Este conteúdo é uma parceria do Politize! com o Youth Voices Brasil. O Youth Voices Brasil é uma iniciativa independente, composta por jovens líderes de todo o país, e apoiada pela Y2Y Community e escritório do Banco Mundial no Brasil, com o propósito de erradicar a exclusão produtiva da juventude brasileira. As visões apresentadas no texto refletem posições da Youth Voices.

Você pode conferir os demais textos desta trilha nesta página e baixar o Ebook “Juventude Empregada: evidências e práticas“.

Imagem ilustrativa – Pixabay

Quando o assunto é mercado de trabalho, é comum ouvirmos por aí que “não está fácil para ninguém”. De fato, a atual taxa de desemprego e a incerteza sobre o futuro do trabalho são uma preocupação latente para qualquer pessoa. Porém, quando falamos da inclusão produtiva do jovem, o cenário é ainda mais preocupante. A taxa de desocupação entre os jovens hoje é quase o dobro da taxa geral do Brasil, segundo o IPEA.

E embora alguns desafios sejam comuns entre jovens em início de carreira ou em busca de um espaço no mercado de trabalho (incertezas, insegurança e ansiedade), o cenário não é o mesmo para todos os jovens. 

Entre os jovens negros, por exemplo, o número de jovens buscando emprego é quase o dobro de jovens brancos, e 65% dos jovens que não estudam e não concluíram o ensino superior são negros, segundo o IBGE.

Outra pesquisa mostra que 18 milhões de pessoas LGBTQIA+ poderiam se somar à força de trabalho no Brasil, mas ainda acabam sendo marginalizadas por preconceito.

Leia também: LGBTfobia e os desafios da população LGBTQIAP+

Estes são apenas alguns exemplos das particularidades do mercado de trabalho para diferentes grupos. Então o que fazer quando jovens têm suas perspectivas de trabalho limitadas pela falta de escolaridade, por sua origem, etnia, identidade de gênero ou orientação sexual?

O acesso ao trabalho deveria ser um direito básico, mas a desigualdade social e vieses inconscientes impactam, de forma sutil ou explícita, o ingresso e permanência de milhares de jovens no mercado de trabalho. 

Neste post, vamos contar quatro histórias de jovens que ilustram as sutilezas e nuances do acesso e permanência no mercado de trabalho

A vivência de cada jovem é única e singular, mas vale a pena conferir esses relatos. Eles trazem perspectivas sobre maternidade e trabalho, acesso à universidade, presença de jovens negros e população LGBTQIA+ no mercado de trabalho.

Ao final deste artigo, também falaremos da importância de iniciativas coletivas e políticas públicas para ampliar oportunidades de trabalho para a juventude — em todos os seus recortes e diversidade.

Antonia Moreira, publicitária

Quando Antonia fez 18 anos, deixou sua cidade natal, no interior de São Paulo, para cursar a faculdade de publicidade na PUC-Campinas através de uma bolsa do ProUni, depois de ter feito um curso técnico em marketing em uma ETEC.

Como uma jovem negra e trans, ela fez diversas entrevistas de estágio ao longo da graduação, mas quase chegou a desistir de uma oportunidade. “Era frustrante, porque via pessoas brancas e cis da minha turma conseguindo vagas, mesmo sendo pessoas ‘do fundão’, enquanto eu era uma ótima aluna e não conseguia”, conta.

Ela finalmente conseguiu seu primeiro estágio, e relata como a presença de outras pessoas LGBTQIA+ nessa primeira experiência foi fundamental para determinar sua trajetória profissional. 

“A pessoa que me contratou era um homem gay, negro, e que me recebeu muito bem. A gente se reconhecia pela nossa identidade e isso fez toda a diferença, pois ele me motivou e ali já entendi que nunca iria aceitar um trabalho que não me aceite pela plenitude do que eu sou”, relembra.

Hoje, depois de formada, trabalha em uma grande empresa de tecnologia e quer ver cada vez mais travestis, pessoas negras, indígenas e com deficiência no ambiente de trabalho.“Mesmo empresas acolhedoras ainda têm maioria de pessoas brancas e cis. Não quero representar ninguém e ser a única, mas ver mais proporção na inclusão de outras pessoas”, diz. 

(Antonia Moreira. Crédito: Rafa Kennedy)

Caroline Santos, estudante de administração e voluntária de comunidade e projetos do Youth Voices Brasil

Caroline começou a trabalhar com 14 anos na pizzaria da família, tendo sido a primeira entre os seus familiares a ir para a Universidade. Enquanto era estudante de administração na USP, participou de diversas entidades estudantis e não demorou muito para conseguir um estágio. 

Porém, sua vivência como universitária de primeira geração não foi necessariamente acolhedora desde o início. “Estudei muito para estar nessa Universidade, então o meu primeiro ano tinha tudo para ser incrível, mas foi um período de muita solidão e falta de sensação de pertencimento”, conta. 

Diferentemente de outros colegas de classe média alta, Carol não tinha contatos em sua área e não sabia como funcionavam os códigos da universidade. “Fui aprendendo as coisas sozinha, felizmente consegui dar a volta por cima e as coisas foram melhorando”, relembra. 

Ela acredita que a falta de sensação de falta de pertencimento no ambiente universitário, assim como a falta de auxílio financeiro para permanência estudantil, são empecilhos importantes para  que jovens de origem humilde ingressem (e permaneçam) no ensino superior — e assim tenham melhores oportunidades na carreira. 

Caroline Santos.

Juciele Reis, professora e embaixadora do Youth Voices Brasil

Juciele descobriu que estava grávida logo após se matricular no curso de Engenharia de Produção em uma faculdade concorrida em Salvador (BA), como bolsista integral. Porém, a gravidez impactou seus planos e fez com que abandonasse os estudos por dois anos. 

“Esse período me fez estar em contato com diferentes realidades, inclusive de mulheres que nem tinham terminado a escolaridade básica. Me fez olhar com mais amor também para a realidade da minha família: minha avó analfabeta e agricultora, e minha mãe empregada doméstica, que somente concluiu os estudos na modalidade EJA”, relembra. 

Depois de colocar sua carreira em perspectiva, Juciele voltou a estudar, mas desta vez escolheu o curso de pedagogia. Ela conta que conciliar a maternidade com estudos e trabalho exige muita resiliência.

“Por várias vezes já fiz provas com a Sofia no colo. Já tomamos muita chuva na volta para casa e sozinhas, e já perdi oportunidades de trabalho por ter uma filha pequena e não ter quem cuidasse dela nos horários de trabalho”, desabafa. Sua vivência influenciou diretamente seus objetivos profissionais: como professora, Juciele hoje quer ajudar sua comunidade a formar crianças e jovens na educação básica e abrir caminhos para seu acesso ao ensino superior. 

Juciele Reis

João Vitor Moraes, analista de projetos

João se formou pela primeira vez em 2010, mas decidiu voltar à faculdade sete anos depois, já com 25 anos. Mesmo que ainda fosse bastante jovem, sente que já era encarado de forma diferente pelas empresas na hora de concorrer a vagas.

“Ao concorrer em cargos de estágio, por exemplo, me destacava no quesito de experiências de vida, mas ainda tinha que romper a barreira do preconceito por ser um homem negro, gay e mais velho que meus concorrentes”, relembra. 

Ele conquistou uma vaga de estágio em uma multinacional e depois migrou para o concorrido mercado financeiro, mas acredita que, como jovem negro, teve que se provar muito mais do que colegas. “Temos que estar preparados para o mercado como se estivéssemos em um Shark Tank”, diz. 

Hoje ele atua como analista de projetos na consultoria de diversidade Transcendemos. Ele acredita que o desafio para jovens é encontrar empresas que entendam e respeitem sua história. “Durante anos trabalhei em lugares onde não encontrava outros jovens negros e aliados, e isso dificulta o desenvolvimento pessoal e profissional”, conclui.

João Vitor Moraes 

A empregabilidade jovem deve ser um esforço coletivo

As histórias de Antonia, Caroline, Juciele e João deixam claros alguns dos desafios para os jovens brasileiros.

Como vimos pelas histórias de Juciele e Antonia, políticas de financiamento estudantil e escolas técnicas são grandes alavancas para o ingresso de jovens no ensino técnico e superior.

Por outro lado, conforme vimos também nas histórias de Caroline e João, quando se trata de permanência na universidade e no mercado de trabalho, há outras questões práticas e culturais envolvidas. 

Enquanto sociedade, é preciso fomentar políticas e uma mudança cultural para que jovens mais vulneráveis ao desemprego (negros, LGBTQIA+,indígenas, jovens mães, pessoas com deficiência e de classe média baixa) consigam exercer seu potencial no mundo do trabalho. 

Seja através de políticas afirmativas na universidade ou programas de inclusão em empresas, Projetos de Lei para ampliar o acesso a bolsas de estudo, ou programas de capacitação para preparar os jovens para o empreendedorismo e a indústria 4.0, o fato é que é preciso uma mobilização coletiva para ampliar as oportunidades para jovens. 

E o mais importante: iniciativas privadas e públicas devem ser criadas com participação ativa e protagonismo dos jovens.

É preciso ainda conscientizar tomadores de decisão em empresas e ambientes públicos sobre barreiras de acesso do jovem à educação superior e ao mercado de trabalho, levando em conta as nuances e recortes que comentamos. 

Resumindo, se queremos um Brasil com mais oportunidades para jovens e diminuir o número de jovens “sem-sem” (sem trabalho e sem estudo), precisaremos de diálogo e maior articulação entre todos os agentes da sociedade.

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