receitas do petróleo, em especial durante a Revolução Branca: de U$555 milhões em 1964, para $20 bilhões em 1976 – com o apoio do Ocidente, o Irã prosperava economicamente, ainda que o sistema democrático estivesse em grave falência.

Mas, em 1979, a conjuntura do país foi mais uma vez radicalmente transformada: A Revolução Islâmica Iraniana foi uma revolução popular dirigida por uma elite religiosa, que visava independência do ocidente e defesa da identidade nacional. Dentre as principais mudanças, estavam:

  • Retomada das raízes religiosas e ideológicas. Conforme a Constituição da República Islâmica do Irã, de 1979: a característica definitiva desta revolução, a propósito de outras revoltas do Irã durante este século, é sua natureza ideológica e islâmica;
  • Afastamento brusco em relação ao Ocidente, em especial aos EUA. Conforme a Constituição: a política externa da República Islâmica do Irã baseia-se na rejeição de qualquer tipo de dominação, tanto do exercício quanto da submissão a ela; (…) a defesa dos direitos de todos os muçulmanos; desalinhamento em relação aos poderes dominadores; relações pacíficas mútuas com Estados não agressivos. Vale lembrar que aqui, iniciava-se o processo de “vilanização” e “satanização” do Irã por parte de um Ocidente indignado;
  • Completa alteração no sistema político do país, agora com maior abertura democrática – finalmente, a voz do povo (eleitorado) seria ouvida e representada;
  • A oficialização de um Líder Religioso Supremo, tornando o país uma República Teocrática Islâmica.
Esquema para resumo da organização política do Irã

Organograma da Organização Política do Irã atual. Fonte: Elaboração da autora, adaptado do site Iran Political Structure (weebly).

Explicada a guinada brusca que afastou os aliados Irã e Estados Unidos, voltemos a 2020.

O fato: a morte do general

Na imagem, Donald Trump se posicionando para fazer o pronunciamento sobre os ataques ao Irã.

Pronunciamento do presidente estadunidense, Donald Trump, em janeiro de 2020 sobre os ataques. Foto: Kevin Lamarque/Reuters.

Na madrugada do dia 03 de janeiro de 2020, dois carros foram atingidos por um drone estadunidense no aeroporto de Bagdá (Iraque). Dentre os 9 mortos, estava o general iraniano Qasem Soleimani: o principal comandante militar do Irã, segunda figura mais importante do país(na frente do presidente, e atrás apenas do líder supremo Ali Khamenei) e um homem considerado mártir e herói nacional.

Não levou muitas horas para que os Estados Unidos se pronunciassem: o Pentágono logo confirmou que a ordem para matar havia vindo de Donald Trump em discurso no dia seguinte ao ataque.

Eventos que antecederam o acontecimento

Como explicamos acima, as tensões entre EUA e Irã não vem de hoje. E, como você pode conferir neste outro post, o escalonamento mais atual do conflito pode ser traçado especialmente a 2018, quando os EUA se retiraram do Acordo Nuclear internacional com o Irã e lhe impuseram uma série de sanções que derrubou fortemente sua economia – vale ressaltar que esse evento também é circundado por uma série de elementos complexos e multifacetados.

Em 2019, contudo, o Irã se envolveu em uma série de ataques a seus inimigos no Oriente Médio, numa tentativa de retomar sua posição de influência na região. Vale lembrar que os aliados iranianos são, majoritariamente, grupos contrários aos governos atuais (como Hezbollah, Hamas, Houthis, Curdos iraquianos, etc.) e que recebem constante apoio financeiro do país há anos.

Finalmente, chegamos aos principais eventos que antecederam o ataque do dia 03/jan:

  • 27/12/2019: Ataque a uma base estadunidense no Iraque deixa morto um funcionário terceirizado das forças armadas norte-americanas. Os EUA apontaram o Hezbollah como autor.
  • 29/12/2019: Alegando resposta, os EUA proferiram ataques que mataram 24 pessoas em bases de milícias no Iraque e na Síria.
  • 31/12/2019: Milicianos iraquianos da mesma “aliança” invadiram a embaixada estadunidense em Bagdá, durante 24h – não houve mortes.

Desta forma, existem, de fato, 4 atores nesse cenário:

  • EUA, representados em especial pelas tomadas de decisão do presidente Donald Trump;
  • Irã, representados não apenas pelo presidente Hassan Rohani e o aiatolá Ali Khamenei, em sua promessa por vingança, como também pelo seu grupo de aliados regional; 
  • Iraque, não apenas por estar ao lado do governo iraniano, como também pelo fato de os ataques estarem acontecendo majoritariamente em seu solo nacional;
  • Atores estatais e não-estatais que fazem parte da aliança liderada pelo Irã, como o Hezbollah e o Hamas

Contudo, há outros elementos comumente ignorados:

1. Aumento das ações financeiras internacionais da indústria armamentista nos últimos dias:

É um fato que guerras são terríveis: incontáveis mortes de civis e militares, destruição e caos, tudo em nome de justificativas geopolíticas – muitas vezes vindas de governistas que sequer compreendem o quadro completo. Ainda assim, há uma série de indústrias que lucram (e muito!) com esses cenários: em especial, os fabricantes e exportadores de armas – que compõem um dos maiores grupos do mercado financeiro global.

2. Preço do petróleo atingindo seu maior nível desde abril de 2019:

Com esse cenário de conflitos e incertezas geopolíticas, as principais commodities e produtos produzidos e exportados por aqueles países/grupos envolvidos também sofrem. Como Irã e Iraque são responsáveis por cerca de 25% das reservas mundiais de petróleo, enquanto sua atenção está dirigida à contenda, o setor petrolífero perde foco e fica defasado. E se há menos oferta de um produto no mercado internacional (com a mesma quantidade de consumidores), seu preço tende a subir.

3. O desvio inegável de atenção do impeachment de Trump:

Há ainda quem afirme que todo esse contexto não passa de um pretexto de Donald Trump para desviar o foco de seu processo de impeachment – em especial, com a aproximação das próximas eleições presidenciais. O que justificaria esse argumento é o fato curioso de que Trump havia usado como uma de suas principais promessas de campanha a retirada das tropas estadunidenses do Oriente Médio… Convenhamos que travar uma possível guerra com um grande ator na região não é exatamente a melhor forma de se manter suas forças armadas longe, né?

As consequências decorridas até o momento

  • 04/01: Foguetes atingiram três locais no Iraque, incluindo uma base com forças estadunidenses, mas sem causar mortes. Não houve confirmação dos responsáveis pelo ato;
  • 05/01: O governo iraniano anunciou que pretende oficialmente descumprir o acordo nuclear de 2015, enriquecendo mais urânio do que havia sido acordado;
  • 05/01: Parlamento Iraquiano aprova resolução para expulsar tropas estadunidenses de seu território – uma vez que são aliados iranianos e seguem em contexto de guerra com os EUA há quase duas décadas;
  • 07/01: O Irã, conforme prometido após o ataque, retaliou a morte de Soleimani, em um ataque com mísseis a bases americanas no Iraque – que segue sendo palco do conflito –, sem mortos nem feridos.

Até o presente momento, tanto Irã quanto EUA já afirmaram oficialmente que não querem guerra, apenas se defender de ataques inimigos:

Segundo o site de notícias Exame

O ministro iraniano das Relações Exteriores, Mohamad Javad Zarif, declarou que seu país “adotou e concluiu” medidas de represálias “proporcionais” diante do assassinato do general Soleimani, mas destacou que seu país “não busca a guerra” com os Estados Unidos.

E, de acordo com esta reportagem do site Sputnik

O presidente dos EUA, Donald Trump, não quer uma guerra com o Irã e espera uma solução diplomática para o conflito, mas Washington retaliará se os cidadãos dos EUA forem mortos como resultado das ações de Teerã, disse nesta quarta-feira [08/01] um diplomata estadunidense.

Compreende-se, portanto, que após ataques vindos de ambas partes, algumas dezenas de mortes e violações diplomáticas nos mais diversos níveis, o próximo ator a atacar a partir de agora, o fará muito mais por ego do que por “autodefesa”.

A “Terceira Guerra Mundial” e a participação brasileira no conflito

Apesar dos rumores sobre uma “Terceira Guerra Mundial”, é pouquíssimo provável que o conflito venha a compreender mais atores do que aqueles envolvidos até agora. Em verdade, diversos líderes políticos pelo mundo já fizeram apelos para que a solução seja resolvida de forma pacífica.

Até o presente momento, apenas dois países expressaram oficialmente seu apoio ao conflito e aos EUA: Israel – aliado imaculado de Trump no Oriente Médio; e Brasil – com o presidente Jair Bolsonaro tendo inclusive transmitido um vídeo ao filme dele mesmo assistindo ao discurso ao vivo do presidente Trump, em 08/01.

Após nota oficial do Itamaraty (03/01), declarando o apoio brasileiro aos EUA, o governo iraniano – que até o governo Lula havia fortalecido vínculos comerciais e diplomáticos entre os países – exigiu respostas e explicações pela “traição”. O silêncio brasileiro até agora aparenta apenas indicar o desconforto da complexa situação em que nos colocamos.

Bom, e agora?

Em discurso no dia 08/01, o presidente Donald Trump afirmou que “O Irã parece estar recuando e ninguém ficou ferido em ataques” e prometeu novas sanções econômicas durante fala sobre o ataque a duas bases militares americanas no Iraque.

Vale destacar a análise feita pelo prof. Tanguy Baghdadi, na edição de 07/01/20 do podcast Petit Journal, na qual compreende que os estadunidenses parecem agora ter duas alternativas:

A primeira delas seria ignorar o pedido do Parlamento iraquiano e se manter no país a partir de agora como uma potência ocupante, com todas as consequências que isso traz para a sua legitimidade e para a segurança de suas tropas. Essa alternativa levaria necessariamente os EUA a aumentar o seu engajamento militar no Oriente Médio, enviando mais soldados, lidando com mais baixas militares e gastando muito dinheiro com uma guerra que já é absolutamente impopular há alguns anos.

E a segunda alternativa, seria cumprir o sonho dourado de Donald Trump, a promessa de campanha de Donald Trump e aceitar aquilo que pediu o parlamento iraquiano e se retirar do Iraque. Isso significaria, no entanto, entregar o Iraque e, por que não, o Oriente Médio, de ‘bandeja’ para o Irã; o que traria enormes consequências, não apenas para uma estratégia mais global dos EUA, com uma demonstração de fraqueza, e como aceitando uma derrota para um de seus maiores inimigos no mundo (Irã), e trazendo ainda consequências graves para enormes aliados norte-americanos na política mundial, como Israel e Arábia Saudita, que teriam que lidar regionalmente com um Irã ainda mais fortalecido.”

Em relação ao futuro das relações Brasil-EUA e Brasil-Irã, mais uma vez o presidente Bolsonaro vocaliza sua estratégia oposta às décadas de governistas mais diplomáticos que tivemos no Brasil, assim como à nossa bem-estruturada “política de boa vizinhança”: reforçar o Estado brasileiro como forte aliado estadunidense e opor-se àqueles que se opuserem ao governo Trump.

Sugestões de mais material para aprofundamento

Podcasts em português:

Podcasts em inglês:

Conseguiu entender a tensão entre Irã e Estados Unidos que todo mundo está comentando? E qual a sua opinião sobre o posicionamento do Brasil nessa situação? Compartilha com a gente nos comentários. 

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Publicado em 10 de janeiro de 2020.

Helena Miranda Cherem


Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina. Pesquisa e escreve sobre Oriente Médio na busca por ampliar nossas visões de mundo, analisando cenários e contextos tão peculiares e interessantes, mas tão ignorados pelo academicismo ocidental

 

REFERÊNCIAS

AXWORTHY, Michael. Revolutionary Iran: A History of the Islamic Republic. Londres: Oxford University Press, 2016.

CHEREM, Helena. A GUERRA-FRIA DO ORIENTE MÉDIO: Irã e Arábia Saudita na balança de poder regional no Oriente Médio após a Primavera Árabe. 2019. 103 f. TCC (Graduação) – Curso de Relações Internacionais, Departamento de Economia e Relações Internacionais, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2019

SANTO, Murillo; BALDASSO, Tiago. A Revolução Iraniana: Rupturas e Continuidades na Política Externa do Irã. Porto Alegre: Revista Perspectiva: Edição Revoluções, v. 10, n. 18, pp.70-85, mar/2017. Disponível em: . Acesso em: 25 mar/2019.

VISENTINI, Paulo G. O Grande Oriente Médio: da Descolonização à Primavera Árabe. Rio de Janeiro: Ed. Elsevier, 2a tiragem, 2014

Estados Unidos e Coreia do Norte: entenda a relação!

O presidente Donald Trump e o líder norte-coreano Kim-Jon-Un em aperto de mão na zona desmilitarizada entre as Coreias (Imagem: Fotos Públicas)

O presidente Donald Trump e o líder norte-coreano Kim-Jong-Un em aperto de mão na zona desmilitarizada entre as Coreias (Imagem: Fotos Públicas)

Estados Unidos e Coreia do Norte, geograficamente, se encontram a 10.337 km um do outro. Ao longo da história, no entanto, a proximidade desses países tem sido bem maior. Marcada por negociações e conflitos, a relação entre o regime da dinastia Kim e os presidentes estadunidenses já enfrentou vários capítulos e, com o governo de Donald Trump, novos têm sido escritos.

Nesse texto, o Politize! traz para você as principais características do jogo diplomático entre Estados Unidos e Coreia do Norte, explicando seus principais elementos, seus momentos marcantes e o atual cenário. Vem com a gente!

Como essa relação começou?

Para entender o início das relações entre Estados Unidos e Coreia do Norte, precisamos voltar alguns anos no tempo.

O ano é 1950, estamos no momento inicial da Guerra Fria e na península coreana existem dois Estados, divididos pelo famoso paralelo 38º. A parte ao norte é influenciada pela União Soviética (URSS) e a parte ao sul, influenciada pelos Estados Unidos da América.

E como surgiu essa divisão? Ela começou cinco anos antes, época da Conferência de Potsdam, realizada entre os vencedores da Segunda Guerra Mundial. Uma das decisões dessa conferência foi que o Japão – parte derrotada na guerra – perderia parte de seus territórios conquistados. Um desses territórios era a península coreana, onde o Japão estava presente desde 1876, com anexação formal em 1910. O longo período de domínio japonês ainda hoje gera impacto negativo nas relações de ambas as Coreias com o Japão.

Longe de estabilizar a região, no entanto, a divisão norte-sul era um barril de pólvora pronto para explodir, e explodiu. Na tentativa de reunificar a península sob seu controle, em 25 de junho de 1950, a Coreia do Norte marchou em direção ao Sul, chegando a tomar a capital, Seul.

Em resposta a isso, as Nações Unidas, sob influência dos Estados Unidos, desaprovou o ataque e iniciou uma contra ofensiva na península coreana, com a grande maioria das tropas enviadas sendo estadunidense. Estava deflagrado o cenário da Guerra da Coreia, que duraria três anos, até 1953.

Mapa da península coreana. Ao norte, a Coreia do Norte, ao sul a Coreia do Sul. A linha divisória entre elas é o chamado paralelo 38º. Ao norte da Coreia do Norte se encontra a China. (Imagem: Google Maps)

Mapa da península coreana. Ao norte, a Coreia do Norte, ao sul a Coreia do Sul. A linha divisória entre elas é o chamado paralelo 38º. Ao norte da Coreia do Norte se encontra a China. (Imagem: Google Maps)

E quanto a URSS? Bem, apesar do apoio militar dado aos norte-coreanos, a URSS não se envolveu com o mesmo empenho que os norte-americanos. O avanço das tropas da ONU sobre as da Coreia do Norte, contudo, fez o vizinho ao norte da Coreia, a China, se sentir ameaçada.

A China então apoia os norte-coreanos, reequilibrando o conflito. Entre avanços e retrocessos de tropas pelos territórios de um lado e de outro, um equilíbrio se restabeleceu na região do paralelo 38º. Em meio a esse equilíbrio, no dia 27 de julho de 1953 foi assinada uma trégua, o chamado Armistício de Panmunjon.

Essa trégua vigora até os dias de hoje e nunca houve um tratado de paz. Por essa razão podemos dizer que, oficialmente, a Guerra da Coréia nunca terminou.

E como os Estados Unidos se posicionaram depois da Guerra?

Desde o Armistício, os Estados Unidos consideram a Coreia do Sul como a representante oficial da Coreia. Conforme trazido por Filipe Figueiredo, em coluna ao jornal Gazeta do Povo, a relação dos Estados Unidos com a Coreia do Norte tem sido uma política de Estado, que se mantém independente das mudanças de governo que aconteceram desde então.

Sanções econômicas

Os Estados Unidos colocam sanções à Coreia desde 1950, dentro da lógica de seu Trading with the enemy act, de 1917. No século XXI as sanções embasadas nesse documento foram retiradas, sendo substituídas por outras. Sanções estadunidenses foram aprovadas, ao longo do tempo, em diferentes governos. Alguns dos anos em que isso aconteceu foram 1992, 1996, 1997, 1998, 2000, 2001, 2002 e 2006.

Saiba mais: Como funcionam as sanções internacionais?

Exercícios militares

Mas não é só política e economicamente que os Estados Unidos se envolvem na questão. O país também realiza exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul. Conforme trazido por Robert Collins, veterano do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, o primeiro dos exercícios aconteceu 16 meses após o final da Guerra da Coreia, e outros se deram desde então.

Como a Coreia do Norte se enxerga nesse cenário?

Esta tem sido uma das perguntas-chave para entender a situação em diversos momentos da história, e muitas correntes de pensamento se esforçaram para tentar respondê-la. Daniel Wertz (2018), em artigo intitulado The US, North Korea and Nuclear Diplomacy faz um trabalho de mapeamento dessas correntes.

Conforme trazido por ele, os Estados Unidos é o país com o maior papel histórico quando pensamos em Coreia do Norte. Desse modo, acabam também sendo o centro da própria política e do discurso norte-coreano.

Em diversos momentos a Coreia do Norte clamou pelo fim do que classifica como uma “política hostil” por parte dos Estados Unidos. Os principais pontos dessa política, na visão de negociadores norte-coreanos ao longo do tempo foram:

  • As sanções e a não assistência econômica;
  • A crítica ao Estado Norte Coreano, ao regime, suas instituições e práticas;
  • As ameaças militares, sejam em exercícios conjuntos ou ameaças diretas de ataque com armas nucleares (diretas ou implícitas).

Ainda segundo Daniel Wertz, entre as análises existentes sobre o tema, existem três correntes predominantes que tentam explicar a postura do país asiático: Coreia do Norte como um Estado isolado; a Coreia do Norte como um Estado Hiper-Realista e Coreia do Norte como um Estado revisionista. Tais análises procuram entender o porquê de a Coreia do Norte agir como age, por exemplo, com o desenvolvimento de tecnologia nuclear. Falaremos sobre cada uma delas.

Coreia do Norte como um Estado isolado

Esta corrente entende que a principal razão para as ações da Coreia do Norte, como seu recente esforço em aprimorar suas capacidades nucleares e de armamento ou testes de mísseis balísticos está em um senso de insegurança e orgulho nacional forte. Isso se daria por conta de o país estar em um mundo de aliados pouco confiáveis e inimigos fortes que têm como objetivo dissolver o regime da família Kim, como Estados Unidos, Japão e a própria Coreia do Sul.

Nessa visão, o objetivo da Coreia do Norte é o de normalizar sua relação com os Estados Unidos, garantindo sua própria segurança e evitando dependência de outros atores, como a China. Assim, os desenvolvimentos militares feitos pela Coreia do Norte seriam uma constante tentativa de adquirir poder de barganha, para ter algo a oferecer em troca da retirada de sanções ou normalização de relações.

Coreia do Norte como um Estado Hiper-Realista

O realismo é uma corrente das Relações Internacionais que prega que, em um mundo anárquico (sem uma autoridade central que possa punir Estados infratores) a sobrevivência de cada Estado depende apenas de si mesmo e a melhor forma de garantir essa sobrevivência é maximizando seu poder.

Assim, os que enxergam a Coreia do Norte sob esse viés entendem que o principal objetivo do país é aumentar o seu poder militar, inclusive com o domínio nuclear, como fim para garantir sua segurança e não como meio para conseguir qualquer tipo de aliança.

Dessa forma, o arsenal nuclear que a Coreia do Norte tem desenvolvido não teria o objetivo de ser uma ferramenta de barganha, mas um meio de dissuasão. Ao ver casos como o da Líbia, por exemplo, no qual Muammar Gaddafi foi retirado do poder com apoio dos Estados Unidos após desmontar seu programa de desenvolvimento nuclear, a Coreia nunca abriria mão de seu programa nuclear, a não ser que todos os outros também o fizessem.

Coreia do Norte como um Estado revisionista

A terceira corrente enxerga que a Coreia do Norte tem desenvolvido tecnologia nuclear não com um propósito de dissuasão, mas com um propósito coercitivo, buscando ter força suficiente para dissolver a aliança entre Estados Unidos e Coreia do Sul e, consequentemente, conquistar a outra metade da península, ou liderar uma unificação nos seus termos. Isso geraria uma Coreia unificada, forte econômica e militarmente no cenário internacional.

Os defensores dessa corrente enxergam, portanto, que quaisquer tentativas de negociação entre Estados Unidos e Coreia do Norte são pouco produtivas, e o regime norte-coreano estaria apenas manipulando os Estados Unidos, enquanto cresce militarmente até o momento em que consiga uma força que garanta seu domínio.

Agora que temos uma visão mais clara sobre a atuação dos Estados Unidos e a situação da Coreia do Norte, podemos passar para a relação entre os dois.

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Um histórico da relação Estados Unidos e Coreia do Norte

Desde a Guerra da Coreia, a relação entre Estados Unidos e Coreia do Norte teve altos e baixos. Como dissemos, os Estados Unidos são fortemente aliados da Coreia do Sul, não reconhecendo a legitimidade da Coreia do Norte. Contudo, a existência de apoio soviético durante a Guerra Fria e a própria presença no entorno estratégico da China impediram medidas militarmente enérgicas por parte dos Estados Unidos.

Apesar disso, não deixaram de acontecer alguns momentos marcantes durante a Guerra Fria e, na década de 90, com o fim da URSS, a relação adentrou novos capítulos.

Durante a Guerra Fria, podemos apontar dois grandes incidentes diplomáticos envolvendo os dois países, conforme apontado pelo Estadão.

  • Captura de um navio espião: Em 1968, o navio USS Pueblo, da marinha estadunidense foi capturado pela Coreia do Norte enquanto navegava pela costa leste do país. Um marinheiro foi morto e 82 foram mantidos como reféns por 11 meses, só sendo soltos quando os Estados Unidos admitiram publicamente ter invadido o espaço marítimo norte-coreano. O navio, contudo, permaneceu em posse da Coreia do Norte, sendo exposto como uma demonstração de força.
  • O incidente na Zona Desmilitarizada: Em 1976, dois soldados estadunidenses foram mortos por norte-coreanos enquanto estavam em uma missão para aparar uma árvore na Zona Desmilitarizada (a região entre as duas Coreias) que, na versão deles, atrapalhava a visão pelo lado do sul. Os Estados Unidos responderam sobrevoando a região com bombardeiros e a situação só se acalmou com uma demonstração de arrependimento de Kim-Il-Sung, avô de Kim-Jong-Un e então líder máximo da Coreia do Norte.

A década de 1990 como um marco

Com o final da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética, a Coreia se viu em um cenário de perda de um de seus principais aliados, assim como todo o suporte econômico e político proporcionado por ele. Em um cenário assim, a tecnologia nuclear poderia gerar uma garantia a mais de segurança.

O desenvolvimento de pesquisa nuclear na Coreia do Norte já havia começado a bastante tempo, com a tentativa de formação de especialistas na área desde a década de 1950.

Em 1979, a Coreia do Norte iniciou a construção de um reator nuclear experimental, o qual terminou por volta de 1985. Nesse mesmo ano, o país assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP). Apesar disso, a Coreia do Norte não assinou todas as salvaguardas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o que era o próximo passo esperado.

Em um esforço por manter a situação controlada e já sem as pressões soviéticas pelo globo, em 1991 os Estados Unidos anunciaram a retirada de suas armas nucleares da Coreia do Sul. No fim deste mesmo ano, foi assinado um acordo básico entre as duas Coreias, no qual elas se comprometiam a não “testar, produzir, manufaturar, receber, processar, armazenar, implantar ou usar armas nucleares”. Essa foi a chamada Declaração Conjunta de Desnuclearização da Península Coreana.

Neste mesmo ano, em meio às negociações diplomáticas com EUA e Coreia do Sul, a Coreia do Norte permitiu que agentes da AIEA inspecionassem suas instalações nucleares.

Parecia que a península se encaminhava para a estabilidade, não?

Contudo, a Coreia do Norte só concordou que a AIEA inspecionasse alguns locais acordados. Quando a agência percebeu discrepâncias nas atividades nucleares do país entre 1989 e 1991 que poderiam ter sido utilizadas para produzir armas nucleares e requisitou inspeção de outras áreas, em 1993, a Coreia do Norte se recusou e anunciou sua intenção de se retirar do Tratado de Não-Proliferação.

A mediação de Jimmy Carter

Em meio a essa situação, em 1994, o ex-presidente estadunidense Jimmy Carter viajou para a Coreia do Norte para negociações diplomáticas com Kim-Il-Sung. Mesmo com a morte de Kim naquele ano e sua substituição pelo filho Kim-Jong-Il, as negociações resultaram em um acordo: o chamado Agreed Framework. Entre diversos outros pontos, esse acordo previa a total cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica.

Apesar disso, o cumprimento ou não dos termos do acordo não era garantido e nos anos seguintes o clima de desconfiança se manteve em boa parte dos membros das agências de inteligência dos Estados Unidos, que acreditavam que a Coreia do Norte continuava desenvolvendo tecnologia nuclear em segredo.

Até o final da administração Clinton as conversas diplomáticas se mantiveram, assim como os esforços de aproximação entre Coreia do Norte e do Sul.

Saiba mais sobre a Questão Nuclear no mundo!

O governo George W. Bush

No governo Bush, em meio às tensões que se seguiram ao 11 de setembro de 2001, a Coreia do Norte foi colocada por Bush no chamado “eixo do mal” – países os quais os Estados Unidos consideravam uma ameaça – ao lado de Irã e Iraque. Um vazamento de documentos estadunidenses também revelou que a Coreia do Norte era percebida com um possível alvo de armas nucleares estadunidenses em caso de um conflito.

Uma comitiva estadunidense foi enviada à Coreia do Norte em 2002 e, após o encontro, os Estados Unidos declararam que a Coreia do Norte havia violado o Agreed Framework. Em resposta, o país asiático decretou o acordo nulo, anunciou sua retirada oficial do TNP e dali em diante começou a defender abertamente seu direito de produzir forças nucleares de dissuasão.

Conversas em seis partes

A estratégia adotada pelos Estados Unidos a partir dali foi a de envolver mais atores nas negociações, na expectativa de que pressões multilaterais fossem resolver a situação. Assim começaram as chamadas “conversas em seis partes“, envolvendo Estados Unidos, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Japão, China e Rússia.

Em 2005, as partes anunciaram uma nova declaração, a Joint Statement of denuclearization. Apesar disso, as discordâncias se mantiveram e, no ano seguinte, a Coreia do Norte realizou seu primeiro teste nuclear.

A isso se seguiram novas idas e vindas, com novos acordos, retrocessos, tensões de ambos os lados. O final do segundo governo Bush foi marcado pelo segundo teste nuclear na Coreia do Norte, que acabou gerando também o final da negociação em seis partes.

O governo Obama

A estratégia do governo Obama para lidar com a Coreia do Norte foi a chamada “paciência estratégica”, que significava o aumento de pressões econômicas e diplomáticas em resposta às provocações que vinham da Coreia do Norte. Havia uma expectativa de enfraquecimento daquele país com a transição de liderança entre Kim-Jong-Il e Kim-Jong-Un, atual líder norte-coreano, o que não aconteceu.

Após seu segundo teste nuclear, a Coreia do Norte deu mostras de querer retomar conversas diplomáticas e o ex-presidente Bill Clinton visitou o país como mediador. Alguns meses depois, no entanto, o país lançou um torpedo contra um navio sul coreano, matando dezenas de pessoas. A isso se seguiram demonstrações de força de ambos os lados.

A situação se manteve tensa ao longo da administração Obama, com a crescente preocupação com as capacidades nucleares da Coreia do Norte.

No ano de 2014, uma Comissão de Inquérito das Nações Unidas que realizava uma investigação sobre a Coreia do Norte declarou ter detectado violações sistemáticas de direitos humanos no país. Em resposta, a Coreia do Norte condenou a Comissão, classificando-a como parte de uma política hostil estadunidense.

Nesse mesmo ano, a Coreia do Norte demonstrou força cibernética ao fazer um ataque massivo a um filme do Sony Pictures que satirizava Kim-Jon-Un. 2014 marcou também o início de testes de mísseis de curto e médio alcance por parte da Coreia do Norte, que cresceram até o final do governo Obama.

“Fogo e Fúria”: a estratégia de Donald Trump

Chegamos finalmente aos tempos mais recentes dessa relação, sob o governo de Donald Trump. Podemos dividir o período Trump em três: um momento inicial de pressão intensa, seguida por uma aproximação histórica e uma nova estagnação presente.

Antes de entrarmos neles, observemos algumas características do contexto em que Trump se insere:

  • Governo da Coreia do Sul: conforme Filipe Figueiredo traz, o momento do governo de Trump coincide com um governo na Coreia do Sul de Moon Jae-In, que se coloca favorável a um diálogo e cooperação com a Coreia do Norte depois de algumas décadas de governos céticos quanto a postura da dinastia Kim. As negociações entre eles são tão importantes quanto às da Coreia do Norte com os Estados Unidos, e o ano de 2018 foi marcado por encontros.
  • As pressões econômicas: Há muito tempo o governo estadunidense vem colocando sanções na Coreia do Norte, como já te explicamos. Desde 2006, com o primeiro teste nuclear, contudo, elas também têm sido adotadas no âmbito das Nações Unidas. Foram 9 as resoluções aprovadas no Conselho de Segurança entre 2006 e 2018. Em 2017, a China, uma das maiores parcerias econômicas da Coreia do Norte, anunciou que não compraria mais o carvão norte-coreano.
  • Os riscos de um ataque direto: a questão de um ataque militar direto à Coreia do Norte enfrenta, entre outros pontos – como, por exemplo, o interesse chinês em não querer um conflito em seu entorno, que pode desestabilizar a região – um elemento fundamental: os riscos à Coreia do Sul. Conforme Filipe Figueiredo lembra, a declaração do ex-estrategista da casa branca, Steve Bannon, em 2017, sintetiza a questão:

“Enquanto ninguém solucionar a equação que mostra que dez milhões de pessoas em Seul morreriam nos primeiros trinta minutos, não existe solução militar” (Declaração de Steve Bannon, ex-estrategista da casa branca, relatada em texto de Filipe Figueiredo, no jornal Gazeta do Povo).

  • A questão japonesa: não podemos deixar de mencionar também que o Japão, forte aliado dos Estados Unidos, é antagonista da Coreia como um todo e uma Coreia unificada não interessante aos interesses japoneses. Desse modo, o Japão sempre deve ser observado com cautela quando olhamos para a Coreia.

Tendo isso em mente, vamos aos nossos três momentos.

1) Pressões intensas e a “diplomacia da testosterona”

O início do governo Donald Trump foi marcado por declarações fortes, tanto por parte do presidente estadunidense quanto do líder norte-coreano.

Em agosto de 2017, Trump afirmou que responderia às provocações da Coreia do Norte com “fogo e fúria que o mundo nunca viu igual”. No mês seguinte, na Assembleia Geral da ONU, Trump manteve o tom pesado, insistindo que a Coreia do Norte deve aceitar que a desnuclearização é o caminho e que:

Os Estados Unidos têm grande força e paciência, mas se forem forçados a defender a si ou a seus aliados, não teremos outra escolha além de destruir totalmente a Coreia do Norte (Declaração de Donald Trump na ONU)

Do outro lado, o líder norte-coreano declarou que Trump era desequilibrado e pagaria caro pelos insultos. Ao mesmo tempo, o regime de Kim continuou realizando uma série de testes de mísseis balísticos.

O ano seguinte, contudo, foi marcado por um encontro histórico entre os dois líderes.

2) O momento de aproximação

Os presidentes de Estados Unidos e Coreia do Norte se cumprimentando (Imagem: Fotos Públicas)

O presidente Donald Trump e o líder norte-coreano Kim-Jong-Un em aperto de mão na zona desmilitarizada entre as Coreias (Imagem: Fotos Públicas)

Em meio às pressões econômicas, ao quadro histórico de demonstrações de força seguidas por negociações, à disposição ao diálogo e apoio por parte do líder sul-coreano Moon Jae-In e à disponibilidade de Trump em se colocar como responsável direto das negociações, as tensões de 2017 se transformaram em uma aproximação de 2018 em diante. Essa aproximação se materializou em encontros.

Até o momento Trump e Kim-Jong-Un se encontraram três vezes:

  • A reunião em Singapura: o primeiro desses encontros foi em 12 de junho de 2018, em Singapura. Essa foi a primeira vez que um presidente dos Estados Unidos em exercício e um líder norte-coreano se encontraram pessoalmente. Dessa reunião resultou uma declaração na qual a Coreia do Norte devolveria restos mortais de prisioneiros e se comprometeria a trabalhar para a desnuclearização e os Estados Unidos em estabelecer novas relações de paz e prosperidade.
  • A reunião no Vietnã: se por um lado o primeiro encontro entre os dois foi visto como um sucesso, não se pode dizer o mesmo do segundo. Ele aconteceu em 28 de fevereiro de 2019, em Hanói, no Vietnã. Esse encontro terminou sem acordo, e antes do tempo previsto, por conta de divergências a respeito de sanções e do desmantelamento do programa nuclear. Segundo Trump, a Coreia do Norte condiciona a desnuclearização ao fim total das sanções e existem divergências quanto ao processo e regiões dessa desnuclearização. Mesmo sem acordo, contudo, o tom amigável foi mantido entre as partes.
  • A reunião em Panmunjom: em 30 de junho de 2019 ocorreu o terceiro dos encontros entre Trump e Kim. Previsto para ser feito em Panmunjom, na zona desmilitarizada, o encontro foi marcado por uma quebra de protocolo, com Trump adentrando, por alguns momentos, o solo norte-coreano. Foi um encontro de 50 minutos, que conforme trazido pela BBC, foi motivado por um tuíte de Trump, no qual afirmava que visitaria da Coreia do Sul e aproveitaria para “apertar a mão” e dizer olá a Kim.

3) A estagnação recente

Desde o segundo encontro entre os dois representantes, não houve grandes avanços nas conversas entre os dois países.

Um novo capítulo foi escrito em agosto de 2019, quando Trump afirmou ter recebido uma carta de Kim com um “pequeno pedido de desculpas” e o desejo de um novo encontro.

Apesar disso, no entanto, a Coreia do Norte segue fazendo seus testes balísticos, condicionando seu encerramento ao fim dos exercícios militares conjuntos. No dia 16 de agosto, junto com novos testes de mísseis balísticos, Kim fez declarações fortes contra o líder da Coreia do Sul, dificultando um aprofundamento no diálogo entre as Coreias, desejo de Trump.

Desde julho já foram feitos 8 testes balísticos por parte da Coreia do Norte. O mais recente, no momento de escrita deste texto, foi realizado em 10 de setembro de 2019.

Em paralelo a isso, a China tem pressionado por um novo encontro entre Trump e Kim e sinalizado um afrouxamento das pressões econômicas de sua parte. Da parte norte-coreana, esse desejo também é bem claro.

Indagado a respeito disso, Trump sinalizou para a possibilidade:

“Veremos o que acontece. Enquanto isso, temos nossos reféns de volta, estamos conseguindo os restos mortais de nossos grandes heróis de volta e não tivemos um teste nuclear por um longo tempo”

Uma história em movimento

Como você pôde perceber, a questão entre Estados Unidos e Coreia do Norte é extremamente complexa, envolvendo anos de tentativas de negociação e uma série de atores interessados. Ao olhar para isso, é importante tanto entender a posição e os interesses dos Estados Unidos quanto os da Coreia do Norte para que as estratégias adotadas por cada um deles faça sentido.

A tendência é que até o final da administração Trump novos encontros aconteçam. Veremos a partir deles qual o desenrolar dos acontecimentos. A história dessa relação é um movimento de idas e vindas, cujo próximo capítulo pode ser tanto de cooperação quanto de novas tensões.

Conseguiu entender a relação entre Estados Unidos e Coreia do Norte? Conta para nós nos comentários o que você acha dela!

Publicado em 16 de setembro de 2019.

 

Danniel Figueiredo

Assessor de conteúdo no Politize!Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina, apaixonado por política internacional e pelo ideal de tornar a educação política cada vez mais presente no cotidiano brasileiro.

 

 

 

Referências: veja onde encontramos as informações

38North (Sobre os exercícios militares) – SóHistória (Guerra da Coreia) – Gazeta do Povo (Diálogo entre as Coreias é Mérito de Trump?) – Gazeta do Povo (A hora errada e o momento errado para a Coreia do Norte) – LA Times (Singaputa Summit) – NBC NEWS (Coreia do Norte lança dois projéteis após oferta de conversa com USA) – Hipercultura (Relação EUA – Coreia) – The Guardian (Coreia do Norte está disposta a retomar diálogo) – Estadão (10 momentos históricos nas Relações Estados Unidos – Coreia do Norte) – G1 (Relação depende do avanço da desnuclearização) – BBC (Coreia do Norte disposta a retomar diálogo nuclear) – AlJazeera (Pressão Chinesa) – BBC (Encontro Kim e Trump na Coreia) – G1 (Segundo encontro entre Kim e Trump) – Otempo (Declaração de Kim sobre Trump) – The US, North Korea and Nuclear Diplomacy

 

 

 

 

 

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