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O grande impacto das pequenas corrupções

Colar na prova é um exemplo de pequena corrupção comum no dia a dia. Foto: Santeri Viinamäki/Wikimedia Commons.

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Que a corrupção política em nosso país é gigantesca e muito grave não é segredo para ninguém. Mas será que nós, cidadãos, temos alguma coisa a ver com isso? Entenda como nossas atitudes podem sustentar essa prática.

Hoje em dia, não se fala em outra coisa, senão em corrupção. Seja nas revistas, nos telejornais, nas redes sociais e nas breves conversas no elevador, a palavra corrupção atrai a atenção e pode render as mais variadas respostas. Podemos definir o termo como atitudes que visam obter vantagem em negociata onde se favorece uma pessoa e se prejudica outra.

A indignação e a revolta das pessoas são justificáveis, afinal ninguém gosta de se sentir roubado e enganado. Porém, se observarmos a definição de corrupção, não é difícil perceber que essas atitudes são mais comuns em nosso dia-a-dia do que podemos imaginar. Denominadas “pequenas corrupções, elas são mais sutis, simples, e, infelizmente, mais aceitáveis pela maioria. É o famoso “jeitinho brasileiro”. Por que sabemos condenar tão bem a corrupção dos outros, mas não a nossa?

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A lição de (Dis)Honesty

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Que tal baixar esse infográfico em alta resolução?

O documentário (Dis)Honesty trata exatamente sobre esse tema. Apresentado principalmente por Dan Ariely, professor de psicologia e economia comportamental na Duke University, o documentário traz diversas pesquisas realizadas por ele e outros pesquisadores da área, junto com depoimentos de pessoas que praticavam pequenas corrupções.

Uma dessas pesquisas propôs que todos os participantes fizessem uma prova de matemática, bastante simples. Ao final da prova, todos deveriam contar quantas questões acertaram e, assim que contassem, deveriam colocar a prova num triturador presente na sala e dizer para a examinadora quantos acertos obteve. Em troca, os participantes recebiam uma quantia de dinheiro correspondente ao número de acertos. Porém, o que os participantes não sabiam é que o triturador só triturava as laterais da prova, o centro permanecia inteiro – ou seja, o resultado continuava intacto para os pesquisadores.

Mais de 40 mil pessoas participaram dessa prova. 70% delas mentiram, dizendo que acertaram mais exercícios do que realmente conseguiram.

Sem dúvidas, essa porcentagem é impactante, mas a pesquisa traz um resultado que ajudará ainda mais em nossa reflexão. Dentre os milhares de mentirosos, apenas 20 disseram ter acertado todas as questões, o que resultou em 400 dólares roubados. Esses foram chamados de grandes mentirosos. Já a quantidade de participantes que não exageraram tanto na mentira, chamados de pequenos mentirosos, foi de cerca de 28 mil. Ao todo, essas mentirinhas resultaram no roubo de cerca de 50 mil dólares.

O que podemos aprender sobre esse resultado? Se pararmos para pensar nas vezes em que tiramos proveito de alguma situação, seja no troco que veio a mais, na pessoa desatenta que estava na fila, no CD pirata ou naquele sinal de televisão pego de outra pessoa, vamos perceber que em todas essas situações nós inventamos uma desculpa para justificar o erro. Geralmente pensamos que isso não faz muita diferença no cotidiano, pois são práticas comuns, que todo mundo faz. Se tomarmos como base a pesquisa que apresentamos, vemos que as pequenas corrupções são de muito comuns, mas que, ao contrário do que imaginamos, o prejuízo disso pode ser enorme.

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O JEITINHO BRASILEIRO E A CORRUPÇÃO POLÍTICA

Então voltamos para o nosso questionamento inicial: o que temos a ver com a corrupção política? Tendo em vista os resultados dessa pesquisa, não podemos dizer que esse problema não tem nenhuma relação conosco. Em primeiro lugar, nossas atitudes surtem efeitos na sociedade: aqueles que estão em volta podem muito bem repercutir nossas ações. O resultado disso pode ser um enorme ciclo vicioso, cujo resultado pode ser tão expressivo quanto qualquer grande escândalo de corrupção em Brasília.

Em segundo lugar, a corrupção de  maior escala, seja por agentes do poder público ou de grandes empresas, encontra de alguma forma a sua legitimação. Se existe uma cultura que releva atos infracionais menores, a sociedade se torna propícia para a corrupção. É desse ambiente que saem as pessoas que estão e estarão no poder. Portanto, ao reproduzirmos esses comportamentos, estamos difundindo essa forma de agir e dando alicerce a toda uma estrutura, que tanto produz, quanto facilita a ocorrência da corrupção em maior escala. Lógico que estamos tratando de quantias enormes de dinheiro, mas para quem está no alto escalão, o proveito que tiramos de nossas atitudes diárias podem ser, em outras proporções, equivalentes ao proveito que eles tiram.

A Controladoria-Geral da União (CGU, hoje Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle) criou em 2013 a campanha “Pequenas Corrupções – Diga Não” com o propósito de conscientizar a sociedade sobre as diversas práticas que são caracterizadas dentro do conceito.

CONCLUSÃO

Esperamos que o leitor tenha entendido o que queremos explicar a partir dessa reflexão sobre as pequenas corrupções. São práticas muito comuns em nosso dia a dia e que não se limitam às práticas mencionadas na campanha da CGU. Existem inúmeras formas de esse fenômeno se manifestar. Atualmente, com todos os escândalos de corrupção em que estão envolvidos nossos políticos, acabamos colocando toda a culpa dos males do país sobre eles, esquecendo de refletir sobre nossas próprias atitudes. O ponto crucial é que tanto eles, quanto nós devemos nos responsabilizar por nossos atos.

Por outro lado, é importante ressaltar que não queremos com isso dizer que somos todos corruptos. Muito pelo contrário, queremos esclarecer que o “jeitinho brasileiro” tem um grande impacto no cenário econômico e político do nosso país e que nós, através de pequenas mudanças de consciência, podemos trabalhar para termos uma sociedade muito mais honesta e que preza pela transparência.

Referências

Espiral de Valor: documentário (Dis)Honesty

Publicado em 17 de abril de 2017. Última atualização em 18 de abril de 2017.

Gabriel Carvalho Mugnatto

Estudante de Psicologia no Mackenzie e interessado em filosofia, arte e política.