Zika Vírus: entenda a doença

Desde 2015 o Brasil passa por uma epidemia de três doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypt.: a dengue, a chikungunya e o zika vírus. Confira as principais diferenças entre essas formas de vírus e de que forma elas se relacionam com o quadro social e político brasileiro.

O que é uma epidemia?

A epidemia acontece quando há o surto de uma doença em diversas regiões. Por surto entende-se o aumento repentino do número de casos da doença em uma região específica, como bairros por exemplo. Para ser considerado surto, o aumento de casos deve ser maior do que o número esperado pelas autoridades.

Uma epidemia pode ser municipal, quando diversos bairros apresentam o problema, estadual quando os casos acontecem em várias cidades ou nacional, quando a epidemia ocorre em diversas regiões do país.

Uma epidemia é diferente da pandemia, que é quando a doença se espalha por diversas regiões do planeta, como a pandemia de AIDS, por exemplo. Ela difere também da endemia, isto é, quando a doença ocorre muitas vezes no mesmo local. As doenças endêmicas podem ser sazonais, como a febre amarela, considerada uma doença endêmica da região norte do Brasil.

O que é a Dengue?

A dengue é uma doença geralmente transmitida através da picada do mosquito Aedes, mas já existem registros de transmissão da doença de forma vertical, ou seja, passada da gestante para o bebê.

A infecção por dengue pode ocorrer de forma assintomática ou grave, levando a morte. Os principais sintomas são febre alta, dor de cabeça, dores no corpo e em articulações, fraqueza, dor atrás dos olhos e coceira na pele. A perda de peso, náuseas e vômitos também são sintomas comuns. Na sua forma grave, os sintomas ainda podem ser dor abdominal intensa e sangramento de mucosas.

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O que é a Chikungunya?

Também transmitida pelo mosquito Aedes, a doença foi identificada pela primeira vez no Brasil em 2014. Seus principais sintomas são: febre alta; dores intensas nas articulações dos pés e mãos, além de dedos, tornozelos e pulsos; dor de cabeça; dores nos músculos; e manchas vermelhas na pele. Cerca de 30% dos casos de Chikungunya não apresentam sintoma e a pessoa só pode ser infectada uma vez, ficando imune pelo resto da vida.

O que é o Zika Vírus?

O primeiro caso de Zika Vírus foi identificado em uma floresta de Uganda em 1947, em um macaco que vivia em cativeiro. Posteriormente, casos de seres humanos foram relatados na Nigéria, em 1957, espalhando-se depois para outros países. Durante os anos de 2013 e 2014 o vírus se dispersou rapidamente pela Oceania, Polinésia Francesa, e várias outras localidades.

O principal modo de transmissão do vírus é pela picada do Aedes, e alguns casos recentes indicam que o vírus também pode ser sexualmente transmissível. Os principais sintomas da doença são: febre baixa, dor de cabeça, dores leves nas articulações, manchas vermelhas na pele, coceira e vermelhidão nos olhos. Sintomas menos comuns são inchaço no corpo, dor de garganta, tosse e vômito.

Cerca de 80% das pessoas infectadas pelo vírus Zika não desenvolvem os sintomas. Raramente a doença se manifesta de forma grave, mas quando acontece o quadro clínico pode evoluir para óbito, como identificado em novembro de 2015, pela primeira vez.

O Zika vírus pode provocar também a Síndrome de Guillain-barré, uma reação a agentes infecciosos, como vírus e bactérias, que causa fraqueza e paralisia dos músculos.O principal risco da síndrome é quando ocorre o acometimento dos músculos respiratórios, devido a dificuldade para respirar. Nesse caso, a síndrome pode levar à morte, caso não sejam adotadas as medidas de suporte respiratório.

Como prevenir essas doenças?

Ainda não existem vacinas ou tratamentos específicos para nenhuma das três doenças, e o que pode ser feito são tratamentos para alívio dos sintomas, como uso de medicamentos para controle da febre e da dor. A única forma de prevenir a doença é eliminando o mosquito, através de melhorias nas condições de saneamento e de limpeza, isto porque a falta de saneamento básico, as más condições sociais e a falta de recursos médicos potencializam a disseminação das doenças.

As ações de prevenção ocorrem sobretudo na esfera municipal. Os focos de mosquito devem ser detectados e, quando os moradores não conseguem eliminá-lo, devem acionar a Secretaria Municipal de Saúde. Algumas formas de prevenção podem ser: utilização de telas em janelas e portas, roupas que minimizem a exposição da pele, repelentes e inseticidas, mosquiteiros e, no caso do zika vírus, a prática de sexo seguro.

Como surgiu a epidemia de Zika no Brasil?

Não existe um consenso sobre o surgimento da doença no Brasil. Alguns especialistas acreditam que o vírus tenha se manifestado pela primeira vez durante a Copa das Confederações. Outros defendem que o ponto inicial do surgimento da doença foi o Campeonato Mundial de Canoa Polinésia, realizado em agosto de 2014, no Rio de Janeiro. A competição contou com a participação de diversos atletas da Polinésia Francesa e possivelmente, alguns deles estavam contaminados, já que o vírus havia se manifestado no país pouco tempo antes.

Até abril de 2016 , o mosquito Aedes já havia infectado milhares de pessoas, sendo 91 mil casos de Zika, 802 mil de dengue e 29 mil de chikungunya. A grande maioria dos casos aconteceu no nordeste do país. Segundo o professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e coordenador de Controle de Doenças da Secretaria da Saúde de São Paulo, Marcos Boulos, o Brasil vive a maior epidemia por zika já registrada no mundo.

Para o especialista, uma das razões do grande número de casos é a falha das prefeituras ao não manter um grupo técnico permanente de controle do vírus. A declaração de Boulos é reafirmada pela diretora da Organização Mundial de Saúde (OMS) Margaret Chan. Para ela, a epidemia do vírus da zika é o preço pago pela falha nas políticas públicas de controle do mosquito Aedes.

Além do impacto da doença na saúde da população, a epidemia de Zika causa também um impacto econômico, devido principalmente aos custos diretos com assistência aos pacientes, aos danos à produtividade e ao impacto com a evasão de recursos, como as perdas com o turismo.

Apesar de ainda não terem sido realizados estudos para estimar o impacto econômico do vírus no Brasil, o Banco Mundial estima que a infecção vai custar aproximadamente US$ 3,5 bilhões em 2016 no cenário mundial e US$ 310 milhões no Brasil.

Qual a relação entre Zika Vírus e Microcefalia?

A microcefalia é uma malformação congênita, em que o cérebro não se desenvolve de maneira adequada, prejudicando o desenvolvimento da criança. Neste caso, os bebês nascem com perímetro cefálico (PC) menor que o normal, que habitualmente é igual ou superior a 32 cm. Essa malformação congênita pode ser efeito de uma série de fatores, como substâncias químicas e agentes biológicos (infecciosos), como bactérias, vírus e radiação.

Em abril de 2016, o  Centro de Controle e Prevenção de Doenças Transmissíveis (CDC) dos Estados Unidos confirmou a relação entre o vírus zika e a ocorrência de microcefalia em bebês cujas mães foram infectadas pelo zika durante a gravidez. A relação entre o vírus e a microcefalia já havia sido reconhecida pelo governo brasileiro em novembro de 2015, quando o vírus foi identificado em amostras de sangue e tecidos de um bebê com microcefalia e também no líquido amniótico de duas gestantes.

Apesar de confirmada a relação entre o zika vírus e a microcefalia, isto não significa que toda mulher que for infectada pelo vírus durante a gravidez dará à luz um bebê com microcefalia. Durante a epidemia, muitas mulheres infectadas tiveram bebês saudáveis.

Até julho deste ano, já haviam sido confirmados 1.709 casos de microcefalia no Brasil. Ao todo, foram 8.571 notificações entre outubro de 2015 e julho deste ano. De acordo com o Ministério da Saúde, 3.680 casos foram descartados e 3.182 ainda estão sob investigação. O número de mortes chegou a 102 no mês de julho e os estados com maior número de casos de microcefalia são Pernambuco, Bahia e Paraíba.

O que o Zika Vírus tem a ver com a globalização?

O Zika Vírus vem se espalhando rapidamente pelo planeta,especialmente nas Américas Central e do Sul, que já identificaram casos em 26 países. A doença já foi reportada também nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, como Itália, Espanha e Portugal.

A facilidade com que o vírus se espalha têm alertado autoridades médicas sobre a possibilidade real de uma pandemia do Zika Vírus. Esse indício tem relação direta com o fenômeno da globalização.

O aumento das locomoções intercontinentais, resultado dos avanços em transporte, facilitou trocas comerciais e interações culturais, gerando uma série de benefícios sociais e econômicos. Mas esse intenso fluxo de pessoas permite também que muitas pessoas viajem de um país a outro trazendo em seu corpo doenças infecciosas. Assim, um vírus pode ir de uma parte à outra do mundo em poucas horas, disseminando a doença e, no pior dos cenários, causando uma pandemia mundial.

Para especialistas em saúde, a vigilância sanitária no mundo deve ser aperfeiçoada e os governos precisam investir em saneamento e saúde, tornando assim o mundo menos vulnerável a estes tipos de pandemia.

Publicado em 1 de novembro de 2016.

Isabela Souza

Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e assessora de conteúdo do Politize!.